Após um longo período de silêncio, os primeiros raios de sol invadiram as janelas da ala hospitalar, inundando o ambiente com luminosidade e expectativas. Os raios aqueciam suavemente a pele de Severus, trazendo um conforto bem-vindo após passar por tamanho tormento. Isso pareceu, igualmente, direcionar seus pensamentos enquanto ele olhava fixamente para o teto. Seu corpo doía, enquanto sua mente refletia sobre todos os horrores que havia vivenciado na noite anterior. A quietude aparente normalizava o clima tenso, tornando o lugar estranhamente tranquilo... ou, pelo menos, era assim que ele considerava naquele momento. Pelo menos era como ele gostaria que fosse.
Conceitos, imagens, ideias e noções de tempo-espaço se misturavam e colidiam enquanto ponderava sobre o que fazer a seguir. Sua cabeça latejava com os pensamentos sobre como reagir diante de tamanha barbárie. O que deveria fazer? Por mais terríveis que fossem suas reflexões, Severus sabia que não havia feito absolutamente nada para merecer aquela tortura. Pelo menos, era o que seu discernimento o fazia acreditar.
O fato era que ele estava tão imerso em si mesmo e em suas próprias considerações e percepções que sequer notou a presença de Remus, a duas macas de distância, encarando-o com uma expressão doentia e desesperada. O medo de ter sido o único responsável por tudo aquilo o atormentava, e não existiam palavras ou gestos que pudessem expressar a intensidade de sua culpa. Ao se autoincriminar por tamanha violência e crueldade contra Severus, ele se via como um verdadeiro monstro que merecia a morte por ter atacado um colega inocente.
As lembranças de quando chegara, minutos antes, e viu Severus debatendo-se, gritando e delirando devido à febre alta e à angústia, ainda fervilhavam em sua mente. Foi uma cena suficiente forte para o abalar e deixar o seu coração em frangalhos.
As palavras desconexas de Severus revelaram quem era seu maior inimigo. Seu próprio conhecimento havia se transformado em algo quase sobrenatural, perigoso e hostil, lutando para se defender do mundo e das mudanças que o cercavam.
As frases que proferia eram intensas e chocantes, como se seu interior estivesse se fragmentando em múltiplos pedaços. Eram consequências de uma agressão inenarrável, que se ampliavam e se tornavam muito maiores do que os cortes e os ossos quebrados. Eram feridas antigas, forjadas a ferro em brasa em sua alma, que agora sangravam novamente.
Remus absorvia cada gesto, cada sombra, cada sutil nuance da expressão de mortificação que criava sombras profundas no rosto de Severus. Aquilo o destruía de forma inexplicável a cada segundo que passava ali. Não estava apenas com o coração destruído, ao ver uma pessoa que o ajudara se encontrando naquele estado deplorável e humilhante, mas o sentimento de traição sussurrava em seus ouvidos palavras de amargura e dor.
Se o que lhe disseram fosse verdade, Sirius havia ido longe demais. No entanto, havia lesões que ele não seria capaz de infligir a outra pessoa. Aquilo ia além de seu sadismo habitual. Alguém havia aproveitado o ataque para extravasar toda sua selvageria descontrolada. Mas quem seria capaz de tamanha atrocidade?
- Você vai continuar me observando por mais tempo ou já foi o suficiente? - Severus questionou, sua expressão tensa, enquanto seus olhos negros e profundos permaneciam fixos em Remus, como se buscasse alguma resposta nos traços do rosto do outro.
Diante do silêncio, o seu olhar prosseguiu atento, notando os leves traços de insegurança e dúvida que pairavam sobre o semblante do outro. Semicerrando os olhos, buscando enxergar melhor na meia-luz da enfermaria, não desviando o olhar um segundo sequer. Seus lábios se curvaram em um leve desdém, diante dos pensamentos que lhe surgiam e moldavam suas feições com uma expressão confiante.
- Eu sei que sou bonito, Lupin. Não preciso de admiradores para saber desse fato.
- Peço desculpas por tudo o que aconteceu na noite passada... mesmo que tenham me garantido que eu não sou o responsável, quero enfatizar o quanto sinto muito. Você não deveria ter passado por nada disso - Remus respirou fundo, sentindo o peso das palavras que acabara de ouvir. Ele franziu a testa, escolhendo cuidadosamente suas palavras enquanto olhava para o chão de mármore gasto.
- Sua caminhada noturna para apreciar a Lua Cheia não o torna responsável por minha desgraça - afirmou Severus, mantendo nos olhos uma mistura de dor e desconfiança.
O silêncio entre eles pairou por um momento, apenas o sutil ruído da respiração quebrando a pesada quietude que os cercava, enquanto tentavam avançar com a conversa.
- Você se lembra de quem fez isso? - perguntou, sua voz hesitante, enquanto ele lamentava ter feito a pergunta instantaneamente.
- Sim... – disse brevemente, bufando baixinho de aborrecimento, enquanto olhava para algum ponto distante com um olhar distante antes de continuar.
- Meu cérebro não foi afetado durante o ataque, se quer saber.
- Se não quiser falar...
- Eu sei que você quer saber os detalhes, Lupin. Seus grandes amigos me esperaram na saída da biblioteca e bateram com uma tábua em meu rosto. Aproveitando que eu estava atordoado pela pancada, os três me carregaram até o canto onde fui encontrado. Potter riu várias vezes, assegurando que nunca seriam pegos, pois não encontrariam feitiços de agressão se confiscassem as varinhas... - Severus fez uma pausa, como se visse algo diante de seus olhos, antes de continuar.
- Fui chutado e espancado diversas vezes. Black cuspiu no meu rosto e me chamou de morto de fome, como sempre faz. Potter urinou em cima de mim, enfatizando que aquela seria a última vez que eu beberia algo na vida, porque eu seria morto. Então, se divertindo com toda a tortura e aumentando os insultos, Rabicho encontrou minha navalha no bolso e começou a me cortar. Foi uma sugestão de Black e Potter que ele afiasse as unhas sujas e rasgasse minha pele... era uma boa maneira de infectar as feridas que estavam sendo abertas - concluiu, zangado e concentrado em suas próprias palavras.
- Não sei o que dizer diante do que me contou... nunca imaginei que eles seriam capazes de ir tão longe em uma vingança - Remus engoliu em seco, horrorizado com as palavras cruas utilizadas na resposta. Ele balançou a cabeça em negação, incapaz de encontrar palavras para expressar a sensação de repulsa que o dominava.
- Eu faria pior e me alegraria em ver a miséria de cada um deles - afirmou, sua voz fria e calculada, voltando a encará-lo.
- No entanto, meu método é solitário e mais eficaz do que o de todos aqueles tolos juntos.
- Mas... - tentou dizer algo, mas foi interrompido abruptamente por Severus.
- Não há espaço para a palavra "mas" ou arrependimentos, Lupin! - declarou com um olhar penetrante que parecia querer rasgá-lo.
- Você é um maldito lobo... um desgraçado que, quando está irritado, deixa transparecer sua animosidade na forma como olha para as pessoas.
- Me deixe falar, Severus!
- Não! - a frieza agora era ainda mais clara em sua voz.
- Não vou permitir que tente se justificar, porque você é um hipócrita que insiste em provar que é uma boa pessoa, quando ninguém aqui é ou será capaz de se tornar um dia. Honestamente, você não passa de um fraco, omisso, e serve apenas como cobaia nas poções da B Elixires.
O ambiente começava a se carregar de uma energia densa, ficando eletricamente carregado de tensão, como uma tempestade prestes a desabar.
- Ótimo, seu idiota! Quer saber qual é o seu destino, Severus? Você vai morrer sozinho porque usa as palavras para machucar os outros gratuitamente. Não vim até aqui apenas para curar minhas lesões, mas para ver como você estava e oferecer minha amizade. Mas esqueça! - Remus deu um soco na mesa com frustração, o som ecoando na sala. Ele se levantou abruptamente, sua raiva palpável no ar, tornando o ambiente pesado.
- Você é incapaz de deixar de ser um completo estúpido e de dar coices em quem se aproxima.
- Isso mesmo, vá atrás deles com o rabo entre as pernas - murmurou Severus cruzando os braços sobre o peito, sua expressão inabalável, enquanto observava o outro se afastar.
- Farei isso, ao contrário de você, que acredita cegamente que seu sarcasmo é algo brilhante e singular... Severus, você não passa de um completo imbecil!
A porta bateu com força, ecoando no corredor vazio. O silêncio voltou a reinar na sala, agora mais tenso e estranho do que nunca.
Aproveitando o silêncio opressivamente tranquilo que se restabeleceu na ala hospitalar após a discussão, a mente de Severus estava repleta das melodias de "Riders On The Storm," "The End," e "Break On Through (To The Other Side)," da banda The Doors. Gradualmente, ele ficava mais convencido de que manter seu espírito distante o ajudaria a analisar e avaliar todas as possibilidades sobre como dar os próximos passos.
Independente da opinião dos outros, ele sairia daquela cama e faria as duas últimas provas, de Aritmância e História da Magia, que faltavam para concluir seus NIEMs. Isso não era apenas uma questão de orgulho, mas sim a convicção de que esses exames seriam as portas para sair daquele inferno.
Ele ansiava por se libertar daquele ambiente opressor, que sempre lhe fora hostil e discriminatório, e seguir em direção a uma vida mais digna. Sua certeza de que esse era seu único e melhor caminho o impulsionaria, se necessário, a se arrastar até o Salão Principal e fazer as avaliações. Ninguém lhe tiraria o direito de se formar com todas as honrarias merecidas. Essa era a única verdade que importava.
Em outra parte de Hogwarts, Narcissa andava com passos largos e decididos, segurando a carta que Bellatrix lhe enviara. As chamas da raiva ardiam em seu peito, fazendo seu coração martelar contra as costelas. A cada palavra relida, a fúria crescia dentro dela como uma chama avassaladora, pronta para consumir tudo em seu caminho. Não permitiria que toda aquela barbárie narrada passasse impune. Dumbledore teria que tomar providências; sua displicência e sua inaptidão para lidar com tais absurdos não tinham mais espaço diante da obrigação de preservar o bem-estar físico e psicológico dos alunos.
Seus pensamentos eram como lâminas afiadas, cortantes e cruéis, enquanto se encaminhava para a sala do diretor para discutir o assunto. Nada a abalaria ou a faria recuar de sua opinião.
No mínimo, Sirius teria que ser expulso e impedido de se formar com os demais. Definitivamente, ele não merecia as oportunidades que a vida lhe oferecera desde o dia de seu nascimento. Com esse raciocínio em mente, Narcissa entrou no gabinete com um semblante sério.
Sentando-se em uma das cadeiras, ela começou a analisar os detalhes daquele ambiente opressor. O odor de pergaminho antigo e madeira polida pairava no ar. Narcissa ainda se lembrava de ter entrado ali uma única vez, quando tinha 15 anos, devido a uma briga. Bufou baixinho, perturbada pela lembrança de ter jogado água no rosto de Lily e pelos abusos que ocorreram depois, e então levantou-se, visivelmente estressada. Sua expressão denunciava a total aversão que sentia por tudo aquilo, especialmente porque sua memória insistia em mostrar como foi a detenção de três meses que recebeu e o número de banheiros que teve de lavar durante esse período.
Respirando fundo, tentava afastar a forte sensação de tédio, desprezo e aversão àquele ambiente sufocante. Como pôde esquecer daqueles intermináveis dias limpando vasos sanitários e quase perdendo seu distintivo de monitora? Como foi capaz de imaginar que, futuramente, seus filhos estudariam ali? Reconhecia que as políticas internas que eram desenvolvidas mudariam o regime de arbitrariedade e favoritismo dentro daquelas paredes opressoras.
Aquela escola não passava de um lugar inseguro, hostil, autoritário, discriminatório e atroz para todos que não se encaixavam nos parâmetros ditados por Dumbledore. A óbvia predileção e proteção aos grifinórios comprovavam as inúmeras práticas de injustiça, violência e tráfico de influências que rondavam aqueles corredores planejados para subjugar aqueles que eram excluídos.
Foi então que a porta se abriu e ele a convidou para entrar.
Após minutos intermináveis, escutando com absoluto desinteresse os detalhes do que lhe fora dito, Narcissa iniciou uma discussão acalorada com o diretor. Irritou-se com as atitudes e a postura de Dumbledore ao descrever a conduta de Severus como a única causadora do ataque que sofrera. Não admitiria que quem quer que fosse expusesse o namorado de maneira tão pejorativa e preconceituosa, especialmente quando ouvira o quanto Sirius e os outros eram inocentes, ameaçando expor publicamente o comportamento nocivo do outro com os colegas.
Com palavras serenas e aparência tranquila, o diretor adotava um procedimento intimidador, prometendo denunciá-lo ao Ministério da Magia. Ainda mais, considerava a seu favor o fato de que Abraxas Malfoy adoraria ordenar uma investigação aprofundada sobre a vida daquele que humilhara seu único filho.
- Ora, senhorita Black, entendemos que o senhor Snape destratou e brigou várias vezes com o seu primo. Isso sem considerar a sua constante agressividade para lidar com os demais, que em nenhuma hipótese revidaram tais ofensas. Perceba que não há um professor em Hogwarts que desconheça o quanto aquele rapaz pode ser dissimulado e mentiroso... – Dumbledore argumentou, enfaticamente, em tom acusatório e difamador.
- A verdade é que a forma como ele a trata não se aplica aos outros. Por isso, a aconselho a abrir os olhos com relação a esse ponto.
Observando atentamente cada frase com um olhar analítico e falsamente bondoso, julgava estar atingindo seu objetivo de desestabilizá-la. Se tivesse o poder de afastar os dois, manipularia ao máximo para alcançar seu propósito. Narcissa, por sua vez, o encarava com uma expressão de ódio genuíno, o que o incentivava a continuar com suas conjecturações sorrateiras e injustificáveis.
- Eu julgo que isso deva ser hereditário. Por mais que um ser tente mudar sua essência, a natureza o conduz ao seu verdadeiro e único eu. Não há como alterar, de repente, seus sentimentos, pensamentos e atos... especialmente quando seu ego transitório é um eterno parênteses e impedimentos negativos, levando a resultados ocos ou fantasiosos. De qualquer forma, a senhorita deve ter conhecimento do tipo de pessoa que o pai dele era... logo, com quem está lidando – concluiu com um sorriso astuto.
- O senhor pode evidenciar e acentuar o quanto supõe que o Severus não passa de um mau-caráter e ganancioso. Contudo, suas alegações vão de encontro às minhas certezas e, perante elas, se anulam. Como bem ressaltou, eu sei com quem eu estou convivendo e, ao contrário do que insinua, eu não me arrependo – declarou com firmeza na voz, não deixando que ele a interrompesse antes que ela concluísse seu raciocínio.
- Se o Severus cometeu algum erro, eu também recomendo que ele seja punido... quanto a isso, não discordo. No entanto, não aceito que o senhor o criminalize em uma situação em que ele é uma vítima da gangue chefiada por Sirius e Potter. Eles são marginais da pior espécie e, parafraseando as suas palavras, não há um aluno nesse colégio que não tenha passado por algum tipo de humilhação nas mãos deles – falou buscando manter a calma, mesmo que aquilo a indignasse.
- Ou o senhor esqueceu da prática de bullying contra todos aqueles que eram tidos como inferiores? Ou, quem sabe, o senhor presume que seja normal alguém cogitar atiçar um lobisomem contra um colega de classe?
- Entendo o seu ponto de vista, senhorita Black, mas eu discordo...
- Discorda?
- Sim, eu discordo do que está dizendo.
- Por que eu não me surpreendo com isso? Há ainda um ponto a ser levantado... já imaginou que, ao sair de Hogwarts, eu mesma posso ir ao Ministério pedir ao meu tio que coloque os Aurores para apurar quem são os únicos responsáveis por uma tentativa de homicídio? O que os pais dos alunos diriam ao descobrir que o diretor acoberta potenciais assassinos? – questionou, fixando seu olhar firme nos olhos do diretor, enquanto lutava para conter a fúria que fervilhava dentro dela, soltando uma respiração pesada.
- Senhorita Black, o que eu vejo é que não está sendo sensata em sua defesa ao senhor Snape – Dumbledore deu um meio sorriso não demonstrando mais o olhar bondoso que lhe destinara anteriormente.
- Eu estou e vou até o fim com o que eu acredito ser o certo a ser feito. Sirius pode não ter usufruído dos benefícios que um lobisomem lhe traria, mas ele rasgou a pele do Severus com uma lâmina. Há cortes infeccionados por todo o corpo dele, inclusive próximo à região da genitália. O senhor acha isso aceitável? Severus quase foi castrado... como o senhor tem a audácia de lhe jogar a culpa?! – completou, com seus olhos azuis brilhando intensamente como se faiscassem de fúria, deixando clara toda a sua repulsa e ira.
- Observo que a senhorita compactua com os hábitos belicosos e ardilosos, justificando o insustentável - um sorriso satisfeito e venenoso se revelou nos lábios de Dumbledore
- Sejamos sinceros, não sabemos o que o senhor Snape fez para que o seu primo, um rapaz tão gentil e bem-educado, agisse de maneira tão impensada e desagradável.
- É mesmo? Entrando na sua perspectiva, eu vou lhe expor o meu ponto de vista, de modo ainda mais claro e enfático - Narcissa salientou, acidamente, permanecendo na sua melhor postura inabalável e aristocrática, o encarando com um semblante de nojo.
- Se o Severus fizesse o mesmo com o Sirius ou com o Potter, nesse exato instante, ele estaria sendo mandado para Azkaban sem qualquer direito a apelação... apesar de que, eu julgue que o faria para se proteger de uma ofensiva extrema.
- Eu não vou mais debater com a senhorita tais questões. Creio que já encerramos o nosso assunto – ele fez um gesto cortês, mas sua expressão denunciava uma certa impaciência, enquanto parecia fingir que não mais a escutava.
- Antes que eu me retire, eu aviso ao senhor que, se o Severus quebrar uma unha nos próximos dias, eu vou transformar a sua vida em um verdadeiro inferno. Porque, caso não esteja informado, eu possuo poder suficiente para fazer isso... não será o seu pacto, seus estudos, ou o que quer que seja, que irá me impedir – ameaçou, sua varinha brilhando com uma aura de poder, dando dois passos em direção a ele, enquanto seus olhos faiscavam de audácia.
- A senhorita está me ameaçando ou foi apenas uma leve e incômoda impressão? – Dumbledore arqueou uma sobrancelha, observando-a atentamente.
- Eu deveria?
- Se fosse sensata, não.
- Compreendo, entretanto, sensatez nunca foi o forte da minha família e imagino que, o senhor pode ter até dedicado a pesquisar tudo o que tenha relação com os Black... – Narcissa disse, um sorriso enigmático brincando em seus lábios.
- Percebo que nunca deve ter chegado nem perto da revelação dos níveis de magia que, somente as mulheres da minha família aprendem desde que nascem, não é mesmo? Eu lhe garanto que são terríveis e, acima de tudo, que o Sirius não possua qualquer noção do que se trata. Igualmente, sugiro que nem se esforce em aliciar as minhas irmãs ou a minha tia, porque elas optariam pela morte a ter de propagar os nossos segredos para gentinha – atestou, dando as costas para partir, sem a pretensão de retornar algum dia.
A execração e o ímpeto de Narcissa eram quase tangíveis, queimando-lhe as entranhas, quase a obrigando a soltar gritos para extravasar seu ódio. Seus dedos tremiam com a fúria contida, e o suor frio escorria por sua testa, enquanto seu coração martelava no peito, cada batida ecoando sua raiva. Especialmente quando confrontada com o olhar de satisfação de Dumbledore ao acusar, de maneira impiedosa, Severus para proteger os Marotos. Mantendo passos lentos e impondo seu caminhar altivo, ela parecia inabalável, como se nada pudesse desassossegá-la ou alterar seu ânimo. Não permitiria que esses insignificantes provassem o gosto da vitória.
- Aqueles imbecis vão se arrepender amargamente pelo que fizeram com o Severus - murmurou para si mesma, ansiando em encontrá-los, cogitando o tipo de vingança que executaria.
Demorou apenas alguns minutos para que ela pudesse colocar seu plano em prática. Narcissa se escondera atrás de uma coluna no corredor, observando atentamente os movimentos de Sirius, James e Peter. Seu coração acelerava com a tensão do momento. Olhando para os dois lados, examinou minuciosamente o que acontecia ao redor, sorrindo ao constatar que eles estavam se separando. Isso facilitaria a ideia de enfrentá-los um a um.
- Verdums - pronunciou, assim que se dispersaram, derrubando Peter no chão.
- O que faz aqui, maldita traidora de sangue? – afirmou com a voz fanhosa, ainda mais estridente e temerosa do que o normal.
- Vim presenteá-lo, rato imundo... Foliis Incisio - sussurrou, vendo as folhas cortantes que lançara abrirem os primeiros cortes, causando uma dor imensa que o fez urrar de dor.
- Você e aquele bando vão gritar muito nos próximos dias... confie no que eu lhe digo - Narcissa murmurou com uma expressão sórdida e sombria, enquanto o encarava de cima, pisoteando-o com o salto do sapato.
Assustado, com o olhar raivoso que recebera, junto à tortura, Peter sentiu o seu coração batendo mais forte e aflito. Nem nos seus pensamentos mais obscuros, cogitava o que ela seria capaz de fazer... o que observava ali era uma espécie de divindade do mal lhe rodear, se divertindo com o seu suplício e o verter de seu sangue.
- Os meus amigos vão aparecer e você vai se dar muito mal. O Pontas vai lhe surrar, como o Malfoy deveria ter feito, espere para ver - advertiu, com um tom raivoso, tentando esconder que urinava nas próprias calças de medo.
- Deve ser uma diversão para vocês ameaçarem mulheres, já que são inaptos para conquistar qualquer uma... principalmente você, que é um mestiço imundo e repulsivo, que apenas serve para causar asco a quem tenha o desprazer de encará-lo.
- Você não passa de uma puta, Narcissa! Todos sabem que você foi expulsa da família Black...
- Eu sinceramente meditei se deveria ser bondosa com você... – comentou displicente entrelaçando os dedos nas pontas dos cabelos, indiferente aos xingamentos, como se estivesse se esforçando a fazer algo contra a própria vontade.
- Entretanto, o que receberá agora é pouco, ante a afronta feita a quem lhe é infinitamente superior.
- Onde estão aqueles vagabundos? Vamos, Rabicho, revele! - Narcissa ordenou, prensando o salto de seu sapato contra o rosto de Peter.
Sentindo a sua magia elemental oscilar, de um jeito assustador e preocupante, ela permitiu que fosse criada uma atmosfera fria no entorno dos dois. Era o que bastava para lhe dar a coragem, que faltava, para prosseguir no seu intento. A retaliação principiava de um jeito, extremamente, promissor.
Antes de sair, o fez bramir como um animal ferido, lançando o Sectumsempra, rasgando não só as roupas, lhe despedaçava toda a dignidade que lhe restava até aquele instante. As reflexões de Narcissa naquele momento eram tumultuadas e confusas. Ela se perguntava se tinha ido longe demais na execução daquele ato, ou se, considerando todo o mal que aquele indivíduo tinha causado, sua vingança tinha sido insuficiente.
Avaliando suas ações com cuidado, seu senso e discernimento entravam em conflito, alimentando a fúria que dominava sua alma. Cada célula de seu corpo intensificava suas crescentes vontades, e ela não permitiria que ninguém ousasse machucar aquele a quem amava.
Enquanto planejava seus próximos movimentos, localizar James não foi tarefa difícil, já que ele se exibia para os demais alunos. Além disso, não foi necessário fazer qualquer esforço extraordinário para atacá-lo. Em uma rápida sequência de feitiços "Locomotor Mortis" e de "Expulso", ela o fez perder o equilíbrio e atravessar uma grande janela de vidro. Certamente, isso deixaria uma cicatriz marcante em seu rosto, uma perspectiva que a enchia de satisfação.
De fato, considerava que seria uma lembrança excelente para recordar quando estivesse entediada ou chateada. Se unindo aos demais, que olhavam o revés com curiosidade e um pouco de contentamento, disfarçava para melhor analisar tudo e todos. Queria localizar Sirius e sanar a sua gana de enfiar a varinha na garganta dele... até que implorasse por perdão ou morresse sufocado pela própria arrogância.
- Veio visitar o Ranhoso? – a voz inquisitiva soou próxima ao seu ouvido, fazendo arrepiar a pele de Narcissa.
- Não o chame assim... - pressionou a varinha contra a região do baixo ventre dele, sentindo a tensão no ar como uma faísca prestes a se incendiar.
- Você se aproveita, priminha, que eu não posso cobri-la de porrada. Tem muita sorte por ser mulher, admita – a arrogância de Sirius reverberou no corredor, seu tom debochado como facas afiadas cortando o ar. Narcissa pôde sentir o calor da raiva borbulhando dentro dela e esquentando as suas bochechas, enquanto o olhava nos olhos, sem medir as consequências que se avizinhavam.
- Sendo bem sincero, espero que fique feliz que eu não perca o meu tempo espancando gente tão fraca quanto você.
- Estou à disposição, caso queira tirar a varinha daí e pegar nele... me sinto bastante convicto de que jamais experimentou um homem de verdade e, a Bella, não se chatearia caso eu decidisse fazer esse favor – ele riu abertamente, até que a bofetada no rosto cessou sua zombaria. A dor aguda na pele lhe despertou os sentidos e o enraiveceu.
- Abusado!
- Você que é uma insolente e ridícula!
Em meio segundo, a expressão irônica de Sirius cedeu lugar a uma agonia intensa, como se uma força invisível o esmagasse contra o chão. O ar ao seu redor se tornou venenoso, asfixiando-o lentamente. Em que momento exato Narcissa atingira tal clareza em relação aos abismos das vias sinistras e dexteras?
Sua mente se perdeu em um turbilhão de sensações, sombras dançando diante de seus olhos e sussurros ininteligíveis enchendo seus ouvidos. Sirius estava confuso, pois, entre as mulheres da família, apenas Andromeda tinha atingido o nível de uma bruxa cinzenta e transitava entre os dois lados da magia. Aquilo parecia ser o seu fim iminente.
As poucas deduções que Sirius conseguia formular o levavam a acreditar que Narcissa estava explorando os limites da magia negra, o Verbis Diablo, um território proibido que sua mãe se orgulhava de dominar com precisão. O terror o dominava, mas ele se recusava a se entregar e menosprezar a própria desgraça.
- Não ouse me enfrentar... eu estraçalho você sem qualquer remorso, como faria com qualquer verme da sua laia, seu covarde obtuso! – a voz de Narcissa assumiu um tom sombrio, enquanto observava a agonia de Sirius. Ela sorria maleficamente, ciente de que estava infligindo um sofrimento indescritível.
- Eu já castrei aquele anormal do Pettigrew e, quanto ao seu namorado, eu o amaldiçoei antes de o jogar pela janela. Potter sucumbirá em sua insolência e excesso de autoconfiança. Contudo, isso não me basta, Sirius. Ele carregará a vadia sangue ruim para a ruína.
- Você se converteu a uma aberração, Narcissa! – a voz de Sirius estava sufocada, suas mãos agarrando a garganta como se tentasse desfazer o aperto invisível.
- Não querido... eu sou meramente uma bruxa que prestou atenção aos ensinamentos que lhe foram dados por anos. Você deveria ter feito o mesmo- ela contestou, se afastando da cena com um semblante irônico emoldurando seus traços, deixando-o se debater na miséria que havia criado.
Apreciando os primeiros gritos de dor, resultantes dos espasmos e o surgimento de feridas putrefatas se espalhando pelo corpo de Sirius, Narcissa sentiu uma satisfação perversa. As maldições que lançara sobre cada um deles durariam dias e se espalhariam como uma praga. Com um sorriso sádico, ela sabia que, pelo menos por algum tempo, aqueles três estariam incapacitados de causar mais estragos.
O futuro glorioso que sonhavam estava escorrendo por entre seus dedos.
