Os dias se esvaíam, rapidamente deslizando pelo tecido do tempo, surpreendendo com a chegada inesperada de dezembro. Como um mero piscar de olhos, a semana que abrigava o Natal e o Ano Novo se desenrolava, envolta por um manto de neve e envolvida pelo abraço gelado do inverno. Nestas horas difíceis e solitárias, o vento soprava com um uivo ressonante, arrancando suspiros e rasgando a alma daqueles que ousassem enfrentá-lo.
Em momentos de solidão, o crepitar dos galhos e dos cabelos indomáveis se tornava uma sinfonia dos elementos hostis do inverno impiedoso. Era um cenário que emoldurava perfeitamente a estética do frio, suas nuances e metamorfoses, um espetáculo para os que desconheciam tal imensidão gélida. Seja em Hogwarts, Hogsmeade ou nos recantos bruxos, até mesmo nos condados trouxas, a cena era uma pintura de branco intenso, onde os minutos pareciam arrastar-se como os flocos de neve.
O tempo prosseguia em passos vagarosos e negligentes, como se estivesse dançando a uma melodia própria. Era como se uma série de eventos repetidos e desinteressantes estivesse sendo justaposta, um amontoado de dias e semanas que se fundiam em uma continuidade nebulosa.
Enquanto seus olhos percorriam a rua deserta, sem horizonte à vista, Severus se entregava a uma introspecção profunda sobre a monotonia de percorrer os corredores e sobre a busca por alguma distração para quebrar o tédio persistente. Cada aspecto do ambiente parecia sobrecarregá-lo, uma recordação silenciosa da solidão que o aprisionava.
Sua vida havia se reduzido a uma sequência previsível de ações: sair da cama, dirigir-se ao banheiro para um banho, avançar para o Salão Principal para uma refeição, e então prosseguir até a biblioteca. O que antes fora uma rotina transformadora, havia se metamorfoseado em um ritual de sobrevivência durante os recessos regulares. Essa repetição incessante apenas intensificava sua frustração, enquanto a solidão persistia como uma sombra inseparável.
O anseio por aulas envolventes, tarefas desafiadoras e leituras estimulantes o atormentava. Era inegável que a existência no castelo se tornara uma vida pela metade.
Inspirando fundo, sua mente perdida em divagações, ele contemplava a paisagem monocromática diante de si, e começava a vislumbrar narrativas minuciosas para preencher suas tardes, cada enredo representando um labirinto intransponível de tédio. Essas histórias internas ressoavam de forma solitária em sua mente, ecoando como uma canção melancólica.
Foi então que uma ideia, como uma brisa sussurrante, se insinuou em sua mente. Ele decidira que se dedicaria a aprofundar ainda mais seus conhecimentos nas áreas exploradas pelos antigos mestres e filósofos da alquimia. Ele tornaria essa disciplina sua confidente durante esses dias solitários, uma presença que, pelo menos temporariamente, afastaria a sensação de isolamento que o corroía.
A alquimia o chamava com um fascínio intenso, promessas obscuras e apaixonantes guardadas em suas profundezas. Seus dias e noites seriam compartilhados com sábios do passado, como Paracelsus, Galeno, Avicena, Dioscorides e Trithemius, que agora eram seus guias espirituais. Com a possível aprovação de Slughorn, ele se refugiaria no laboratório para testar suas descobertas, encontrando um breve alívio para a solidão que o sufocava.
Seus conhecimentos se expandiriam e se multiplicariam por meio da prática, consolidando a crença de que ele se tornaria um novo Viktor Frankenstein, em busca de homúnculos e sabedoria. Contudo, questionava-se se essa trajetória, após desafiar o tempo, seria coesa com sua humanidade.
Quem sabe ele se tornaria como Drácula, invocando medos e desafiando todas as convenções? Aqueles que duvidavam de sua capacidade de amar enfrentariam as consequências de seus atos com amargura, suas ações e palavras reveladas como impuras e vazias. De qualquer maneira, sua imaginação apontava que esse era o caminho adequado para sua jornada.
Não haveria retorno atrás, pois ele se entregaria à busca de conhecimento profundo, imergindo-se como um filho da Terra e do Céu. Sua sabedoria e inspiração o guiariam, iluminando suas convicções. Seus dias seriam a expressão de suas ambições, um testemunho de sua crença de que todos carregam, em sua essência, a dualidade de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Em síntese, ele concluía que o monstro era apenas um reflexo de si mesmo, uma manifestação da confusão interna, uma busca incessante para preencher a solidão que o consumia.
No meio do caos e da gritaria que ecoavam pelos corredores vazios de Hogwarts, uma sensação avassaladora de desilusão o abraçava, como uma sombra que se projetava cada vez mais escura à medida que o tempo, impiedoso, esfacelava tudo à sua volta. O choque da realidade se aprofundava, a certeza amarga de que nem mesmo as coisas mais preciosas poderiam escapar das garras vorazes do tempo, algo que cortava fundo.
Em um instante de profunda anseio, desejou fervorosamente encontrar um refúgio de paz, um momento de proximidade com Andromeda, uma chance para compartilhar os sentimentos que a punição dela havia despertado em seu âmago. A multidão tumultuosa parecia apenas aumentar a solidão silenciosa que o envolvia, uma solidão que ele lutava para transmitir a outros, uma solidão que não podia ser dividida facilmente.
Conhecia intimamente a face horrenda do indivíduo responsável pelo sofrimento de sua amiga, e a mera contemplação dos horrores que ela havia suportado, nas mãos de tal monstruosidade, era o suficiente para inundá-lo de um misto de repulsa e tristeza. No entanto, a oportunidade de se aproximar dela parecia um feito quase inatingível, um anseio sufocado por circunstâncias implacáveis. A solidão, incômoda e persistente, estava sempre ao seu lado, uma sombra que persistia mesmo quando não havia luz.
A ansiedade que o corroía, irracional e lancinante, em busca de algum tipo de contato - um desejo que parecia uma estrela inalcançável nesses tempos sombrios - foi subitamente aplacada por um golpe do destino. No momento em que ele adentrou o Salão Comunal, seus olhos meio perdidos avistaram uma coruja que o aguardava com um convite para passar alguns dias na mansão dos Lestrange.
Uma janela de oportunidade se abria, especialmente após descobrir que Rodolphus e Lucius haviam se envolvido em uma briga banal envolvendo Xadrez Bruxo. O conflito os havia levado ao Saint Mungus com ferimentos graves e uma série de justificativas a serem oferecidas aos médicos, mas para Severus, o que importava era o fato de que a chance de conversar com Andromeda agora parecia tangível.
E, como esperado, foi exatamente assim que aconteceu.
Quando atravessou os portões e adentrou a mansão, encontrou Andromeda imersa em seus estudos, completamente absorta na tentativa de decifrar um antigo manuscrito rúnico encontrado na biblioteca da casa. A atmosfera estava carregada de potencial, finalmente após tantos desencontros.
- Andie? Com licença... Acabei de chegar e agradeço imensamente pelo convite que me enviou – suas palavras eram cautelosas, como se ele medisse cada sílaba cuidadosamente, enquanto se aproximava dela.
Deixando suas malas perto da entrada da sala, ele parou junto à poltrona, fixando um olhar sério, mas repleto de sinceridade. As palavras não eram necessárias neste momento; o gesto silencioso de Andromeda convidava-o a sentar ao seu lado, comunicando sua prontidão para essa conversa tão esperada.
- Eu posso ter um momento da sua atenção? – ele perguntou, sua voz trazendo um toque de ansiedade mal disfarçada e expectativas profundas, enquanto batalhava para controlar a enxurrada de emoções que se agitavam dentro dele.
Aceitando o convite e ajeitando-se ao seu lado, ele segurou suas mãos com firmeza, transmitindo-lhe segurança e o apoio há tanto tempo guardado em seu coração. O peso do tempo perdido se fazia presente, mas a determinação para enfrentar essa conversa de uma vez por todas o guiava adiante.
- Claro... O que você gostaria de discutir? O Natal está a um dia de distância, e eu imagino que esteja contente por passar as festas aqui. Sei que desejaria estar com a Senhora Prince, mas, infelizmente, ela permanece irredutível... não pude fazer muito mais – ela respondeu, sua voz carregando uma inflexão de tristeza, como uma melodia nostálgica, enquanto fechava o livro e fixava seus olhos nele.
O olhar de Severus se intensificou, um misto de nervosismo e coragem se refletindo em seus olhos. Ele sabia que o assunto que estava prestes a abordar era delicado, mas também era vital para sua própria paz interior.
- Andie, você permitiria que eu me apresente à Nymphadora como irmão dela? – indagou, o suor úmido de suas mãos testemunhando o nervosismo que o dominava. Era um tema sensível, ele tinha plena consciência disso. Andromeda evitava tocar nesse assunto, e ainda assim, ele ansiava por uma resolução que finalmente pusesse fim à agonia que o assombrava.
O silêncio pairou por um momento, denso e repleto de significados não ditos. Andromeda manteve seu olhar fixo nos olhos dele, seus sentimentos e pensamentos agitados, mas suas palavras permaneceram inaudíveis.
Finalmente, ela quebrou o silêncio, revelando a tristeza e a complexidade do assunto:
- Sevie... você recebeu o convite para vir até a minha casa e, posteriormente, temos o casamento do Evan no próximo final de semana. Eu só não os apresentei antes, porque como sabe, meus pais não têm o conhecimento de que o Rods não é o pai dela – sua voz carregava o peso de anos de segredos e angústia, deixando escapar a tristeza que estava profundamente entrelaçada em suas palavras.
Seus olhos desceram, desviando o olhar para suas mãos que seguravam as dela com firmeza, enquanto uma expressão séria e reflexiva cruzava seu rosto. Seus sentimentos, um turbilhão de complexidade, densidade e violência, emergiam à superfície. Abordar aquele assunto era como mergulhar em um emaranhado de imagens confusas e descontínuas, uma sensação de impotência absoluta que ameaçava engolfá-la.
Ela sempre fora percebida como a mais forte da tríade Black, uma imagem que carregava com determinação. Porém, ao ser atingida pela maldição, suas defesas ruíram, deixando-a atônita e ferida. Lágrimas surgiam em seus olhos, ardentes como lava, reavivando a dor aguda das memórias fragmentadas daquele dia de horror.
Em um impulso, como emergindo de águas profundas e sombrias, provenientes de um lado obscuro do oceano, Andromeda retirou suas mãos das de Severus. Ela as repousou sobre o livro, voltando-se à leitura, prevendo que o assunto não se encerraria ali. Entre eles, o silêncio instalado carregava a sombra de emoções não expressas, como um nevoeiro que obscurecia palavras não ditas. A solidão compartilhada por ambos, fruto de suas próprias tragédias e sofrimentos, pairava no ar como um espectro invisível, mas palpável.
Com a respiração ainda pesada, seus olhos permaneceram fixos nos gestos e no rosto dele por um longo tempo. Ela estava certa de que precisava desabafar e expressar o pouco que tanto desejava saber.
- Eu sinto que você talvez suspeite que não há muito a ser relatado sobre aquele dia maldito... – suspirou, cansada e vencida, enxugando as lágrimas que manchavam seu rosto.
Embora amasse sua filha e a visse como um raio de sol, lembrar como ela foi concebida era doloroso e insuportável. Apenas Andromeda poderia compreender quão difícil era encarar o fato de que não passava de uma menina de 15 anos quando percebeu sua gravidez, atormentada pelo medo das reações de seus pais.
Sua magia foi forte o suficiente para se concentrar quase inteiramente em proteger a criança inocente, evitando que ela fosse afetada pela insanidade. Entretanto, não foi capaz de apagar a memória do horror vivenciado.
- Andie... isso não deveria ter acontecido dessa forma – disse Severus, comovido pelas lágrimas espessas que continuavam a rolar pelo rosto dela.
Olhando-a, ele apenas conseguia pensar no quanto a havia considerado inalcançável. Ver sua felicidade ser destruída após ter sido violentada o corroía por dentro. Isso só aumentava o ódio que sentia, mesmo que já tivesse eliminado o monstro que a machucara de maneira tão brutal. Parecia que sua ira não tinha fim.
- Jamais teria me aliado aos Comensais da Morte... nisso, não tenho arrependimentos. Mesmo que minha recusa tenha sido vencida pela Maldição Imperius, não darei o gosto da vitória àquele verme! – um soluço alto e doloroso rasgou o silêncio que envolvia as paredes de pedra.
Seu choro, cheio de sentimento e dor, atraiu a atenção dos quadros, que passaram a observá-la com preocupação. O sofrimento ressoava nos ouvidos e na alma de ambos. Embora os motivos fossem diferentes, uniam-se pelo fato de serem igualmente fortes e causados pela mesma pessoa.
- Minha tortura, Severus, foi transar com o primeiro trouxa que encontrei, para minha completa desonra e para manchar o nome de minha família... aquele desgraçado planejou cuidadosamente para que não fosse qualquer um. Ele escolheu seu pai para que eu me sentisse ainda mais suja e para que sua mãe me odiasse – disse, as mãos no rosto.
Andromeda chorava copiosamente... trêmula, fraca e frágil, ela foi abraçada por Severus. Ele a segurou com firmeza entre os braços, tentando acalmá-la enquanto sua mente voava distante. Seu sentimento principal era ódio profundo por Tobias e, acima de tudo, por Voldemort.
Dois homens vis, degenerados, que a haviam destroçado de maneira inexplicável e intensa. Muito mais do que ela pudesse confessar ou perceber, eles haviam rasgado sua alma e roubado uma parte dela. Era uma vítima, uma criança cujos sonhos foram dilacerados pela brutalidade. Agora, ele percebia que a morte deles tinha sido pouco para vingar tudo o que causaram a Andromeda.
- Não se culpe por nada! O culpado foi aquele canalha... eu o matei, Andromeda, e não me arrependo – afirmou com voz abafada pelos cabelos castanhos dela.
- Você comprometeu sua alma por causa daquele... de seu pai. Você não deveria ter feito isso – disse com voz fraca, abraçando-o com mais força.
- Não, minha alma continua a mesma... eu fiz justiça, Andie! Eu fiz isso por tudo o que aquele monstro fez com minha mãe e com você – declarou com determinação e rancor.
Ambos expressaram sua dor da maneira mais pura e sincera possível naquele momento. Severus estava indignado ao perceber o quanto ela ainda se culpava e se considerava uma aberração por não ter lutado mais. O silêncio preencheu o ambiente com uma sensação de desconforto ampliado.
Minutos transcorreram na opressiva quietude misteriosa e reticente, sufocados por pensamentos desconexos e urgentes, até que essa agonizante tranquilidade fosse quebrada. Andromeda olhou para ele, seus olhos inchados, mas sem lágrimas. Por alguns intermináveis segundos, ela o encarou, como se ponderasse sobre o que iria dizer.
- Sua pequena irmã já está prestes a completar 5 anos - comentou, afastando-se um pouco enquanto continuava a observá-lo.
- E lembra você em algumas coisas... particularmente, no gênio tempestuoso e na forma como é um pequeno diabrete com feições meigas.
- Você sabe que eu estou longe de ser alguém bonito ou meigo – Severus respondeu, arqueando uma sobrancelha, ligeiramente contrariado e desconfiado.
- Eu sei que você sempre foi um menino doce e fofo – abriu um sorriso irônico e afetuoso, enquanto mantinha seus olhos fixos nos dele, sabendo que por trás da fachada fria havia muito mais do que os outros enxergavam.
Retomando sua postura aristocrática e altiva, Andromeda abriu um sorriso contente, em uma mistura de saudade e alegria, envolvida por um emaranhado de lembranças felizes que emergiam diante de seus olhos. Mesmo que o resultado fosse um crime, ela tinha um vínculo extremamente forte com aquele sorriso tão puro e cativante.
Nymphadora era uma chama que lhe conferia vida, impulsionando-a a cada instante. Desde suas risadas até as mudanças de humor refletidas na cor dos olhos e cabelos, era como uma verdadeira princesinha em gestos, ações e, especialmente, na doçura e na inocência.
- Sei que nunca lhe contei isso... - começou, um sorriso terno e nostálgico tocando seus lábios.
- Quando a minha Ninfa de Ouro nasceu, ela possuía os cabelos negros. Curiosamente, um dia depois, eles transformaram-se em um tom rosado. Seus olhos, de um azul profundo que puxa para o violeta, lembram os da Bella. Há ali uma intensidade e um hermetismo profundos que me cativam - o olhar de Andromeda brilhou vivamente ao descrever o rosto do seu bebê perfeito.
Na percepção de Andromeda, aquela criança se assemelhava a uma linda boneca de porcelana, com cílios longos e pele alva. Seu amor por ela era tão grande que a dimensão desses sentimentos era difícil de compreender. Nymphadora era, simplesmente, tudo. Cheia de vivacidade, energia, atrapalhada e travessa, ela trouxe emoção à vida de todos com seus primeiros passos. Era como se pudesse ser a realização dos sonhos dos Black ao longo dos séculos... talvez até por direito.
- Eu estou convicto de que ela é belíssima e forte, assim como você - afirmou Severus com convicção.
Mesmo que, gradualmente, suas memórias fossem sendo modificadas e apagadas devido aos ajustes na linha do tempo, essa permanecia uma das recordações mais sólidas que ele possuía. Nada a faria desaparecer de seus pensamentos. A adorável "Cara de Pato" era uma parte importante de sua mente, entrelaçada em sua vida.
Sem dúvida, Nymphadora era alguém que ele amava e que já havia conquistado seu coração, muitas vezes de forma discreta. Ao contemplá-la na Penseira, ele percebeu que a menininha era mais do que sua meia-irmã. Era muito mais do que isso... uma espécie de filha que o instigava a descobrir o melhor de si mesmo. Isso se devia simplesmente ao fato de ela ser alguém adorável, por quem ele faria tudo para mantê-la sempre segura e feliz.
Severus percebeu que Andromeda estava se afastando ainda mais. Ele pressentiu que seria questionado antes de ter a chance de subir para o andar superior da casa. Já estava ciente de que aquele assunto era um terreno delicado, algo que preferiria evitar por ora.
Embora não admitisse abertamente, o desconforto dele ao tratar de suas relações conturbadas era palpável. Especialmente porque não conseguia delinear completamente a extensão desses vínculos em sua vida, ou as implicações futuras que eles poderiam trazer.
Esses laços afetivos teciam um enredo complexo e intrincado, trazendo consigo dores de cabeça e obstáculos que, em sua perspectiva, culminariam em uma tragédia inevitável. Dúvidas, indecisões e incertezas preenchiam seus pensamentos, abafados apenas pelo eco do batimento acelerado de seu coração. Enquanto os segundos transcorriam, uma tempestade parecia se aproximar no horizonte.
- Minha vez... - disse Andromeda, desafiadora.
- Severus, sei que você está ansioso para subir, mas antes há algo que exijo saber. Me diga qual é a sua real intenção em relação às minhas duas irmãs - ela o fitava com um sorriso malicioso e determinado, consciente da intensidade da situação.
A observá-lo com satisfação, percebendo seu evidente desconforto e inquietação, ela sentia prazer em provocá-lo. Especialmente quando suas palavras carregavam insinuações. Apesar do afeto que nutria por Severus, provocá-lo proporcionava uma satisfação ainda maior. Essa dinâmica de provocação era algo que a divertia profundamente.
- Cissy é minha melhor amiga, algo que você já deve ter notado. Quanto a Bella, nunca tivemos nada. Você sabe como sua irmã age, e é provável que ela tenha espalhado algumas fofocas para provocar ciúmes em Pulguento, com quem está noiva - respondeu ele com impaciência, sua voz contida.
Enquanto encarava a lareira para evitar o olhar penetrante de Andromeda, ele mergulhava em sua mente, buscando desculpas para evitar responder suas perguntas. Ele odiava admitir sua inabilidade de escapar das demandas incômodas que ela impunha, especialmente quando se deixava envolver por sua astúcia ardilosa.
Em resumo, ela era mestra em captar detalhes que até mesmo Severus deixava passar. Isso era particularmente verdade quando se tratava de questões que eram exclusivas de seu coração e mente.
- Entendo... - disse Andromeda, sustentando o olhar com ele.
- Cissy, sua melhor amiga, viajou com você para Roma e outros lugares por 15 dias. Depois, vocês passaram uma madrugada inteira no Spinner's End, e ela chegou em minha casa às 3 da manhã, dolorida e às escondidas. Qual é a explicação para isso?
Ela manteve um olhar interrogativo e acusador enquanto falava.
Enquanto analisava Severus com atenção, ela captava cada nuance de suas expressões e mudanças de semblante e gestos. Estava à beira de descobrir a verdade que dissiparia suas suspeitas acumuladas ao longo de meses. Naquele instante, Andromeda estava determinada a não permitir que o dia passasse sem saciar sua curiosidade, mesmo que precisasse extrair uma confissão dele a qualquer custo.
- Até que ponto você pretende chegar com tanta enrolação? - indagou ela, com impaciência evidente e relutância em prosseguir com o assunto.
Ao questioná-lo com um olhar cheio de significado e emoção, ela estava caminhando sobre terreno perigoso. A erupção do temperamento explosivo de Severus parecia iminente, e o resultado de sua busca estava à beira do abismo, pronto para se perder se qualquer palavra fosse mal escolhida. Ao mesmo tempo, Andromeda estava disposta a arrancar a verdade dele, mesmo que isso significasse confrontá-lo com intensidade. Afinal, Narcissa era delicada demais para ser usada e descartada impiedosamente.
- Você realmente acha necessário afirmar isso? - questionou ele, franzindo o cenho com impaciência e desinteresse em continuar o diálogo.
- Acho - respondeu, com uma leve elevação do queixo, indicando sua certeza. Ela mantinha o olhar fixo nele, sem vacilar em sua postura.
Andromeda estava levando Severus a uma posição desconfortável, e ela tinha consciência disso. A tensão entre eles era quase tangível, uma discussão intensa que beirava hostilidade.
O estopim para uma briga parecia próximo. Qualquer palavra mal colocada, dada a atmosfera carregada do momento, poderia detonar uma explosão. Era uma situação volátil, como uma fagulha próxima a um barril de pólvora.
- Sim... e aconteceu mais de uma vez. Posso garantir que Cissy não foi coagida, e tudo ocorreu conforme as vontades dela. Era isso que você queria saber? Jamais causaria mal a ela - respondeu ele, bufando baixinho.
Severus, de alguma forma, estava cedendo e sentindo um medo velado de ser alvo de alguma maldição desconhecida. Isso era característico das artes das trevas e das magias ocultas que cercavam os Black... Contudo, ele não permitiria que seu receio se manifestasse. Enfrentando Andromeda com uma expressão neutra e um olhar vago, ele voltou a dirigir sua atenção à lareira e ao fogo que crepitava.
- Sempre soube que você tinha um lado sombrio, Severus... o que me perturba ainda mais é que eu gosto muito de você e tenho grande consideração. Só espero que nunca machuque o coração da Cissy. Caso contrário, as consequências podem ser mais graves do que você imagina - ela sorriu, como se não tivesse feito uma ameaça de morte momentos antes.
- Quanto à Bella, suspeito que não houve nada... eu a conheço bem o suficiente para perceber quando ela mente ou tenta tirar proveito. E ela não se apega a questões do coração, como evidencia em seus relacionamentos de idas e vindas com Sirius.
Mesmo em meio à advertência sombria e desafiadora, traços gentis e suaves em seu rosto não mascaravam sua crescente curiosidade e diversão. Especialmente quando a conversa direcionava-se ao relacionamento de sua irmã com o primo. Para Andromeda, aquele vínculo sempre parecera peculiar, não devido à proximidade familiar, mas devido à fluidez com que Bellatrix transitava entre romances, sem demonstrar remorso algum.
- Severus, não estou blefando... se você ferir Cissy, vou destruir sua vida, e você se arrependerá amargamente do dia em que nos conhecemos. Está avisado? - ela afirmou, com um leve toque de intimidação.
Era como se ela estivesse comentando sobre um evento rotineiro, como discutir o clima ou comentar sobre a temperatura do inverno. Enquanto mantinha um olhar firme em Severus, ele assentiu, imerso em suas próprias reflexões. Indiscutivelmente, se tal aviso viesse de qualquer outra pessoa, ele rapidamente se armaria para se proteger. No entanto, ele estava retido por um profundo afeto e uma grande admiração por Andromeda... alguém sempre tão sombria, enigmática e potencialmente perigosa.
Para ele, observar Andromeda era como mergulhar em um oceano de mistérios, suas águas profundas escondendo uma complexidade que ele ansiava decifrar. Longe dos traços físicos que a marcavam como uma mulher extremamente bonita e encantadora, cada detalhe dela o envolvia, despertando uma fascinação que ia além da superfície. Seu olhar, muitas vezes enigmático, desafiava-o a desvendar seus pensamentos mais profundos. Andromeda era forte, generosa, sagaz e carregava consigo um coração tão vasto que parecia ter o poder de resgatar o mundo inteiro com sua compaixão. Essa habilidade, às vezes desconcertante, de iludir até mesmo os mais perspicazes, parecia ecoar seu nome lendário. Como a princesa mítica que emprestava seu nome a uma constelação, ela era uma verdadeira libertadora, quebrando grilhões invisíveis e impondo sua presença como uma força inigualável da natureza.
Nymphadora era sua tradução, uma representação desprovida de medos e restrições, incorporando uma pureza que a diferenciava, mantendo intacta sua integridade e retidão. Era como se, ao crescer, ela alcançasse a pureza que sempre foi negada à mãe.
Após a conversa, Severus escolheu permanecer assentado no sofá por mais alguns minutos, um olhar contemplativo fixo em lugar nenhum. Enquanto Andromeda mergulhava novamente em sua leitura, seu interior era um turbilhão de pensamentos e emoções. Era imperativo refletir sobre tudo o que havia sido exposto, particularmente as ênfases que ela havia dado, especialmente em relação a Narcissa. Ele se comprometeria a não deixar que sua jornada causasse qualquer ferida àquele coração gentil; ele tinha claro que Narcissa não merecia nenhum vestígio de crueldade ou indiferença.
Narcissa era como uma flor imaculada em seu jardim perfeito, um tesouro que permanecia imune a qualquer ameaça, inclusive as de seus próprios anseios. Nesses momentos de introspecção, Severus via a si mesmo como uma maré empurrada por correntes invisíveis, suas ações frequentemente direcionadas por impulsos complexos e contraditórios. Quando se tratava de Narcissa, esses impulsos resultavam frequentemente em remorso profundo e entranhado.
Entregando-se a um momento de reflexão profunda, uma sensação incomum o envolveu. Um sentimento que, embora indefinível e peculiar, estava emergindo em seu interior. Não era algo que ele pudesse rotular com exatidão, pois se diferenciava das imagens pré-concebidas que tinha sobre o amor duradouro. Era um turbilhão emocional complexo e comovente, que lhe exigia uma entrega total e sincera a essas emoções intricadas.
No entanto, as incertezas que o atormentavam não se restringiam aos seus temores mais profundos... A promessa que ele havia feito a si mesmo, sua devoção a Hermione, estava entrelaçada em sua essência de forma indissolúvel. Sentia-se encurralado em um dilema agonizante, sem ver uma saída clara. Ao passar as mãos pelos cabelos, sua mente fervilhava, um tumulto de pensamentos e sentimentos colidindo como ondas implacáveis. Desejava intensamente que tudo isso fosse um engano, uma ilusão do tempo e da emoção. Mas, como poderia ter certeza?
Com pensamentos complexos e contraditórios guiando suas ações, ele decidiu subir as escadas em silêncio, determinado a se aproximar da pessoa que mais ansiava ver no mundo. Com o coração palpitando no peito, avançou rapidamente pelo corredor até alcançar a porta entreaberta e observar a menina brincando despreocupadamente no ambiente.
Como se a magia de sangue, uma tradição profundamente enraizada na linhagem dos Black através dos tempos, estivesse exercendo sua influência dominante naquele momento, os dois se reconheceram instantaneamente. Era uma sensação reconfortante e calorosa ter aquela criança como parte integrante de sua vida. A presença dela trazia um aroma e uma atmosfera que acalmavam até as partes mais obscuras de sua alma.
Contemplar o sorriso radiante que iluminava até as profundezas mais escuras de sua própria existência era uma dádiva. Observar a confiança que a menina depositava em sua presença, mesmo sem conhecê-lo profundamente, preenchia-o de alegria. Ela oferecia um espaço desde o início, permitindo que ele a conhecesse e fazendo-o sentir-se valorizado, algo raro em seu mundo tumultuado.
Absorvendo a cena por um momento, Severus experimentou um nó de ansiedade se formar em sua garganta. Ele sabia que aquele era o momento, o instante em que a verdade deveria ser revelada. Inspirando profundamente, deu passos hesitantes em direção a Nymphadora. Enquanto ele se aproximava, ela interrompeu suas brincadeiras e ergueu seus olhos curiosos, indicando que já havia notado sua presença.
- Oi, Nymphadora - ele começou, sua voz carregando uma certa incerteza, dada a importância da ocasião.
- Eu sou o Severus.
A menina o observou com curiosidade inocente, misturada a um leve toque de apreensão em seu olhar. Naquele momento, ele percebeu a profundidade expressiva de seus olhos, o que o fez sorrir involuntariamente.
- Eu gostaria de compartilhar algo com você... um segredo que talvez você ache surpreendente.
Nymphadora olhou para ele com uma mistura de curiosidade e um brilho de expectativa em seus olhos. Ela parou de brincar, levantando-se do chão com seu olhar fixado nele.
- O que é? - sua voz trazia um toque de curiosidade infantil, mas também uma disposição aberta e genuína para ouvir o que ele tinha a dizer.
- Eu conto, mas antes me diga, você aceita ser minha melhor amiga e deixa que eu a chame de Cara de Pato? - ele indagou, seus olhos mostrando um misto de seriedade e uma pitada de brincadeira.
Um sorriso tímido brotou nos lábios de Nymphadora, antes que ela respondesse com entusiasmo:
- Tá bom, papai me chama de Dora.
- Sua mãe e suas tias me chamam de Sevie.
Após esse momento de cumplicidade, ele continuou:
- E o que está fazendo aqui? - ele indagou, interessado em entender o que a cativava naquele momento.
- Estou criando uma cidade nova com minhas bonecas - Nymphadora respondeu, com os lábios curvados em um sorriso radiante que refletia a pureza de sua alegria.
- Bruxinha inteligente.
- Quer brincar?
- Claro, eu adoraria brincar - ele respondeu, sua voz suavizando ainda mais enquanto se abaixava, para ficar mais à sua altura se sentando no chão para se juntar a ela na brincadeira.
Após esse momento de diversão compartilhada, aos poucos, ele começou a revelar a verdade para ela, escolhendo suas palavras com cuidado para não a assustar. Os dias pareciam ter encontrado um novo ritmo: caminhando com ela no colo, explorando todos os cantos, e dedicando atenção total ao diálogo entusiasmado de alguém que estava na transição de bebê para criança. Estar próximo dela era um vislumbre de esperança no meio do caos. Aquela criança, como um pequeno raio de sol, era capaz de iluminar os cantos mais sombrios de sua vida, fazendo-o acreditar em possibilidades que nunca havia considerado.
Inevitavelmente, aquela criança se tornava o raio de luz que inflamava suas expectativas, induzindo-o a crer que um futuro mais promissor estava ao alcance. Quem sabe essa fosse a realidade pela qual ele tanto ansiava e buscava incansavelmente.
