Aquele dia arrastava-se intensamente, como se o tempo tivesse perdido o ritmo das horas. Enquanto meticulosamente revisitava os princípios da Alquimia, em busca do erro que podia ter ocorrido durante o processo de transmutação, Severus estava mergulhado em seus pensamentos. Tão absorto e imerso em si mesmo, que mal conseguia perceber o sorriso que Flamel lhe destinava, enquanto observava sua preocupação e ingenuidade diante das complexas metáforas alquímicas.
Para alcançar a transmutação, embora ainda não soubesse, ou estivesse completamente fora de seu alcance naquele instante, era essencial começar com a transformação do seu próprio ser interior. Ele precisava se tornar a melhor versão de si mesmo. Somente assim poderia alcançar a clareza necessária para manipular os metais com maestria. A introspecção o conduziria ao caminho da sabedoria, refletia o velho sábio notando o seu desespero.
- Você se lembra do que eu lhe disse, meu jovem? – Flamel perguntou, com um semblante curioso, olhando por cima do ombro.
- Eu não havia mencionado o quão cruciais são os quatro estágios?
- Executei o Nigredo, dissolvendo toda a matéria putrefata no fogo. Ao verificar que a Aquae Vitae foi purificada, presumi ter alcançado o estágio do Albedo e concentrei meus esforços para melhorar sua realização – Severus respondeu, com a testa franzida, massageando as têmporas contrariado pelo fracasso inexplicável e momentâneo.
- Contudo, confesso que estou me sentindo paralisado no Cinitras. Algo está me impedindo de converter esses metais... eu sinceramente não compreendo, senhor.
- Severus, meu caro, medite sobre os motivos pelo qual a luz da Lua e considerada passiva, enquanto os raios solares são vistos sempre como energia ativa. Somente assim você compreenderá completamente o casamento alquímico e a resposta que tanto procura – a explicação veio de um modo despreocupado e amistoso, pois Flamel estava confiante de que seu aprendiz conseguiria encontrar o caminho exato em pouquíssimo tempo e sem que houvesse a necessidade de ter de lhe dar alguns empurrões rumo ao sucesso.
- O Rubedo vai além da mera superação dos obstáculos da morte. Ele transcende a união do Enxofre e do Mercúrio com o Sal, ou do fixo com o volátil, como tanto gosta de mencionar.
- O senhor está sugerindo que eu sou a minha própria obra? Que a Grande Obra não passa da pureza e da retidão da minha alma? Que a produção do Elixir da Vida, ou da Pedra Filosofal, depende unicamente de um exercício espiritual e de autoanálise? É isso mesmo?
Os questionamentos escaparam dos seus lábios, como se quisessem romper uma barreira invisível que rugia ante a incredulidade de sua expressão e de suas frases. Por mais que acreditasse nas palavras de Flamel, e não visse quaisquer indícios de que ele lhe mentiria sobre um tema tão importante, Severus ainda considerava aquele apontamento como algo inesperado e completamente absurdo. Algo que fugia totalmente da lógica e daquilo que lhe era conhecido.
- Exatamente! No entanto, esse não é o tópico de hoje. O que você precisa agora, rapaz, é de ar puro e mente limpa – afirmou, abrindo um grande sorriso e dando um leve tapa encorajador no braço do jovem bruxo inquieto, o incentivando a sair um pouco do laboratório após tantas horas árduas de estudo ininterruptos.
- Reflita bastante. Eu sugiro que questione a si mesmo quais são suas verdadeiras dúvidas. Este é o ensinamento mais valioso que já compartilhei com você.
- Eu agradeço o conselho.
Ele por um momento desviou o olhar, tentando ocultar a incerteza que se infiltrava nas entranhas de seu ser e se escondia por trás de seus olhos escuros, enquanto uma trepidação traiçoeira se insinuava em sua voz, revelando suas crescentes dúvidas e anseios.
Duvidava profundamente que a criação do Elixir da Vida realmente dependia de sua jornada pessoal e da purificação completa de sua alma. Parecia-lhe uma tarefa descomunal, que talvez estivesse além de sua capacidade. Era possível que tanto Flamel quanto Slughorn estivessem equivocados em relação às suas capacidades e, acima de tudo, à sua maestria e seu conhecimento nas camadas mais profundas e misteriosas da Alquimia.
A sombra da suspeita sobre si mesmo pairava, ameaçando desvendar a verdade que ele há tanto tempo temia.
Seu maior medo tinha um nome sobrenatural e um rosto difuso, ainda desconhecido, que sussurrava sobre o seu fracasso. Era assim que se sentia ao se ver diante de algo realmente sagrado e profundamente mágico. Ouvir tão claramente o segredo que se ocultava por trás do véu da Medicina Universal o assustava e o tornava único.
Afinal, quantos matariam ou morreriam por aquela informação? E estava ali sendo coroado e separado de seus irmãos, tão oportunistas e ambiciosos quanto ele mesmo poderia ser, por aquela marca de sucesso a qual começava a ter fortes dúvidas de possuir méritos suficientes para merecer.
A verdade era que Severus se sentia profundamente incomodado ao ser reconhecido como um dos raros estudiosos que foram capazes de explorar todos os mistérios do mundo. Queria renegar esse posto. Desejava ser sincero o suficiente para declarar a todos de onde surgira todo o conhecimento que possuía.
Será que acreditariam em suas palavras? O considerariam um louco? Como poderia falar a verdade naquele momento?
Entretanto, mesmo que aquelas constatações e cobranças fizessem seu coração pulsar mais rápido e enchessem seu peito de uma imensa crise existencial, um sopro de vaidade o aquecia. Como se uma outra voz sussurrasse em seu ouvido. Um sussurro discordante e teimoso, que lhe passava uma certeza sem precedentes lhe surgia e afirmava o quanto deveria estar ciente de que essa distinção não era gratuita.
Nada viera às suas mãos por acaso e aquele mérito vinha carregado por uma imensa responsabilidade esmagadora. Somara, ao peso que já carregava em seus ombros, uma nova responsabilidade. Outro fardo que teria de carregar e ostentar ao longo da vida, despertando em seu íntimo a sensação de que tamanho conhecimento, como o que agora possuía, deveria ser acompanhado por uma postura mais responsável e sábia. Uma bênção que muitos enxergariam como maldição por conta da dualidade incendiaria que o obrigava a repensar quem realmente era.
Não podia mais ignorar ou se eximir do impacto que suas decisões sobre o mundo e sobre as pessoas que o cercavam sempre teriam consequências. Não poderia mais fugir das próprias responsabilidades e de suas próprias questões mal resolvidas.
Andando de um lado ao outro no laboratório, limpando as bancadas com calma, como se o agitar do pano clareasse mais os seus pensamentos, Severus sentiu Flamel estava correto em sua sugestão e que realmente deveria dar um passeio. Os ventos leves da noite o chamavam e visavam suavizar a pressão que repousava sobre seus ombros. Precisava de um tempo sozinho e longe dos vapores para pensar profundamente. Precisava de tempo para buscar as respostas dentro de si.
Com isso, finalmente, conseguiria encontrar o agora tão longínquo equilíbrio entre a ciência e espiritualidade. Caminhos tão díspares que conjuntamente apontavam para o início de uma intensa jornada que iria além da alquimia tradicional que aprendera. Distante dos elementos e compostos, das fórmulas e dos segredos, mas próximo da própria essência e dos recantos mais obscuros da alma.
O mais impactante era constatar que, muito antes de chegar minimamente perto de tais conclusões, Flamel já havia percebido em seus gestos e modos a sua total dedicação e absorção de conhecimento. Todo seu esforço e persistência para decifrar os enigmas da alquimia e a evidente necessidade de sempre aprender com os antigos mestres. Tudo estava lá. Cada ponto da jornada, cada detalhe, cada pista que o conduziria para o caminho das luzes que o orientavam.
Refletindo, como se um farol se acendesse em sua frente, Severus notou que as palavras e frases complexas usadas pelos alquimistas eram metáforas e parábolas para esconder a verdadeira natureza do processo. Era mais do que um simples argumento.
Sorrindo, com o olhar perdido, recordou de Narcissa dizendo que nada acontecia de modo inesperado ou por conta de um emaranhado de imprevistos incalculáveis. Independente de suas vontades ou desejos insanos, a natureza seguiria sempre seu curso, e as mensagens enviadas por ela seriam sutis, mas muito claras para quem pudesse e se mostrasse disposto a compreendê-las.
- "Fortuna, velut Luna" – Severus murmurou para si mesmo, concluindo a limpeza da bancada e guardando a adaga no bolso, ainda com o olhar desfocado.
Repetindo diversas vezes aquelas palavras, permitiu que elas o dominassem e que o fizessem acreditar que a sorte o guiaria, como assim fizera com os doutos ancestrais. Apenas os sábios e os de coração puro podiam perceber as nuances daquele caminho iluminado pelas nuances daquele sol de cetim que iluminava o breu.
Dando alguns passos para sair, ficava ainda mais claro que as consequências de suas ações eram a interpretação mais elevada dos sentidos.
Severus estava mais convicto do que jamais estivera sobre o fato de que a alquimia não se limitava ao controle e a conversão de substâncias, mas sim de compreender a ordem oculta do universo. Dos seus sistemas inexplorados, que transcendiam a morte e a loucura, que rondavam e os aspectos místicos da natureza.
Mexendo displicente no bolso do casaco recém colocado, Severus franziu um pouco o cenho ao perceber um pergaminho cuidadosamente dobrado, com a intenção de preservá-lo intacto e observável apenas a quem fora destinado.
Era evidente que Flamel queria lhe dizer mais alguma coisa. Que pretendia legar um pouco mais da sua sabedoria suprema. Desdobrando calmamente o pergaminho, Severus parou o seu percurso um pouco, para iniciar a leitura. Não era um texto estranho ou abstrato, nada sobre-humano, mas certamente surpreendente.
Enquanto lia a "Desiderata" de Max Ehrmann, Severus permitiu que o tempo passasse sem pressa. Era um texto que deveria ser apreciado com cautela. Um momento silencioso de autoconhecimento. A oportunidade de começar a se desenvolver como pessoa e a evoluir sua própria razão e compreensão.
"Meu caro amigo e aprendiz,
Neste momento, mais do que qualquer conselho que eu possa lhe dar, acredito que é crucial que você leia as palavras de um sábio ancião. Ehrmann estava correto em suas observações, e elas servirão como um guia em sua jornada.
Leia os conselhos e ouça o seu coração. Não se faça de surdo e cego diante de uma verdade que quase o soterra diariamente.
Você deve estar se perguntando o que eu quero dizer com isso. Talvez, eu deva ser mais claro ao falar diretamente ao seu jovem coração afoito. Severus, busque a jovem de cabelos contrastantes que, inúmeras vezes neste ano, o vi admirar na bola de cristal. Nela reside o tão sonhado Elixir da Vida, o acesso à sua bondade e o caminho que o levará de volta à sua retidão de caráter.
Severus, acredite, você é uma pessoa incrível! Uma das raras pessoas que eu notei a verdadeira dualidade de um coração puro que se deixou corromper pelas sombras. Sabe qual o seu único e verdadeiro problema? Você perde muito tempo envolvido em questões que estão além do seu controle e a raiva que o corrompe.
Agora, analise com calma, pesquise e reflita sobre o que 'As coisas que são desejadas' ou 'Desiderata' têm a lhe acrescentar:
'Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.
Fale a sua verdade, clara e mansamente.
Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.
Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.
Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.
Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja, ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.
Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não fique cego para o bem que sempre existe.
Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo.
Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.
Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.
Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade.
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der.
No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.
Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.
Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade'.
Amanhã iniciaremos a nossa última semana juntos, pois vejo que o seu aprendizado está concluído e, desta forma, os próximos passos você deverá começar a dar sozinho. Entretanto, Severus, saiba que sempre estarei à disposição para auxiliá-lo quando mais precisar.
Espero ter ajudado a semear bons e novos frutos em seu caminho e, principalmente, proporcionado um bom exemplo.
Atenciosamente,
Nicolas Flamel".
Concluindo a interpretação daquelas sutis advertências, Severus respirou fundo, ponderando os detalhes do que lhe fora apresentado. Havia muito a explorar e aprofundar, de maneira crítica, nos dias que estavam por vir.
Transformar certos aspectos de si mesmo e se autoconhecer era um processo lento, gradual, doloroso, aterrorizante e solitário. Minuto a minuto, hora após hora, enfrentar sua própria consciência o levaria à inevitável conclusão de que a verdade residia no profundo silêncio e na aceitação de seus desejos. Talvez seu excesso de ambição o tivesse atrapalhado, e se ele fosse dominado, poderia representar uma experiência única de alimento e crescimento para o espírito? Contrariando seus impulsos de reprimi-los, os desenvolveria, reconhecendo que eram a inclinação que sempre buscara.
Quem sabe, William Blake estava certo, e a estrada do excesso levaria ao campo da sabedoria? Isso o faria supor que San Ignacio de Loyola também estava correto. Lutar contra paixões destrutivas e desordenadas, enfrentar suas fraquezas pessoais resultaria na queda dos medíocres e no redirecionamento dos fracos para outro caminho que não fosse o da verdadeira glória.
Como um soldado desarmado e ferido, o ignorante se renderia à finitude quando perdido na escuridão. As trevas convidavam a todos a confrontar seus próprios medos, seus terrores mais íntimos e seus pensamentos mais obscuros. É a solidão e as luzes cinzas que revelam o único inimigo capaz de destruir a alma: a própria sombra e os sonhos reduzidos à mesquinhez do egoísmo oportunista, apagando a luz das estrelas.
Retornando ao laboratório, as horas passaram sorrateiramente, imerso na mais absoluta quietude e mansidão. O aroma misterioso das substâncias alquímicas envolvia e preenchia completamente o ar, enchendo o olfato de Severus com uma mistura de notas metálicas e terrosas. Refazendo os procedimentos e revisando os recursos, ele lia compulsivamente e deixava os caldeirões fumegarem progressivamente.
Sentia cada partícula do calor irradiando-se através de suas luvas, aquecendo seu peito e fazendo sentir-se conectado à própria essência dos elementos. Devia ter muita calma e perseverar se quisesse alcançar o seu objetivo.
Com as mãos nos bolsos, balançando o corpo para frente e para trás, como se contasse os minutos, Severus olhou novamente para os caldeirões atestando o progresso. Tinha que funcionar as pequenas mudanças que havia executado para aprimorar alguns detalhes que antes tinham passado despercebidos.
Nada saíra como imaginara. A frustração o envolvia como um manto ardente e sufocante. Bufando baixo com o interminável desapontamento, ele fez com que os ingredientes sumissem e recomeçou todo o processo. Não descansaria até obter o êxito tão almejado, mesmo que, para tanto, se entregasse totalmente à solidão à qual os mais eruditos se submetem até alcançar o sucesso.
Entretanto, ao contrário do que gostaria de admitir, o que verdadeiramente o incomodava era a sensação de não merecer o coração de Narcissa, enquanto as incertezas continuassem a exercer seu domínio sobre seus gestos. A tristeza e a melancolia o envolviam, impedindo-o de enxergar o futuro diante de seus olhos. Era quase masoquista torturar a própria alma com as confusões e o crescente ceticismo que o assombravam. O caminho isolado que teria que percorrer para se transformar, para se purificar, e se tornar alguém mais correto e digno.
Essas reflexões exteriorizavam sua ansiedade, o palpitar de seu coração que pulsava na garganta e as visões de que, desde que suas ilusões transcorressem como planejado, o mundo se evidenciaria como muito mais hostil e cruel com sua alma e suas aspirações íntimas. Ou era isso que os espíritos maléficos esperavam que ele acreditasse?
Severus dobrou as mangas da camisa, sentindo o suor escorrer por seu rosto, o desconforto aumentando. Roçando os dedos na gola da camisa, desfazendo a volta de seu ascot, sentia reverberar em seu sangue uma inquietação súbita. Uma emoção não identificada que, certamente, fora despertada pelas sensações estranhas que se espalhavam por todo o seu corpo. Era um sinal poderoso do que estava por vir e do que o aguardava se não ficasse atento.
A obra perversa dos gases venenosos, que corrompem a mente e os alvéolos pulmonares, impregnou seu sangue e o fez ferver. O calor percorria cada partícula ínfima de suas células, competindo por espaço com os calafrios sucessivos. Na fumaça do enxofre, o oxigênio se esvaía quase por completo, cortando qualquer milímetro de seu ser. Matando aos poucos, em meio aos delírios horrendos, quase o derrubando.
Girando a varinha, Severus dissipou o gás e estimou que seu julgamento se esvaíra perante a apreensão e a sensibilidade de sempre imaginar qual era o preço de sua vitória.
- Vamos, corvo alado, relembre e pondere o que sua vontade ama e o que seu entendimento conhece. Só você tem acesso às cavernas mais íntimas de sua alma. Seu valor, profundo e multiforme, é sua faísca mais ardente, sua luz viva... é o que orienta sua vida, muitas vezes concentrando a atmosfera de erros entre a purgação, iluminação e contemplação – pensou consigo mesmo, encarando seu reflexo no líquido prateado que fervilhava, enquanto buscava esquecer temporariamente as complicações de seus sentimentos.
O calor do laboratório, voltava a ficar cada vez mais sufocante e pesado, contrastando com o frio congelante que queimava o interior de suas emoções, como se seu coração estivesse aos poucos se convertendo em uma pedra de gelo sem vida. Severus respirou fundo, fechando os olhos e sentindo a necessidade de lutar contra tantas recordações.
Precisava manter toda a concentração em seu trabalho alquímico. No entanto, as lembranças dos dias e noites intermináveis ao lado de Narcissa o assombravam, sussurravam sentimentos e pesares, evocando a complexidade de tantas emoções que ameaçavam devia-lo novamente do seu objetivo maior naquele instante.
- Analisando a Teoria de Paracelsus, é importante ter em mente que todos os corpos orgânicos e inorgânicos são resultado de uma combinação de proporções diversas e difusas. Três substâncias constituídas de princípios básicos... a tríade alquímica, que compõe o universo é o chamado Coito do Rei e da Rainha, ou o Casamento da Morte, representado por uma relação sexual dentro de um sarcófago – recitou em um sussurro quase inaudível, com os olhos fechados, como se precisasse redecorar os fundamentos para afastar uma pequena hesitação.
Ainda concentrado nas questões teóricas, fechando a mente para o que estava o abalando, prosseguiu atento às próprias palavras, tentando não se deixar abater pela nova onda de frustração que ousava tentar desestabilizá-lo outra vez.
- Enxofre, Mercúrio e Sal... excluindo, assim, o Orvalho. Embora ele sirva para umedecer a matéria-prima e evitar possíveis queimaduras ou explosões, sua composição originaria o contrário. Causaria combustão e a morte de quem o manuseasse. Isso se deve à estrutura do Enxofre, um elemento rígido, severo e imutável. Um verdadeiro abrasador, prestes a entrar em ação ao receber qualquer sinal de faíscas. Assim como eu, um real refratário.
Enxugando o suor do rosto com o antebraço, um sorriso iluminou seu rosto quando percebeu o que havia acabado de enfatizar. Ele examinou cuidadosamente as palavras ditas e estava prestes a concluir suas próprias conjecturas sobre o processo enfrentado.
- O Mercúrio, por sua vez, é flexível, transitório e volátil. A primordial quintessência do espírito de todas as coisas, personificando o Spiritus Mundi. A alquimia simboliza tal encontro sagrado e o define como masculino e feminino, respectivamente. Quando se une ao Enxofre, forma um enlace perigoso e sensualmente atraente aos olhos. O Sal seria uma espécie de elo entre eles... um solvente natural, responsável pela fluidez fundamental para estabilizar e ligar ambos.
Foi então que uma espécie de sopro contundente atravessou os seus pensamentos e o fez desvendar a chave do arcano, após meses de tanto ardor e empenho com relação ao tema.
- A energia vital que os une pelo corpo e pela alma, que os amarra e alucina aqueles que não estão preparados para o poder que emanam juntos. A junção que também pode ser ilustrada pela luta do dragão alado com o dragão áptero – sorriu abertamente.
Como se estivesse se apegando àquelas palavras, como se fossem salva-vidas cheios de esperança e alívio, Severus as proferiu em voz alta. Era a representação do final de uma etapa. Uma sensação de encerramento inundou seus sentidos, como se ele finalmente tivesse desvendado a chave do arcano após meses de ardor e empenho dedicados ao tema.
Ao decifrar o cosmos, que se estende e se reorganiza para sustentar seu próprio equilíbrio, Severus se afastava da dor e atingia a legítima consciência dos efeitos de seus atos. Seus músculos agiam como os fios condutores, seus vasos sanguíneos como os líquidos que possibilitavam a expansão dos pequenos choques elétricos, concedendo conexões às ondas magnéticas que irradiavam pelo ar. Amplificando-se com a mesma força da mutabilidade dos afetos e da sensibilidade, os ossos moviam a inalterabilidade e o autodomínio, coordenando a intensa perfeição das mais íntimas intenções.
As poeiras do universo, partículas dos deuses ou da metagaláxia, escondiam em seus átomos toda a imortalidade. Mesmo que tal apuração não fosse nada mais do que uma metáfora espiritual para a elevação da própria alma. Os mesmos pós e fluídos que conduziam a uma intimidade iminente à sensualidade transitória, entre as luzes e as sombras, na transição de quem se era e de quem se pretendia ser.
Quanto a isso, bastava lembrar que ele mesmo se colocara em uma posição arriscada desde o início, sem medir o quanto se aproximava da total perda de seu senso de controle. A perda de qualquer autodomínio o carregava para a estrada solene de cobiçar o que lhe era desconhecido. Assimilando o todo, detestava sua essência.
Todas as nuances e os matizes eram acentuados com as cores do céu noturno, as doces palavras dos romances e a convicção de que o amor era um ato de pura fé.
Bufando baixo, Severus viu que Orestes o esperava no quarto, encarando as cartas sobre a mesa. A coruja chilreava afirmativamente, movendo os olhos da mesa para ele, como se lhe relatasse algo importante que vira ali.
Nos papéis, encontrava-se sua certificação como Mestre em Transfiguração, com as congratulações do título recebido, enviada pela escola de Beauxbatons. Em outro, o certificado da conclusão do curso de Alquimia, na Académie d'Alchimie Agrippa et Flamel, com as garantias de que o seu diploma seria enviado assim que estivesse pronto. E, no último, os documentos necessários para sua transferência da Sorbonne para Oxford. Realmente, era uma questão de dias para retornar ao Reino Unido.
A simples ideia de retorno fez com que sentisse a sua cabeça girar com uma série de temas novos e urgentes que se somavam aos antigos, sem a possibilidade de resolução à sua maior dúvida. A que sempre evitava pensar para não entrar em desespero.
Ainda assim, por mais que se esforçassem, o fato que mais lhe chamava a atenção era que as respostas para essa pergunta secreta e perigosa surgiam como gotas de chuva no verão. Esparsas e insignificantes lágrimas do céu, que serviam para lavar a alma e clarear as memórias. Com tais incertezas, Severus se despediu de Orestes, abriu a janela, e permitiu que a coruja saísse para sua caçada noturna.
Enquanto ela se divertia, o melhor era se deitar, abandonando a ideia de ler um livro para poder meditar melhor a respeito de tudo o que lhe fora evidenciado.
Observando Orestes desaparecer completamente, sem saber ao certo quanto tempo passara no laboratório, se havia virado uma noite ou duas insone, ficou afofando os travesseiros automaticamente com o olhar fixo no horizonte. O entardecer emoldurava tintas avermelhadas que davam espaço a um roxo intenso e profundo. Ao mesmo tempo que estrelas mais ousadas dispunham os seus primeiros brilhos, no espaço de uma respiração, à medida que Severus se ajeitava na cama e se enrolava no cobertor para finalmente descansar.
- Nova... como uma estrela anã que se transforma em uma Supernova – o sussurro que rompeu sua garganta sonolenta e adormecida, soava estranho, como um potente pressentimento que o fez acordar do sonho abstrato que estava tendo.
Aquilo foi o suficiente para fazê-lo sentar-se na cama, desesperado e desnorteado. Sabia o que aquele nome significava. Sabia de onde ele surgira e a quem deveria ter sido destinado. Os sentimentos e percepções mais apuradas começavam a dominá-lo e amorteciam os seus músculos, o faziam se sentir impotente e sem alternativas. Não fazia ideia de como agir ou como deveria proceder perante aquele novo e inesperado problema que se apresentava. O primeiro grande confronto de sua vida, aquele que ele mais tentara evitar e adiar, agora se desencadeava contra a sua vontade.
A clareza em reconhecer o quanto o medo, o receio e a própria cegueira foram as maiores responsáveis por sua conduta perversa o abalou. Como pode ser tão egoísta e mesquinho a ponto de nunca se preocupar com aqueles que o cercavam? Como não pode valorizar quem o amava verdadeiramente? E se sua irmãzinha o considerasse um monstro quando descobrisse quem realmente era?
Aquilo, mais do que passar horas e horas se martirizando pelos enganos e posturas controversas, era um jeito efetivo de recuperar o fio da vitalidade que lhe restava. O sentimento de vingança ainda o consumia, criando um conflito paradoxal em que se machucava muito mais do que feria ou outros, resultando em seu afastamento do que e de quem importava.
De que forma lidaria com o remorso crescente e inconfessável? Pedir perdão bastava para obter o carinho e o respeito que perdera ao longo dos anos? Seria o arrependimento e a quebra das correntes suficientes?
Resoluto em sua decisão de renunciar às suas mil faces e se libertar, Severus se levantou da cama, inclinando o corpo para o lado de fora da janela para aspirar o ar da madrugada e se sentir mais leve. Voltaria sem a máscara que há tantos anos usava para se esconder. Retornaria despido de ilusões absurdas e reconstruiria sua vida. Confiaria somente no que obtivera por seus méritos e no que seguramente desejava para si.
Estava ciente de que sua resolução possuía um porém incômodo. Para alcançar o seu interesse teria de se livrar do empecilho que o perturbava. Seu coração doía ao pensar nisso, como jamais sucedera, por mais que tentasse se esconder por trás das barreiras autoimpostas. Nem mesmo sua Oclumência funcionava. Sua mente abrira uma franca batalha pela autopreservação.
A verdade que o atacara era que o Elo já agia e se mostrava mais forte, insano e assustador.
Intimamente, sua impressão era a de que tudo ficaria pior à medida que os dias passassem. Se enfrentasse ou tentasse fugir daquela maldição à qual se deixara controlar, debilitaria a própria magia e se destruiria. Realmente, Hermione deveria receber o nome de Nova, como Bellatrix tanto queria. Era o fim do mundo e o desfecho de tudo.
Na semana em que Bellatrix anunciou que estava grávida de sete meses, o mundo parecia ter virado de cabeça para baixo. Uma calma misteriosa se estabeleceu no momento mais crucial de todos. A magia distinta que emanava de seu ventre, secreta e silenciosa, parecia inverter os polos e reorientar os barcos perdidos na escuridão. Era como um núcleo ardente, uma força centrífuga em si mesma. O elo que os unia parecia ter se acalmado, embora não adormecido.
A tranquilidade dos dias transparecia no nascer do sol, aquecendo a terra com seus raios cálidos e constantes, como se a própria natureza celebrasse o futuro próximo. Templos, praças, navios, pontes, fábricas, casas e até as montanhas mais altas vibravam, aos olhos de Severus, em uma incontestável beleza e preocupação. Era como se forças ocultas impulsionassem a continuidade da vida e de seus planos. Era como se os espíritos aguardassem o momento certo em que o segredo seria revelado, para que Andromeda pudesse o ajudar.
Ao retornar ao Spinner's End, o primeiro passo de sua nova vida foi pegar todos os frascos escondidos no porão da casa. Com as próprias mãos, Severus os destruiu um a um, permitindo que os fios prateados se esvaíssem e o sangue escorresse entre seus dedos. Não haveria retorno ao cruzar a porta da casa e deixar que os cacos se perdessem pelas ruas. Por mais louco e desesperado que parecesse, aquilo era necessário. Mesmo que sua vida ainda fosse uma enciclopédia de crimes e erros, enterrando seu ser na sujeira e na degradação absoluta da guerra em que se envolvera, o fundo do poço estava muito longe para se jogar de olhos vendados. Só se entregaria ao abismo de boa vontade, cortejando a insanidade e a desgraça que se avizinhavam, se seu pedido fosse negado.
Era o caos que seguiria atento e decidido, vagando rumo ao ciclo mais profundo do inferno de Dante, analisando os horrores que o esperavam. Se observasse bem, conseguiria perceber que as pedras do orco haviam parado de rolar à sua espera.
A Fonte do Esquecimento o chamava novamente, sussurrando convites sujos e desonestos para que se aproximasse de suas águas cristalinas e venenosas, caso desejasse avançar em sua jornada. O barqueiro Caronte receberia seu pagamento, suas três moedas de ouro, para permitir a passagem em direção ao Lago da Memória. Era um claro aviso de que os portões que levavam ao Hades já estavam abertos, talvez nunca tivessem realmente se fechado, apenas esperando o momento em que alguém cometeria erros para que seu trajeto não fosse bloqueado.
A verdade era que, antes de seu poderoso coração se acalmar, Cerberus devoraria suas entranhas, e a paz jamais seria estabelecida.
Fechando os olhos e tentando afastar tantos pensamentos complexos e obscuros de sua mente, Severus só conseguia andar sem rumo, observando as pessoas que passavam por aquelas mesmas ruas. Eram como vultos sem rosto, incapazes de dissipar a sensação ruim que formava um gosto amargo em sua garganta.
Talvez, sua temporada na casa de Flamel tivesse despertado uma autoconsciência tão profunda que o consumia de remorso. Não conseguia mais evitar pensar nos erros irreparáveis cometidos desde a infância, mesmo que muitos deles tivessem sido ofuscados por tantas ações corretas e inabaláveis que pareciam sempre aguardar seu reconhecimento nas entrelinhas mal traçadas, revelando sua própria morte.
Nesse momento, as trombetas do destino soaram alto, poderosas e veementes, destacando os terrores refletidos nos olhos daqueles capazes de ouvi-las. Snape não suportou a verdade, e quando pôde, fugiu e se suicidou, deixando-o sozinho e à mercê do destino.
O tempo passara ainda mais rapidamente do que o previsto, e naquela noite às vésperas do final do verão, Mabon ainda o protegeria? Lembraria de quanto Narcissa a cultuava e perdoaria os erros daquele a quem ela tanto amava? Daquele que a considerava a mulher mais perfeita do mundo? Severus não saberia ao certo como responder, especialmente depois de receber a notícia de que o Elo só poderia ser rompido após o nascimento de Hermione.
Enquanto ele ponderava sobre seus pensamentos e como proceder, colocando as mãos nos bolsos e se encostando em uma parede próxima para observar os carros passando, Bellatrix revelou aos pais e a alguns amigos que tomara a decisão de se casar com Sirius. Sua notícia foi acompanhada de um sorriso vitorioso que irradiava felicidade, convidando a todos para o matrimônio, sem impor qualquer tipo de restrição. Nem mesmo os amigos dele estavam proibidos de comparecer à cerimônia. Não soaria bem que um dos noivos acabasse preso por homicídio antes da lua de mel.
A verdade era que, assim que observou Orestes pousando em seu ombro com um pergaminho, Severus franziu a testa enquanto lia o que acabara de lhe ser relatado. Era, no mínimo, estranho o comportamento de Bellatrix em relação a isso, especialmente quando deixava escapar que essa decisão não havia sido comunicada, nem que houvesse qualquer pedido de permissão a Voldemort para que essa união se realizasse.
- O que em nome das cuecas de Merlin, a Bella está prestes a fazer, Orestes? – questionou, encarando a coruja que ainda se mantinha firme em seu ombro, observando-o também, piando baixo como se estivesse contrariada e se perguntando o mesmo.
Havia algo muito estranho acontecendo ali. Embora jurasse fidelidade irrestrita à causa, sua atitude e algumas permissões levantaram suspeitas e comentários imediatos. Alguns consideraram e passaram a julgar tal decisão como uma verdadeira afronta, um deslize imperdoável. Provavelmente, um primeiro indício de que ela seria a primeira a desertar quando a guerra de fato eclodisse.
Analisando os fatos e ouvindo a opinião de seus Cavaleiros de Walpurgis, o Lorde das Trevas concluiu friamente que não deixaria passar em branco tamanho desacato. Uma aura de tensão permeou o ar. Observando cada traço e as inúmeras possibilidades, ponderou que os mais fracos, após esse insulto, acreditariam na impunidade diante de atos de rebeldia ou gestos contestáveis nos cargos mais altos de comando. Ele cortaria o mal pela raiz e a usaria como exemplo para os demais que ousassem pensar em se sobrepor à sua liderança.
Assombrosamente, estava mais quieto e cauteloso com as palavras do que costumava ser. Voldemort presumiu que, para Bellatrix, ter sido marcada e torturada em frente a Delphini não fora o suficiente para que reconhecesse qual era o seu lugar. Ela era apenas um simples objeto, uma peça descartável, um pedaço de carne feito para procriar e morrer se assim o desejasse. Ele a considerava uma mulher fraca, assim como sua mãe, Merope, havia sido.
Uma punição mais severa era a resposta que a aguardava.
Ele, como o verdadeiro e único Lorde das Trevas, a faria rastejar por seu perdão, implorar por misericórdia, enquanto examinaria os meios para que o Voto Perpétuo ou o Pacto de Sangue que fizera com Severus não o matassem, enquanto a torturava livremente. Deveria existir um meio, alguma trilha pantanosa por onde pudesse vagar e contornar esse embaraçoso detalhe que ainda o impedia de agir com mais liberdade.
- Minha cara Bellatrix, vejo que temos algumas... questões... para resolver – argumentou com a voz sibilante e gélida após chamá-la à sua frente.
- Creio que esteja esperando o meu consentimento para que você tenha o privilégio de se unir ao seu querido primo.
- Claro, milorde – ela respondeu automaticamente, inclinando o corpo em direção a ele, em meio a uma reverência exagerada que visava demonstrar que ignorava a sensação de que o perigo se aproximava.
Com um gesto para que o acompanhasse a um lugar mais reservado, Voldemort andou com passos lentos e quase teatrais, relevando seus planos mais ocultos de vingança. As engrenagens de sua mente giravam compulsivamente, procurando meios, detalhes, subterfúgios, tudo o que mais pudesse para que nada saísse do planejado. Em silêncio, Bellatrix o seguia muda e pensativa, obediente, ao mesmo tempo em que sua intuição a avisava para se afastar o quanto antes.
Algo anormal pesava no ar; a pequena em seu ventre se debatia como se temesse alguma coisa, como se sentisse o mesmo sentimento de opressão que a sufocava. O que havia de errado?
Respirando fundo, enchendo os pulmões com todo o ar possível para acalmar o próprio coração, Bellatrix colocou instintivamente a mão sobre a barriga, acariciando-a e dizendo quase que mecanicamente coisas que não conseguia acreditar como verdadeiras.
- Fique tranquila, minha rainha do Epiro, de Esparta e de Micenas. Vai ficar tudo bem, o Lorde das Trevas só quer conversar um pouco comigo e, logo, iremos embora – sussurrou, procurando tranquilizar o bebê que não sossegava, sentindo o gosto amargo e venenoso da mentira se espalhando por sua essência.
Atenta aos próprios passos e ao som da própria respiração, reparava em cada detalhe do corredor e da sala em que entrava, imaginando todos os cenários possíveis do que ali aconteceria. Uma ideia assombrosa a preocupou. Seu coração batia descompassado, e um arrepio percorria sua espinha à medida que seus pensamentos anunciavam algo sinistro pairando à sua volta. Bellatrix balançou a cabeça em negação, incapaz de acreditar no que estava pressentindo, enquanto tentava fixar seus olhos nele, que evitava seu olhar.
Seu coração estava cada vez mais inquieto, e o estrondo da porta se chocando contra a madeira fez com que um leve tremor se espalhasse por seu corpo. Pela primeira vez, ela sentia que o medo da morte a dominava. Não desejava perder tudo pelo qual tinha se esforçado tanto para conquistar. O pensamento de sua preciosa criança de sangue puro morrendo por sua culpa a assombrava.
- Alguma coisa errada, Bella? Teme ter feito algo que, quem sabe, me desagrade?
- Meu senhor, eu... – ela tentou começar a se explicar e justificar seus atos.
Entretanto, antes de concluir seu raciocínio e dar alguma explicação para o que fizera, Bellatrix foi atingida por um forte baque que a jogou no chão violentamente. Ela se esforçou para compreender o que de fato ocorrera e as motivações que o levaram a tamanha agressão. Tentou se levantar inutilmente, mas todos os seus gestos ou atos pareciam em vão.
O novo tapa com as costas da mão contra o seu rosto ecoou pelas paredes de pedra, fazendo-a tombar novamente. A única coisa que conseguia assimilar, em meio à confusão de seus pensamentos e ao choque diante da brutalidade a que estava sendo submetida, era o fato de estar ali, de joelhos, no chão frio de mármore escuro.
Atordoada com aquela atitude inexplicável e sentindo-se fraca, sem forças ou coragem para se defender daquele a quem sempre vira como uma religião, um objetivo de vida, ou uma explicação para a própria existência, Bellatrix se questionava sobre como Voldemort poderia estar tão cego a ponto de não enxergar o óbvio. Como ele não conseguia ver que ela o idolatrava? Sua vida estava destinada a servi-lo e agradá-lo sempre que desejasse. Se preciso fosse, realizaria os maiores absurdos para obter seu reconhecimento e admiração.
Ele, e somente ele, como nenhum outro homem, fora visto como algo e alguém que lhe despertasse sentimentos muito mais profundos, ultrapassando todas as fronteiras do amor carnal. Tanto que não lhe negara o seu maior presente, o seu Agoureiro, ignorando e abandonando a própria adolescência e seus próprios sonhos para se dedicar a uma criança que poderia representar a sua própria ruína.
- Milorde... – sua voz falhou, as lágrimas queimaram em seus olhos, enquanto sentia o coração sangrar.
Ainda não entendia qual era o seu erro ou o que fizera de tão grave para ser alvo de um castigo tão grande, de ser merecedora daquela fúria descomunal, de ser o foco principal para o Lorde das Trevas descontar toda a sua ira. Se ele ordenasse, sairia dali imediatamente e obrigaria Sirius a receber a Marca Sombria, o tornaria um Comensal da Morte.
- Você acha que pode levar o que me pertence? Se você alega me amar tanto, prove! Comece a agir de acordo com o que eu mando e a me obedecer cegamente. Ou já esqueceu quem, realmente, é o seu dono? – silvou, desferindo um soco que a atingiu em cheio entre o nariz e a boca.
Sem dar tempo de resposta, Voldemort a surrou como se quisesse descarregar todo o ódio que cultivava dentro de si. Acabou abrindo um profundo corte na bochecha de Bellatrix antes de segurá-la firme pelos cabelos, forçando-a a encará-lo. Prolongaria ainda mais a tortura, pois aquilo o deixava feliz, fazia-o sorrir de maneira maquiavélica, enquanto observava todos os ferimentos que causara e os detalhes que apenas tais imagens de sofrimento poderiam formar em sua mente. Quanto mais a escutava chorar, quanto mais lágrimas via se misturarem ao sangue, maior era sua ânsia de vê-la agonizando.
Ele não se cansaria, queria mais, tanto que não poderia definir o quanto. Arrancando sangue dos lábios e do nariz, à medida em que seus golpes ficavam mais fortes e intensos, ele passou a cogitar o que de pior poderia fazer para que Bellatrix se arrependesse de ter transgredido as regras até o último dia de sua vida. Tinha que agir rapidamente, para que a crueldade fosse ainda maior, antes que ela perdesse totalmente a consciência e não tivesse a dimensão do que teria acontecido.
- Por favor... isso... isso não – murmurou, segurando firmemente as mãos dele, tentando o afastar para que ele parasse de a estrangular.
- Você vai morrer por ter pensado que pode agir pelas minhas costas, que pode simplesmente passar por cima das minhas ordens e fazer o que bem entender – a voz do Lorde das Trevas soava cheia de ódio, enquanto reconhecia nos olhos violetas pequenos filetes de sangue que davam os primeiros traços de asfixia, excitando-se com a imagem e alimentando a própria ira.
Um sorriso que mais se assemelhava a um esgar surgia, revelando ainda mais a verdadeira face de monstruosidade que residia naquela alma corrompida e suja. Não havia traços de desejo ou compaixão, apenas a sede de dominá-la e subjugá-la de todas as formas possíveis. O seu maior objetivo era que ela se sufocasse, suplicasse por sua vida, admitisse que não tinha mais o livre arbítrio desde o momento em que aceitou a Marca Sombria.
Sob o peso tirânico e hediondo de Voldemort, Bellatrix debatia-se incansavelmente, seu coração pulsava forte, martelando no peito, fazendo com que uma sensação sufocante fosse tomando conta de cada um de seus poros. Instintivamente, com os lábios entreabertos enquanto tentava respirar, ela cravava as unhas nas mãos de quem jurara lealdade incondicional, desesperada para escapar.
O problema era que nada funcionava. O seu núcleo mágico parecia estar extremamente desestabilizado, e o ar abandonava seus pulmões, como se a própria vida escapasse aos poucos de seu corpo. Seus instintos de sobrevivência começavam a falhar, e uma onda forte de desespero a envolvia, tornando o momento vivenciado ainda mais angustiante.
- Milorde... por favor, me ouça! – a voz dela soou frágil em meio ao sussurro, expondo sua débil situação e seu desmaio quase imediato.
Bellatrix estava perdendo as últimas esperanças que ainda lhe restavam.
- Eu... eu... imploro. Juro que nunca a abandonaria nem trairia nossa causa. Prometo que Sirius fará o que eu ordenar.
-Você não se casará com ele, ou com qualquer outro, Bella. Agradeço sua disposição e boa vontade em trazê-lo para o nosso "time", mas eu não tenho mais interesse de que isso aconteça – sussurrou próximo ao ouvido dela, percebendo que seus olhos ficavam nublados e escurecidos.
Por um tempo indefinido, Bellatrix permaneceu ali, caída no chão. Desfalecida, sozinha, com o corpo estendido no piso frio, como um completo nada. Seu corpo era chutado e esmurrado, sofrendo as descargas constantes do Eletricus, intensificando a agonia e provocando convulsões. Outros inúmeros e inomináveis feitiços eram lançados, fazendo-a se contorcer involuntariamente. Faltava pouco, muito pouco, para que a tortura terminasse. Um fio azulado, brilhante, emergia de seus lábios entreabertos sem demora.
Foi então que uma magia desconhecida a envolveu.
Todos os cristais da sala explodiram, enchendo o ambiente de pequenos cacos em todos os cantos, à medida que a magia formava uma espécie de bolha inviolável ao redor de Bellatrix. Era quente como o fogo, forte e poderosa, o suficiente para estremecer as paredes e fazer o solo pulsar. Lançando uma força oculta em direção ao Lorde das Trevas, o açoitando.
Agora, mais irritado e confuso com o que acabara de acontecer, ele urrou de raiva e se moveu para lançar um novo ataque. Lutava para tentar desfazer aquela corrente invisível que o aprisionava e feria.
Neste momento, seu ódio aumentou. Quem ousaria rejeitar sua presença? Quem teria a audácia de desafiá-lo e se considerar capaz de jogá-lo contra uma parede? Não admitiria que ninguém ou nenhum núcleo mágico a defendesse. Ninguém tinha o direito de controlar um potencial e uma capacidade notoriamente superiores aos seus.
A fúria vibrava em suas veias, reverberava por todo o seu corpo, instigando-o a torturá-la ainda mais. Bellatrix acordaria gritando de dor, como um animal ferido à beira da morte. Nos olhos de Voldemort, o furor homicida palpitava enquanto a encarava e apontava a varinha em sua direção. Sob o impacto das novas ondas do Eletricus Tria, seu corpo arqueou-se, e uma alta voltagem atravessou seus músculos, rasgando-a e forçando-a a recuperar a consciência.
- Essa maldita criança e aquele incompetente do Black vão morrer – expressou, de forma perturbadora e veemente, todas as suas intenções, horrorizando-a.
- Farei questão de esquartejá-los vivos diante de seus olhos e alimentar a Nagini com os pedaços.
Sem qualquer aviso ou justificativa, o Lorde das Trevas se aproximou, mantendo uma expressão sádica e ainda mais monstruosa do que o normal. Seus olhos, não mais do que duas fendas vermelhas sangrentas, permaneciam focados no semblante assustado e atônito de Bellatrix. Um brilho estranho a penetrou.
Girando a varinha, lançou o Cruciatus. Uma, duas, diversas vezes, sem o trabalho de contar. O desespero, a dor, os gritos por misericórdia ecoaram pelas paredes surdas de pedra, sem encontrar retorno.
Silêncio. A incômoda quietude foi tomando espaço, ao mesmo tempo em que Bellatrix experimentava a dor terrível de ter seus ossos partidos, um a um. As lágrimas grossas e salgadas se misturavam ao sangue que jorrava de seu rosto. Seus olhos estavam tão inchados que mal conseguia enxergar se estava ou não sozinha. Instintivamente, abraçou a barriga, como se pudesse proteger com os braços o seu precioso bebê indefeso. Sentindo-se impotente e fraca, seu choro doloroso e angustiado se tornou mais forte.
Os vidros cortavam seus braços e pernas, penetravam em suas costas, dilacerando sua pele. Por sua culpa, aquele ser tão pequeno, que sequer havia nascido, estava sendo torturado brutalmente e não teria a oportunidade de conhecer o mundo. Tudo aparentava ser um indício de que sua jornada chegara ao fim. O silêncio a assustava pela calma surreal que apresentava.
Algo estava errado.
A verdade regressou por meio de um soco que a fez bater com a cabeça contra o chão, reiniciando o terror. Mais feroz, bestial e violento. Os novos chutes e murros se intercalavam com diversos feitiços. Bellatrix via que suas forças não haviam retornado, e sua resistência se esvaía com a mesma rapidez que seus olhos agora se fechavam completamente pelo inchaço.
- Milorde... o senhor tem que compreender que eu só estava cumprindo a minha missão. Por favor, não me puna mais, eu não tive a intenção de falhar... eu só queria fazer o que fosse melhor – sussurrou, sentindo a garganta áspera e dolorida, tentando pará-lo por conta da última imagem que vira.
Voldemort se aproximava, mais cruel do que ela conseguia conceber que fosse. Pesando e forçando para o início do seu último ato de desumanidade. Arrancaria de seu peito toda sua virtude e dignidade. Sabia que, logo, ele se dedicaria a destruir tudo aquilo que mais amava. Era apenas uma questão de tempo para transformá-la em um tipo inumano e selvagem, em alguém capaz de cometer as maiores atrocidades em nome de algo que começava a duvidar.
