Curiosamente, após esses eventos, os dias, as horas, os minutos e os segundos romperam as barreiras do tempo como num piscar de olhos. Não havia qualquer explicação lógica para a intensidade e urgência dos fatos. Como folhas ao vento, uma sucessão de questões e temas importantes se acumulava como poeira pelos cantos. Quem sabe, isso possibilitaria a organização dos pensamentos e a clareza que buscavam? Talvez o enfrentamento dos momentos difíceis os obrigasse a atingir o amadurecimento irrevogável. Era hora de crescer e deixar o ninho para sempre.
Em meio a esses turbilhões de sentimentos e dúvidas desordenadas, junho chegou sorrateiramente, sem aviso ou revelação de suas intenções. O ano letivo chegava ao fim, uma etapa da vida se encerrava, envolta pelos ares ainda primaveris e doces. Nos terrenos de Hogwarts, a brisa morna carregava sabores e aromas, seduzindo corações ansiosos e sonhadores cheios de esperança.
As boas vibrações e promessas representadas pelo amarelo e branco dos narcisos deveriam ser um sinal de recomeço. Alunos perambulavam pelos pátios, espalhando-se pelos gramados e mergulhando os pés no lago, em um clima de aparente paz e tranquilidade.
Nesse ambiente, expectativas não reveladas, ilusões secretas, sonhos distantes e, talvez, a proximidade de um futuro promissor se assemelhavam a um raio de sol iluminando o horizonte de muitos. Eram os primeiros sinais de que as portas de entrada para as longas estradas do porvir se haviam aberto.
Como não considerar boas notícias e um mundo maravilhoso quando o verão ostentava um sol portentoso e atraente? Um calor aconchegante acariciava os rostos e transformava o clima de muitas formas inexplicáveis. A iluminação radiante enchia os corações ávidos de ânimo e coragem. Tudo representava a beleza dos instantes finais, as experiências mais calorosas e intrigantes, as liberdades antes desconhecidas e as memórias que se formavam através do toque nostálgico de cada situação.
A estranha completude do advento da idade adulta e das responsabilidades já se aproximava de muitos, e definitivamente, não se revelava fácil ou dócil. O mundo dava sinais de que bateria sem piedade naqueles tidos como mais fracos. O caminho tortuoso expunha buracos e vendavais, tristezas e decepções.
Por outro lado, alguns recebiam o privilégio de trilhar um caminho mais fácil e cheio de grandiosidade. Um trajeto calmo, sereno, amoroso e sem obstáculos - um universo de possibilidades e prazeres inenarráveis quando tudo lhes era sempre oferecido e nunca cobrado.
Para Severus, aquela fase de sua existência significava um reinício. Acima de qualquer coisa, receberia o impulso necessário para que sua nova vida começasse e seus projetos pudessem, finalmente, ser realizados. Quem sabe estava próximo de se tornar o único mestre e senhor da própria existência? Quem sabe, ali estava a tão aguardada chance de reestruturar os laços desfeitos com a mãe e seguir em frente?
Mesmo que não admitisse, ele sentia falta de Eileen e idealizava que talvez ela fosse capaz de perdoá-lo. Porém, ele não se permitiria encher o coração com esperanças e suposições agradáveis. Sabia que qualquer resolução viria através de um processo lento, doloroso e gradual. Especialmente após toda a confusão envolvendo seu nome e o de Narcissa, conforme Regulus havia relatado.
Para Eileen, aquilo era mais uma comprovação de que a conduta do filho era reprovável e absurda. Na sua perspectiva, Severus jamais deixaria de ser um verdadeiro canalha e irresponsável - alguém desprezível, intratável e oportunista, que se aproveitava da boa fé de outras pessoas para obter benefícios e usufruir de seus corpos ao seu bel-prazer. Isso a levava a garantir, com segurança, que sua decisão era irremediável.
Incomodado e deprimido, Severus mexeu nos cabelos algumas vezes, empurrando-os para trás, numa fraca tentativa de prendê-los em um nó. Aquelas opiniões, vindas de quem deveria amá-lo e apoiá-lo, o abalavam.
Ao contrário do que sua mãe argumentava, para Severus, aquele era um assunto de extrema relevância. Se não o afetasse, estaria livre da inquietação e das noites insones passadas meditando sobre seu modo de proceder com as pessoas que o cercavam. Em especial, com Narcissa, a quem ele cada vez mais devotava um carinho imenso e inexplicável. Sua incapacidade de demonstrar claramente seu afeto e suas constantes incertezas o atormentavam. O que fazer quando seus medos bloqueavam a clareza de seus pensamentos?
Uma sensação de intenso vazio o dominou. Desnorteado, passava seus dias tenso, com a angústia corroendo seus nervos e sua sanidade. Ao ponderar como resolver tamanho dilema da melhor forma, suas conjecturas o levavam para terrenos obscuros e pantanosos de sua mente, onde suas maiores fraquezas se escondiam. Deveria ou não assumir um compromisso sério com sua poderosa e única flor? Era efetivamente livre para evidenciar suas vontades e intenções, ou seria obrigado a renegar seu amor para cumprir uma imposição?
Sacudindo a cabeça para afastar algumas opiniões enigmáticas e preocupantes, Severus deu um meio sorriso cansado. Espantaria os sonhos e os maus pensamentos, voltando a exibir sua carranca habitual. Preferia impor medo aos curiosos do que dar espaço para que pudessem observar os leves traços de felicidade em seus olhos. Suas fantasias relacionadas a Narcissa e seus planos futuros eram apenas suas para serem compartilhadas com os demais.
Além disso, inúmeras adversidades sempre pareciam transformar o mundo em um inferno cotidiano. Possivelmente, sua essência era moldada na eterna e trágica batalha entre luz e sombras, uma luta que o acompanhava desde o nascimento como um predador obstinado.
A verdade é que ele sempre havia sido malicioso e maligno desde o nascimento, sem necessidade de grandes incentivos para seguir o caminho das trevas e se entregar aos demônios e às suas perversidades. Era como se o espectro de Tobias o perseguisse, sussurrando em seus ouvidos, orientando-o em direção à condenação. Talvez ele nunca tenha sido tão diferente daquele homem a quem tanto odiava. Talvez, ao matar Tobias, tenha tentado extirpar uma parte nociva de sua própria alma. Talvez, tenha feito isso para sentir uma realização pessoal e ter a convicção de que sempre foi daquele jeito e nunca mudaria.
Açoitando seu espírito, roubando seu ânimo, destroçando sua imaginação e deixando apenas os rasgos de desapontamentos intermináveis, a culpa pesava sobre seus ombros. Ao contrário do que outros assimilavam a seu respeito, ele sentia remorso e arrependimento por muitas de suas transgressões. Era muito mais humano do que gostaria ou deveria ser se fosse prudente.
Severus não suportava mais ter de sufocar seus demônios internos constantemente, sem ter as respostas que buscava. Seus amigos diabretes se tornavam gradualmente mais dominadores e determinados no propósito de comandar seu corpo e sua mente. Eles já não eram seus guardiões secretos e conselheiros leais. Lamentavelmente, haviam rompido os laços de amizade que os uniram ao longo dos anos e decidido agir por conta própria.
- "Hermes Cilênio convocou os espectros de heróis, os pretendentes. Empunhava o belo bastão de ouro que enfeitiça os olhos dos homens e desperta os adormecidos a seu talante. O bastão move a tropa. Os espectros marcham rechinantes" – recitava baixinho, para si mesmo, os versos que descreviam o destino animalesco reservado às almas, conforme narrados por Homero na "Odisseia".
- "Pareciam morcegos que pendem em penca nas cavidades sagradas de uma gruta; se um se desprende despencam da rocha os demais, esvoaçantes chiam. Chiante assim segue a revoada dos espectros o comando do benfeitor por tétricos caminhos. Além da corrente do Oceano e da Rocha de Leucas, passam pelas portas de Hélio e da cidade dos Sonhos. Rumam, sem tardar, às campinas dos asfódelos, morada das sombras, os espectros dos que dormem".
A cada passo, Severus caminhava pelos corredores do castelo, imerso em pensamentos e crescentes suspeitas. As frases ainda ecoavam em sua mente e se refletiam em sua expressão, cuidadosamente disfarçada, ocultando um temor latente de que a felicidade que havia experimentado recentemente fosse efêmera, desaparecendo quando menos esperasse. Ele estava ciente de que os momentos de paz eram como frágeis bolhas de sabão prestes a estourar.
A convicção de que Sirius tramava nos bastidores e arquitetava uma nova vingança pairava sobre sua cabeça como uma nuvem sombria. Não era porque o temesse ou receasse que algum dos Marotos estivesse entediado e tentasse assassiná-lo para passar o tempo. A preocupação residia no fato de que estava plenamente consciente de que seu principal adversário não mediria esforços para cumprir sua promessa, valendo-se de artifícios obscuros e do manto de proteção que o sobrenome Black e o sangue puro lhe proporcionavam. Além disso, a própria gangue de Sirius e, acima de tudo, Dumbledore, provavelmente o protegeriam quando chegasse o momento de colocar seus planos em prática.
O fim da trégua coincidiu com a localização de Narcissa, conforme acordado entre os dois lados. O silêncio que antes era preenchido pelos Marotos, espalhando maldades pelos corredores da escola, agora servia apenas para acentuar as questões cruciais que envolviam essa guerra pessoal. Essa batalha já se estendia por meses, deixando Severus inquieto e sob constante pressão diante do que o futuro poderia reservar.
As noites sem sono, por conta de seus pensamentos sobre Narcissa, se acumulavam e se somavam enquanto ele refletia sobre como proteger a si mesmo e, ao mesmo tempo, manter sua integridade. Severus sabia que era hora de pensar estrategicamente e explorar todas as possibilidades relacionadas a esse conflito que o afetava profundamente. Estava mais do que consciente de que não estava lidando com qualquer adversário. Ali estava um inimigo que, verdadeiramente, era digno de reflexão, pois nunca deixava de cumprir promessas e ameaças.
A verdade era que tanto ele quanto Sirius eram detentores de personalidades extremamente rancorosas, orgulhosas e violentas demais para deixar uma rixa de lado. Nutriam um ódio em estado puro e se alimentavam do veneno que um proporcionava ao outro a cada encontro, fosse nos corredores, fosse em sala de aula. Isso tornava a ideia de abandonar completamente a batalha que travavam, sem que houvesse um vencedor, impensável. Era algo quase desonroso para ambos os lados, principalmente quando se assemelhavam como faces de uma mesma moeda. Prefeririam a morte mil vezes a admitir fraquezas e desculpar-se pelos contínuos confrontos, sem motivo aparente, seja em palavras ou ações.
Quando e onde essa adversidade seria resolvida eram questões que pareciam insignificantes. A situação havia escapado de seu controle, seguindo seu próprio curso, o que o perturbava profundamente. Não gostava de perder o controle das situações, especialmente quando estas caíam nas mãos de pessoas que ele odiava profundamente e só conseguia desejar o mal.
Enquanto Severus refletia sobre como solucionar esse impasse, sua mente fervilhava de novos e renovados pensamentos.
- A culpa é toda daquele maldito cachorro chorão, sarnento e vagabundo! Se não fosse por ele, minha vida seria perfeita, e eu não estaria aqui me preocupando com bobagens... – pensava alto, deixando transparecer a amargura que sentia, enquanto rangia os dentes.
- E pensar que, se tudo der errado para ele, o imbecil sairá correndo com o rabo entre as pernas para chorar na barra da saia da mamãe. Babaca!
À medida que sua revolta crescia, Severus se tornava mais inquieto, sua apreensão quase palpável.
Considerava formas de se livrar da pessoa que tanto odiava. Talvez, Sirius fosse a única pessoa capaz de rivalizar com o Lorde das Trevas e Lucius em sua escala de aversão. James sequer merecia ser mencionado; para Severus, ele já estava condenado à morte, e seu desaparecimento junto com a futura esposa não faria diferença alguma. Na realidade, seria até mesmo um livramento de pessoas que só vieram ao mundo para ocupar espaço que, por direito, deveria pertencer a outros muito mais capazes e úteis à humanidade. No entanto, ele não queria avaliar essa estranha proporção.
Todos, aos seus olhos, eram porcos, maus-caracteres e hipócritas. Talvez Lupin fosse o menos execrável do bando e só tivesse o peso de ser considerado omisso e falho. Entretanto, isso realmente não importava muito. Severus simplesmente dava de ombros, absorto em seus pensamentos, considerando seriamente a possibilidade de assassinar Sirius e por um fim no inferno que ele transformara a sua vida.
Isso foi o suficiente para que um sorriso sádico passasse a brincar em seus lábios, alimentando uma sensação de prazer insano diante dessa ideia que lhe escurecia ainda mais os olhos. Seria ótimo fazer isso. No entanto, ele sabia que eliminar Sirius não seria tão simples quanto parecia. Uma série de eventos inevitáveis deveriam ocorrer antes de concretizar tal feito.
Além disso, havia outro dilema a ser resolvido. A simples morte daquele a quem considerava seu inimigo não lhe proporcionaria a satisfação completa que almejava encontrar. Era muito pouco. Severus sabia que era fundamental sentir prazer e aproveitar cada momento, fazer com que Sirius sofresse e implorasse pela própria morte, para que o homicídio realmente valesse a pena. Isso lhe fora ensinado incansavelmente e se mostrado algo comprovado em sua pequena experiência recente.
Bufando com frustração diante da impossibilidade iminente, Severus percebeu que teria que reavaliar todas as suas teorias e premissas antes de encontrar as explicações e resultados que tanto buscava. Conjunturas, cenários e possibilidades não eram elementos simples e suficientes, assim como suas crescentes dúvidas sobre o assunto não seriam resolvidas com argumentos frágeis e soluções simplistas.
Na segunda semana de junho, as provas do NIEMs se tornaram o centro de todas as conversas, discussões e preocupações na escola de Hogwarts. Os gramados antes lotados estavam vazios, deixando espaço apenas para a leve brisa que vagava sossegadamente balançando a copa das arvores da Floresta Proibida e do Salgueiro Lutador.
Os alunos estavam ansiosos, e a pressão era palpável, manifestando-se em crises nervosas, desmaios inexplicáveis e gritos nos corredores, além de noites de sono perturbadas por pesadelos e insônia. Os horários de descanso foram sacrificados, as visitas à biblioteca se tornaram frequentes e, para alguns, tudo isso não parecia ser suficiente. As cores vibrantes das casas de Hogwarts enchiam os corredores, com suas flâmulas tremulando como em uma final de Quadribol.
Os sétimos anos, em seus uniformes impecáveis, destacavam-se, exibindo orgulho e superioridade, mesmo nos momentos mais tensos e desesperados. Nem mesmo o monitor-chefe escapava da arrogância e da pequena insolência que atingiam a todos. Eles não estavam dispostos a abrir mão dos privilégios de seus últimos dias na escola. Por mais desafiadores que fossem, isso frequentemente os levava a menosprezar os alunos mais jovens e demonstrar sua superioridade. Isso acontecia devido ao fato de que faziam questão de demonstrar constantemente o quanto tinham o direito de participar de um amplo leque de atividades acadêmicas e sociais em comparação aos outros.
Os Salões Comunais de Sonserina, Grifinória, Corvinal e Lufa-Lufa estavam em um estado de completo caos. Grupos de adolescentes se reuniam em um turbilhão de emoções, alguns chorando descontroladamente, outros berrando como alucinados e todos parecendo perder o controle de seus hormônios em ebulição. Eles se aglomeravam ansiosos por informações detalhadas e respostas, enchendo os diretores de perguntas incessantes. Nessa confusão, alguns chegavam até a ter fortíssimas crises de ansiedade, sendo conduzidos à enfermaria devido a ataques de pânico, vômitos ou quedas de pressão sem precedentes.
Era evidente que eles ansiavam por explicações abrangentes sobre os procedimentos das provas finais, a cerimônia de formatura, o número de convidados permitidos na escola, os menus dos jantares e todas as celebrações merecidas. Além disso, as pressões exteriores começavam a pesar sobre seus ombros, tornando aquela semana um verdadeiro caos em múltiplos níveis, onde encontrar um refúgio para a tranquilidade parecia uma tarefa impossível.
No Salão Principal, as manhãs se transformaram em um cenário de agitação absoluta. Um número incontável de corujas voava por todos os lados - algumas solitárias e outras trabalhando em grupo -, trazendo cartas de familiares e pacotes volumosos. Jarras de leite eram estouradas, vasilhas de cereal voavam ao chão, torradas eram levadas pelas aves... fazendo com que o ambiente se enchesse de um frenesi de conversas e pios estridentes.
O som das asas batendo e dos pios preenchia o ar, enquanto o cheiro de comida derramada misturava-se com o aroma dos pergaminhos abertos, dando ao ambiente um aspecto de alegre caos. Caixas eram abertas, espalhando papéis sobre as mesas e sujando o chão. Algumas corujas pareciam participar das conversas, permanecendo ao lado dos seus donos e dando algumas leves bicadas carinhosas em suas orelhas; outras, voavam imediatamente após as entregas feitas para obterem o merecido descanso.
Um olhar mais atento revelava que aquele clima de felicidade era facilmente explicado. Juntamente com as notícias, vinham roupas de todos os tipos e tamanhos, acompanhadas de ofertas de emprego e propostas de casamento. Os rostos dos alunos exibiam expressões de surpresa e excitação, e as conversas animadas se misturavam à desordem, enquanto gestos frenéticos tentavam desembrulhar os últimos pacotes e encontrar as preciosas correspondências ainda intocadas em meio a tantas outras.
Em resumo, para aqueles que sonhavam com alguns segundos de paz e sossego durante o desjejum, encontrar tranquilidade era simplesmente impossível em meio àquela anarquia generalizada. Mesmo inconformados, compreendiam que isso acontecia devido à organização dos últimos detalhes e às decisões já tomadas. Em breve, o ato de passar a pena sobre o grosso pergaminho, burocrático e impessoal, selaria o destino de muitos, sem chance de retorno para aqueles que se arrependessem depois.
Naquele mesmo dia, naquele mesmo momento, o destino de Severus também estava lançado. Com suas fraquezas e virtudes à mercê dos deuses olimpianos, os dados de sua existência seriam lançados, e a roda da fortuna decidiria se ele teria a oportunidade de retomar o controle sobre sua própria vida.
Severus estava isolado de todos, perdido em um canto afastado da biblioteca, após receber um traje a rigor enviado por Jules Rosier com as felicitações pela formatura que se aproximava e as cartas de Andromeda e Narcissa, anunciando que planejavam fazer uma pequena festa para ele. Lendo de forma compulsiva os livros empilhados à sua frente e anotando as referências que considerava mais relevantes, ele acabou por perder completamente a noção do tempo, esquecendo-se tanto do horário do almoço quanto do jantar, sem qualquer surpresa.
A noite chegou despercebida, enquanto ele ainda pensava sobre a prova de Runas que fizera pela manhã, e a Lua Cheia brilhava no céu escuro, como um farol rompendo a escuridão. Madame Pince expulsava os últimos alunos que ainda insistiam em permanecer na biblioteca, para se recolherem e descansarem antes de fechar completamente as portas.
A luminosidade refletida nos corredores era uma visão majestosa, lembrando a perfeita projeção de uma deusa da noite. Ela oferecia momentos de felicidade a quem a admirasse, sem julgamento ou medo, como se mascarasse a dura realidade e quebrasse ilusões.
A madrugada prometia ser clara, rara e romântica. No entanto, a contemplação tranquila de alguns casais apaixonados - que se esgueiravam pelos corredores para não serem pegos em flagrante -, foi abruptamente interrompida por um grito estridente e aterrorizado. O terror se espalhou, congelando o sangue e paralisando os corpos dos presentes. O que havia acontecido nas terras da escola? A resposta não demorou a chegar. Um longo e potente uivo ecoou, criando uma atmosfera de pavor.
As portas dos dormitórios foram trancadas, e os feitiços de proteção dos Salões Comunais foram reforçados pelos diretores das casas. Os professores saíram para investigar os corredores. Era verdadeiramente improvável que um lobisomem invadisse o castelo, a não ser que, o julgamento de todos tivesse falhado e aquele a quem depositaram confiança houvesse os traído ferozmente. Na dúvida sobre o que teria acontecido, ninguém mais receberia permissão para sair até que o mistério fosse completamente desvendado.
Entretanto, apesar de tomarem todas as precauções imagináveis, seis sonserinos acompanhados do Barão Sangrento encontraram um meio de fugir do Salão Comunal e avançavam apressadamente pelas escadas e corredores, ignorando o perigo que os espreitava. Ou, pelo menos, tentavam convencer a si mesmos disso. Seus corações batiam descompassadamente, e suas mãos tremiam, apontando as varinhas até mesmo para suas próprias sombras.
Receavam o que poderia surgir a cada esquina escura.
O fantasma, por sua vez, atravessava as paredes e flutuava à frente, dando instruções para evitar serem avistados pelos professores ou pegos em flagrante pelo zelador Filch. Onde estava Severus? Por que ele não havia dito o local onde escondeu o Mapa do Maroto, que revelava tudo? Seu desaparecimento inexplicável após a prova de Runas deixava todos alarmados.
Continuando a busca, cada vez mais angustiados e temerosos, os seis começaram a considerar o fato de que acontecera o pior. E se suas esperanças fossem em vão? A cada passo, as incertezas tornavam o ambiente ainda mais pesado, hostil e opressivo. Se o encontrassem morto, como dariam a notícia a Narcissa?
Não conseguiam determinar quanto tempo havia se passado desde que partiram em grupo, nem por quais corredores já haviam passado, quando, de repente, se depararam com uma sombra projetada em um canto escuro. Com olhares atentos e o coração pulsando forte, seguiram com passos lentos em direção aos gemidos de dor. Quando estes se intensificaram junto ao som da difícil respiração, os temores que dominavam seus corpos os fizeram parar e pedir ao Barão Sangrento que investigasse antes de seguir por aquele caminho.
- Vão logo, senhores e senhorita... o tempo é curto, e o fenecimento é ligeiro - exclamou o Barão, assustado, voltando ao grupo já perturbado.
- O que aconteceu, senhor Barão? O senhor pode nos dizer? – questionou Greengrass abalado, fazendo um esforço para deixar claro o fio de voz que escapava de sua garganta.
- Claro, jovem, senhor. O que eu tenho a vos dizer é que apressem-se, vosso amigo está lá!
- Obrigado, senhor.
Bellatrix abriu um meio sorriso de agradecimento, mesmo sentindo a sua garganta apertando de preocupação e ansiedade pelo que veria mais a frente. O som dos próprios passos, somado ao dos demais, ecoava no corredor, aumentando a tensão no ar.
- Senhor? Poderia nos fazer a gentileza de continuar vigiando se alguém está vindo? - Avery perguntou, encarando o Barão Sangrento que apenas assentiu. O brilho do luar iluminava tenuemente o ambiente, criando sombras dançantes nas paredes.
- Vamos, então...
A frase de Regulus pareceu soar como um suspiro ao lado de Evan, que encarava aquele ponto com os olhos fixos e desesperados. O silêncio se tornou quase palpável, apenas interrompido pelo suave farfalhar das chamas dos archotes ao vento.
Apenas mais alguns passos. Apenas mais um ato de coragem em meio àquela atmosfera opressiva e de terror que os assolava.
A cena que presenciaram era horrível. Em meio a uma poça de sangue, o corpo de Severus pendia para o lado esquerdo, desacordado. Cortes profundos pelos braços, pernas e torso se revelavam na pouca luminosidade do corredor sombrio.
Com lágrimas nos olhos, os seis ficaram atordoados diante da violência infligida a seu amigo. Ele não merecia passar por aquilo. Não merecia novamente ser vítima de um ato covarde e desleal. Sua pulsação era fraca, e a respiração entrecortada, indicando que estava à beira da morte.
- Me ajuda aqui, cara... – Evan se apressou, sem pensar muito, fazendo um gesto com a cabeça para que Avery o auxiliasse a erguer Severus do chão.
- Eu vou prender o corpo dele ao de vocês. Acredito que vai ajudar bastante na hora de vocês caminharem até a enfermaria... – sugeriu Greengrass recebendo um gesto positivo de ambos.
- Acho que podemos revezar no caminho. O que acham? – Mulciber, que até então se mantivera calado, perguntou aos demais pensativo.
- Pode ser, mas agora vamos... o Severus vai acabar morrendo se ficarmos aqui parados – Evan afirmou parecendo querer encerrar o assunto.
Sustentando o corpo semivivo em seus ombros, os dois arrastaram-no pelos corredores o mais rápido que puderam, ignorando as frases dos demais para que houvesse o revezamento no meio do caminho. Sentiam que não havia tempo para pausas.
Não permitiriam que Severus morresse como se não importasse ou por algum equívoco que pudessem ter cometido durante o socorro. Mais adiante, já se dando por vencidos na discussão, Mulciber e Greengrass corriam para buscar ajuda da Madame Pomfrey.
A cada corredor atravessado, por mais que o cansaço começasse a pesar sobre os ombros de Evan e Avery, a determinação de salvar o amigo parecia impulsioná-los e os encher de uma força até então desconhecida. Não precisavam expressar com palavras a sensação de que era crucial que os primeiros socorros fossem prestados imediatamente. Cada segundo era extremamente valioso, quando Severus já havia perdido muito sangue e não suportaria mais tempo sem atendimento médico.
A agonia e o cuidado com que agiam revelavam o código de honra, lealdade inquebrável e união que unia as serpentes.
- Senhores e senhorita, eu informarei pessoalmente aos meus leais confrades fantasmas para que um deles imediatamente passe as terríveis notícias a nosso digníssimo diretor... e seguirei até o dormitório do estimado professor Slughorn. É de suma importância notificar nosso diretor de que um nobre estudante da Casa Sonserina enfrentou uma tentativa de homicídio - o Barão Sangrento os avisou com um olhar grave e solene.
Os responsáveis por tal ato inominável seriam descobertos e não escapariam impunes. Mesmo que tivessem a conivência e a proteção de Dumbledore, havia muitas outras pessoas determinadas a pôr fim à sua série de crimes sempre justificados pela inegável complacência.
- Não vamos com vocês. Queremos caçar esses desgraçados que fizeram isso – afirmou Regulus.
Foi dessa forma intempestiva que saiu puxando Bellatrix pelo braço, sem esperar por respostas dos demais. Estava alheio ao semblante reflexivo que ela apresentava, determinado a seguir na direção oposta.
Embora Bellatrix nada dissesse, Regulus sentia que, assim como ele, estava decidida a rastrear Sirius por todo o castelo, se fosse necessário, como se estivessem caçando um animal peçonhento e extremamente feroz. Ambos estavam convencidos de que, mesmo que ele não tivesse responsabilidade direta, estava de alguma forma envolvido. Era típico de sua personalidade cometer crimes desse tipo. Desde criança, demonstrara aptidões e uma vocação extraordinária para ser um assassino brilhante. Teria que confessar o que sabia, mesmo que isso implicasse em tortura nos mais altos níveis.
Os dois grupos finalmente encontraram o que procuravam. Os quatro sonserinos, carregando Severus nos braços, arrombaram a porta da enfermaria e entraram, gritando em busca de ajuda. O som ecoou nos corredores, criando uma cacofonia de vozes no silêncio noturno do castelo. A confusão despertou a enfermeira, cujo sono profundo foi abruptamente interrompido. Ela saltou da cama, sobressaltada e ainda sonolenta, com o coração acelerado, enquanto os gritos ressoavam em sua mente aturdida. A agitação dos rapazes e a forma desajeitada com que tentavam colocar Severus em uma das camas resultou na quebra de alguns frascos de poções, enchendo o ar com o forte aroma de ingredientes mágicos misturados e espalhados pelo chão.
- O que aconteceu com o senhor Snape? - Madame Poppy Pomfrey perguntou, ainda fechando o roupão, com uma expressão chocada ao observar o estado em que ele se encontrava. Seus olhos se arregalaram ao ver as feridas profundas e o sangue escorrendo profusamente.
- Não sabemos... ele pode ter sido atacado pelo lobisomem que estava uivando. Sinceramente, não podemos afirmar com certeza nada para a senhora... apenas que o encontramos assim - respondeu Greengrass, limpando o suor do rosto com as mãos trêmulas e ensanguentadas. A sensação pegajosa e metálica do sangue em suas mãos era repulsiva, fazendo com que evitasse olhar para não aumentar ainda mais a sensação de náusea que lhe queimava a garganta, dado o nervosismo que o assolava.
- Vou realizar alguns exames para determinar se há algum sinal de licantropia... Quero que vocês quatro fiquem aí, porque eu também terei de examiná-los para ver se o contato com o sangue os contaminou também - ela explicou, virando-se para pegar os equipamentos e algumas poções de reposição de sangue. O som das gavetas sendo abertas e fechadas ecoava pelo espaço aumentando ainda mais o clima de tensão que pairava pelo ar.
- Aproveitando que eu posso ter ajuda, senhor Rosier e senhor Avery, eu quero que vocês abram o armário e peguem mais poções de reposição de sangue e o Dictamnus albus, não o Origanum dictamnus, porque eu necessito fechar essas feridas com a máxima urgência e fazer o possível para que o número de cicatrizes seja o menor possível - ordenou, vendo-os assentir e o som das portas do armário se abrindo se somar ao cenário.
- Quanto aos senhores, Mulciber e Greengrass, façam o favor de limpar o chão para que algum desavisado não caia estatelado em caso de entrar depressa aqui na ala hospitalar – prosseguiu, vendo ambos concordarem em silencio e começarem a secar todo o piso e a reparar os danos que haviam causado durante a entrada desesperada no recinto.
- Creio que não foi um lobisomem que fez isso... é possível que o senhor Snape tenha se envolvido em alguma briga nos corredores com algum outro aluno - apontou Dumbledore, interrompendo o tilintar os frascos de poções que eram carregados, assim que entrou e analisou a situação. Seu olhar perspicaz examinou as expressões preocupadas dos presentes, dando um leve sorriso de compreensão, como formulasse as novas frases e pesasse as possibilidades do que surgiria depois.
- Como assim? Olhe para esses cortes, observe o número de arranhões que se espalham pelo corpo... em nome de todos os deuses, Dumbledore, a pele do ombro desse rapaz foi completamente arrancada! Se não foi um lobisomem, estamos abrigando um psicopata dentro dos muros da escola, isso é extremamente grave – declarou Slughorn, elevando um pouco o tom de voz, dada a indignação. Sua voz ecoava pelo espaço cheio de raiva contida, contaminando os demais presentes, com o mesmo sentimento de revolta diante da provável impunidade que se avizinhava.
- O diretor está certo, professor... não há qualquer sinal de licantropia em sua corrente sanguínea. Quem poderia ser capaz de uma atrocidade como essa? - revelou Madame Pomfrey, suas mãos e sua voz eram trêmulas e refletiam toda inquietação profunda em seu interior.
Seus olhos, normalmente muito confiantes e sempre refletindo uma tranquilidade para acalmar os alunos, transbordavam preocupação e incredulidade. Na verdade, ela estava horrorizada com a ideia que lhe surgira à mente. Era terrível imaginar que alguém dentro da escola, principalmente um aluno, era capaz de infligir tamanha violência a um colega.
- Ora, algum dos senhores têm alguma dúvida de quem foi que fez isso? Eu tenho a mais absoluta certeza de que foi aquele filho da puta, aquele arrombado do Sirius Black! Se não foi ele, foi um daqueles namoradinhos que ele tem, que ficam o tempo todo com ele ou atrás dele – afirmou Mulciber, revoltado, dando um soco na parede.
O som do impacto reverberou pelo ambiente, dando eco a tensão quase palpável que pesava o ar que respiravam, enquanto sua expressão dura forjava a falsa impressão de que ignorava a dor que se espalhava pelo antebraço.
- Há alguma evidência para essa acusação, Andrius? - Dumbledore perguntou, seus olhos azuis brilhando com uma calma calculada, observando atentamente o jovem que parecia agora ficar desapontado ao perceber o falso sorriso gentil no rosto do diretor.
A pausa prolongada de Mulciber, como se tivesse esgotado todos os argumentos e estivesse buscando cuidadosamente as palavras certas, deixou a tensão crescer na enfermaria.
- Sirius o ameaçou diversas vezes, professor Dumbledore. Além disso, ainda há precedentes que confirmam que ele seria capaz de atacar o Severus novamente. Ele ou o James Potter, que são dos quatro, os com maior número de detenções por conta de uso de violência contra vários alunos – Greengrass falou com convicção, pesando cada uma das suas palavras, para destacar sua determinação e a seriedade que empregava à defesa que estava fazendo.
Seu olhar determinado revelava sua disposição de lutar por justiça a todo custo, mesmo que isso significasse sacrificar suas últimas semanas em Hogwarts ou o emprego que estava prestes a conquistar no Ministério da Magia.
- Godoffrey, entendo o seu ponto de vista, mas não esqueça que o seu amigo também já os ameaçou anteriormente – Dumbledore respondeu com um tom que indicava que ele estava encerrando completamente o assunto e não estava disposto a ouvir novos argumentos que pudessem surgir. Sua voz transmitia a autoridade e a sabedoria que o caracterizavam, deixando claro que ele tomaria as medidas necessárias para lidar com a situação e não prejudicar os seus protegidos.
Do outro lado do castelo, Bellatrix e Regulus encontraram os Marotos em meio a uma comemoração animada. A música alta pulsava no ar, seus ritmos vibrantes reverberando nas paredes de pedra sólida e nos corpos que se movimentavam, enchendo o ambiente com uma energia eletrizante. Sirius e James flertavam com Marlene e Lily, respectivamente, enquanto dançavam e brindavam por algum sucesso que fora alcançado com êxito. Peter, com um entusiasmo quase obsceno, enchia o ambiente com pequenos gritos de aprovação e risadas estridentes, preenchendo a atmosfera com os ecos daquela felicidade agressiva e insultante.
- Cadê o Lupin? – sussurrou Regulus analisando todo o cenário, ainda escondido nas sombras, com Bellatrix.
- Também faço a mesma pergunta... onde está modelo de virtude da Grifinória? Será que o abandonaram depois de tê-lo explorado durante anos? – ela respondeu baixinho, dando um longo suspiro incomodado, enquanto seguia nas sombras observando Sirius trocando carícias com Marlene e fazendo promessas que, inegavelmente, jamais iria cumprir. O cheiro de suor e perfume misturado pairava no ar, acentuando o clima de festa.
- Como você suporta uma coisa dessas, Bella?
- Eu não suporto... por isso, eu finjo que não percebo nada para não ter que fazer algo extremamente desagradável com ele.
Ainda atentos e aos sussurros, o ódio crescia e se alimentava da fúria de ambos. Lançando um feitiço Verdums, sob o manto da clandestinidade e da escuridão, Regulus e Bellatrix derrubaram as duas meninas desacordadas. O problema não era com elas, pelo menos não naquele instante em que ainda eram consideradas inocentes. O som do impacto delas caindo ao chão foi abafado pela música alta e, também, pela arrogância de James e Sirius em considerar que haviam desmaiado dada a emoção de terem as atenções voltadas para si.
Assustados e tensos, Sirius, James e Peter se puseram em posição de combate, seus corações pulsando na garganta, os músculos tensos e os olhos fixos na escuridão, esperando um novo ataque. O som da música alta ainda vibrava pelo ar, mas parecia ser abafado por um ar pesado e gélido, que transformava seus ecos em sussurros distantes e agourentos. O cheiro de suor começava a se misturar com o perfume denso que pairava pelo ar, acentuando o clima da festa antes animada, porém sendo sobreposto pelo odor metálico do sangue que começava a se espalhar por trás dos cabelos de Marlene.
A música cessou.
O silêncio repentino que se seguiu era perturbador, pesado e tenso. O único som audível era o da respiração ofegante dos três que encaravam às sombras, esperando por um inimigo oculto que insistia em não se revelar, fazendo com que o receio reverberasse pelo ambiente e cobrisse todo o espaço de sombras
- Agora que as moças de família foram tirar uma sonequinha, me diga o que você fez, seu desgraçado! – a voz de Bellatrix rompeu o silêncio, enquanto ela saía das sombras acompanhada por Regulus, e ia em direção a Sirius com passos decididos e imperturbáveis.
Seus olhos fixos aos dele faiscavam de raiva, ao mesmo tempo em que, todos se encaravam furiosamente e o ar se carregava de eletricidade. O odor de adrenalina e tensão era quase palpável no ambiente. A qualquer momento um conflito se desencadearia.
- Não sabia que você tinha ciúme, amor?! Era só ter me dito que eu chutava a Marlene e ficava só com você, Bella. Não precisava fazer isso – respondeu Sirius dando uma risada que se assemelhava ao som de um latido, esticando um dos braços para alcançá-la e sendo rechaçado.
- Não encosta!
- Qual o problema?
- Qual o problema? Não venha com essa, Sirius, você sabe muito bem o que eu quero saber. Nem tente se fazer de desentendido.
- Ah, certo... mas, temos que conversar agora? Caso você não tenha notado, gata, estávamos fazendo uma pequena festa e o jeito que você chegou acabou atrapalhando tudo.
Sirius estava ainda próximo de Bellatrix, seu hálito impregnado com o gosto de bebida alcóolica a fez virar o rosto para o outro lado e fechar os olhos com repulsa.
- Maravilha! Além de tudo, você fez o favor de ficar bêbado...
- Bellatrix, não seja louca! – exigiu James, seus olhos arregalados e seu rosto vermelho de raiva, seu coração batendo tão forte que ele podia ouvi-lo pulsar em seus ouvidos.
- Como é? Você é quem, seu merda, para ousar me chamar de louca? – ela o encarou com o olhar extremamente cheio de ira.
- Ora, sua...
- Sua o quê? E você, boca de esgoto, nem tente se envolver na briga – Regulus apontou a varinha em direção ao coração de James, enquanto lançava um olhar de puro asco para Peter, que se encolhia em um canto acuado.
- Bella, o que você quer saber, afinal? – Sirius seguiu a encarando fazendo uma expressão entediada.
- O que foi que você fez com o Severus?
- Eu? Nada... aquele seboso morreu por acaso?
- Não minta!
- Qual é o seu interesse, Bella? E se eu fiz alguma coisa com ele, você pretende fazer o quê exatamente?
- Ah, seu covarde...
- Eu não sou covarde...
- Estupefaça!
- Protego!
Os feitiços colidiram e ricochetaram, atingindo Peter e o jogando contra a parede com um estrondo ensurdecedor. O som da colisão e dos gritos ecoaram no ambiente, aumentando ainda mais o clima de hostilidade entre os dois lados.
- É o melhor que você consegue fazer, priminha? Minha mãe sempre fala que das três você sempre se mostrou a mais talentosa, contudo, o que eu vejo é que você é fraca.
- O melhor que eu posso fazer, se quiser, é te matar agora mesmo. Quer tentar, querido?
- Você não faria isso...
- Tente... – Bellatrix sussurrou de uma forma perigosa, semicerrando os olhos, enquanto mordia o lábio e sorria observando a apreensão desenhada nos olhos de Sirius.
Desviando um pouco o rosto em direção a Regulus, sem desviar a varinha de Sirius, Bellatrix o olhou rapidamente. Seus olhos faiscavam com uma verdadeira mistura de diversão perversa e desafio incontido, enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso sádico. Os olhares de ambos se encontraram por um breve momento, um entendimento não dito passando entre eles e selando o acordo mútuo que necessitavam para levar o plano adiante.
Demonstravam, desse modo, o quanto estavam se divertindo em deixar os dois assustados. Por melhores duelistas que pudessem ser, James e Sirius, não seriam páreo para o poder e agilidade de uma luta séria. Não com duas pessoas que treinavam arduamente para integrarem as trincheiras ao lado de Lorde Voldemort e que estavam prontos para matá-los com facilidade, se assim desejassem.
- Confessem de uma vez! – exigiu Regulus, ainda mais furioso do que quando chegara, dando alguns passos para se aproximar dos adversários mais agressivamente.
- Acha que algum de nós temos medo de você, mini Black? – debochou James.
- Deveriam, principalmente você... – a resposta veio acompanhada do brilho dos seus olhos carregados com uma ameaça implícita.
- O que você quer dizer com isso?
- Está com medinho, Potter? Vai chorar? Acha que o Sirius vai correr para te defender quando você mais precisar? – Regulus riu abertamente.
- Você é patético, cara!
- Vai se foder, Regulus! – gritou Sirius indo em direção ao irmão apertando a varinha com raiva.
- Você primeiro, seu traidor, amante de trouxa! Acha que é segredo que você se esfrega também naquela porca ruiva? – Regulus o encarou com raiva, sem dar tempo para que Sirius o respondesse, lançou nele um feitiço não verbal o amarrando em cordas luminosas e viciosas.
- O que foi que você fez, seu merdinha?
- Presentinho, irmão! Pode ser que o mini Black se interesse mais em aprender os segredos da nossa família, do que você que sempre se mostrou um babaca completo.
- Excelente, Reg! – parabenizou Bellatrix, aumentando a potência do feitiço Fulgari e estendendo dos braços para o pescoço, fazendo com que Sirius fosse içado pelas cordas no ar enquanto tinha a varinha arrancada.
O som dos ossos dos braços de Sirius quebrando e os gritos dele de desespero, não abrandavam a ira que sentiam ao se verem sem quaisquer informações sobre o que de fato havia acontecido com Severus.
O semblante de James ficou lívido, ao ver o amigo urrar de dor e urinar nas próprias calças por conta da tortura sofrida. Estava paralisado, horrorizado com o que presenciava, parecendo que haviam lhe lançado alguma espécie de feitiço tão desconhecido como o que fazia com que Sirius sofresse tanto.
Naquele momento, ficava mais claro para James de onde vinha todo o sadismo que, vez ou outra, Sirius demonstrava tão abertamente e sem qualquer vestígio de remorso. Por mais que negasse, as trevas eram parte do espírito dos Black, trazendo consigo uma maldade inenarrável e monstruosa desde tempos imemoriais.
- Crucio! – Bellatrix virou rapidamente, no tempo de um pensamento, a varinha em sua direção e começou também a torturá-lo com muito mais vigor e diversão do que fizera com Sirius.
- Eu... eu... falo... pare... – implorou James apavorado, após a terceira vez que sentia a sua cabeça como se estivesse prestes a explodir.
- Excelente, querido, pode começar a compartilhar o que sabe – olhar de Bellatrix estava carregado de sombras, assim como o de Regulus, que parecia ter mudado de cor.
- Nós atacamos o Ranho... o Snape por trás e o arrastamos para perto da Floresta Proibida, aproveitando que a maior parte dos alunos já estavam nos salões comunais e, os que estavam pelos corredores, se mantinham muito ocupados agarrando uns aos outros.
- Prossiga, Potter. Vá direto ao assunto - Bellatrix aproximou-se dele como uma cobra prestes a dar o bote.
- Certo... Almofadinhas sugeriu que era melhor deixar aquele imundo para o Remus matá-lo.
- Sei... e cadê o Lupin?
- Me deixe terminar! O Almofadinhas ficou para trás dizendo que queria assistir, enquanto o Peter e eu convidávamos as meninas para a festa. Ele disse que seria a coisa mais divertida que veria na vida – concluiu com a voz trêmula e entrecortada pelas lágrimas e soluços de dor.
- Que honrado! – debochou Regulus ainda com a varinha apontada para Sirius, como se monitorasse o desempenho do próprio feitiço e evitasse que as cordas quebrassem o pescoço dele.
- Você quer ouvir um segredo, Potter? O poder que nós possuímos vem de raízes mágicas muito antigas... e se você me acha terrível, ou pensa que o Regulus é um monstro sem coração, espere até Cissy descobrir o que fizeram com o namorado dela - ameaçou Bellatrix, sussurrando ao ouvido de James, sua voz carregada de veneno.
