Uma semana após o esplêndido casamento de Evan e Elizabeth, a vida parecia dançar ao ritmo tranquilo que apenas os dias felizes poderiam proporcionar. O tempo fluía em compasso lento, como se o próprio relógio, relutante, resistisse a avançar. No entanto, sob o véu carregado de nuvens cinzentas, emergia uma sombria realidade, contrastando com as emoções aparentes dos dias. Era como se divindades invisíveis tramassem uma reviravolta no destino, e as sombras começavam a se alongar no horizonte das almas.

De forma abrupta e desconcertante, à medida que as horas desenrolavam num compasso estranho e conflituoso, o céu começava a refletir toda a escuridão e tormenta que pesavam sobre alguns. Era como se a tempestade iminente, a tragédia pairando no ar, estivesse prestes a desabar a qualquer momento e arrasasse tudo à sua volta.

Indignado, Lucius perambulava de um lado para o outro na Mansão Malfoy, sua inquietação interior manifestando-se sombriamente e ecoando pelos corredores. Suas lembranças de uma educação severa e uma crença inabalável na pureza do sangue o haviam moldado, fazendo-o acreditar em sua própria superioridade. Esses valores, mesmo distorcidos e perversos, eram como raízes profundas, alimentando a raiva e a obsessão.

Impulsionado por desejos hostis e violentos, ele estava convencido de que Narcissa jamais teria o direito de abandoná-lo. Determinado a não permitir que ela se tornasse nada sem sua presença constante, Lucius questionava como ela ousava manchar sua imagem, quebrando o juramento feito por seus pais de se casarem após a conclusão dos estudos.

Narcissa era sua joia mais preciosa, seu brinquedo favorito, destinada a cumprir todos os seus desejos. Ainda que fosse por meio de obrigações e coerção, ela já estava submissa desde que Abraxas a adquirira por um alto preço. Com as mãos passando pelos cabelos de maneira impaciente, sua pulsação vibrava e seus olhos cinzentos brilhavam como brasas de um inferno, enquanto maquinava torturas que a fariam implorar por perdão.

Observando os quadros de seus antepassados que retribuíam o olhar com aprovação, Lucius estava decidido a não perder sua conquista, Narcissa, a única Black que nascera com cabelos loiros. Ela era uma raridade que somente o herdeiro dos Malfoy tinha o direito de expor como sua e usar ao seu bel-prazer. Por que ela tinha tanta dificuldade em compreender essa simples verdade? Ele só conseguia pensar que ela era tola demais para acreditar que seu fingimento e sua traição passariam impune.

No entanto, os planos mais obscuros e sinistros que fervilhavam em sua mente não seriam realizados de maneira direta e simples. Contar a Druella e Cygnus o que havia ocorrido não seria suficiente. Ele tinha em mente algo maior, mais elaborado e terrivelmente maquiavélico. Lucius estava disposto a obrigar Narcissa a abrir mão de seu emprego na Parfumerie Belles Sorcières e de tudo que lhe era caro. Faria com que ela perdesse tudo aquilo que amava.

Com um sorriso obscurecendo o seu semblante, uma ideia atravessou os seus olhos cada vez mais tempestuosos e indecifráveis. Ele estava mais do que determinado a fazer com que Narcissa rastejasse aos seus pés, que se humilhasse ao extremo pelo seu amor e perdão, a fazendo sofrer, para depois recompensá-la em seu desespero. Lucius, envolto em planos cada vez mais assustadores, refletia nos modos que utilizaria para a conduzi-la de volta à sua completa submissão e faria com que ela admitisse que merecia ser dominada initerruptamente.

O sorriso doentio e arrogante se ampliava em seu rosto enquanto ele projetava e dava forma a essas torturas mentais. Lucius elaboraria um catálogo diário de insultos cruéis e minaria completamente sua autoestima. O dia mais feliz de sua vida seria o que veria Narcissa destruída e sem qualquer esperança de liberdade.

- Ah, Narcissa, você não perde por esperar. Acredite, querida, no que depender de mim, você nunca deixará de ser uma bruxa fraca e desprezível. Desgraçada! Você pagará por toda a vergonha que me fez sentir quando aquele mestiço imundo me ameaçou – ele rosnou, enraivecido pelos pensamentos altos, golpeando a mesa com fúria.

A explosão resultante de seu completo descontrole emocional estilhaçou os cristais ao redor, e o sorriso distorcido e prepotente que se formou em seus lábios transformou sua expressão em algo demoníaco. Em um impulso, assim que adentrou a sala de estar da mansão, ele agarrou um elfo doméstico que passava por ali e o espancou até que a luz insana e psicótica desaparecesse de seus olhos. Precisava desabafar, extravasar todo aquele ódio que o dominava naquele instante.

Com um chute que lançou o corpo pequeno e irreconhecível para longe, ele riu sem restrições ou pudores. Julgava aquele ser inferior e sua morte não seria lamentada por ninguém ali. Logo, faria o mesmo com todos aqueles que ousassem desafiar suas ordens. Ele sempre se considerara superior, mesmo entre os sangues puros, e em breve os faria se curvarem diante de suas ambições. Quem sabe, talvez ele fosse além e os controlasse a ponto de invadir suas casas para estuprar suas filhas. Um tributo, cruelmente aceitável, para ser pago ao seu senhor absoluto.

Com a mente imersa em pensamentos alheios aos desejos sombrios e horrores desconhecidos que a aguardavam, Narcissa percorria os calçadões da Rue Auber com uma calma aparente. Sua imaginação tecia diversos cenários de triunfo e esperança enquanto deslizava pelas ruas movimentadas e barulhentas. Seus traços permaneciam serenos, uma máscara ocultando o turbilhão de emoções que vibravam dentro dela. Com uma expressão séria e impenetrável, inspirando profundamente, os olhos erguidos para o céu, que se mostravam indiferentes ao seu coração tão afoito.

Infelizmente, a Lua Azul da madrugada estava oculta na imensidão celeste, camuflada por um véu espesso de nuvens repolhudas e orgulhosas dos tons cinzas que retocavam suas cores alvas. Uma pontada de desapontamento a atingiu. Uma sensação estranha e indescritível. Isso fez Narcissa respirar fundo e olhar o horizonte diante de seus olhos. Sem se deixar abalar, continuou a caminhar, direcionando-se ao Café de la Paix. Lá, esperava testemunhar as primeiras gotas de chuva desenhando arabescos no vidro.

Com um sorriso breve e displicente, seus olhos azuis cintilavam transparecendo o quanto nutria uma afeição profunda pelo tempo chuvoso, pelas nuvens escuras pintando o céu e emanando uma aura melancólica. Essas nuvens pareciam anunciar o fim de algo, rabiscar novos destinos, instigando os sonhadores a persistirem em suas ilusões.

Se fechasse os olhos, Narcissa saberia muito bem o que aquele sentimento taciturno significava. Era um cenário que a transportava para lugares no Reino Unido, evocando lembranças de momentos ao lado de Severus ou de seus laços fraternos. A contemplação desse panorama a inundava de emoção, fazendo emergir sentimentos há muito guardados.

No ambiente majestoso de um salão construído durante o reinado de Napoleão III, a "Moonlight Sonata" ecoava, suas notas preenchendo o espaço com uma melodia cativante e graciosa. Era como se cada tecla pressionada desse voz à sua própria orquestra interna. A música, rica em melancolia, fazia emergir o turbilhão de sentimentos dentro do seu peito saudoso. Era uma pureza límpida, uma verdade absoluta, uma expressão que afastava os sonhos agitados que a perturbavam.

Entretanto, em meio à beleza da música, a angústia a abraçava como uma velha amiga, obscurecendo a sua compreensão, ocultando sua capacidade de ver com clareza o momento em que seus pais transformaram algo significativo em uma desoladora farsa. Enquanto revivia essas memórias tumultuadas, Narcissa pediu ao garçom um "chocolat viennois" para acompanhar o "sablé fraise". A combinação de morangos e chocolate a reconfortava, oferecendo um refúgio em meio à confusão.

- Por que eles não podem me proteger desse homem odioso? – sussurrou, adicionando um toque de canela ao chocolate quente, agitando a colher de forma quase hipnótica.

À medida que o tempo foi passando, sua exaustão emocional parecia aumentar. Queria pelo menos por um instante conversar com Andromeda e Bellatrix, desabafar suas dores e seus anseios, ouvir os seus conselhos e observar as suas compreensões silenciosas. Ao imaginar o rosto das duas, seu coração pulsou. O nervosismo a invadia, como se estivesse encurralada e confusa. Desviando os olhos da janela embaçada pelos vapores do café e pelas respirações, Narcissa refletiu sobre o que de fato a afligia além da solidão.

As cartas de seus pais, incessantemente a pressionavam para retornar à Inglaterra, não lhe apontavam escolhas e sequer consideravam as suas vontades. Contrariando suas expectativas, as palavras esboçadas em cada uma das linhas não eram marcadas por saudades ou preocupações genuínas; em vez disso, eram uma sucessão de critérios frios sobre seu casamento iminente com Lucius. Esse aspecto de claro distanciamento afetivo a revoltava e só intensificava essa aflição. Eles pareciam ignorar inteiramente que Lucius a tratava com crueldade, tanto verbal quanto fisicamente. Para os dois, tudo se resumia a dinheiro, privilégios e, acima de tudo, honrarias a serem conquistadas.

Desviando os pensamentos da escuridão que começou a emergir dos recantos mais escondidos do seu íntimo e da desolação de suas reflexões, ela registrou os momentos com Severus. Ele sempre se interessou por suas perspectivas e aspirações, incentivando-a a buscar além de suas ambições. Suas palavras eram doces e encorajadoras, uma coragem que a impelia a não desistir de seus sonhos.

Essas lembranças ressoavam, evidenciando o quanto Severus a respeitava, admirava e amava. Eram suas atitudes nos menores detalhes que demonstravam o afeto que ele nutria por ela, transcendendo desejos superficiais.

Essa enxurrada de emoções fez lágrimas arderem nos olhos de Narcissa. A que preço viria sua liberdade? Como poderia anunciar ao mundo bruxo que estava disposta a abandonar o ilustre, atraente e bem-sucedido Lucius Malfoy para se casar com Severus Snape? Como poderia abandonar tudo e viver com alguém mais jovem, que ainda estava descobrindo como se firmar no mundo?

Após um longo período de reflexão, Narcissa percebeu que o clima havia se estabilizado. Enxugando uma lágrima teimosa, ela chamou o garçom para acertar a conta e deixou o Café. Observando o céu atentamente, ela refletiu um pouco sobre a vida enquanto caminhava despreocupadamente por alguns minutos, sentindo a brisa gélida beijar sua pele, antes de retornar para casa e se preparar para o lançamento noturno de seus cosméticos.

Essa festa representava o primeiro passo em sua jornada para se afastar do ambiente venenoso e abusivo que a sufocava. Foram meses de trabalho árduo, e a recompensa finalmente chegava, preenchendo seu coração com um orgulho inegável. Um sorriso esnobe e satisfeito brilhava em seu rosto, iluminando-o como uma estrela solitária na noite escura.

Seus passos e sua mente ignoraram como os minutos passaram rapidamente, e antes que percebesse, já passava das 18h. No entanto, mesmo com a vontade de continuar o passeio e fazer algumas compras na Givenchy, Narcissa logo se deu conta de que poderia se atrasar para o dia mais importante de toda a sua vida até aquele momento. Nada a faria desistir de comparecer àquela festa tão crucial para a sua liberdade, sobretudo quando ela havia meticulosamente planejado seu dia para garantir que tudo corresse conforme o planejado.

Com passos apressados, permitidos por seus sapatos de salto, ela se dirigiu a um local discreto para realizar o desaparatamento e, assim, voltar o mais rápido possível para casa.

Em segundos, estava de volta à porta de sua residência, o que imediatamente a fez sentir uma sensação de felicidade pulsante em seu peito. A alegria queimava como uma chama vibrante, fazendo-a querer cantar e contar a todos o quanto estava feliz pelo sucesso que se aproximava cada vez mais. Entretanto, essa sensação de prazer foi abruptamente substituída por uma densa nuvem escura que a cercou. Não podia esperar algo pior do que o que estava diante de seus olhos. Com tantos dias e momentos insignificantes, por que justo naquele em que se sentia plena teve de se deparar com Jaiane servindo um copo de uísque para Lucius no meio da sala de estar?

- Boa tarde... – ela cumprimentou discretamente, evitando o contato visual com o noivo e subindo apressadamente as escadas, buscando manter a maior distância possível.

Não permitiria que Lucius conseguisse primorosamente destruir seu contentamento completamente. Tinha que se agarrar a esperança de que era possível se apegar aos bons pensamentos, que sempre existiria a possibilidade de ignorar sua presença por completo, afastando-se da atmosfera nociva que ele trazia consigo. O ódio intenso que sentia alimentava o desejo de que ele desaparecesse abruptamente, poupando-a de sua presença.

Lucius ao vê-la, contraiu os lábios em uma imitação de sorriso, não perderia a oportunidade de lançar contra ela suas palavras afiadas e venenosas:

- Demorou, Narcissa... onde estava? Será que já encontrou um amante nas ruas? Algum sangue ruim ou outro mestiço imundo, suponho – ele questionou, recebendo apenas o som dos saltos batendo nos degraus das escadas como resposta.

Mantendo seu ritmo decidido, Narcissa foi logo cruzando o corredor com determinação até alcançar seu quarto, onde lançou feitiços para garantir que sua privacidade fosse preservada. Afundando-se um pouco na cama, passou as mãos lentamente pelo rosto, enquanto encarava as sombras no teto, traçando planos para se livrar dele antes da festa. A ideia de matá-lo com veneno foi rapidamente descartada devido ao risco de ser descoberta e acabar presa. No entanto, a ideia de amaldiçoá-lo começou a surgir como uma possibilidade a ser considerada.

- Será que meus pais o informaram sobre a festa de lançamento? Como podem ser tão cruéis, tão empenhados em arruinar minha vida? – ela murmurou para si mesma, com um olhar distante e pensativo.

Inspirando fundo e reunindo a coragem necessária, Narcissa se levantou e dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho reconfortante. Ao se despir, sentiu o choque do chão frio sob seus pés arrepiando os seus pelos.

- Droga... sempre me esqueço de quão gelado esse chão pode ser quando não o aqueço previamente – reclamou, afundando-se na banheira e permitindo que a água quente a envolvesse com seus vapores relaxantes.

Relaxando, deixou sua mente vagar, permitindo-se sonhar acordada com o sucesso que a aguardava naquele dia tumultuado. O tempo parecia perder o significado, fluindo em um ritmo próprio. Ao emergir da banheira, cobriu-se com uma toalha e voltou ao quarto para escolher um dos vestidos novos que havia comprado. Entre vários modelos, optou por aquele que considerava o mais apropriado para a ocasião. O próximo passo era selecionar a joia que melhor combinava com o conjunto. Enquanto se admirava no espelho, Narcissa sorriu abertamente para si mesma, se permitindo um elogio irônico.

- Você está absolutamente deslumbrante hoje! Simplesmente maravilhosa e linda.

O vestido preto discreto contrastava com o batom vermelho intenso em seus lábios, revelando o turbilhão de emoções contraditórias que o encontro com Lucius havia despertado. Retirando os feitiços de proteção do quarto, viu a porta se abrir revelando a figura ali parada sem esboçar nenhum comentário debochado ou depreciativo. Ele permaneceu ali, com uma expressão crítica e sombria, fazendo-a questionar suas reais intenções.

- Algum problema? – ela perguntou com indiferença.

As alternativas para enfrentar aquela situação eram limitadas, e Narcissa sabia que teria que recorrer à dissimulação para enfrentar o cenário perturbador que se apresentava a sua frente. Uma faísca entre uma série de pensamentos que se atropelavam a fez considerar que talvez toda a sua vida fosse uma série de imposições prejudiciais. No entanto não importava; estava determinada a suportar e se mostrar vitoriosa diante a tantos problemas. Não se rebaixaria ao nível dele.

Aquele era um dos momentos mais preciosas para que se lembrasse e se agarrasse ao fato de que, das três irmãs, ela sempre fora uma mestra na arte de gerenciar os outros e os conflitos causados, manipulando as situações ao seu favor. Se necessário, inclinaria a realidade circundante para encaixar-se em sua narrativa e suas perspectivas, como uma verdadeira Black. E, dependendo das atitudes de Lucius, reagiria conforme as circunstâncias, demonstrando a ele a força inquebrantável de seu espírito.

- Está na hora? Não é hoje que ocorre a tão esperada festa fútil para celebrar sua superficialidade, minha amada? Espero que não me envergonhe e decida abandonar hoje mesmo esse emprego ridículo! – ele declarou, cruzando os braços com autoridade e olhando-a com um olhar dominador.

- Às vezes, suponho que você é tão tola a ponto de esquecer suas obrigações para comigo... e pelo visto, também se esqueceu de que, ao envelhecer, será irrelevante e incapaz de me dar um herdeiro.

- Claro, meu querido. Concordo plenamente com cada uma das suas doces palavras e sei que, se eu não me casar com você, estou destinada a uma vida solitária. Algo horrível e sombrio me levará à prostituição na Travessa do Tranco - Narcissa respondeu, sua voz um misto de raiva e desdém, enquanto mantinha o tom baixo e firme.

- Fique muito bonita, assim eu posso esfregar na cara de todos que tenho uma Black como acompanhante de luxo – Lucius continuou, exibindo um sorriso arrogante, agarrando-a pelo queixo com força antes de beijá-la com brutalidade.

- O que mais eu poderia ser, não é mesmo? – ela respondeu, sentindo a dor se irradiar pelo maxilar enquanto ele continuava a apertá-lo.

Nojo e repulsa marcavam suas feições enquanto Narcissa tentava virar o rosto, afastando-se de seu toque. Seus pensamentos colidiam e rapidamente se reorganizavam, exigindo sua atenção total. Ela precisava estar completamente presente naquele momento, garantindo que suas ações fossem cuidadosamente calculadas. Embora fosse sempre considerada a mais fraca entre as irmãs, sempre fora a mais fria em situações extremas. Sua habilidade de manter a calma e tomar decisões precisas era o que a diferenciava de todo a sua família que parecia sempre querer viver em meio às chamas e às guerras sem fim. Talvez, a capacidade de ter sentimentos humanos enquanto cria estratégias impiedosas de sobrevivência era o que a tornava única.

- Ainda bem que concorda, Narcissa... caso um dia você pense em se opor a mim, vou quebrar seu pescoço sem pensar duas vezes. Entendeu? Eu sou o único que controla você! Eu sou o seu dono e faço o que quiser – ele afirmou, puxando-a pelo braço com violência para saírem juntos.

- E só para constar, se eu decidir que quero ter relações agora, posso te forçar, e nada acontecerá comigo. É meu direito como seu noivo, e cabe a você aceitar.

- Nem tente...

- Ora, temos aqui uma moça corajosa. Estou bastante surpreso com a sua petulância.

Com um olhar gélido e apático, Narcissa traçava passos lentos em direção ao salão, como se navegasse por um labirinto de pesadelos. As cores vivas e os sons festivos à sua volta pareciam desbotar sob o peso da opressão que a cercava, imergindo-a em um tormento do qual não conseguia escapar. Ela lutava para manter uma aparência de tranquilidade e graça, sufocando suas emoções sob uma máscara de controle inabalável. Determinada a não permitir que Lucius visse sua inquietação ou sentisse como seu coração pulsava furiosamente pela angústia, ela mantinha um equilíbrio resoluto que a fortalecia internamente, reconhecendo que sua essência ia além do que tentava repassar através das aparências.

- Os Black nunca morrem... lembre-se sempre, os Black nunca morrem, Narcissa - ecoava em sua mente, uma frase que se repetia como um mantra silencioso e poderoso. Essa frase, quase como uma prece sussurrada, era um lembrete de sua herança e da força inflexível que corria em suas veias. Era um lembrete constante de sua ascendência e do poder interior que possuía. Talvez, fosse muito mais forte do que imaginava ou que muitos acreditassem que fosse. Assim, ela seguia adiante, mesmo com o medo e a raiva vibrando em seu coração.

À medida que se aproximava das portas do salão, a certeza de sua identidade e aspirações servia como um escudo, fortalecendo-a para resistir a qualquer tentativa de subjugação, transformando-a em uma fortaleza determinada. Faltavam apenas alguns passos para adentrar na celebração que já estava em andamento.

Sorrisos, abraços, risadas e gritos entusiasmados por reencontrar velhos conhecidos reverberavam pelo ambiente, preenchendo a festa com cores e vida. Os sons que representavam o caos organizado de uma celebração enchiam seus ouvidos, e isso a fez prestar mais atenção aos detalhes. Observou como os elfos transitavam por todos os cantos com bandejas repletas de canapés frios e quentes, e como as pessoas, antes tão animadas, pareciam se separar diante da presença dela e do noivo. Elas voltavam olhares de reconhecimento sobre a futura aliança poderosa que se formaria entre as famílias.

Aproveitando a movimentação dos convidados que pareciam voltar ao estado de empolgação anterior, Narcissa se desprendeu delicadamente de Lucius e se aproximou de Dominique Dubois, proprietária da Parfumerie Belles Sorcières, para quem trabalhava desde a formatura. Entre tantos rostos desconhecidos, era nela que poderia reconhecer uma figura amigável e tentar se desprender um pouco da tensão que continuava a atordoá-la.

Sorrindo com perfeição e falando com uma voz melódica, Narcissa ocultava através do refinamento a revolta que começava a dominá-la. Seus olhos, por um breve instante, traíam uma centelha de descontentamento, apesar do sorriso cuidadosamente ensaiado. Ela o apresentou com uma graça forçada:

- Dominique, permita-me apresentar-lhe Lucius Malfoy, o meu noivo tão adorado. Como eu havia mencionado anteriormente, ele é o Conselheiro do Ministro da Magia no Reino Unido.

- É um enorme prazer conhecê-lo, monsieur Malfoy. Fico satisfeita em conhecer um homem tão bonito e com um futuro brilhante. Estou feliz em ver que mademoiselle Black fará um ótimo casamento - disse Dominique com um sorriso caloroso emoldurando os lábios.

Enquanto Dominique continuava a observar Lucius com admiração e iniciar uma longa conversa, os olhos de Narcissa detectaram uma fina camada de falsidade nas interações. Por trás da cortesia, ela enxergava o véu de conveniência e superficialidade rondando a todos. Não permitia que a ilusão da simpatia a enganasse. Narcissa conhecia bem esse jogo, desde o nascimento, e sabia que suas vidas estavam entrelaçadas pela conveniência, não pelo amor verdadeiro.

- É o que eu continuamente reforço à Cissy - disse Lucius com um sorriso sombrio, o olhar carregado de um significado sombrio, um misto de possessividade e arrogância que fizeram Narcissa voltar novamente a atenção para a conversa.

- Ela nasceu para ser minha e me dar um herdeiro que faça jus ao sangue dos Malfoy.

O modo que Lucius a encarava e falava a seu respeito para quem quisesse ouvir, fazia com que se sentisse como uma boneca em exibição, uma peça em seu jogo, uma extensão de sua própria vontade e ambições. Cada sorriso que ele lhe dirigia era um lembrete de sua intenção de controlá-la e manipulá-la à vontade.

O tempo arrastava-se, os rostos se fundiam em um borrão de sorrisos vazios e conversas cada vez mais superficiais. Enquanto segurava uma taça de champanhe, ouvindo histórias e anedotas dos convidados, rindo de um colega que conseguiu explodir metade de um laboratório sem que houvesse feridos, os pensamentos de Narcissa vagavam pesadamente. Sua mente estava preocupada com a ausência repentina de Lucius, um pressentimento desagradável que parecia estar enraizado em seu peito, um sinal de que algo estava errado e que poderia piorar.

Foram minutos, talvez algumas poucas horas passadas, quando Lucius finalmente retornou. Algo no olhar dele estava ainda mais estranho e apodrecido do que antes, fazendo com que Narcissa sentisse um nó se formar na garganta. A expressão triunfante em seu rosto indicava problemas iminentes. Ela se viu incapaz de se afastar, a curiosidade misturada com o temor do que ele havia planejado, enquanto o via se aproximar com um sorriso cada vez mais doentio. Então, sem aviso, o primeiro tapa atingiu seu rosto, um golpe que cortou o ar com violência e dor.

Narcissa cambaleou sob o impacto, surpresa e incrédula. Com a mão trêmula, tocou a pele dolorida onde a marca da crueldade de Lucius deixara seu rastro. O véu do fingimento foi rasgado, revelando a todos a verdadeira face de seu noivo.

- Essa vagabunda que vocês homenageiam... - afirmava com veneno na voz.

- Me solta, Lucius! Você...

- Cala a maldita boca, amante de sangues ruins! Você me traiu com o primeiro imundo que cruzou seu caminho. Como uma prostituta barata, rastejou até ele e deve ter pagado para que a usasse.

- Mentiroso!

Lágrimas encheram, queimaram e nublaram os olhos de Narcissa. Não eram lágrimas de medo, mas de indignação e ódio. Ela tentou se proteger dos golpes brutais, mas sua força diminuía a cada impacto. Não era fraqueza que a dominava, mas o choque profundo e a dor avassaladora de estar sob o domínio de um ser tão implacável e ser exposta daquela maneira tão vil na frente de todos.

Foi uma sequência brutal e inenarrável de xingamentos e golpes que pareciam surgir por todos os lados. Parando repentinamente quando Lucius decidiu que o melhor a ser feito era arrastá-la pelos cabelos para fora da festa sem encontrar qualquer empecilho.

A multidão parecia desvanecer, engolida pelas sombras de sua própria agonia. Narcissa sentia o seu corpo sendo marcado pelas pancadas, sua mente não reagia mergulhada na confusão e no horror. No fundo, porém, ela sabia que era mais do que aquilo, mais do que os golpes que ele infligia, mais do que a humilhação que ele lhe causava. O mundo ao seu redor parecia distante, irrelevante, enquanto ela lutava bravamente para agarrar qualquer centelha de esperança que surgisse. Ela era uma Black, e mesmo na escuridão, ela recusava-se a se render completamente.

- Eu odeio você, Lucius... Eu espero que morra da pior maneira possível - ela gritou deixando que a raiva explodisse.

Com a cabeça dela batendo contra um dos muros próximos, Lucius sorriu ao vê-la desmaiar e um fio de sangue escorrer pelo nariz. Rindo suavemente e abaixando-se perto do corpo inerte de Narcissa, ele sussurrou:

- Agora vem a melhor parte, vadia! Seus pais serão informados do que você é.

Chegando aos jardins da Black Manor, Narcissa acordou desnorteada e com o corpo dolorido. Piscando os olhos algumas vezes e sentindo o sangue quente escorrendo por seu rosto, tentou se erguer do chão ao vislumbrar que os seus pais a olhavam. Entretanto, era quase impossível ficar de pé, quando o impacto violento dos golpes sofridos ainda reverberava por todo o seu corpo, deixando-a tonta e fazendo com que tremesse de dor e fraqueza.

Não sabia dizer se havia ossos quebrados, além do nariz, mas estava convicta de que cada respiração lhe queimava os pulmões, cada tentativa de se movimentar ou falar era um esforço doloroso. Olhando rapidamente para si, o que viu a desestruturou e a horrorizou ainda mais. Suas roupas estavam manchadas de sangue e sujeira em vários pontos. Cada detalhe era apenas mais um ponto no reflexo cruel da monstruosidade a qual havia sido vítima.

- Mãe? Pai? Por favor, me ajudem... – implorava, sufocando os gritos de dor que lhe rasgavam a garganta.

O seu apelo estava repleto de uma angustiante mistura de súplica e desespero, expondo toda a vulnerabilidade de sua voz que cortava o silêncio pesado que pairava sobre o jardim e manchava o verde gramado com tons vibrantes de vermelho.

- Em que a ajudaríamos, Narcissa? Lucius nos explicou quanto a essa cena deplorável... eu estou realmente enojada com o que você fez –disse Druella, encarando-a com uma expressão fria e a voz sem esboçar qualquer emoção. Seus olhos gélidos e julgadores pareciam cortar ainda mais fundo. Pareciam querer infligir feridas que iam além das marcas físicas.

- Qual homem não se descontrolaria, Narcissa, ao presenciar a sua futura esposa o traindo? Nós conseguimos entender a dor daquele pobre menino, o quanto ele se desesperou ao testemunhar como você foi baixa – Cygnus enfatizou com a voz apresentando o mesmo tipo de insensibilidade.

As palavras dele foram devastadoras, pesadas como um martelo batendo implacavelmente sobre os ombros de Narcissa. Já estava condenada. O pai acabara de esmagar qualquer esperança que ela tivesse de ser compreendida ou apoiada. O modo como a tratavam era uma reafirmação de que sempre a viram como uma coisa, uma inútil que só nascera para recompensá-los, um objeto que falhara em suas obrigações. Ela era a transgressora, a vergonha, a culpada, a traidora, e tudo o que mais existisse de pior no mundo.

As lágrimas desabaram enquanto Narcissa olhava para os rostos de seus pais. As emoções se misturavam em seus olhos. Sentimentos que sufocavam pela sensação de traição dolorosa, pela incredulidade ante seu próprio isolamento e, acima de tudo, pelo desejo insano de ser ouvida, de ter sua verdade reconhecida uma única vez.

Bufando baixo e com uma expressão de nojo e desaprovação, Cygnus e Druella a encaravam. Seus olhos vazios de empatia a julgavam cruelmente. Narcissa podia ver refletidos neles o desgosto, a raiva daquela que um dia poderia ter dado orgulho aos dois, mas que se mostrara apenas digna de repúdio.

Narcissa se encontrava machucada, com hematomas cada vez mais evidentes e alguns cortes ainda sangrando, que se distribuíam pelo rosto, pelas pernas e nos braços. Os traços de sua beleza outrora radiante estavam agora completamente eclipsados por crescentes marcas de brutalidade, uma representação física e profunda de sua evidente queda. Com o vestido rasgado e descalça, ela era o retrato de tudo aquilo que os sangues puros mais abominavam. Não passava de uma traidora de sangue, uma amante de trouxas, um espetáculo grotesco que desafiava todas as convenções sociais e ideais que ela havia sido criada para defender com ardor.

- Os senhores não podem acreditar no que ele disse! Não podem permitir que o Lucius me tire tudo...

Suas frases eram ditas com força e confiança de quem tinha a verdade ao seu lado, no entanto, suas tentativas esbarravam em ouvidos surdos à realidade e em opiniões já formadas de que suas súplicas não valiam a pena.

- Me ouçam... é tudo o que eu peço! É mentira o que o Lucius disse. Os senhores devem entender que ele invadiu a minha casa e foi comigo para a festa de lançamento dos cosméticos que eu criei sem sequer ser convidado...

- Como ele não foi convidado, Narcissa? Lucius é seu noivo! Obviamente o lembramos da data, já que você estava agindo de forma completamente rebelde e deselegante! – Druella a repreendeu.

- Graças ao seu convite, mãe, Lucius pôde me perseguir e me agredir na frente de todos! Essa é a verdade que os senhores sempre parecem se negar a acreditar – Narcissa afirmava, ainda com o corpo trêmulo e se mantendo de joelhos por não conseguir confiar ainda na força das próprias pernas.

- Você acha que tentando se mostrar fraca e fingindo de humilhar terá nossa aprovação? – prosseguiu Druella parecendo ignorar completamente o que a filha havia acabado de dizer.

- Eu não estou me humilhando! Como creio que a senhora não esteja cega, espero que já tenha reparado que eu estou tão machucada que mal posso me levantar e que, possivelmente, o Lucius não deva apenas ter se contentado em me bater... ele deve ter feito coisas piores enquanto eu estava desacordada.

As palavras de Narcissa eram como lâminas lavadas no veneno do desespero e forjadas pela intensidade de suas emoções. Suas frases, por mais fortes e contundentes que fossem, pareciam seguir batendo contra uma parede sólida de preconceitos enraizados e julgamentos sem precedentes. Simplesmente, Cygnus e Druella a desmereciam e desvalorizavam suas súplicas, a encarando como se fosse um ser abjeto que não deveria existir. Como uma coisa jogada em seu jardim para manchar a grama imaculada.

- Não há justificativa para o que você fez... – a frase de Cygnus interrompeu qualquer possibilidade de que ela pudesse seguir argumentando. Não era apenas desprezo ou desconsideração, aquilo ia mais além, estava impresso em seus traços uma rejeição categórica e implacável com relação a sua presença.

- Você o traiu, Narcissa! Não contente em agir de maneira repreensível, ainda teve a insolência de o fazer com um sangue ruim, pelo que Lucius nos relatou detalhadamente. Por mais que possa me doer, afirmo que ele foi bastante benevolente em apenas lhe dar uma surra. Se eu estivesse no lugar daquele rapaz, não surpreenderia a quem quer que seja que o seu destino fosse bem mais cruel.

- Eu nunca estive com um sangue ruim... isso... isso é uma calúnia! Lucius está mentindo, pai. Por favor, o senhor precisa acreditar em mim.

- Então com quem você esteve? – Cygnus se aproximou dela agressivamente, a puxando pelo braço para que se levantasse.

- Severus...

- Severus Snape? Filho da Eileen Prince? Você só pode estar querendo rir da nossa cara... aquele rapaz é praticamente destinado, desde o dia em que nasceu, a ser o braço direito do Lorde das Trevas, realmente você acredita, Narcissa, que ele olharia para você? A única por quem o Snape se interessaria é a Bellatrix, que está no mesmo nível que ele como bruxa. Você é fraca, Narcissa! No máximo, ele a vê como amiga... – Druella novamente a interrompeu segurando o riso de descrença.

- Veja isso, Cygnus, ela parece esquecer que durante um bom tempo pensamos que ela fosse um aborto. Finge que não recorda da generosidade dos Malfoy em aceitá-la como futura esposa do filho.

Aquelas palavras duras e desdenhosas, aquela sentença brutal, pesaram sobre os seus ombros como um veredito de sua morte emocional. Era a confirmação de que, aos olhos de sua família, ela era a única responsável por toda a violência que sofrera. A dor de ser sentenciada daquela forma, pelos próprios pais, a despedaçava. Era insuportável e aterrador.

- A senhora está enganada!

- Por que você ainda não foi embora, Narcissa? Por que ainda insiste em nos importunar? – questionou a mãe torcendo o lábio em desaprovação.

- Porque eu não mereço ser tratada dessa maneira! Porque os senhores sabem que eu sou inocente e que eu não estou mentindo em nada do que eu disse até agora – Narcissa exclamou com uma expressão enfurecida no rosto.

- Inocente? Você? É mais fácil que o seu pai e eu acreditemos que Bellatrix é benevolente e amorosa do que você estar falando a verdade – Cygnus esbravejou sem paciência, respirando fundo, para continuar:

- Desde criança você sempre está inventando calunias com relação ao coitado do Lucius que sempre a tratou com respeito!

Os olhares que eles lhe lançavam, agora, pareciam a perfurar. Faziam com que Narcissa tivesse a sensação de que uma onda avassaladora de raiva, tristeza e desespero crescia em suas entranhas. Sua magia vibrava, serpenteava, a cada novo traço percebido nos rostos hostis que deveriam amá-la. A verdade é que aquela era a primeira vez que observava atentamente a verdadeira face de sua família. Os seus pais eram apenas um reflexo fiel ao fanatismo e a intolerância que haviam envenenado e obscurecido o seu mundo.

- Pai... – a voz de Narcissa voltara a tremer pelo nervosismo, mas ela não estava disposta a se render quando o seu espírito era teimoso demais para aceitar uma injustiça, como aquela que estava sofrendo, calada.

- Não há mais nada a ser dito aqui! Estamos fartos de suas mentiras e insinuações contra um rapaz que sempre foi tão generoso e gentil. Você não passa de uma vergonha para a nossa família... e, acredito, eu serei bondoso de lhe dar 1h para retornar à França e pegar aqueles seus trapos – determinou solenemente, como se estivesse dispensando um empregado desaforado.

- Depois, eu ordeno que suma das nossas vidas! Não quero ver você sequer chegar perto das suas irmãs... esqueça que você teve uma família. Você não é mais minha filha. Você não é mais uma Black!

O impacto daquelas últimas palavras a atingiram como um soco no estômago, a fazendo tentar se agarrar a qualquer traço de razão em um mundo que parecia ter enlouquecido ao seu redor. Tentando se aproximar de Cygnus, Narcissa o viu retirar o braço abruptamente, para evitar ser tocado, como se a merda proximidade ou toque fosse altamente contagioso.

As lágrimas ameaçaram inundar os seus olhos novamente. Com o coração despedaçado, Narcissa, se ajoelhou e rastejou aos pés de seu pai. A dor física não se comparava ao sofrimento de sua alma. Ela precisava que Cygnus a ouvisse, que a visse como a filha que ele um dia amou.

- Pai, por favor, não faça isso comigo... – seu apelo saiu envolto a voz embargada pelo esforço de conter o choro diante dos olhos implacáveis que se negavam a encará-la mais uma vez.

- Não se refira ao Cygnus como seu pai, sua amante de sangues ruins! – a resposta de sua mãe transparecia o desprezo em cada palavra, enquanto a olhava com uma expressão de desgosto e raiva.

- Saia daqui!

A frase foi acompanhada de um som de estalo e um vulto rápido... Narcissa levou a mão ao rosto e tombou para o lado, com o semblante assustado ao ver que Druella acabara de lhe dar um tapa forte no rosto. Aquele fora um dos últimos atos para romper totalmente a sua dignidade e obstinação.

- A senhora não pode me tratar dessa forma!

- Quem você pensa que é, sujeitinha, para exigir como deve ser tratada? Sujou o nome da nossa família e ainda quer sair como vítima? Você não passa de uma sonsa, de uma dissimulada! Não sei como eu pude criar alguém que, ao invés de nos encher de orgulho, age como uma prostituta barata – Druella afirmou indignada, despejando toda a repulsa que sentia.

Agarrando-a com força pelo braço, Druella com os olhos faiscantes de ira, a expulsou dos terrenos da mansão. Em um ato de completa impiedade e ojeriza, lançou contra a filha, que cambaleava, o feitiço Everte Statum. Narcissa caiu, evitando bater com o rosto no chão, ao se firmar nos cotovelos enquanto gritava de dor e sentia como se os seus músculos e ossos estivessem se rompendo. Se arrastando, perturbada com tamanha violência sofrida, foi se afastando aos poucos vendo os laços de sua antiga vida se rompendo como se nunca houvessem existido.

Foi nesse instante que ela viu Lucius espreitando nas sombras próximas. Respirando fundo e deixando que o ar quente queimasse ainda mais o seu ânimo abalado, Narcissa o observava como a mais clara representação da crueldade e da manipulação que haviam açoitado sua vida.

Sabia muito bem o que ele estava fazendo ali escondido. Lucius assistira a tudo, permanecendo próximo a uma árvore, para se divertir e aproveitar uma nova oportunidade de a espancar e a humilhar mais um pouco. A cada novo golpe, aproveitando que Narcissa estava sem varinha e indefesa, era como um soco de vingança, uma tentativa de quebrar o seu espírito completamente e infligir todo o sofrimento que ele acreditava que fosse merecedora. Os chutes e os socos caíam implacáveis, constantes, como uma sinfonia da barbárie ali orquestrada.

- Não encosta em mim, seu porco imundo! Eu quero que morra – esbravejou, enquanto Lucius lhe apontava a varinha contra o peito. As palavras carregadas de ódio eram um grito de revolta, uma manifestação de sua determinação de não ceder à submissão.

- É sério? Estou com o coração partido por você me desejar a morte, minha amada.

Narcissa estava ciente de que aquele seria o seu fim. Na melhor das hipóteses, em minutos, estaria morta e o seu corpo ficaria abandonado ali mesmo. O espectro da morte pairava no ar, uma ameaça iminente que enchia ambiente de uma tensão infernal.

Ninguém precisava lhe dizer. Ela sentia as almas perdidas girando à sua volta, enquanto o vento sussurrava palavras sombrias e ordens remotas, como se entendessem e reverberassem os seus pensamentos. Seu coração batia acelerado e desesperançoso, afrontando o olhar frio e calculista de Lucius, uma chama de coragem se acendeu em seus olhos. O ódio que Narcissa sentia ardia em cada uma de suas células, uma chama feroz e selvagem se alimentava em meio a sua própria escuridão interna.

- Lute... você é Narcissa Black. Se você fosse uma qualquer, uma menina fraca e boba, eu não teria te ensinado tudo o que eu sei.

A voz de Walburga reverberou em sua mente, como se ela estivesse entrando em seus pensamentos e conversando diretamente com o seu coração, alimentando ainda mais a força que parecia trepidar o seu núcleo mágico como se quisesse se libertar.

Não seria mais uma vítima e nem se renderia àquele tormento que lhe era oferecido. Se negava a continuar a agir como uma marionete nas mãos dos outros. Narcissa sempre soube que estava destinada a algo maior. Muito mais do que uma vida de privilégios e conformidade, nascera para emergir como uma nova força da natureza, uma bruxa que seria reconhecida e admirada pela sua intensidade e poder.

Reerguendo o olhar, com uma força irradiando toda a sua ira, Narcissa começou a sussurrar palavras estranhas e carregadas com uma espécie de energia ancestral. Uma atmosfera de vingança que transcendia os limites do tempo e da compreensão humana, parecia gravitar e vibrar em seu entorno. Seus olhos escureceram, indo para um azul noturno e profundo... não estava mais invocando feitiços, ela estava evocando uma energia que tinha raízes muito vivas nas trevas antigas.

O medo nos olhos de Lucius era palpável. Uma expressão de pânico, que ele não conseguia mais esconder, o dominava por completo. Sabia que tinha a subestimado, acreditando que poderia exercer controle sobre as suas vontades. Agora, estava diante de uma força incontrolável, uma tempestade furiosa que ele próprio havia desencadeado e não sabia como deter.

O vento aumentou, uivando como uma testemunha dos eventos que estavam prestes a se desenrolar diante da sua presença, ampliando a voz de Narcissa:

- Você pensa ser forte, Malfoy? Você realmente achou que poderia me quebrar?

- O que pretende, Narcissa? – questionou se afastando temeroso, o desdém em sua voz mascarando uma inquietação que ele não podia esconder.

- O que eu pretendo? É uma boa pergunta... primeiro, exijo que não me chame mais pelo primeiro nome! Eu proíbo um bosta igual a você a se referir a mim com tamanha intimidade.

Analisando as circunstâncias e todas as probabilidades do que poderia suceder, Narcissa, com um movimento rápido, lançou uma energia opressiva sobre Lucius, o prendendo no chão e escurecendo tudo ao seu redor.

- Você não se importa que eu use a sua varinha, não é, Malfoy? – questionou com um sorriso sádico no rosto, ao observar o raio dourado se formando na ponta, antes de evocar em voz alta:

- Crucius!

Em segundos, Lucius soltou um grito agudo que cortou o ar, se debatendo no chão angustiado, como se estivesse convulsionando. Seus gritos se misturavam com o eco das sombras liberadas pelas palavras proibidas que Narcissa ainda sussurrava, catalisando uma força terrível que parecia impregnar tudo o que tocava.

- Você vai chorar, querido? Logo agora que eu ainda nem comecei a me divertir!

- Narcissa, por favor...

- Já disse para não me chamar pelo primeiro nome! Crucius... – repetindo o feitico riu abertamente ao ver como ele se espalhou pelo corpo de Lucius como um veneno ardente, distorcendo sua forma e torcendo suas feições em agonia com mais força do que antes.

- Você não merece usar o sobrenome Black.

- Não? Interessante ouvir isso de alguém que acabou de sujar as calças... você é uma vergonha, Malfoy!

- Desgraçada!

- Agora me diga, onde está a sua noivinha inútil, seu merda? Nunca mais você vai voltar a me bater e será a última vez que você vai tentar passar esse troço imundo em alguma mulher – falou ainda com mais raiva, escutando seus gritos. Cada palavra era impregnada com o peso de anos de sofrimento e humilhação, uma resposta furiosa a todas as indignidades que ela havia suportado.

- Você vai me pagar, puta imunda!

- Olha a boca, Malfoy! Incarcerous – murmurou com todo o ódio que abrasava o seu coração naquele momento. As palavras foram como um último suspiro de castigo e desforra, um selo final no destino de Lucius. Cordas mágicas se materializaram, prendendo-o em um abraço apertado e abrasador. O fogo das cordas queimava como a fúria que ardia dentro de Narcissa.

Os laços de tortura e ira incendiária. As mesmas que Walburga a ensinara a invocar para se proteger. Urrando de dor e sentindo como se a sua pele derretesse, a última visão que Lucius teve foi a de sua visão se apagar. A magia que Narcissa havia invocado não apenas prendia seu corpo, mas também sua alma, lançando-o em um abismo de trevas e exasperação.

As sombras da noite atingiram o corpo e a alma de Narcissa. O manto turvo da completa ausência de luz se fechava ao seu redor, envolvendo-a como um protetor. O vento unido as estrelas que brilhavam no céu noturno sussurravam palavras de coragem e força, como verdadeiros amigos invisíveis, em seu ouvido. Os mesmo que, se mostrando fortes e vibrantes, foram gradualmente tirando o brilho solar de seus cabelos.

Sob a luz da lua foi se criando um contraste entre luz e escuridão, representados pelos fios castanhos e loiros que se mesclavam como representantes da nova dualidade de sua natureza.

- Agora eu vou começar a fazer o que eu quero.