Severus se formou em Hogwarts na metade do ano de 1978, confiante e orgulhoso do futuro promissor que se descortinava à sua frente. O sol do final de junho aquecia a cerimônia de formatura, pintando o céu com tons dourados enquanto os alunos reunidos celebravam o término de uma jornada épica. Ele estava decidido a trabalhar até o mês de agosto na B Elixires e, depois, seguir para a França. Lá, realizaria um dos seus maiores sonhos, o de fazer o tão almejado estágio com Flamel. Graças àquela oportunidade, já se achava livre para dar continuidade aos seus projetos, após tantos anos, sem qualquer perspectiva de reconhecimento além da ofertada por Slughorn.
Naquele momento, sentiu a perseverança o envolver. Percebia o quanto era digno de ser feliz e de viver dias maravilhosos ao lado de Narcissa. O aroma das flores que decoravam o pátio da escola pairava no ar, misturando-se com o burburinho das conversas e risos dos alunos. Ele não deixaria mais espaço ou motivos, em sua existência, para perder um segundo que fosse se negando a desfrutar a sua juventude e o amor que sentia pulsar em seu peito. O perfume das rosas vermelhas se mesclava com o som alegre das risadas, criando um cenário extraordinário e inesquecível.
A resolução de Severus era inabalável. Nada o faria recuar; ele buscaria uma alternativa para se livrar da maldição que o atormentava. Recusava-se a revisitar aquele futuro-pretérito, tantas vezes exposto na Penseira, por não enxergar mais nele os seus anseios. Talvez, nunca tivesse se visto de fato naqueles sonhos e estivera se enganando por todo aquele tempo.
Assim que concluísse os seus estudos e aprendizados com o renomado alquimista, quebraria todos os frascos e correntes que o prendiam. Cada pensamento sobre sua liberdade futura era acompanhado pela sensação de alívio, como se grilhões invisíveis tivessem sido removidos.
Os horrores seriam lançados nas areias do esquecimento, desaparecendo como grãos ínfimos na tempestade. O cheiro das folhas úmidas sob seus pés, enquanto caminhava pelo pátio, era um lembrete constante de que a vida estava cheia de renovação. Por mais que lhe doesse e fosse contra os seus princípios inabaláveis, romperia o juramento feito a si mesmo, lançando ao total abandono o que lhe fora remoto. De qualquer forma, era a época de renovação, de renascimento, de colher os frutos que semeara e de criar certezas. O que mais poderia querer?
Talvez, desejasse vivenciar a loucura de se entregar ao afeto, após uma existência fadada à subjugação e ao medo. Quem sabe, se afastar das coisas pérfidas e nulas às quais se envolvera e se interessara? O que lhe era óbvio, era o fato de que precisava ser o único executor responsável por cada um dos seus atos e decisões.
Ao olhar as inúmeras cadeiras dispostas para familiares e amigos, percebeu que Andromeda e Rodolphus, este último segurando Nymphadora no colo, bem como Narcissa, estavam sentados e acenavam para ele com sorrisos calorosos e olhares carregados de orgulho. Era inegável que eles estavam radiantes com a sua conquista e aquela cena era o mais próximo de uma família que poderia desejar. Os observar tão felizes, preencheu o seu peito com uma sensação de pertencimento. Uma onda de amor que aqueceu seu coração imediatamente.
Mais adiante, Severus viu os Rosier, que num breve gesto também lhe enviaram cumprimentos, sobretudo vindos do patriarca da família que parecia observá-lo com um semblante de aprovação e respeito pelo que era e o que ainda havia de se tornar. Por último, havia os Black, que o ignoravam em sua maioria, com exceção de Regulus, que lhe fazia um gesto que poderia ser interpretado como um símbolo de vitória, de uma conquista tão árdua, que o fazia destinar ao amigo um sentimento de profundo reconhecimento e admiração.
Foi então que se permitiu sorrir abertamente. Uma sensação de liberdade e determinação o envolvia. Apenas desse modo, Ártemis lhe presentearia com o talismã da Fortuna e permitiria que os seus dias fossem iluminados pelo carro de Apolo. Era a sua única esperança. O som suave do vento soprando pelas árvores no pátio sussurrava a promessa de um futuro desconhecido, enquanto ele contemplava o horizonte que se desvelava.
Respirando profundamente, Severus abriu a carta recebida do Ministério da Magia com as suas notas, abrindo um sorriso irônico. Alcançara o seu primeiro propósito. Os oito Ótimos e, os quatro, Excede Expectativas, lhe abririam muitas portas. Uma marca imbatível de doze NIEMs que, certamente, não passaria despercebida pelos poderosos.
Resultados obtidos à base de muito esforço, noites mal dormidas, horas intermináveis de estudo, idas a Hogsmeade desprezadas dentro da biblioteca, a saudade que sentia da sua flor de Narciso e, acima de tudo, solidão. Qual era o efetivo custo de empreender todas as aspirações? O que as divindades lhe exigiram a total renúncia? Cada nota obtida parecia carregar consigo o peso de todas as horas de dedicação e abnegação. De todos os momentos em que secretamente desejou ser outra pessoa.
Afastando a ansiedade, ele se concentrou em sua convicção de que não havia espaço em suas reflexões para o que considerava sentimentalismo barato. Nunca exporia publicamente quais eram as suas reais intenções ou os seus afetos, tampouco, agiria de maneira pretensiosa e burra. Não daria às armas tão cobiçadas por seus inimigos. Jamais sucumbiria diante de vaidades vãs que só o prejudicariam. A determinação brilhava em seus olhos de obsidiana, refletindo a sua resiliência.
Sua verdadeira vitória e triunfo sui generis foram conquistados sem holofotes, de forma silenciosa, sorrateira e firme. Era como deveria sempre ser. Dessa forma, ele se tornaria o bruxo mais forte e bem-sucedido do mundo, muito mais do que jamais imaginara durante toda a sua infância.
Se a sua vida fosse resumida às conquistas e as batalhas diárias que enfrentara, ao longo dos anos, aquele era o ponto exato em que exigiria exibir a sua primeira medalha. Não que desconsiderasse os seus pequenos êxitos anteriores, mas o empolgava recordar da mais brilhante, a mais sedutora e a mais poderosa... resumida no segundo em que trajou a toga verde esmeralda, obteve o diploma em suas mãos e transmitiu a todos o seu sucesso. Cada pensamento sobre suas conquistas era acompanhado por uma sensação de triunfo.
Logo, viria a tão ambicionada viagem de estudos, cujo resultado seria o seu ingresso na Sorbonne Université.
Cursaria alguma graduação voltada às pesquisas em Bioquímica ou Engenharia Química, ramos que o atraíam por suas estreitas ligações com a Alquimia e a confecção de Poções. Por que, então, não frequentar as duas? Já era um Mestre em Poções, em pouco tempo seria também Mestre em Transfiguração e, por fim, Alquimista, na Académie d'Alchimie Agrippa et Flamel.
Uma dupla formação nas áreas voltadas à saúde e a tecnologia dos trouxas, não lhe faria nenhum mal. Cada ideia sobre seu futuro acadêmico era acompanhada pela sensação de empolgação.
Os anos fizeram com que compreendesse e reconsiderasse as suas próprias visões de mundo e, isso, lhe levou a aprender o valor da análise das mais diversas possibilidades que sempre se descortinariam em seu horizonte. A questão sintetizava em aceitar ou não o que lhe era proposto. Aceitar o fato de que o que restava era pesar qual estrada trilharia.
Massageando as têmporas meditativo, Severus, refletiu o quanto necessitava de uma pausa para descansar a mente. Precisava de algumas horas ociosas para organizar as suas novas ideias, agilizar a produção das poções encomendadas ou as que ficariam no estoque para serem vendidas, esquematizar os prováveis rumos que tomaria. Entretanto, nada disso parecia ser possível. Pelo menos não naquele instante em que havia muito mais a ser formalizado antes que pudesse se dedicar a si mesmo.
O calor do laboratório o envolvia, criando uma sensação abafada, enquanto a luz da lâmpada se filtrava através de vidros manchados não apenas por poções, mas também por recipientes que armazenavam animais mortos. Observando atentamente as sombras densas que se formavam e vagavam em pequenos vapores, ele olhou para os ramos de cicuta, sentindo a textura áspera das folhas em suas mãos, ao mesmo tempo em que ignorava os gritos de sua mente agitada, que pulsavam com pensamentos sobre seu futuro e a difícil decisão que teria que tomar.
- Como eu vou contar à Cissy que não poderei levá-la comigo? – se questionava preocupado, falando baixinho, enquanto cortava alguns ramos de cicuta.
- Como vou dizer que a vida dela é aqui e que não quero atrapalhá-la, especialmente agora que a Elixires está dando passos largos em direção ao sucesso que ela tanto deseja?
Foi então que os seus sussurros foram interrompidos.
- Amor, já está pronto o Veneno de Sócrates? – Narcissa entrou no laboratório aberto, o indagando, ao mesmo tempo em que revisava os documentos e pergaminhos que lhe foram entregues.
- O Rabastan está aguardando pela encomenda próximo ao balcão. Ele disse que o Lorde das Trevas o enviou aqui com urgência.
- Diga ao Lestrange secundário que estará pronto em 30 minutos. Se ele quiser que seja mais rápido, que venha aqui e inale esse vapor insalubre", respondeu Severus, um pouco irritado, sem encará-la, com os olhos fixos no caldeirão e o rosto coberto por uma máscara.
- Aquele obtuso acha que fazer uma tisana dessa planta é simples, por acaso?
- Acalme-se, príncipe reclamão. Por favor, não mate a mensageira das más notícias - disse, deixando claro o incômodo que sentira com tal reação.
- Cissy... - chamou Severus, soltando um leve suspiro, percebendo que havia sido grosseiro desnecessariamente ao notar que ela estava aborrecida.
- Eu deixarei aqui, em cima da mesa, as cartas que foram endereçadas a você. Espero que não agrida o Orestes antes de enviar o retorno - concluiu, fazendo um aceno breve com a mão, enquanto se retirava.
- Narcissa, por favor...
- Sim? O que deseja? - perguntou, virando-se um pouco para compreender as razões que o levavam a solicitá-la.
- Obrigado! Eu sei o quanto está se esforçando para que tudo funcione. Agradeço imensamente - argumentou com um semblante sério e um pouco chateado com sua própria atitude.
- Me perdoe por não ser tão gentil quanto merece e por ter jogado o meu lixo emocional sobre você.
- Não se preocupe, Severus. Entendo o quanto está atribulado e deve estar nervoso com a proximidade da viagem - comentou Narcissa, dando um breve sorriso, sem prolongar mais a conversa.
- Até mais.
- Até depois.
Contemplando o fato de que a magoara, deixou o caldeirão ferver por alguns minutos, sem sua supervisão. Nada mais sairia errado. Com alguns passos, aproximou-se da mesa, revisando as outras solicitações que lhe foram feitas e, principalmente, lendo as cartas que lhe foram destinadas.
De fato, seu sossego não era desejado pelos demais. Faltando um pouco mais de três dias para sua viagem a Paris, recebeu um infindável número de propostas tentadoras de emprego. Como decidir? Não seria capaz de deixar a B Elixires e trabalhar em outro lugar. Comprometera-se com Narcissa e seu propósito.
- É, corvo alado, pelo visto os vapores venenosos o estão confundindo... agora chegou a hora de começar a partir e deixar seu coração um pouco de lado – sussurrou, enquanto examinava o líquido fumegante e mortal, parafraseando Platão, antes de envasá-lo.
- Eu vou dedicar-me aos estudos, enquanto outros se aproximam da morte e os restantes padecem com uma vida difícil. A verdade é que quem ficará com a melhor parte não será capaz de mostrá-la, especialmente quando todas as nossas escolhas nos levam à inevitável perda.
Discorrendo os convites do diretor do Saint Mungus, do secretário do Ministro da Magia, do chefe dos Aurores e, também, dos Inomináveis, ele mergulhou em sua própria indecisão. A última correspondência era do próprio Lord Voldemort, felicitando-o pela formatura e oferecendo-lhe uma carreira brilhante. Entre todas as propostas, essa foi a que mais chamou sua atenção e aguçou sua curiosidade, primeiro pelo ineditismo e surpreendente convocação, segundo pelas dúvidas que despertou. Por que o Lorde das Trevas o agraciava quando já possuía um cargo de pocionista desde os 14 anos, entre os Comensais da Morte?
Ainda se lembrava de ser um pouco mais velho do que uma criança quando recebeu a missão de ser o único responsável pelas infusões e poções curativas que aquele homem deveria ingerir diariamente. Qual seria a ordem agora? Haveria alguma mudança nos planos? Teria o direito de se opor ao que estava estabelecido? Não haveria meios de reivindicar sua liberdade após o Voto Perpétuo e o Pacto de Sangue. Era impossível desfazer o que já estava em execução há tanto tempo.
Uma circunstância que o acossava e o deixava impaciente até estar ciente do que o esperava. Aquele convite escondia mais do que mostrava.
A veracidade das insinuações e sugestões impressas nas entrelinhas não demorariam a transparecer. Como resposta, notou a chegada de Fall, que atravessava a janela da B Elixires apressadamente, portando o pergaminho com a última convocação. Teria que ir até a Malfoy Manor em Wiltshire com Eileen imediatamente.
- Onde está Rabastan? - perguntou com um olhar interrogativo para Narcissa, que fechava o caixa com o frasco nas mãos.
- Ele acabou de receber a intimação do Lorde das Trevas para comparecer à reunião de hoje... você também foi chamado? - ela o olhou com apreensão.
- Sim... eu prometo voltar em breve - Severus respondeu laconicamente, se aproximando para lhe dar um beijo rápido antes de se dirigir ao encontro.
- Sevie, pare. Você não pode sair desprotegido – Narcissa o segurou firme pelo braço e o deteve.
- Cissy... eu devo partir imediatamente.
O olhar que ela lhe lançou fez com que se calasse imediatamente para aceitar o breve feitiço que seria executado.
- "Que a estrela se abra à sua frente. Que o vento sopre levemente às suas costas. Que o sol brilhe morno e suave em sua face. Que a chuva caia de mansinho em seus campos... E, até que nos encontremos de novo, que Deus lhe guarde na palma de Suas mãos" – recitou baixinho a oração celta enquanto apertava suas mãos geladas, com uma fé inabalável de que nenhum mal o atingiria.
- Eu estou convicto de que Lua Rosa e, principalmente, Mabon irão me defender esta noite – afirmou beijando as costas das mãos finas e suaves.
- Todos os deuses estarão ao seu lado, confie – assegurou, o abraçando, em uma tentativa ineficaz de fazê-lo ficar.
- Se você me garante, eu creio que sim – afirmou, retribuindo o gesto, antes de partir.
Chegando em Caerleon, preferiu ir ao Fort Adams antes de encontrar a mãe, para pôr as suas ideias em ordem. Necessitava lembrar dos dias felizes que vivera, para depois rumar à fatalidade ou sorte que o aguardava. Como ter noção do que viria quando as nuvens se carregavam de um cinza chumbo, modificando o mundo para uma representação do inferno sangrento que encerrava mais um ciclo de sua essência?
Fechando os olhos e deixando que o vento litorâneo bagunçasse os seus cabelos, Severus recordou do velho Snape ao seu lado... o aconselhando, o ensinando, o tornando um homem melhor do que um dia fora. Jamais lograria a possibilidade de esquecê-lo. Por mais triste que fosse, era o pai que conhecera e que lhe dera todo o carinho que tanto necessitava na infância. Se não tivesse surgido do futuro, indubitavelmente, teria aquela mesma existência solitária, e seus olhos continuariam com as olheiras taciturnamente profundas.
- Eu queria que estivesse aqui e se orgulhasse do que estou me transformando, pai. Eu sei que o senhor se envaideceria com o meu sucesso, porque ele é seu... é o resultado de todo o seu esforço para me fazer uma pessoa digna e honrada – conversava, de si para si, encarando as ondas.
- Eu julguei, pela demora injustificável, que você só poderia estar aqui... – a voz de Eileen soou cortando as suas ponderações e a contemplação às próprias memórias.
- Falando sozinho, como sempre, feito um louco – a voz de Eileen soou cortando as suas ponderações e a contemplação às próprias memórias.
- Decerto, se eu tivesse uma mãe presente, eu não carecesse desse artifício – contestou, destinando a ela, um olhar de raiva.
- Não seja dramático, Severus! Você merece a forma com que lhe tratam – afirmou, olhando-o com desinteresse.
- Vamos, então, senhora Prince? – indagou, cerrando as mãos dentro dos bolsos, para conter a raiva que sentia pulsar em seu corpo.
Após a breve discussão, ambos desaparataram do Fort Adams e foram transportados, em segundos, ao local combinado. Com uma rápida aparatação, chegaram aos jardins cobertos por sebes de teixos, com pavões altos vagando pelo gramado próximo à estradinha que levava até a entrada da mansão. Era triste ver o abandono e a falta de carinho estampados nos olhares perdidos e vazios daqueles animais. O mesmo ar de desprezo e desamparo se refletia nas expressões desoladas dos elfos escravizados por aquela família detestável.
No interior suntuoso e opulentamente decorado, tudo o que ali se exibia era solidão e medo. O desespero não dito se refletia no magnífico tapete persa, na mesa ornamentada pelo sangue e o suor dos inocentes, nos mármores usurpados de alguma rocha metamórfica e no espelho dourado ornamentado com o ouro roubado das antigas colônias britânicas, que já davam passos e respiravam liberdade. O som dos sapatos se chocando contra o chão era acompanhado pelos quadros que espionavam a passagem dos visitantes pelo corredor, quebrando o silêncio mórbido das paredes grossas e frias.
Ao atravessarem o passadiço, tão mal iluminado quanto o hall de entrada, suas respirações ecoavam, ostentando o ambiente sombrio e aterrador em que se situavam. Girando a maçaneta de bronze, entraram no cômodo em que Lord Voldemort celebrava uma reunião com os Cavaleiros de Walpurgis e os jovens Comensais da Morte.
Vultos, gargalhadas, sombras, rostos sem forma distinta escondidos por trás de máscaras e capuzes pretos reluzentes. Horrores se desenhavam pelos caminhos que o vento traçava, à medida que o coração de Severus batia acelerado como um tambor descompassado vibrando na garganta. Em negação, diante do claro axioma, sua imaginação determinou que aquele era o melhor momento para traí-lo, trazendo à tona os segredos ocultados até de si mesmo.
Não pretendia ter que ouvir, mais uma vez, seus sentimentos. Era cruel demais constatar que eles se opunham às suas vontades. No entanto, quais eram seus anseios? Quais eram seus verdadeiros e mais profundos desejos? Tudo estava estranho, confuso e perturbador, como se o mundo estivesse de cabeça para baixo. Onde ele estava em sua própria mente para não ter percebido?
Não era apenas o fim da essência do que acreditara ser seu verdadeiro eu. Era a conclusão de uma etapa, de uma era, de uma consequência fundamental do que lutara para alcançar.
Eileen se afastou sem emitir qualquer sinal de apoio ou compreensão para o que Severus estava passando. O lugar estava lotado com a presença dos membros fundadores do ciclo mais íntimo. Rostos antigos dos amigos de Tom Riddle se revelavam, cercando-o com sorrisos abertos. Os mais jovens, em sua maioria, colegas de Sonserina da década de 1970, o parabenizavam com tapinhas breves nas costas. Naquela ocasião, ele seria honrado com a Marca Sombria.
A notícia de que abandonaria o posto de jovem aliado para se tornar, irrevogavelmente, o braço direito o encantou instantaneamente.
Ele lideraria tropas e expandiria os domínios do império bruxo, casaria com Narcissa e se vingaria de todos aqueles que a fizeram sofrer. A sede de vingança e a atenção cuidadosa ao que cobiçava o afastavam do tic-tac do relógio. Os ponteiros, lentos e cruéis, ditavam o ritmo em que as sensações atrozes se desenrolariam
Seu espírito se esvaziava e vagava por temas que guiavam seu futuro. O antigo debate interno e a agitação de que continuaria andando em círculos, vivendo em erros, o rasgavam mais do que o fogo que queimava sua carne. Seu sangue, músculos, pele e articulações borbulhavam como lava. Milímetro por milímetro, queimando em brasas, o receio e a aflição o dominavam.
Severus estava ofegante, lutando para manter a consciência e abrir os olhos. Ele desejava focar em qualquer ponto. Procurava por uma senha, um sinal ou um som que pudesse ajudá-lo a recuperar a sanidade que se esvaía. Qualquer coisa que pudesse retirar sua alma dali e conduzi-lo a um lugar onde a dor não existisse.
Sentia o gosto ferroso de seu próprio sangue escorrendo em sua garganta, alertando suas percepções e deixando-o mais atento ao que ocorria ao seu redor. A quietude era aterradora, sufocante e intensa, como se o isolamento penoso o cercasse. Um sentido confuso de que o abandono de Narcissa era iminente o fez confirmar a presença de uma força, quase insana, que o acompanhava.
Relembrando as razões que o levaram a aceitar aquele acordo absurdo com Lord Voldemort, compreendeu o quão desesperado e perdido aquele homem se encontrava. Estava cego, errante na escuridão, sem analisar quaisquer opções plausíveis que pudessem surgir à sua frente. Nem mesmo foi capaz de enxergar o óbvio, algo tão verdadeiro e puro que se tornara invisível aos seus olhos.
De qualquer modo, a única coisa da qual tinha certeza era que o Lorde das Trevas cumpriria sua palavra. Ele faria tudo ao seu alcance para efetivar o pacto.
Se fosse Dumbledore, tudo se desenrolaria de forma contrária. Estava convencido de que Dumbledore o manipularia e brincaria com seus sentimentos mais profundos, violentos e inconfessáveis, de tal forma que suas ilusões nunca se tornariam realidade. Sua existência não passaria de uma completa mentira.
Sem dúvidas, mataria Sirius ou Bellatrix para evitar o nascimento de Hermione, alegando que, tudo fora feito "Para um bem maior" ou evitar que a guerra sofresse qualquer tipo de mudança significativa. Severus, o odiava e o abominaria até o último dia de sua vida.
Olhando para o lado, testemunhava os gritos de Bellatrix, ao ser ferida pelo fogo que lhe abria a pele. Se esforçando para chorar o mínimo possível e controlar a própria força, para não machucar a filha em seu colo, o olhar dela estava desfocado e nebuloso. Delphini a encarava assustada e com medo. Até mesmo os mais renomados torturadores, ali presentes, se chocaram com a cena de terror exposta.
Alguns murmuravam sobre retirar a pequena dali para que não seguisse como testemunha de tamanho horror ou porque, eventualmente, poderia acabar sendo ferida.
A verdade mais cruel era que, a partir daquele instante, Bellatrix não seria mais a moça brilhante e cheia de sonhos. Passaria a agir como o braço esquerdo, a general que morreria para salvar seu rei, perdendo a própria identidade e se subjugando àquele que a oprimia. Em resumo, se tornaria uma sombra de si mesma. Um simulacro do que um dia fora.
Virando o rosto para o lado, perdido e com a visão turva, Severus caiu de joelhos. A Marca Sombria pulsava em seu antebraço comprovando às boas-vindas do batismo de sangue pelo qual passara. Não derramaria uma lágrima. Mesmo que sentisse a sua consciência se esvair se mostraria forte diante de todos aqueles que o encaravam naquele momento.
- Aguente firme, isso vai ser mais rápido do que imagina – uma voz doce pareceu sussurrar em sua mente tais palavras.
Tudo escureceu. Suas reflexões e seus devaneios eram os únicos companheiros, quando o seu corpo não respondia aos chamados. Seu subconsciente se ativara, expondo todas as hipóteses de como resolver e derrubar as barreiras que ainda o impediam de prosseguir. A dor lhe fornecia algo de bom e a constância que aspirava.
Sempre em frente, como um líder, desprovido de fraquezas e de titubeios. Não decepcionaria o homem do futuro, que depositara as suas expectativas em alguém tão jovem, sonhando com dias melhores. Amaria Narcissa, com todo o seu coração, vivendo ao seu lado uma vida maravilhosa. Protegeria Hermione das maldades do mundo, testemunhando o seu crescimento e a sua felicidade.
A lucidez voltou, aos poucos, escutando os ponteiros do relógio indicando os segundos. Tudo o orientava para ir ao encontro daquela que o chamava. A única que alegrava os seus dias tristes e o aceitava com os seus múltiplos defeitos terríveis.
Era o sol que resplandecia nas manhãs frias de inverno, enchendo o peito das mais doces ilusões e anunciando a chegada da primavera. A Senhora do Lago, detentora de todos os segredos que portavam a perfeição e a guardiã do aço que fortificava os Pendragon. Apenas isso a definiria. Essa era a única forma para descrever a sua flor de Narciso.
No início do ano seguinte, mais especificamente em 1979, Severus se via completamente envolvido com os planos genocidas. Estudando ferrenhamente as artes que o agradavam e aqueles a quem tinha por inimigos, chefiava os ataques atrozes aos que julgava inferiores. Nada mais lhe importava, ocupando o máximo de seu tempo, após o doloroso término de seu namoro.
Sentia um peso insuportável por tê-la deixado em segundo plano. Narcissa merecia mais do que isso, e tal constatação o corroía por dentro. O único sentido que encontrava era se divertir com o sofrimento que causava aos demais, extravasando todo o ódio e o ressentimento que ardiam em seu peito.
Totalmente entregue ao frenesi perverso da violência exacerbada, desfrutava do caos com prazer doentio. Era delicioso se deleitar com as vacilações e os gritos desesperados dos torturados. Era um êxtase ser suficientemente maligno para se deleitar com a mortificação alheia. Seu coração pulsava forte, mas ele era incapaz de reconhecer qualquer sentimento que não estivesse relacionado ao seu ódio crescente.
A exagerada violência voltara a lhe fascinar.
Os assassinatos, os jogos perigosos, as bebidas, as drogas, as nuances vermelhas e terrosas que pintavam as paredes. Mesmo que fosse apenas um espectador, pois sentia repulsa ao testemunhar como algumas pessoas se degradavam em troca de dinheiro e companhia, entregava-se às relações sexuais furtivas. Quantas bocas passariam pelo seu corpo o usando como escada para aproximação ao Lord das Trevas? O rolar dos dados, por entre os dedos, manifestando que ele não deixava de ser vítima de suas próprias fraquezas. O que mais precisava fazer para apagar a angústia que o atormentava?
Como pôde perder o que lhe era importante em tão pouco tempo?
Se antes algumas recordações costumavam lhe entregar alegria, com o passar dos dias e a vida que levava, elas se tornaram um fardo insuportável. A vida não era justa e, provavelmente, alguma divindade sádica ria da sua desgraça e a agonia que o sufocava. Ele ansiava por voltar ao zero, recomeçar de onde parara, se reencontrar e reconquistar Narcissa.
Não aguentava mais as noites insones e a distância. Não toleraria o fato de que se transformara em um vago vestígio do homem que deveria ser.
Na escuridão, quando a lua parecia perder todo o seu brilho, vultos e mistérios se ocultavam nas brumas. Os sussurros das criaturas das trevas, como se fossem fios invisíveis a puxá-lo para o abismo, pareciam querer lhe apontar a direção sombria para a qual sua alma parecia rumar. Enquanto isso, os seus demônios internos, como sombras a se movimentar com vontades próprias, pareciam convictos de que tinham o total domínio de fazer com que ele permanecesse cegamente bloqueado para a verdade que o cercava.
Um martírio diário e contínuo. Uma sucessão de repetições de alguns atos, alterações de outros tantos... algumas notícias chegavam aos seus ouvidos e o desesperavam. Sua adorada Narcissa certamente o esquecera para sempre e marcara a data do casamento com Lucius. Pelo menos era o que Evan lhe garantia, com um semblante consternado, sem querer se aprofundar muito no assunto.
Era o fim do caminho.
Por que ainda insistia tanto em sonhar acordado? Por que se dedicava tanto a alimentar expectativas positivas quando a vida já se mostrara hostil? Seu destino manifesto não permitiria a existência de algum espaço, mesmo que ínfimo, para que fosse feliz. Não merecia. Sua existência se resumiria eternamente a implorar e rastejar a cada novo corte ou ferimento.
Admirando a beleza de uma nova manhã, ao estancar o sangue e fechar os novos cortes, as cicatrizes se destacavam em seu peito. Os raros raios de sol, imponentes no horizonte, vibravam nos tons vermelhos que ainda manchavam suas roupas e talvez pudessem ser a fonte de renovação de suas energias. Silenciosamente majestosa, a natureza nômade e selvagem do amanhecer se revelava, despida dos esplendores ou honrarias reservados à riqueza. Severus via nessa paisagem um reflexo de sua própria luta interna.
Nua e insana, a essência indômita lutava para se ocultar sob uma fachada de civilização. Naqueles becos de Paris, seus diabretes tramavam novos atos obscuros e se apresentavam mais perversos do que nunca. Ainda encarando o chão úmido de paralelepípedos irregulares, sentia que seu sangue fervia rápido, ágil, preciso, impiedoso, ditando o que deveria ser.
Cortejara e homenageara a morte naquela madrugada, pintando as paredes com vermelho vivo, refletindo a sua raiva nas luzes fracas dos lampiões distantes. Uma noite bestial, envolta pelas paredes de pedra desgastada por séculos de história revolucionária e tão sangrenta quanto a sua própria existência.
Fantasmas pareciam erguer-se ao seu redor, repletos de cicatrizes do tempo e das memórias que nunca conseguiram contar. O peso de seus medos e das vidas que deixaram para trás o afetavam, carregavam o ar com um aroma sinistro, brindada pelo sorriso do demônio, satisfeito pelo jorrar viscoso do sangue terroso que lavava o solo.
Encarando as próprias mãos, Severus contemplava seu feito sem qualquer emoção aparente, ouvindo os sons distantes da cidade que agora começavam a ecoar. Assim como seus sentimentos mortos, a vida cotidiana parecia ignorar a existência daquele canto esquecido ou daquele corpo que jazia no chão. Era mais um infeliz. Mais um trouxa com a garganta cortada, se afogando no próprio sangue, enquanto seus olhos imploravam por misericórdia. Dando alguns passos cambaleantes e desafiadores, ele ficou reverenciando o findar das forças e a chegada iminente da intricada tempestade que se aproximava.
Recriar o mundo era muito mais complexo do que ele seria capaz de admitir.
Seus pensamentos, meditações, dores, remorsos, ou o que quer que fosse, rondavam os trilhos utópicos das possibilidades de atravessar todo o universo. Talvez Severus estivesse sendo condenado, por seus reajustes contínuos, o relembrando de que não conseguia se libertar de quem era.
O menino tímido e perdido, constantemente surrado, que se escondia nos cantos mais sombrios do Spinner's End, ainda se fazia presente. O medo, ainda o impedia de ter a clareza essencial para desvendar o seu lugar. O fato fundamental era ter apostado tão alto e lutado para conquistar os seus sonhos. No entanto, quanto mais ele se empenhava em fugir, mais os caminhos o conduziam às semelhanças com Tobias. Esse era o fruto de se atirar no submundo e não dar valor às consequências.
Sangue, navalhas, brigas e mortes.
A tônica perfeita para descrever suas ânsias, seus hábitos e a sociedade que o criara. Ele era o resultado do antro de perdição e desespero dos renegados pelo brilhantismo do Velho Continente.
Com um sorriso triste e desesperançado, Severus lembrava dos momentos em que andara nas ruas, avistando o rio poluído que deslizava docemente por sua própria vontade. A cidade de Paris, envolta em densas nuvens de profundos mistérios, parecia refletir sua própria escuridão. Que os deuses tivessem piedade e aliviassem a dor inevitável que cortava tantas almas desenganadas.
A beleza dos traçados e ruas perfeitas não apagava tais indícios traçados em sua consciência.
Rastros e imagens ordinárias serviam apenas para reavivar a repulsa e o ódio que sempre o moveram. Seu temperamento colérico nunca se amansava, e ele se perguntava se sua vida era sintetizada pela barbárie que o cercava. Quais as razões que lhe davam tanta animosidade... exceto por ela? Será que a sua vida era sintetizada pela barbárie?
Como um pássaro de fogo desnorteado, Severus sentia que sempre incendiava o que tocava e feria a quem amava. Riscando o céu com vestígios de glória e destruição, amedrontava aqueles que o viam romper as nuvens. Quebrando o solo e queimando a imensidão, seu calor espectral irradiava nos recantos da Cidade Luz.
Focando a sua imaginação em um ponto específico, em segundos se via diante da imponente construção, examinando se deveria ou não prosseguir com as suas loucuras. Incineraria todo o tabuleiro de xadrez e reorganizaria os rumos da guerra como ambicionava... se quisesse, efetivamente, se converter no general perfeito, teria de ter todo o conhecimento e a instrução do maior dos marechais do mundo bruxo.
