Severus, ignorando o fato de ter deixado as malas no chão da sala, afundou-se no sofá com uma expressão vazia e cansada. Seus olhos percorreram as paredes cercadas de livros e lembranças, enquanto, aos poucos, dedicava cuidadosa atenção para fechar as pequenas feridas em suas mãos e extrair os cacos de vidro que nelas se alojaram. Examinando mais atentamente o ambiente à sua volta, a solidão não era apenas uma constante sensação que eclipsava qualquer esperança, mas uma presença opressiva que comprimia seu peito e pesava sobre seus ombros na ausência de Narcissa. Como ele pôde ser tão cego, egoísta e ambicioso a ponto de não perceber o que realmente importava? Sua rápida ascensão no círculo mais íntimo dos seguidores de Voldemort o iludiu, fazendo-o acreditar que havia transcendido seu papel de mera engrenagem na vasta máquina do tempo e dos acontecimentos.
Com um triste sorriso nos lábios, Severus mergulhou em reflexão sobre o árduo esforço que dedicava e estava disposto a empenhar ainda mais para compreender a intrincada máquina da qual fazia parte. Cada engrenagem era um componente em constante movimento, um delicado ponto de equilíbrio nos jogos de poder e intriga. Era como se estivesse navegando em águas traiçoeiras, regendo uma sinfonia de caos com maestria, usando as vidas alheias como peças de um quebra-cabeça efêmero destinado a se desfazer com a chegada da aurora.
Uma angústia profunda o envolvia quando encarava as barreiras que o julgavam e o condenavam, mas ele persistia teimosamente em continuar a trilhar esse sombrio caminho. Por anos a fio, convencera a si mesmo de que agia corretamente, vislumbrando a perfeição almejada ao lado do Lorde das Trevas. Nesse percurso, seus próprios sentimentos foram esquecidos, como se tivesse envolvido suas emoções em um véu, calculando cada passo como se o afeto fosse uma armadilha perigosa.
Estabelecendo inúmeras restrições a si mesmo, Severus suprimiu com dificuldade o jovem ansioso e ávido por conhecimento que um dia fora. Seus sonhos mais íntimos se transformaram em pesadelos, à medida que a luz se distanciava e as trevas se tornavam suas conselheiras, traçando uma rota obscura para seguir. Nesse abismo de autoquestionamento, ele se perguntava se fora o arquiteto de sua própria desgraça.
Curiosamente, mesmo ao vagar, Severus sentia que invariavelmente retornava à casa onde nascera. Reconfigurando e reconstruindo sua própria realidade, ainda não conseguia discernir quando e como tudo se desmoronara. Em que momento havia permitido que o destino impiedoso cumprisse sua promessa de mantê-lo afastado do que mais desejava?
Tudo se desenharia de maneira mais simples se pudesse afundar-se eternamente no sono ou, melhor ainda, reverter seu caminho por completo. No entanto, por mais que odiasse admitir, para sobreviver, teria que, mais uma vez, assumir a máscara de Comensal da Morte. Teria que fingir que encontrava satisfação e prazer na manipulação das cordas que teciam as sombras, amarrando-as com firmeza entre seus dedos, conquistando poder e autoridade.
Frente às suas obrigações, por mais que desejasse ser uma pessoa melhor ou se metamorfosear, Severus percebia que não podia dar meia-volta, pelo menos não de imediato. Certamente, lágrimas seriam derramadas, ao mesmo tempo em que ele se afogaria na culpa e se veria sobrecarregado pelo peso de seus atos e crimes.
Enquanto respirava profundamente e fechava os olhos para contemplar tudo o que perdera, as sensações angustiantes o apertavam, comprimiam a sua garganta buscando roubar todo o ar dos seus pulmões e queimar os alvéolos. Era esse o futuro que o jovem Severus havia realmente sonhado? Teria ele alimentado fantasias de se perder nos olhos de Narcissa? Seria a violência a única herança que recebera daqueles que o cercaram ao longo de sua vida?
- Por que me lançou a este inferno sangrento, pai? - indagou para si mesmo, socando a bancada à sua frente, seus olhos obscurecidos por pesadelos incessantes.
O falso contentamento de controlar e manipular as marionetes que conquistara agora lhe causava repulsa. Perdera a noção do número de dias em que caminhava à beira do abismo em sua jornada, acreditando que estava prestes a atingir a totalidade do horror e do desespero. O que ele sabia, a partir de todas as experiências vividas, era que nada e ninguém poderiam enforcá-lo. Que louco o desafiaria? Aqueles que o odiavam não tinham coragem suficiente para enfrentá-lo. Somente Voldemort poderia destruir tudo o que ele conhecia, e, nesse sentido, a morte pareceria uma gentileza, um pacto entre cavalheiros.
A bênção ou a punição de nunca mais ter de retornar à casa onde as feridas ainda permaneciam abertas. Por que o adulto nunca havia revelado à criança que o caminho não seria fácil? Severus queria acreditar que o Snape, seu pai de coração e alma, considerava que não haveria dificuldades, mas a sinceridade e o decoro eram difíceis de serem aceitos.
A superioridade e a influência atribuídas à figura que representava o seduziram tanto quanto a ideia de que respiraria o aroma de morango e baunilha. Porém, gradualmente, tudo se modificou. Os vapores do bálsamo passaram a emanar os odores sensuais de jasmim com rosas, efetivando a necessidade de transformação. Ele não queria mais agir como um tirano.
Respirando profundamente e tentando analisar tudo com mais calma, percebeu que, de todas as drogas que experimentara para suportar os horrores que causara na vida de outras pessoas, o cheiro de tudo e de quem mais amava era o único verdadeiramente capaz de entorpecer seus sentidos por completo. A tempestade daquele olhar evidenciava o jogo cruel em que, exclusivamente, apenas ela era e sempre seria capaz de salvá-lo de si mesmo.
Encarando a máscara, que o convertia em um homem de mil faces e múltiplos enganos, Severus progressivamente se vestia de frieza e silêncios. De gelos e sombras profundas. Voltaria a compor a dupla de generais que destruiria o mundo bruxo em um piscar de olhos. Ao lado de Bellatrix, se comportaria como um monstro sanguinário e sem alma. Era, essencialmente, o que ambos deveriam ser. Talvez, até ultrapassassem o esperado, se metamorfoseando em algo muito pior.
O que mais teria que realizar além disso?
Não poderia romper o acordo travado, nem reverter o que realizara até então. Projetar metas era perda de tempo e, indiscutivelmente, manifestara não ser o seu forte ou qualidade. Sua nova completude o submetia a refletir qual era o exato limite para medir a maldade e a barbárie. Uma dúvida que levantava novos questionamentos íntimos. Até que ponto seria capaz de ir contra a própria vontade?
O mundo sempre se expôs como possuidor de coisas prestes a serem quebradas, um amontoado de mentiras que se perdiam em fragmentos soltos entre lágrimas. Com o sol nascendo voltado àqueles que mereciam os seus raios, os demais se enxergavam como restos vagando pelas sombras. Era o que a vida lhe ensinara.
Amaldiçoados fossem todos aqueles fadados a substituir os fios de ouro por correntes. Maldito fosse o dia em que cogitara deixar de se inebriar com narcisos para se envenenar com orquídeas e lírios. Não eram todas as flores que traziam bons sonhos, muito menos eram detentoras da mais doce raridade ou de delírios.
A perda de sua bétula, que o fez crescer como o mais belo e forte carvalho, fora responsável por seu atual estado mental abalado. Ausente de si mesmo e perdido no sofrimento, desejava alterar a bétula em faia, buscando modos de lidar com as próprias incertezas sem o seu apoio.
Imóvel e inerte, Severus se sentia como uma ampulheta cuja areia fluía num ritmo dolorosamente lento. Embriagado pela dor e pela angústia, foi trazido de volta à realidade concreta e inflexível ao terminar de acomodar seus pertences, antes jogados de qualquer forma em um canto. Era hora de renascer e se concentrar em se restabelecer em suas antigas funções após tanto tempo afastado.
Um estrondo interrompeu suas meditações e o ajuste dos frascos nas estantes. Fall atravessou a janela da sala, estilhaçando o vidro, como se pedisse socorro. Subindo a escadaria rapidamente, ele notou que a coruja o procurava e batia as asas com força. O que causara tamanho desespero por atenção?
- Pare quieta agora, sua coruja estúpida! – bradou, quase rangendo os dentes, demonstrando sua crescente impaciência.
A coruja chirriou alto em protesto, tentando bicá-lo para que parasse de repreendê-la.
- Fique parada!
A afirmação de Severus veio carregada de indiferença no olhar e na voz, embora sua atitude demonstrasse o contrário. Ele pegou algumas poções e pomadas cicatrizantes para fechar os cortes abertos nas asas e no bico da ave. Apesar de seus melhores esforços para manter a indiferença, seus gestos traíam uma inquietação que o dominou naquele momento.
Sacudindo a cabeça como se estivesse tentando afastar uma mosca irritante, o que ele buscava era simular ainda mais a desconsideração diante da angústia que a coruja parecia expressar. Por segundos, Severus se inclinava a recordar o tempo em que não via motivos para ter qualquer empatia pelos sentimentos dos demais. Um tempo em que estava tão autocentrado que só estimava o quanto suas afeições e ligações haviam sido rompidas.
Supunha que, ao se expor tão frágil e necessitado, estaria fazendo uma revelação de suas fraquezas e medos. Uma exposição desnecessária que o colocaria em risco sem pensar duas vezes. Entretanto, nunca se despiu das inclinações e quedas aos contínuos vícios da paixão. Renegando o que julgava um defeito, por anos, permanecera convicto de que a crueldade e horrores eram os melhores amigos.
Rejeitando o menino que um dia foi em favor do homem que se tornara, Severus agia como se a memória de sua antiga identidade tivesse desaparecido irremediavelmente para permitir sua sobrevivência. Dissociando e assistindo a um filme de terror, ao qual protagonizava, com as mais terríveis atrocidades. O jorro do sangue, os gritos e as lágrimas foram como gotas de orvalho nas manhãs de primavera já distantes. Era o fim do mundo e de tudo ao que depositara a sua fé. Um passado ao qual gostaria de apagar e concluir aquilo que, erroneamente, crera ser fundamental para a continuidade de sua existência.
Contudo, não era fácil. Um lado sombrio de sua alma se achava, confortavelmente, obsessivo em seguir as deliberações e as exigências do Lorde das Trevas. Nenhum ópio, amor ou exame de consciência acalmavam essa funesta vontade. Uma força oculta o forçava a prosseguir e alimentar sua compulsão ininterrupta por estarrecer as famílias bruxas e atormentar o Ministério da Magia. Principalmente, por reverenciar a sensação agradável de insanidade e crueldade, a qual se deparava ao ser descrito como alguém idêntico ao demônio.
Tentando afastar os maus pensamentos, sua mente o levava para memórias não tão distantes, em que sorria ao gerar medo. Como um monstro se esgueirando pelos cantos, prestes a tomar o espírito dos mais puros, ele se via confrontado por seu próprio reflexo, seu pai, Tobias. Não era algo para se entristecer, mas sim para se envergonhar dos anos em que festejara tais sucessos.
Será que ceder ao impulso, antes tão fascinante e tentador, não seria, afinal, o caminho para sua própria libertação de todas as razões que o atormentavam? Com tais conjecturações, despejou os últimos líquidos e manifestou uma estranha expressão de felicidade no rosto, verificando a cicatrização das asas de Fall.
Encontrava-se decidido a enxotar aquela coruja de sua casa. Não queria que ela importunasse Orestes com a sua presença. Acima de tudo, não suportava encarar aquele animal à sua frente. Fora ela a portadora da carta em que Narcissa o expulsava de sua vida. Também não queria ler o conteúdo do pergaminho que lhe trouxera. Não queria absolutamente qualquer notícia que viesse por aquelas asas do acaso.
Retirando-o finalmente da pata que Fall mantinha decididamente esticada, Severus atirou o pergaminho sobre a mesa, limpando o pequeno rolo das manchas de sangue que o salpicavam em alguns pedaços e destacavam ainda mais o brasão negro dos Black que o selava. Ao fazer isso, prestes a dar as costas e pegar um pouco de água para a coruja, uma estranha sensação de angústia atravessou o seu peito como uma lança em chamas.
O que estaria acontecendo para que aqueles abalos estivessem se intensificando e se tornando cada vez mais frequentes? Com a respiração rápida e ofegante, o suor escorria do seu rosto e o coração pulsava forte na garganta. Severus sentia que estava sufocando, se afogando em líquidos desconhecidos, quase perdendo a consciência.
Deitando-se no chão, com as pernas trêmulas e fracas, fez o possível para erguê-las e as encostar na madeira da mesa. Sabia muito bem o que aquilo significava. Estava tendo um ataque de pânico, dada a força com que aqueles sentimentos de morte o atingiam e os seus pensamentos furiosos o acusavam.
Um rumor oculto, uma ligação forte lhe cortando a mente e congelando a espinha. Era como se a mais abundante magia o dominasse, sussurrando seu nome, o chamando para o desconhecido.
Talvez, tamanha crise de ansiedade, se tratasse de sua escuridão e da sua constante luta para manter a psique intacta o atacando. Quem sabe necessitasse aprender a soltar o seu demônio interior, nos momentos oportunos, ao invés de lutar para prendê-lo? Respirando fundo e sentindo que restabelecera o próprio domínio, ele se ergueu lentamente, limpando o suor do rosto com o antebraço e se segurando firmemente na borda da mesa.
- Você pode ficar aqui, Fall, até sentir que já está recuperada. Se quiser, pode procurar o Orestes no andar de cima e dividir os petiscos com ele - falou sem muita emoção, ainda com o semblante lívido de quem acabara de vivenciar uma emoção extrema, dando as costas sem olhar para a coruja que o encarava piscando os olhos lentamente.
Desconsiderando o que sentira e o que experimentara, Severus desceu novamente as escadas para trabalhar um pouco no laboratório. Precisava se recuperar daquela inexplicável tontura, para dar prosseguimento aos estudos e reavaliar os seus novos planos. Não existia qualquer coisa que o fizesse se preocupar. Nada o abalava. Por que, então, se achava tão alterado?
Se funcionassem as suas idealizações e projeções, a sua primorosa e única existência se desenharia como doce e totalmente louca. Com instantes insanos, intensos e belos, finalmente, seria feliz. Não olharia para trás e começaria a desprezar a antiga postura de se divertir com o rompimento de promessas e a destruição de corações. Se orgulharia do seu novo eu. O mundo e a vida já eram suficientemente injustos, como um todo, para que também o fosse. Ou deveria seguir sendo?
Executando com maestria o mover de suas mãos, seus gestos eram friamente calculados, em um ato de régio equilíbrio na corda bamba que era a própria existência. Gestos e atos medidos como as palavras que usaria para obter a atenção e o respeito dos demais. Cada palavra escolhida era como uma peça de xadrez, meticulosamente posicionada no tabuleiro para controlar o jogo. Contudo, por trás de sua retórica calculada, Severus sentia o peso de sua máscara desgastada, como uma pintura rachada que revelava o verdadeiro rosto por baixo.
Lutando para reencontrar sua postura perdida, aquela de se despir de sua existência para personificar alguém que ele desprezava. Aquela seria a última vez, repetia ininterruptamente em pensamentos, desejando com todo o coração que essa fosse a sua única verdade nos próximos anos. A cada repetição, a angústia crescia, como um grito de negação silencioso que ecoava em sua mente.
Só faltavam mais alguns dias, alguns passos, e tinha esperanças de que estaria deixando de trilhar aquele caminho tão vazio, mórbido e solitário, desde que prometera a si mesmo que refaria os laços desfeitos. Seus passos não seriam mais tão marcados por sangue e morte.
Refletindo um pouco, suas antigas ambições ainda o impulsionavam em direção a uma meta absurda. Ele se odiava por ter comprometido seu futuro de forma indestrutível e injustificável. O que o impedia de se jogar no abismo e dar um fim àquela dor? Qual fato impossibilitava sua ânsia de vivenciar plenamente a morte em vida? Ele já se via muito perto de enterrar seu direito de desejar e de amordaçar a capacidade que ainda possuía de amar.
- É meu grande amigo Amanita muscaria, hoje será você que irá me auxiliar na busca pela sabedoria divina, como tantas vezes o fizera pelos druidas - murmurou, pegando o cogumelo vermelho de seu estoque, para consumi-lo.
A culpa e a raiva o corroíam e, naquele momento, transformavam-no em alguém mais destrutivo e mordaz. Ele permitiu que seu lado mais doentio e violento se manifestasse, revelando uma face hedionda e selvagem. Era o homem que todos evitavam, o ser que sempre estava disposto a atacar quem cruzasse seu caminho ou ousasse confrontá-lo.
Alucinando, ele viu seus bons pensamentos e esperanças desvanecerem um a um. Em meio a um surto psicótico, ele recorreu a delírios para saciar suas necessidades básicas de afeto, de forma assustadoramente sádica. Abriu alguns cortes em seus próprios braços, com os olhos semicerrados, observando os pontos vermelhos que se formavam. À medida que o sangue pingava no chão, ele ponderou que a desgraça de sua biografia era um jogo cruel dos deuses.
Os espíritos que o cercavam eram como vultos de uma morte anunciada, sempre o rondando e oferecendo o maligno xerez. Ele estava entorpecido, seu rancor ressurgia dos recantos mais profundos de suas entranhas, privando-o de qualquer afinidade ou sentimento por algo. As vozes sussurravam frases indignas, sibilavam de forma sórdida e doentia, ecoando ideias sujas e repulsivas em sua mente.
Incessantemente, os fantasmas insistiam que as respostas mais claras para suas dúvidas residiam na força. Faziam-no acreditar que viveria plenamente se conseguisse se transmutar em uma rocha, em um soldado insensível, ou mesmo em um morto-vivo. O que quer que isso significasse, parecia ser o impulso que levava todos aqueles seguidores do Coração Peludo a desviarem dos caminhos corretos em direção a uma estrada de prazer profundo e esquecimento.
Em um quase hedonismo às avessas, ele se deu conta de que estava ali apenas aguardando o momento em que os mármores brancos se rompessem, e a verdade se revelasse impiedosamente. No fundo, ambicionava ser arrastado para o inferno ou qualquer outro espaço onde pudesse ser dilacerado por inteiro, um lugar onde pudesse amargar eternamente e beber do fel que jorrava de seu próprio corpo.
Caminhando a passos lentos pelos corredores da casa, descalço e alheio à tempestade que se formava no horizonte, ele se sentia extremamente perdido. Uma angústia inexplicável o envolvia, apertando seu peito com força, provocando um vislumbre do clarear das circunstâncias em meio ao sofrimento e tudo o que o cercava. Quando chegou aos fundos da casa, após atravessar a cozinha e ver de relance o pergaminho intocado, sentou-se no chão e se deixou encharcar pela chuva.
As gotas frias da chuva caíam sobre sua pele, misturando-se com as lágrimas que escorriam, criando uma sensação de purificação. Lá no fundo, enquanto seu corpo molhava e sua alma era lavada, múltiplas cores se misturavam diante de seus olhos. Imaginava que, após toda aquela vertigem e tontura, poderia ressurgir purificado. Estava tão absorto e fora de si que se alienava e se entregava à insanidade momentânea, se deixava levar pelas imagens vagas e difusas de campos de trigo. Campos onde poderia vagar em paz e encontrar toda a libertação que um dia lhe fora anunciada.
Com o vento oeste batendo em seus cabelos e chicoteando seu rosto, Severus escutava a voz de seu coração, que falava muito mais alto do que a razão. Melodiosa, suave e de linguagem afável, o som era uma dicção perfeita que pronunciava tudo o que mais amava. Ele se via tonto, como um condenado pelo arrependimento, assombrado pelos cadáveres que carregava em suas costas.
Uma fração, um acessório, uma parte dentro do todo. A verdade era que Severus se sentia como mais um na multidão de desgraçados e amaldiçoados que percorria o globo terrestre, lavando com o próprio sangue o chão dos afortunados. Mas, no fundo de sua mente, havia algo extremamente valioso que ele não podia esquecer ou abandonar.
Sem um fundamento concreto e separado de sua verdadeira natureza, sua existência se perdia em meio às incertezas sobre a constituição das almas. Ele havia identificado sua certeza por meio da privação de sono e do abuso de narcóticos. Identificando seu próprio erro e o quanto estava se destruindo, ainda insistia que aquela era sua única maneira de se sentir estimulado a meditar sobre os rumos mais evidentes que seguiria. Já não suportava mais perambular errante, melancólico e solitário nas sombras. Se entregar ao fracasso e afundar nos recantos obscuros da tristeza era uma alternativa para encontrar seu próprio contentamento.
Horas se arrastaram em uma complexa e abstrata quietude absoluta. Submerso em sua própria consciência, Severus sentiu como se o silêncio exterior tentasse sufocar seus gritos internos. À medida que se levantava para retornar ao interior da casa, uma sensação avassaladora o dominava novamente. As paredes da cozinha e da sala pareciam se aproximar, como se quisessem esmagá-lo. O medo, insano e angustiante, governou seus instintos. Ele colocou as mãos nos ouvidos para bloquear os zunidos que atacavam sua audição. Sua respiração acelerou, e seus pulmões pareciam queimar com o ar ácido que torturava seu corpo.
Seus membros pareciam traiçoeiros, e seus olhos refletiam a preocupação à medida que analisavam cada detalhe, em busca de uma possível explosão iminente. Como um náufrago à beira do afogamento, Severus se via prestes a sucumbir. Sua lucidez estava à beira do colapso, deslizando como grãos de areia ao vento, forçando-o a lutar para manter-se consciente.
Com agilidade, ele rastejou até a geladeira, agarrou a primeira garrafa que suas mãos alcançaram e bebeu grandes goles de água. A água fresca e reconfortante restaurou sua glicemia e trouxe um alívio efervescente. Lágrimas turvas em seus olhos borbulhavam, acrescentando um toque de angústia à cena.
Poucos segundos antes de desmoronar por completo, Severus concentrou sua atenção no tampo da mesa. Lá, notou a presença de um pergaminho ainda enrolado e esquecido há muito tempo. Ele o pegou e leu o conteúdo. O ar, que antes era opressivo, misteriosamente transformou-se em algo mais puro.
Ao examinar as palavras escritas no pequeno bilhete, Severus avaliou cada detalhe da punição brutal que Bellatrix havia sofrido. Horror invadiu seus pensamentos e definiu o nível de crueldade empregado.
- Como ele pôde? – Severus murmurou, chocado com a narrativa, deixando o pergaminho de lado e correndo para reunir todas as poções e pomadas disponíveis em seu estoque.
Com pressa, ele trocou de roupa e lavou o rosto para se recuperar. Sua mente estava tumultuada, e ele não conseguia pensar claramente sobre o que fazer a seguir. No entanto, uma coisa estava clara em sua mente: ele não deixaria Bellatrix morrer.
Angustiado, ele atravessou a porta e sentiu seu corpo girar à medida que desaparatava para o destino planejado. A ideia de Bellatrix perder a vida era insuportável. Todos os princípios e fundamentos pelos quais ele havia lutado estariam perdidos. Independentemente do que Hermione representasse em seu passado, não permitiria que ela sofresse por sua culpa novamente. Ela não merecia perecer em agonia. Enquanto se aproximava de seu destino, seus piores pesadelos e traumas passados se repetiam, como se estivesse preso em um pesadelo vívido.
Raios, relâmpagos e trovões ecoavam no céu, fazendo o chão tremer com sua potência caótica. A sensação da morte o rodeava, mas ele não permitia que isso o abalasse, transformando o curto espaço em uma distância quase infinita.
Não havia tempo a perder, nem espaço para confrontar seus próprios demônios internos. O jovem Severus e o homem que ele se tornara precisavam se unir quando o passado se tornava presente. Com um ato impulsivo, ele quebrou o último frasco, cortando o último vínculo com seu passado. Um novo mundo, uma nova vida estava começando, mesmo que fosse uma repetição horrenda do pior dia de sua vida. Talvez isso representasse o fim de um ciclo e o início de uma nova fase de desafios.
Ao entrar no quarto, mal iluminado por velas, ele se deparou com uma cena aterrorizante. Água viscosa e quente, sangue de uma possível hemorragia interna, manchando os lençóis. Os cortes e hematomas cobriam o corpo de Bellatrix, e a visão o perturbou profundamente. A ideia de que a morte a havia atingido como um punhal envenenado se revelou diante dele. Sua vontade era sair correndo e arrancar as entranhas de Voldemort com as próprias mãos, mas ele ainda não conseguia reunir forças para fazê-lo.
- Meu caro senhor, eu acredito que chegou o momento em que eu trarei novos elementos para a guerra... após a sua tão admirável atitude – disse aos sussurros, se culpando, com renovado desejo de vingança na voz após as últimas palavras ditas, ao verificar os batimentos cardíacos.
Era sua responsabilidade mantê-la segura, mas seu egoísmo o impedira de ver que ela era apenas uma jovem de 19 anos, alguém que sonhava em ser feliz ao lado de seu primo. Agora, seus sonhos estavam destruídos. Sua pele pálida e gélida, a respiração fraca, indicava que sua alma estava escapando lentamente. Talvez ela não sobrevivesse, especialmente com um bebê em seu ventre.
As pernas de Severus quase o traíram diante dessa terrível constatação. A coragem o abandonou, e ele se viu incapaz de encontrar uma solução para salvá-la.
- Bella? Bellatrix, não desista, você é forte. Por favor, resista! - ele implorou, segurando-a pelos ombros e a sacudindo um pouco.
- Não desista, Gamma Orionis... eu vou fazer o que puder para te salvar. Não haja como uma obtusa, porque você pode ser qualquer coisa, menos uma tola.
À beira de uma crise de ansiedade, Severus respirou fundo e tentou se acalmar. Ele não poderia se permitir desmoronar, especialmente quando Hermione parecia exigir desesperadamente ser salva. Com cuidado, ele recolocou Bellatrix deitada na cama e começou a realizar manobras de reanimação cardiorrespiratória.
À medida que suas mãos se moviam com destreza, ele oscilava entre as massagens e a respiração boca a boca. Nada parecia funcionar até que, à beira da exaustão, ouviu um suspiro fraco. Não confiando completamente em seus sentidos, ele passou os dedos perto de sua boca, sentindo o calor da respiração.
- Finalmente... - sussurrou aliviado, olhando para ela com seriedade enquanto usava sua varinha para aliviar a gravidade dos ferimentos.
O remorso era um inimigo poderoso que o consumira ao longo dos anos, uma carga que ele carregava sozinho. Ele se culpava por tudo o que estava acontecendo, e a descoberta de uma hemorragia resultante de um estupro o fez vomitar o líquido escuro que oprimia sua garganta.
Ignorando seu próprio cansaço, Severus acelerou o processo de cura das lesões. Ele esfregou as pomadas cicatrizantes, observando o restabelecimento dos tecidos e vasos sanguíneos rompidos. Ainda não era o suficiente, e continuaria os procedimentos até ficar satisfeito com os resultados. Com cuidado, após alguns minutos em que se dera ao luxo de respirar um pouco e secar o próprio suor, ele levantou o rosto de Bellatrix e a fez engolir uma série de poções. Reposição de ossos e músculos, fortificantes e, por fim, alguns tranquilizantes, tudo com o objetivo de restaurar seu núcleo mágico para evitar o enfraquecimento.
Ao examiná-la novamente, Severus percebeu que a respiração e a pulsação haviam se estabilizado. Em silêncio, limpou as mãos em um pano branco e começou a recolher os frascos que estavam espalhados no chão do quarto. Seus pensamentos e seu coração estavam conectados pelo Elo, e ele sentia que estava sendo questionado sobre os acontecimentos.
Hermione estava tomada pelo medo e apreensão. Era pequena demais para compreender os motivos que levaram àquele ataque. No entanto, não havia respostas que pudessem ser oferecidas. Severus estava tão indignado e atormentado que mal conseguia encontrar palavras para descrever a selvageria que testemunhara. Ele estava profundamente abalado pelas memórias que aquele cenário lhe evocava, tornando-se incapaz de explicar a qualquer pessoa o que estava acontecendo.
- Você é muito mais irritante do que a pessoa que vi na Penseira, Hermione. Não sofreu nenhum ataque, e sua mãe ficará bem. Em breve, aquele tolo do seu pai estará aqui para protegê-las - falou automaticamente, como se estivesse travando um diálogo imaginário, buscando acalmar a turbulência de seus próprios pensamentos.
Enquanto colocava instintivamente a mão na barriga de Bellatrix, percebeu que uma pequena mãozinha repetia o gesto por dentro, como se agradecesse por todo o esforço que ele havia feito. Com um meio sorriso, Severus se afastou e terminou de recolher seus pertences para partir.
- Pequena rainha de William Shakespeare, torça para que eu possa reconquistar sua tia Narcissa, para que você possa continuar a infernizar a minha vida - murmurou antes de sair do cômodo.
Finalmente, ele voltaria para sua casa e teria uma noite de sono tranquila, embora estivesse quebrado e com a mente perturbada. Ele precisava recolocar suas ideias no lugar, pois no dia seguinte seria o responsável por liderar uma missão. Como comandar uma invasão daquela magnitude?
Enquanto dava alguns passos, ele parou, determinado a mudar o curso dos acontecimentos, ao ver Berw sobrevoando nas proximidades de sua casa. Se sua alma estava livre, ele a honraria. Esse seria seu primeiro ato de grandeza, sem esperar por qualquer tipo de agradecimento.
"Black,
Sei que você está muito ocupado sendo um completo imbecil e tentando agir como o herói ao lado daquele porco. No entanto, sua futura esposa e as duas filhas precisam de você com urgência.
S.S."
