Narcissa estava completamente atordoada com o que acabara de vivenciar. Sua mente era um turbilhão de pensamentos tumultuados, enquanto seu coração martelava no peito com uma intensidade quase dolorosa. Sentia o peso esmagador das escolhas que fizera e das consequências que se avizinhavam. Cada passo adiante representava um abismo de incertezas, mas ela sabia que não podia voltar atrás, nem se desculpar por algo que nunca fora sua culpa. A decisão que tomara fora digna e honesta, porém também a mais desafiadora de sua vida, pois temia a perda do amor de suas irmãs, receando ser olhada com o mesmo repúdio que vira nos olhos de seus pais.
Com um semblante sério e reflexivo, Narcissa encheu os pulmões de ar e coragem. Sem olhar para trás, tomou a decisão de abandonar sua antiga vida de vez. Seria difícil, mas necessário. Em um gesto simbólico, desfez-se dos sapatos, atirando-os com força para longe. Era um ato de renúncia, um afastamento daquela mansão sombria, do mundo que conhecera até então e, principalmente, de seus pais, incapazes de demonstrar a menor compaixão diante de sua dor.
O segundo ato seria o mais definitivo, o ato mais forte de abdicação de seu antigo eu e de algumas raízes que envenenavam seu ser. Fechando os olhos, ainda mais convicta do que antes, ao aparatar em frente à sua casa, Narcissa desfez-se do vestido manchado de sangue com urgência, como se quisesse se livrar não apenas das roupas, mas também das memórias e das amarras do passado que lhe causavam repugnância.
Olhando em seu entorno, desorientada diante do cenário de caos que se projetava à sua frente, Narcissa avançou com passos lentos. A imagem de Lucius a humilhando ecoava em sua mente, e ela não podia tolerar aquilo. Ele não havia apenas a maltratado emocionalmente, mas também danificado seus pertences, espalhando-os pelo chão entre os cacos dos cristais destroçados. E, de forma ainda mais chocante, agredira Jaiane, a elfa doméstica que tentara proteger a residência.
Não havia nada a fazer; essa era a mais dura realidade. Cuidadosamente, para não pisar nos cacos, Narcissa aproximou-se de Jaiane, sentada em um dos degraus da escada aos prantos, para oferecer-lhe algum conforto. O rosto ferido da elfa refletia a profunda preocupação compartilhada por ambas. Aquilo estava muito além da destruição; representava muito mais. Em cada objeto quebrado, em cada dano ou sofrimento causado, refletiam-se símbolos e ecoavam sons que remetiam à completa ausência de emoções e afetos sinceros naquela casa.
Doía a Narcissa perceber que aquele era um lugar onde a dor sempre reinara, alimentado pela ganância e pelo prazer de ver o sofrimento alheio, mas doía ainda mais notar que sempre optara por se manter cega a tudo aquilo para não perder a vida de privilégios que tanto gostava. Pensamentos que fizeram seus olhos varrerem a sala, captando todos os detalhes dos estragos causados, e a levaram a ofegar baixinho, fosse pelo cansaço que seu corpo acusava sentir ou pela indignação que tal cena de atrocidade lhe causava.
- Jaiane, o que aconteceu aqui? – a voz de Narcissa saiu rouca, quase como um sussurro, e se refletiu nos olhos vermelhos e nos soluços da elfa.
- Senhora Cissy... Jaiane não pôde impedir o senhor Lucius de destruir os objetos, minha senhora. Ele bateu muito em Jaiane e a chamou de elfa má e traidora.
Ao ouvir aquela resposta sincera e observar os toques de crueldade infligidos por Lucius para causar ainda mais dor, a angústia de Narcissa aumentou. Levantando-se do degrau onde se sentara, ela desceu dois degraus para se abaixar e examinar os ferimentos de Jaiane, que tentava escondê-los por vergonha e medo, secando as lágrimas grossas que teimavam em cair e manchar ainda mais o seu rosto.
- Deuses... como você pode acreditar nisso, Jaiane? Estou mais do que convicta de que você lutou bravamente e fez o melhor que pôde – Narcissa começou a dizer, gentilmente, enquanto acariciava o rosto da elfa.
- Você é uma amiga incrível e extremamente fiel. Quem falhou fui eu por tê-la deixado tão exposta a esse sofrimento. Peço que me perdoe por ter sido uma pessoa tão terrível e egoísta... vou libertá-la e dar-lhe o direito de escolher o que fazer da sua vida...
- Não! A senhora Cissy não pode fazer isso com Jaiane... o que será da senhora Cissy sem os cuidados da sua Jaiane?
- O que quero que entenda é que você não é um objeto, e não posso mais mantê-la como uma propriedade, como uma escrava. Se desejar, pode partir, eu juro que vou saber me cuidar. Meu desejo mais profundo é que seja verdadeiramente feliz - afirmou, reprimindo o tom de lamentação que ameaçava permear sua voz, ao pegar um vestido no chão e começar a diminuí-lo. Narcissa não se entristecia por libertar a elfa; o que a entristecia era o fato de que, assim que ela partisse, ficaria sozinha.
- Jaiane quer ficar junto com a senhora Cissy... A senhora sempre foi boa e não é egoísta e má com Jaiane – disse, segurando firmemente o vestidinho azul que ganhara, enquanto encarava Narcissa com os olhos arregalados de gratidão.
- Tudo bem... se essa é a sua escolha, eu fico feliz em seguir contando com a sua amizade e presença ao meu lado.
Narcissa sorriu fracamente, levantando-se com determinação em seu olhar. Por mais cansada que estivesse e por mais que seu corpo doesse, não havia tempo a perder. Era o momento de prosseguir com um plano que surgia em sua mente para garantir a segurança delas, ciente de que não podiam correr qualquer risco de serem encontradas por seus pais ou por Lucius. Narcissa queria evitar que ambas fossem submetidas a mais sofrimento, mesmo que isso significasse ter de enfrentar um futuro completamente incerto e sombrio.
- Como pode notar, essa combinação que estou usando não me protege contra o frio que está fazendo hoje – Narcissa apontou para si mesma com um gesto displicente e orgulhoso.
- Vamos fazer o seguinte, Jaiane. Vamos realizar nossas higienes e cuidar desses ferimentos. Depois, reunimos nossos pertences aqui e partimos o quanto antes. Não quero que meus pais a encontrem e a machuquem. Como prometi, eu não irei abandoná-la e não quero que recebam quaisquer notícias a nosso respeito.
- Claro, minha senhora... - Jaiane concordou, ciente do perigo que as cercava.
- Se nos acharem aqui, vão nos matar. Após tudo o que vivi e presenciei hoje, não duvido que sejam capazes de realizar tamanha brutalidade. Dói constatar isso, Jaiane, dói muito mesmo, especialmente ao ter a certeza de que não passam de pessoas horríveis - concluiu, com uma expressão de decepção e temor em seu rosto sofrido.
Alguns minutos passaram, talvez uma meia hora, desde que se levantaram dos degraus da escada e seguiram para os banheiros e, depois, para os dormitórios da casa, onde concluíram os banhos e os cuidados com os ferimentos de forma meticulosa. Vestidas e com passos rápidos, elas trabalhavam juntas, harmoniosamente, para colocar as caixas e malas no chão da sala. Enquanto objetos pessoais ainda voavam rapidamente de um lado para o outro, sendo acomodados em caixotes abertos, Narcissa empunhou a varinha e, com um feitiço Reducio, encolheu toda a bagagem até que coubesse nos bolsos de seu casaco e na bolsinha que Jaiane segurava. Era sua última demonstração de força e resiliência antes de partir discretamente, evitando chamar atenção ou deixar qualquer rastro que pudesse denunciar seu destino.
Ao dar um último olhar àquela casa, os olhos de Narcissa começaram a lacrimejar, e uma imensa sensação de vazio quis se apossar de seu corpo. Lutando para não se abalar, ela se forçou a secar o rosto com as costas das mãos. Estava determinada a não derramar lágrimas por aqueles que a abandonaram, que a humilharam e que nunca a amaram verdadeiramente. Ao questionar para onde iriam, já no meio da calçada, o peito de Narcissa se encheu de uma inexplicável mistura de medo e esperança. Via o término de uma vivência hipócrita e torturante, de uma criação castradora e doentia, de uma dissimulação contínua que a sobrecarregava. Ela vislumbrava ali a chance de encontrar um mundo em que pudesse ser livre, recuperando a confiança e os sonhos que lhe foram roubados ao longo dos anos.
Sentindo sua força interior ressurgindo, se reconstruindo e se fortalecendo novamente, Narcissa decidiu exteriorizar mais uma vez toda a coragem que sentia pulsar em sua alma. Planejava, mais do que em qualquer outro momento de sua vida, trilhar o próprio caminho e se ver senhora de suas próprias escolhas, mesmo que isso fosse visto como loucura por todos aqueles que a julgavam. Sabia que muitos a rotulariam como arrogante e mimada, alguém egoísta que renegou os pais carinhosos e abnegados, uma pessoa hostil que desafiava e desprezava as regras da sociedade. Outros tantos sussurrariam maldosamente que ela não passava de uma meretriz e degenerada. No entanto, sentia que não se importava mais.
Narcissa sentia que, apesar de todos os infortúnios que se avizinhavam, estava ciente de que aquele era o momento de aprender a sobreviver por conta própria, sem depender do apoio ou da compaixão alheia. Sua confiança de que tudo daria certo a impulsionava a encarar o pior cenário, a recusar-se a se iludir com falsas esperanças ou promessas. Seu coração, ferido e desacreditado, não se atrevia a sonhar que alguém lhe estenderia a mão naquele momento de necessidade.
As crescentes e aterradoras suposições sobre o abandono e o julgamento severo de suas irmãs a atormentavam profundamente. Se os seus pensamentos anteriores demonstravam que não se importaria com opiniões alheias, o seu coração dizia que ficaria destroçado se elas não a amassem mais. Nesse instante, as dúvidas a dominaram, como se fossem feitiços paralisantes. Como se dementadores estivessem a sua volta sugando a sua alma.
Por que o mundo parecia ser tão cruel e insensível com os sonhadores? E quanto a Andromeda? O que ela estaria pensando nesse momento? Narcissa sentia-se envergonhada de procurar a sua ajuda e relatar os acontecimentos. Tinha medo de que Rodolphus não a aceitasse em sua mansão, que a julgasse uma má influência à esposa e à filha, o que poderia abalar o casamento da irmã mais velha a quem jamais desejou mal. A verdade era que Narcissa se julgava um fardo na vida dos outros e não queria obrigar quem quer que fosse a suportá-la.
- Toujours pur... tudo pela Mui Antiga e Nobre Casa dos Black - Narcissa sussurrou o lema da família Black para si mesma, as palavras ecoando com um toque de amargura. Aquela vaidade, aquele orgulho desmedido, estava prestes a separar e destruir toda a família.
Os passos e os segundos se arrastavam lentamente, como se vagassem enquanto Narcissa mergulhava em suas reflexões sobre o que precisava resolver antes de desaparecer por alguns dias. Ela respirou fundo, acalmando suas ansiedades e organizando suas ideias. Era um processo fundamental para finalizar o ciclo e seguir em frente, para evitar que suas pernas se tornassem raízes em solo estranho.
- Jaiane, escute com atenção. Acho que deveríamos ir para Hogsmeade e nos esconder lá por enquanto. No Três Vassouras, sempre há quartos disponíveis para viajantes, e sinto que ali estaremos seguras. Madame Rosmerta não nos entregaria a Lucius... ela sempre se mostrou confiável em situações complexas como essa - disse, sua voz transmitindo determinação, mesmo que suas incertezas a atormentassem.
- Vai dar tudo certo, senhora Cissy! Quando a senhora conversar com o senhor Severus, ele saberá o que fazer e nos ajudará. Jaiane tem certeza de que ele nos dirá onde podemos morar. Ele é um bruxo decente - Jaiane respondeu com esperança em sua voz trêmula, abandonando todo o abalo que antes dominava o seu corpo por não ter estado ao lado de Narcissa quando ela mais precisava de ajuda.
- Assim espero... - Narcissa suspirou, seu olhar perdido no horizonte, sua voz carregada de tristeza e dúvida.
- No entanto, não quero criar grandes expectativas quanto a isso. Severus tem se mostrado muito enigmático e distante ultimamente. Eu o amo... mas às vezes me pergunto se esse sentimento é recíproco - suas palavras emergiram carregadas de uma angústia profunda e insondável, revelando as profundezas de sua alma ferida, que se refletiam de forma dolorosa em seu semblante completamente desanimado.
O tempo avançou impiedosamente, arrastando consigo o final de semana em uma corrida frenética. O inverno escocês continuava a exercer seu domínio, com a neve caindo de maneira despretensiosa, cobrindo tudo com seu manto branco e forçando todos a se curvar perante o frio intenso e cruel de janeiro. Parecia que o inverno não daria trégua, assim como os problemas que pairavam sobre eles, sem sinal de solução à vista.
Dentro dos muros de Hogwarts, a ansiedade e a amargura se espalhavam como um vírus, contaminando os corações de alguns. O ambiente estava mergulhado em sombras e melancolia, refletindo o tumulto emocional que todos enfrentavam. O vento gélido sussurrava segredos enquanto a neve acariciava as pedras, intensificando a sensação de desespero.
Regulus e Bellatrix avançavam pelos corredores com passos decididos e apressados, o som de seus pés contra as pedras ressoando pelo corredor. Enquanto caminhavam, discutiam acaloradamente sobre o que havia acontecido com Narcissa. Uma mistura de raiva e impotência ardia em seus corações, dilacerando suas almas e causando um sofrimento indescritível. Esse sentimento se intensificou ainda mais após a recepção das cartas de seus pais, que ordenavam que renegassem Narcissa e a esquecessem por completo.
- E então, conseguiu alguma informação? Valeu a pena gastar seu dinheiro? - Regulus perguntou, com uma expressão contrariada e nervosa.
- Como mencionei antes, querido, não obtive informações. Apenas desejo saber onde ela está para poder encontrá-la e assegurar que está tudo bem. Cissy precisa do nosso apoio, Reg... imagino que esteja sofrendo e se sentindo abandonada - respondeu Bellatrix, com um tom quase mecânico, seus olhos perdidos e desolados pelo corredor.
- Ontem, Sirius me fez a mesma pergunta, como se estivesse preocupado. Acredita nisso? Parece que ele finalmente percebeu que há algo mais importante do que se admirar no espelho o tempo todo - Regulus continuou, compartilhando suas impressões de forma vaga à medida que a situação se desenrolava.
- Idiota!
Bellatrix torceu o nariz ao passar por um grupo de pessoas e lançou um olhar de desdém para Regulus, soltando um bufar frustrado. Sentia-se irritada com tudo ao seu redor e parecia à beira de entrar em uma briga para afastar os pensamentos sombrios que a atormentavam. Seu maior medo era que Narcissa estivesse morta e que ela nunca mais a visse.
Em uma sociedade que seguia padrões vitorianos rigorosos de ética e conduta, como a que viviam, os chamados "crimes de honra" eram aceitos como normais e raramente eram levados a julgamento. Especialmente quando se tratava dos Sagrados Vinte e Oito, onde os homens se viam como donos da carne, alma e sangue de suas mulheres. Mães, esposas, noivas, namoradas, sobrinhas e filhas, todas elas eram consideradas propriedades, subjugadas a seguir obedientemente as ordens, sem o direito de se opor. Era chocante pensar que tais atrocidades nunca seriam modificadas, e vidas continuariam sendo destruídas de todas as formas possíveis.
- Meu pai e tia Druella estão brigando... há uma confusão na família, caso queiram saber. Os Rosier estão se opondo ao que os Black permitiram que acontecesse com Narcissa - Evan interrompeu a conversa, com a voz ofegante, alcançando os dois para compartilhar a notícia.
- Como soube disso? - Regulus perguntou, curioso e cético.
- Minha mãe me enviou uma coruja, e li a carta há pouco - Evan respondeu seriamente, determinado a agir diante da situação.
- Ótimo! Espero que o tio Jules tenha dado um soco na cara do meu pai para ver se ele recupera o juízo - Bellatrix comentou, lançando um olhar rápido.
- Seria bom demais para ser verdade se isso acontecesse... – Regulus sussurrou para si mesmo.
- Vocês percebem que isso é uma afronta, não é? - Evan questionou, com a voz irritada.
- Não importa quais mentiras Lucius tenha inventado... quando meu pai reconheceu Severus como seu filho, mesmo que ilegítimo, todas as alegações de que o sangue estava sendo manchado ou corrompido foram invalidadas! Não aceito que minha prima tenha sido banida sem uma justificativa decente.
- Ao evocar o demônio, ele aparece à nossa frente... olhem quem está brigando com uma xícara em nossa mesa - Bellatrix apontou na direção de Severus quando entraram no Salão Principal para o café da manhã.
Ao atravessarem a entrada do Salão Principal, os três foram imediatamente envolvidos pela atmosfera sombria e tensa que pairava ali. O grande salão estava repleto de alunos de todas as casas, como se todos compartilhassem o peso dos recentes acontecimentos. Não havia dúvidas de que os Malfoy haviam transformado o escândalo em manchete principal do Profeta Diário, dado os sussurros acusatórios e os olhares reprovadores que pairavam por toda parte.
À medida que se aproximavam da mesa da Sonserina, o burburinho das conversas se misturava ao tilintar dos talheres, criando uma sinfonia dissonante que refletia a turbulência emocional que todos enfrentavam naquele momento. Aproveitando que existiam alguns espaços vagos à mesa, Evan, sentou-se ao lado de Severus, compartilhando a notícia de forma séria antes de se servir de torradas e pegar um copo de suco.
- Nosso pai está prestes a ir ao Ministério da Magia para reivindicar seus direitos e amaldiçoar toda a família Malfoy, Severus... espero que ele dê uma surra no corrupto do Abraxas e no Lucius, aquele vagabundo ensebado - proferiu as palavras com firmeza, destacando a gravidade da situação que todos enfrentavam, sem esperar que Bellatrix e Regulus se ajeitassem no outro lado da mesa e acompanhassem a conversa de frente aos dois.
- Todos sabem que eu não sou filho de Rosier... mais cedo ou mais tarde, essa mentira teria sido revelada. O fato é que a verdade veio à tona e afetou uma inocente. Compreendem a gravidade dessa situação? É por minha causa que Cissy está sendo tratada como criminosa e foi expulsa de casa, Evan! Não deveria ter me aproximado dela e, muito menos, permitido que nos envolvêssemos tão profundamente - Severus declarou com um olhar desesperado e triste.
- Isso nunca nos importou... desde que entrou em nossas vidas, você sempre foi meu irmão, meu amigo. Eu invadiria aquele Ministério sujo e hipócrita para afirmar que seu sangue pertence aos Sagrados Vinte e Oito, seja pela linhagem Rosier ou Prince. Você não é um mestiço impuro, Severus! Você é um de nós, sem exceções ou impedimentos, sem motivo algum para negar - Evan enfatizou, olhando firmemente para Severus, quase com raiva pelas ideias que perpassavam por sua mente naquele instante.
- O Lorde das Trevas não aceitaria um general que não fosse digno ou que tivesse o sangue impuro, cunhado. Quanto a Cissy, não se martirize... ela te deu uma chance porque viu qualidades em você - Bellatrix acrescentou, dando de ombros em acordo com as palavras de Evan.
- Além disso, já soube que a tia Walburga não queimou o retrato da Cissy na tapeçaria, o que é um ótimo sinal.
- Isso, vindo da minha mãe, foi realmente surpreendente... ainda mais depois daquela carta que ela me enviou.
- Regulus, alguém já entrou em contato com aquele tio de vocês? - Severus desviou o assunto.
- Andromeda foi à casa do tio Alphard... ele está procurando por Cissy e pediu a Arthur Weasley que conversasse com alguns Aurores de confiança. Apenas aqueles que têm a confiança de Alastor Moody estão envolvidos na busca - respondeu, levantando-se com um pedaço de bolo na mão, pronto para sair. Entretanto, algo o fez dar meia volta para beber mais um copo de suco e prosseguir com o assunto:
- Aliás, quase me esqueci de um detalhe importante... os Marotos propuseram uma trégua até que Cissy seja encontrada.
- Quem exatamente sugeriu isso? - Severus perguntou, com uma expressão desconfiada e alerta.
- Lupin veio como porta-voz do grupo... Sirius é muito orgulhoso para admitir qualquer coisa publicamente. No entanto, acredito que ele esteja de acordo com a oferta que o amigo fez - Regulus explicou, limpando a boca na manga do uniforme antes de sair correndo para o treino de Quadribol.
- Porco... - Bellatrix murmurou, irritada com a atitude do primo.
- Eu aceito... no entanto, diga ao Lupin que Rabicho não participará das buscas. Isso é inegociável para que o acordo seja firmado! Não quero aquele rato rastreando Cissy e nem que eles comentem nada caso a localizem... ele não é confiável - Severus enfatizou, levantando-se também, sem conseguir comer direito.
- Perfeito! Vou encontrar aquele babaca do Potter, que provavelmente já está voltando com o pessoal da Grifinória, e passar a mensagem. Não sei se ele vai com os outros para Hogsmeade, mas eles sempre o esperam para conversar. Uma sugestão que tenho para vocês é ir ao Cabeça de Javali e procurar informações com Aberforth... ele parece sempre saber das coisas - Regulus concluiu, acenando para os três antes de se apressar.
- Até depois!
- Bella, antes que você termine de comer todo esse balde de cereais, poderia me responder se você tem algo que pertence a Cissy? - Severus perguntou, com uma expressão crítica, avaliando uma ideia que havia surgido.
- Sim... por quê? - Bellatrix indagou, interessada no questionamento, enquanto deixava a colher na tigela.
- Aquele idiota cheio de pulgas pode rastrear onde Cissy está. É a melhor ajuda que Black pode nos dar - Severus disse, tentando disfarçar a angústia que o consumia.
Os dias fluíram e, com a chegada do novo final de semana, a possibilidade de ir para Hogsmeade se tornou realidade. Apressado e cada vez mais inquieto, Severus se afastou de Bellatrix, Evan e Elizabeth. Seus pensamentos sombrios, intensificando-se progressivamente, o atormentavam e transformavam em possibilidades reais todos os cenários criados por sua imaginação. Seu espírito era puro desalento, desespero e desconsolo.
Contemplando o movimento das ruas de Hogsmeade, ele se via alheio a tudo, sua mente estava muito distante para perceber o que os outros faziam. Na verdade, ele identificava o quanto aqueles fatos o atordoavam intensamente, e seu coração doía. Presumia que eram consequências de suas faltas e de seu egoísmo... nada do que expusessem modificaria sua convicção de que todo o sofrimento de Narcissa era sua responsabilidade.
No mesmo instante, James e Remus debatiam firmemente sobre algo e entravam em algumas lojas. Evan e Elizabeth foram para as áreas mais afastadas, destinadas apenas às moradias de alguns habitantes do vilarejo. Sirius, por sua vez, seguiu a sugestão dada por Bellatrix... a que ela lhe garantira ser sua, para não dar margem a que houvesse uma negativa.
Se locomovendo entre os transeuntes, atento e tenso, não se daria por vencido até encontrá-la e cumprir a sua promessa. Aspirando os odores de tudo e de todos, o cachorro de pelagem preta e brilhante perambulava sem uma direção precisa. O que já lhe despertava uma forte apreensão... até que parou, inalando o cheiro de jasmim com rosas vindo em sua direção.
Ela estava a poucos metros de distância. Correndo e latindo alto, ele manifestava toda a sua animação, girando em torno do próprio corpo. Em questão de segundos, ele estava em frente a Narcissa, quase pulando de felicidade ao seu redor. Isso chamou a atenção dos demais, fazendo com que Remus e James optassem por não permanecer muito tempo ali, reconhecendo que se tratava de um momento íntimo ao qual não tinham direito de participar. Severus, por sua vez, preferiu assistir ao reencontro em silêncio, sem impor sua presença.
- Sai daqui, Sirius! Pare de escândalo... as pessoas estão olhando – ordenou, incomodada, empurrando o primo para que se afastasse.
- Ora, priminha... você quebra todas as regras, muda a cor do cabelo e ainda me enxota, como se eu fosse um nada? Acredite ou não, todos estavam extremamente perturbados com o seu sumiço! Você deve ser maluca para nos dar um susto como esse – enfatizou, arrogante, após retornar à sua forma normal, a encarando com um sorriso galanteador no rosto.
- Também, agora, eu posso garantir que me tornei o herói do dia – terminou a sua autocongratulação piscando para ela.
- A cada dia que passa, eu percebo que você nunca será capaz de se tornar alguém decente! Sirius, sinceramente, você é só um idiota presunçoso e muito mal-educado... agradeço o seu esforço, no entanto, isso não me obriga a permitir que se aproxime de mim. Eu não gosto de você – disse, com o tom ríspido e sério, o deixando confuso com sua atitude insultuosa.
- Era só o que me faltava... eu faço um favor e recebo, como gratidão, uma patada – Sirius alterou um pouco a voz, afrontando.
- Eu vou te dar um aviso... se você ousar levantar o tom comigo novamente, eu o amaldiçoo, e essa sua varinha pequena não voltará a fazer feitiços. Estamos entendidos? Ou deseja que eu seja mais clara? – Narcissa o ameaçou, semicerrando os olhos tiranicamente.
- Quanto a você, não vejo razões para que me diga o quanto eu a envergonhei e, muito menos, que eu sou uma maldita traidora de sangue... foi uma má ideia eu ter vindo para cá – salientou, dando as costas para partir, assim que avistou a irmã a olhando confusa.
- Eu não ia abandonar a minha irmãzinha perfeita... a que mais parece com uma boneca! – Bellatrix, sem pensar e um pouco assustada com a maneira dura e estranha que Narcissa agira, a abraçou o mais forte que pode.
- Se fosse a Andie... eu teria a chutado e cuspido nela! Porém, você ainda é muito doce e gentil para lidar com toda a minha crueldade. Mesmo que tenha deixado as trevas entrarem na sua vida, eu não deixarei de enxergá-la como a princesinha loira da nossa família – sussurrou, a apertando mais forte, para que não fugisse.
- O que você quer, Bella? Sei o quanto é terrível e nem um pouco amável, o que me leva a desconfiar da sua conduta... a não ser que esteja querendo bancar a rebelde ou se ache doente – falou, dando um meio sorriso, se virando para retribuir o gesto carinhoso.
- Eu me esforço para ser horrível... prometo me transformar em alguém muito pior no futuro. Porém, eu amo você, ingrata! E espero que reconheça que eu estou sendo uma ótima irmã, e espero receber a merecida recompensa. Depois, pode contar à Andie que eu a chamei de vadia – riu, se distanciando um pouco para olhá-la nos olhos.
- Como ela está? – Narcissa a questionou incerta.
- Apreensiva e triste desde que você desapareceu... a Andie e o Rodolphus reviraram os vilarejos bruxos e algumas cidades tentando descobrir onde você havia se escondido. Chegamos a pensar que estivesse morta – Bellatrix respirou fundo, ao comentar essa última parte, bloqueando as lágrimas que surgiram.
- Eu sinto muito... não esperava que vocês sofressem. Sendo bastante franca, eu cogitei que fossem me desprezar na primeira chance que surgisse – confessou com uma expressão comovida.
- Bom, eu vou passear com o Sirius um pouco, antes de retornarmos para Hogwarts. Vamos mandar uma coruja avisando a Andie que a encontramos... acredito que o obrigarei a expor os garranchos dele para relatar, ao tio Alphard, que você está bem e segura – disse, abrindo um grande sorriso atrevido e cheio de intenções não reveladas, olhando em direção ao primo que assentiu.
- Até!
Sem dar tempo de resposta para Narcissa, Bellatrix saiu o puxando pelo braço, com uma certa pressa. Seu coração se mostrava leve e tranquilo, diante da constatação de que a irmã se encontrava sã e salva, o que lhe possibilitava pôr em prática outros planos. Aproveitaria, igualmente, para tirar a expressão sisuda que ele expunha após ser enxotado. De qualquer modo, o dia seria muito curto para apaziguar todas as suas vontades... principalmente quando as horas pareciam voar.
A partida dos dois era a ocasião oportuna que Severus aguardava. Finalmente, poderia conversar com Narcissa, calmamente, a sós. Ansiava tanto por evidenciar a totalidade dos seus sentimentos e pensamentos com relação aos fatos. O problema era que as palavras lhe faltavam... jamais fora bom em expressar as suas emoções, abertamente, sem parecer confuso e obscuro.
- Cissy? – a chamou após verificar que Sirius e Bellatrix já se achavam afastados.
- É bom te ver novamente, Sevie... eu achei que tivesse me abandonado. Pela primeira vez, eu senti o medo genuíno de morrer sozinha e foi terrível, sabe? Ninguém tentou me socorrer e eu só me deparei com a maldade nos olhares dos outros – expôs o seu abatimento, encarando para os próprios pés.
- De modo algum eu seria capaz de uma atrocidade como essa, Narcissa! Como pôde imaginar que eu pudesse a desamparar? Especialmente, em um momento como esse, quando está carecendo da minha presença e auxílio – declarou um pouco ofendido com tal julgamento e, engolindo o próprio orgulho e a sensação de agravo que o oprimia, Severus se inclinou para frente para abraçá-la gentilmente.
- Eu fui avisado do que aquele covarde lhe fez... e eu peço perdão por ter sido o responsável pelo seu sofrimento. Eu não desejava ser o causador de tanto mal à sua vida.
- Sevie? Você não tem culpa... quem me fez perder o emprego e, acima de tudo, ser rechaçada pelos meus pais, foi o Lucius – confessou, se abalando com aquelas lembranças.
- Seus pais e seus tios se mostraram fanáticos e desequilibrados. No que se refere àquele trabalho... ele não era importante, Cissy! As fórmulas são suas e, onde quer que esteja, você será fantástica nas suas criações. Foram aqueles idiotas que perderam ao lhe demitir... eu li aqueles contratos e, você, não disponibilizou os seus procedimentos e métodos a eles – expôs, analisando todas as probabilidades e perspectivas quanto ao tema.
- Eu vou te proteger e amparar... eu não faço a menor ideia de como vamos iniciar o nosso ofício ou em que lugar, contudo, eu estarei ao seu lado – assegurou, levantando o queixo dela com delicadeza, a fazendo sorrir.
- Eu te amo – Narcissa se pôs na ponta dos pés para beijá-lo, levemente, nos lábios.
- Eu também te amo, flor de Narciso perfeita! Não esqueça do quanto é inteligente, sagaz e sábia... não há nada no mundo que a impeça de conseguir o que almeja – falou, com um semblante incentivador, acariciando o seu rosto.
- Agora, me diga, onde está hospedada? – perguntou com a voz séria e tensa.
- No Três Vassouras, acompanhada pela Jaiane... – explicou, sendo interrompida por ele, que começara a se encaminhar em direção ao bar, segurando a sua mão firmemente.
- Você virá para Hogwarts comigo... até que tudo se resolva e eu consiga a autorização necessária para levá-la para casa – prosseguiu, evidenciando as suas ideias, entrelaçando os seus dedos nos dela.
- E o professor Slughorn? Também tem o diretor e... Severus, há muitas pessoas que devem autorizar a minha presença dentro da escola – Narcissa argumentava preocupada e temerosa.
- Dumbledore sempre declara, aos quatro ventos, que aquela bosta de colégio está de portas abertas a quem precisa! Você necessita de abrigo nesse instante e não é nenhuma estranha ou psicopata – contestou decidido, observando o olhar contrariado e desconfiança que ela lhe destinava.
- Você está sendo muito dramático – sorriu, dando um leve tapa no braço de Severus, sentindo-se feliz.
Enquanto arrumavam cuidadosamente os pertences que estavam espalhados pelo quarto, eles verificavam cada detalhe, certificando-se de que nada tivesse sido esquecido. Era hora de Narcissa partir novamente e seguir com sua vida. Com novas perspectivas e esperanças, seu coração se enchia de felicidade ao perceber que uma jornada tranquila se delineava em seu horizonte. O quarto, com suas paredes decoradas com lembranças de seus momentos juntos, parecia mais aconchegante do que nunca.
Começando por Severus, que com um gesto cavalheiresco, insistiu em pagar pelas diárias do hotel. Gastando todo o dinheiro que economizara durante meses, ele se sentia realizado por ser capaz de fazer algo para garantir o bem-estar dela. Seus olhos demonstravam uma mistura de amor e preocupação. Ele a amava, e isso era mais do que suficiente para protegê-la e evitar que gastasse um galeão sequer. Ele a via como sua responsabilidade e seu maior compromisso.
À medida que caminhavam pela trilha na neve, parando de vez em quando para ajudar Jaiane com suas botinhas, conversavam sobre amenidades e deixavam o tempo passar vagarosamente. A paisagem ao redor era de tirar o fôlego, com a neve cobrindo as árvores e os telhados das casas. Não tinham pressa para descobrir as novidades que encontrariam ao atravessar os portões de Hogwarts. Quanto a isso, seus corações batiam nervosamente, ansiosos pelo que estava por vir.
Será que autorizariam a presença de Narcissa na escola? Essa era a dúvida que os acompanhava quando entraram, dirigindo-se à sala de Slughorn sem se preocupar em informar aos outros. Ambos buscavam o apoio e o consentimento que tanto necessitavam ao discutir o assunto com Dumbledore e McGonagall. Precisavam das garantias que apenas o diretor da Sonserina poderia oferecer naquele momento.
Explicando o que acontecera e o quão grande seria seu auxílio, Severus continuava com a mão entrelaçada à dela, como se nada pudesse separá-los daquele dia em diante. Aguardaram ansiosamente enquanto o professor refletia sobre o que poderia fazer, seus olhares refletindo angústia e esperança. Até que o silêncio foi quebrado.
- Sua presença será muito útil, senhorita Black! Eu estava adiando uma viagem urgente por não ter quem pudesse substituir minhas aulas com as turmas dos primeiros anos... gostaria de poder contar com o senhor Severus, mas ele deve se concentrar apenas nos NIEMs que se aproximam. Agora, tenho a chance de partir para obter alguns ingredientes raros para as poções - ponderou os detalhes de sua decisão com um olhar pensativo, ao mesmo tempo em que falava.
- Muito obrigada, professor! O senhor sempre foi muito gentil comigo. Prometo que não vou decepcioná-lo e farei o meu melhor com essas turmas - sorriu, agradecida pela oportunidade que lhe foi oferecida.
- Falarei com Dumbledore sobre isso. Não se preocupem com esse pequeno detalhe, pois eu vou resolver tudo. Enquanto isso, a senhorita pode se acomodar no dormitório feminino do sétimo ano, junto com sua irmã. Tenho certeza de que ela ficará muito feliz em saber que terá a sua companhia durante esses dias - disse ele, encerrando o assunto com um olhar oblíquo para os dois.
Assentindo seriamente, eles deixaram a sala e caminharam pelos corredores com passos um pouco apressados. Jaiane já havia ido procurar Regulus para anunciar a vinda de Narcissa à escola, e tudo parecia estar bem.
Sem esconderem seus olhares satisfeitos, Severus a abraçava, sem medo de demonstrar o carinho que sentia. Não viam motivo para se esconderem dos olhares dos colegas. Finalmente, estavam experimentando a sensação de serem livres para vivenciar as emoções e o amor que compartilhavam.
- Se quiser, após esta semana, você poderá morar na minha casa. Eu sei que Spinner's End é um lugar horrível e que nunca estará à altura de você..., mas é o que posso lhe oferecer no momento. Ninguém entra lá sem a minha permissão, o que garantirá sua segurança o tempo todo - explicou, ansioso pela resposta dela.
- Antes que você me conteste, gostaria de ressaltar uma condição: peço que não ande sozinha pelas ruas. Aquelas pessoas são hostis e perigosas em vários aspectos, o que me faz enfatizar o quanto gostaria que você utilizasse a lareira para se deslocar para onde quiser - prosseguiu, um pouco inseguro ao impor uma condição restritiva.
- Eu adoraria morar lá e entendo completamente sua preocupação com minha segurança. Você sempre será meu príncipe cuidadoso e amável, mesmo que insista em negar - Narcissa sorriu para ele, com um brilho intenso e profundo nos olhos.
A semana passou depressa, como se o tempo quisesse antecipar os sucessos mais importantes que estavam por vir. Entre as aulas, novos estudos na biblioteca, abraços calorosos e notícias excelentes, Severus finalmente recebeu a autorização para levar Narcissa para casa. Utilizando a lareira na sala do diretor, eles adentraram sua residência, transbordando euforia e satisfação pelo que tinham conquistado.
As boas novas aguardavam ansiosamente por eles assim que terminaram de organizar as malas e caixas, quando ouviram batidas na porta da frente. Após alguns momentos de apreensão sobre a identidade do visitante, foram recebidos por Andromeda e Alphard, que se mostravam ansiosos para oferecer auxílio financeiro. Era exatamente o que eles precisavam para dar os primeiros passos em suas novas jornadas.
Narcissa dedicava-se com calma e segurança à produção dos cosméticos, ocasionalmente visitando o tio para compartilhar como estava enfrentando a vida. Distribuindo amostras em algumas boticas e perfumarias do Beco Diagonal e Hogsmeade, não demorou muito para que as encomendas começassem a surgir, mesmo em quantidades modestas. Esse progresso enchia seu coração de alegria, pois representava um começo sólido para alcançar seu sonho.
Em pouco tempo, Alphard comprou toda a produção da Parfumerie Belles Sorcières, assumindo os custos de fabricação e proporcionando a Narcissa a oportunidade de atender um número maior de pedidos. Essa iniciativa abriu portas para uma ideia ainda mais interessante, que, sem dúvida, teria um futuro brilhante: a abertura de sua própria loja para comercializar seus produtos.
"Querido tio Alphard,
Espero que esteja bem. Queria compartilhar como tem sido agitado nas últimas semanas com o aumento das demandas e minha intensa produção de cosméticos em casa. É algo que me traz uma felicidade inesperada. Daqui a dois meses, Severus estará se formando e começará seu estágio com o senhor Nicolas Flamel, um homem gentil e prestativo que nos ofereceu um lugar para morar juntos.
Acredito que em breve nos casaremos e construiremos uma família maravilhosa! Só de pensar nisso, sinto-me emocionada e radiante. Você será parte dessa família, e os futuros bebês o chamarão de avô. Nossa vida promete ser verdadeiramente extraordinária! No entanto, não é sobre meus sonhos matrimoniais que gostaria de falar, tio.
Recentemente, tenho refletido sobre a possibilidade de abrir uma loja e contratar pelo menos duas pessoas para me auxiliar na fabricação dos cosméticos. Acredito que, inicialmente, poderíamos até expandir para a venda de poções básicas. O que pensa sobre essa ideia?
Um abraço carinhoso de sua sobrinha,
Narcissa".
Não demorou muito para que a resposta chegasse. Alphard veio pessoalmente buscá-la para acompanhá-la na busca da casa ideal para montar o estabelecimento. Com cuidado, Narcissa percorria as ruas ao lado do tio, com um olhar atento e criterioso. Após uma semana de visitas a diversos vilarejos bruxos, sem que nada fosse resolvido, decidiram explorar a área que dividia o centro comercial e a parte residencial de Hogsmeade.
- Aqui será perfeito! Eu, simplesmente, adorei... – exclamou Narcissa ao avistar uma casa de dois andares, construída com tijolos, um pouco mais afastada das demais.
- Você não preferiria Ottery St. Catchpole, Falmouth, Caerphilly, Lancashire ou Little Whinging? Eu sei que sonha em morar em uma Victorian House, no Tufnell Park. A última não seria mais adequada do que aqui? A menos que tenha mudado de ideia e pretenda residir neste vilarejo – questionou Alphard, um tanto receoso quanto à resposta.
- Não abandonei o meu sonho, só estou pensando em começar em uma região em que terei movimento constante na loja. Além disso, veja... há um lago próximo e é possível ver as montanhas – ela comentou, apontando para a paisagem que se estendia atrás da casa.
- Então, vamos examinar o interior para que eu possa observar as reformas necessárias. Se continuar convicta de que é isso que deseja, entrarei em contato com os proprietários para fechar a compra – disse Alphard, dando-lhe passagem para entrar na residência.
Analisando todos os cômodos com atenção, Narcissa já imaginava como poderia aproveitar o revestimento de madeira no andar inferior para dar um toque especial à loja. Ali, haveria uma porta simples que dividiria a área de atendimento da área de produção dos cosméticos. Um balcão de mármore preto, cercado por plantas aromáticas e uma grande estante com essências... pequenas mesas e cadeiras para que os clientes se sentissem confortáveis ao fazer encomendas e experimentar fragrâncias.
Nos fundos, ficariam os ingredientes, com a separação entre aqueles que podiam ficar em temperatura ambiente e os que necessitavam de climas mais frios, possibilitada pela escadaria que conduzia ao andar superior. Definitivamente, era um lugar dos sonhos onde realizaria seus projetos.
- É aqui, sim, tio! A B Elixires será um sucesso... eu estou convicta disso – afirmou Narcissa confiante nos conceitos que havia criado em sua mente.
Por meses ininterruptos, Narcissa se dividiu entre o Spinner's End e Hogsmeade, contando apenas com a ajuda de Severus nos finais de semana. Era cansativo, mas nada a impedia de prosseguir. Faltava muito pouco, especialmente quando já possuía as certificações necessárias para o funcionamento pleno. Tudo dependia agora de trabalho árduo para que tudo desse certo.
Em um dos sábados de maio, Narcissa chegou muito cedo à loja, observando quando Severus entrou acompanhado por Remus e Virgínia. Ele indicou a ambos o que deveriam fazer, enquanto dobrava as mangas da camisa para começar suas próprias tarefas. Organizando frascos delicados para poções, arrumando caldeirões de todos os tamanhos e pesos, colocando as plantas em ordem lógica de nomes e aromas, cada um se dedicava aos mínimos detalhes.
- Acredito que você tenha encontrado os funcionários que tanto procurava, amor – Narcissa comentou, abraçando Severus pela cintura e apontando para os outros que ainda trabalhavam.
- Sabia que minha sugestão teria algum efeito... – respondeu ele com um sorriso orgulhoso.
