Com a proximidade da fatídica missão, o campo em que se encontravam adquiria uma confusa e plena dualidade de sensações, onde a iminência do evento contrastava com a aparente distância que as horas impunham. O horizonte, como se o tempo os desafiasse a confrontá-lo, se tingia de tonalidades escuras do anoitecer. Os tons alaranjados davam lugar a um roxo profundo, envolvendo a paisagem e a todos em um manto sombrio. Uma morbidez que contrastava com o frescor do vento, que insistia em carregar consigo algumas nuvens cinzentas e carregadas que obscureciam ainda mais as trevas da lua minguante, trazendo um ambiente denso e carregado de presságios e sussurros de morte.
Enquanto os últimos vestígios de luz se apagavam e a penumbra se elevava, os jovens Comensais da Morte se organizavam metodicamente, como peças de um xadrez macabro, estruturado para dizimar os oponentes em sua primeira grande batalha e invadir alguns pequenos vilarejos bruxos conhecidos por aceitarem nascidos trouxas. Cada passo era calculado em seus mais variados pontos e pormenores, cada estratégia era discutida em murmúrios enquanto observavam os mapas e debatiam quais eram os melhores pontos para o ataque.
O ar se carregava e impregnava não apenas das expectativas do confronto, mas também pelos odores e sussurros das almas corrompidas, prontas para desencadear o caos em nome das trevas que a pureza de sangue proclamava. Eles não eram os adolescentes rebeldes que o Ministério da Magia tentava desenhar nas capas do Profeta Diário. Eles eram jovens cruéis que se preparavam para trilhar com honras um caminho de destruição e violência.
Foi então que mais de setenta Comensais da Morte começaram a se dividir em grupos. O contraste entre a serenidade absoluta da paisagem natural e a confabulação das mentes sedentas por sangue e poder conferia a todos os cantos um tom perturbador. Em um canto afastado, comendo os sanduíches de atum recém-preparados, Regulus e Evan conversavam despreocupadamente com os Lestrange. Seria Rodolphus quem os chefiaria na missão recebida.
Tudo organizado e orquestrado e, se possível, reanalisado minuciosamente nos mapas da cidade de Cardiff, onde eles fariam a guarda e investigariam a presença de possíveis aurores monitorando os arredores da cidade. Nada sairia errado ou fora do que planejaram durante dias para o confronto.
Era o que imaginavam e esperavam que fosse possível. No entanto, a impaciência e o nervosismo roubavam-lhes a paz, deixando-os tensos e com a respiração pesada. As dúvidas sobre o que ocorreria se algo saísse dos planos os preocupavam. E se não funcionasse? Receberiam a chance de falhar impunemente? Teriam uma segunda chance após um erro? O Lorde das Trevas seria capaz de perdoar?
Em outro canto, Severus se movia com uma expressão extremamente enigmática e reflexiva. Seus pensamentos voavam longe, e suas passadas pelo ambiente traziam à tona a imagem do menino ansioso e meditativo que um dia fora, reminiscente de seu passado que agora não podia mais alcançar. Os vincos em sua testa, sobretudo entre as sobrancelhas, carregavam o seu semblante naturalmente soturno e testemunhavam a carga de conjecturações que pesava sobre seus ombros e abalavam suas noites de sono.
Mesmo que disfarçasse, o turbilhão interior se refletia em sua postura inquieta e seus passos firmes. Por que se atormentava tanto? O que buscava não revelar nem mesmo a si próprio? Por que ficara tão sombrio de uma hora para outra, quando dias antes havia se mostrado um dos mais entusiasmados para entrar em combate? Se alguém o olhasse atentamente, repararia apenas que seus olhos vazios e negros destoavam da felicidade em seu entorno, expondo somente um misto de tédio e sofrimento.
Mexendo nos bolsos como se procurasse algo, Severus continuava imerso, apreensivo com os horrores que testemunhara ao longo de sua existência e destinado a continuar enfrentando. Seus dedos tocavam fragmentos que testemunhavam silenciosamente eventos passados, contando uma história sombria e distante. A crescente obscuridade em sua expressão evidenciava uma alma marcada por experiências dolorosas e inimagináveis, apresentando traços que delineavam os episódios que moldaram seu ser.
Entretanto, não era isso que de fato o incomodava. A verdade era que os últimos acontecimentos o tocavam e o atingiam de uma maneira absurda, tão fortes e dolorosos que danificavam e apodreciam sua natureza, de tal modo que mal conseguia explicar. Reverberando as ideias, só presumia o número de nascidos trouxas que seriam torturados, violentados e, por fim, assassinados durante a madrugada. Suas crianças, lavadas de vermelho terroso, não teriam tempo para chorar ou para fugir. Como pode apoiar algo tão desumano?
Ainda refletindo sobre cada detalhe dessas questões e na ferocidade daqueles que o cercavam, a ansiedade fluía por cada nervo e músculo de seu corpo. Pulsava, vibrava, faiscava como raios expandindo descargas elétricas pelo céu. Não haveria fracasso. Nada poderia frustrá-lo. Os enganos, os sorrisos que lhe pareciam falsos e as imperfeições certeiras se exporiam como artifícios obsoletos e distantes. Indiscutivelmente, seu momento de honra e glória chegara; não poderia se deixar levar por medos ou por uma consciência pesada. Tinha que cumprir e conquistar, deixando para trás as dúvidas que o paralisavam. A partir de então, se estabeleceria no posto mais alto, e todos teriam de se curvar ao seu domínio.
- Depois de hoje, aqueles malditos bastardos vão começar a me enxergar como o demônio em pessoa. O pior ser e a coisa mais abominável que conheceram em suas vidas imundas.
Sussurrou para si, determinado a ser o general absoluto daquela guerra que queria vencer, a qual auxiliara nos seus primeiros passos mais definitivos. Dúvidas, inseguranças e incertezas não se apresentavam como boas conselheiras. Nunca foram. Gravitando em sua mente, elas faziam com que sua imaginação e seu foco se perdessem no espaço e deveriam ser relegadas às trevas do esquecimento.
Gritos de pavor, sangue por todos os lados, suor das lutas e lágrimas dos vencidos, em tal ocasião, se desenhavam novamente como partes fundamentais do seu destino. O arrependimento e a culpa lhe soterravam. Eles mandavam que voltasse atrás e desistisse. Insistiam em lhe aconselhar a não fazer nada daquilo a que fora enviado. Sua consciência questionava seus métodos e como fora capaz de julgar, com tanta paixão e certezas, que aquele era o seu futuro primoroso e cheio de conquistas?
- Vamos, irmão? As armas! As armas! - a voz de Evan, entre risos, o retirou de seus pensamentos instantaneamente.
- Nervoso, Rosier? – questionou indiferente.
- Não, nem um pouco. Não é hoje que os canalhas vão me subjugar, pode ter certeza.
- Compreendo... vai encontrar a Virgínia depois, como um verdadeiro traidor de sangue, ou voltar para os braços da puríssima Elizabeth e ser um exemplo para todos nós?
- Posso fazer os dois, Snape - a resposta soou estranha enquanto Evan dava de ombros e ainda sorria.
- Mas, falando sério, e você, Severus, vai procurar a Narcissa hoje ou deixará novamente a hora passar?
- Sua prima está com o Lucius Malfoy...
- Duvido muito que ela tenha voltado a ser noiva dele.
- Regulus me garantiu isso, Evan.
- Você confia plenamente na palavra dele nessa questão, meu caro? – o sorriso dele se ampliou como um menino que escondesse algo importante.
- Por que ele me mentiria? - Severus o encarou desconfiado.
- Não sei... acho que a Narcissa seria a melhor pessoa para te fazer entender o que de fato está acontecendo – Evan deu uma breve batida no braço dele antes de se despedir.
- Até depois.
- Até breve.
Tudo se transformara de repente. Aquela breve conversa funcionara como uma brasa que explodiu um barril de pólvora. Viver daquela maneira não era o que ele sonhara e ainda aspirava para si, por mais que insistisse em tentar acreditar no contrário. Refletindo um pouco, Severus percebeu que as coisas se tornavam mais claras e objetivas à sua frente. Não havia quebrado apenas frascos com as próprias mãos; fizera o mesmo com o espelho que o aprisionava com seus reflexos maravilhosos e hipnotizantes, à figura do homem que não era e estava muito longe de ser.
Os entorpecentes líquidos que, inúmeras vezes, o enganaram com memórias falsas e escandalosamente corruptas deviam evaporar completamente. O livramento o acalmava. Passara tanto tempo mergulhado em águas profundas e frias, afogando-se nos próprios erros que, talvez, Narcissa tivesse decidido se afastar e criado um empecilho para que não o procurasse.
Ela estava certa. Viver por tanto tempo naquele cenário fora extremamente perturbador. Um contínuo e terrível despertar de anjos e demônios, padecendo com tristezas e desilusões que não eram suas. Um misto de raiva, orgulho, asco, adoração, desespero, temor, amor... um verdadeiro caos de sentimentos intensos se agitava no peito de Severus. Emoções complexas de um quebra-cabeças disposto a montar e dar sentido à sua existência.
A raiva de si mesmo queimava como brasas incandescentes. O desespero ecoava como um lamento extremamente silencioso e cáustico. E o amor, apesar de ter sido muitas vezes enterrado sob profundas e pesadas camadas de sofrimento, persistia como uma luz tênue e vibrante. Como um maestro regendo a orquestra de sensações e vivências, ele se sentia cansado. Notava o quanto se transformara em um mero receptáculo ambulante de conflitos internos e questões mal resolvidas que se somavam sem nunca serem realmente resolvidas.
Não suportava mais aquele marasmo e toda aquela inércia. Era o momento de renunciar definitivamente aos rastros das infinitas conversas imaginárias que mantivera com seus diabretes e suas serpentes eternas. Queria mais para si e desejava o melhor para Narcissa. Por sua causa e por buscar tão desesperadamente algum dia ter o seu perdão, alteraria seu entorno significativamente, como tantas vezes imaginara fazer.
Suas serpentes mudaram de direção, subindo sorrateiramente por suas pernas, enrolando-se em seus braços e desatando os antigos nós que ainda o prendiam, apagando as cicatrizes formadas por tantas estrelas e inúmeros sóis da meia-noite. A milhões de milhas, galáxias e constelações regiam e continuariam a reger o seu negro amor. Dando um breve sorriso e decidido a desobedecer às ordens diretas do Lorde das Trevas, Severus saiu em busca de Lucius com passos largos e resolutos.
Ele transferiria para o outro toda a responsabilidade de liderar, com punhos firmes e braço de ferro, a agressão aos nascidos trouxas. Não daria essa atribuição a nenhuma das pessoas que lhe eram próximas, compreendendo bem os riscos de sua decisão. Não se perdoaria se, em caso de fracasso, eles fossem torturados por sua culpa, especialmente ao considerar a crueldade que Voldemort, e até mesmo o próprio Lucius, ser era capaz de infligir a pessoas que julgava inferiores ou mais fracas.
Dando algumas instruções rápidas e precisas, Severus resolveu partir sem olhar para trás. Não permaneceria para testemunhar as monstruosidades que seriam protagonizadas e se afastaria de tanto horror. Sua existência era muito curta para desperdiçar mais um segundo sequer com bobagens e questões alheias. Começaria a matar para se defender. Talvez sua atitude e o que estava prestes a executar fossem observados por muitos como verdadeiras provas de loucura. No entanto, em sua percepção e modo de objetivar as coisas à sua volta, era a única alternativa plausível e justificável para corrigir muitos de seus imensuráveis equívocos.
A desaparatação foi como um sopro de alívio para Severus, tirando-o do princípio de inferno que se desenhava. Cada parte do ambiente ao seu redor desaparecia, se modificava à medida em que os borrões se transformavam em um cenário montanhoso. O lugar em que desejava estar desde que vira Bellatrix à beira da morte. As montanhas erguiam-se majestosas, intercalando entre algumas mais baixas e outras cujos picos se perdiam nas nuvens, e o ar fresco da altitude trazia consigo uma pacífica sensação de renovação. A fortaleza, isolada do caos da batalha distante, tornava-se o lugar propício para iniciar uma nova fase de seus planos.
Segundos, milésimos, minutos, horas... não compreendia e nem saberia como definir, ao abandonar o desassossego que o comandava, quanto tempo transcorrera desde que chegara ali. O fato era que a aparatação tranquila permitiu que Severus se estabelecesse, em um espaço extremamente ermo, para observar as áreas urbanas do vale e analisar cuidadosamente quanto resguardavam aquela prisão esquecida por muitos.
- Magnitudo omnia vincit. A grandeza vence tudo. Mabon me ajude nesse momento tempestuoso e me fortaleça – Severus repetiu para si, algumas vezes, segurando firmemente a turmalina negra que balançava perto do seu coração.
Abandonado há muitos anos, o que um dia fora um castelo gigantesco e luxuoso, se transformara em uma suntuosa ruína presa aos rochedos abruptos e clivosos. Um edifício solitário, triste, destruído e negligenciado. Representava o terreno ideal para a segunda parte de sua revanche.
Explorando alguns detalhes e pesquisando as possibilidades, Severus respirou profundamente, seguro de suas mais violentas intenções de jogar tudo para o alto e refazer seus propósitos. Recriar as decisões que orientavam sua existência e colocá-las em prática, até então, era sua maior meta e melhor escolha.
Movendo-se lentamente, seguiu em frente com passos largos e precisos. Aos poucos, atento a tudo, ingressou em um terreno arenoso e extremamente hostil, com vários pontos pedregosos de arenito. Numerosas árvores forjavam um caminho, tendo os ventos o atacando por inteiro e impiedosamente. Era um lugar estranho que parecia observá-lo e analisar quais eram suas intenções, enquanto o desorientava.
Seus pensamentos repetiam que aquele era um lugar adverso, bárbaro, feroz e forte, tendo como aliado o clima contrário e provocador que aprofundava ainda mais suas ambições e convicções. Era como uma prova de coragem e certeza. Se a besta, naquela madrugada, fosse finalmente encontrá-lo e quisesse devorá-lo, lutaria até o fim por redenção e pela absolvição de seus crimes. Não reduziria seus engenhos e artimanhas por obra da compulsão, da ira e do rancor. Não permitiria mais que os sentimentos o consumissem e o afligissem mais do que já haviam feito.
A cada marca deixada pelos seus passos no chão, Severus abandonava as relutâncias que ainda insistiam em permanecer, preteria as próprias renúncias passadas para dar lugar às novas. Uma obrigação e alguma reflexão antiga se despossuíam do primitivo domínio, ocultando as coisas terríveis que aconteceram desde o instante em que assumira o dever de servir ao Lorde das Trevas e aos seus desígnios tirânicos. Foi então que, mais uma vez, sentiu queimar a cicatriz enraizada em sua memória. O pesar profundo pelo que ocorrera com Bellatrix não sumiria com o tempo. Sentia-se responsável, mesmo que indiretamente, por todo aquele sofrimento. Necessitava de paz de espírito e perdão para se redimir de suas constantes faltas.
Parando próximo a uma árvore, Severus encarou novamente a entrada do castelo, pensando que não abandonaria a esperança e a expectativa de que a síndrome de herói estúpido que gravitava em torno de Sirius tivesse o levado a sequestrá-la e fugir com ela para longe de toda aquela confusão. Uma ideia que aliviava um pouco a sua consciência cada vez mais pesada. Contudo, não era suficiente para acalmá-lo.
Que tipo de monstro havia se transformado por conta de seu egoísmo? Quantos mais seu ódio cortante atravessaria com seus gestos e palavras? Independente da resposta, sem qualquer tempo para refletir ainda mais sobre aquele assunto, fechou os olhos e girou o corpo com uma velocidade superficial e indispensável para o que enfrentaria.
Defendendo-se dos ataques que lhe eram direcionados, após um jovem auror tê-lo visto de longe, seus movimentos eram ágeis e rápidos para sobreviver. Confiando na própria força contra aqueles quatro rapazes, Severus não temeu a realidade de que poderiam ser muitos e que pudessem estar escondidos. Muito menos ficou abalado quando os viu saindo das sombras em uma quantidade indizível para entrar em combate.
Com a adrenalina arrebentando e governando suas investidas, seu coração pulsava na garganta ao revidar cada uma das maldições e ofensivas. Vez e outra se escondendo nas copas das árvores, ou sobrevoando por cima de alguns desesperados, sua legilimência trabalhava fervorosamente, escutando os pensamentos de alguns dos oponentes e as ordens que eram lançadas.
- Os chefes daqui são muito ocupados para enviar um grupo de crianças para patrulhar Nurmengard? Conheço uma pessoa que ficará arrasada quando souber do quanto Durmstrang está formando gente fraca e obtusa – Severus ironizou.
- Entregue-se! Nós sabemos que você é um Comensal da Morte – disse um dos aurores mais corajosos, que olhava para todos os cantos em busca do invasor.
- Eu me entregaria para quem exatamente? Para vocês, que apanhariam do velho que está na última torre, sem que ele sequer precisasse da varinha? – continuou com a provocação.
- Não, muito obrigado! Prefiro continuar assim mesmo.
Aquela breve troca de palavras o ajudou a perceber a movimentação no topo, permitindo que pudesse prever e antecipar as ações que se realizariam. Entretanto, no fundo, sabia que precisaria de auxílio. Poderia invocar alguns através da marca sombria e colocar seus planos em prática. Jamais faria isso. Valendo-se de todos os seus poderes e conhecimentos para se resguardar e ter sucesso na luta, não imporia mais qualquer limite para si mesmo.
- Como estão se saindo aqueles patetas em Cardiff? - interrogou-se, sussurrando, ao pousar novamente no chão e desenrolar o confronto.
Por mais que negasse a admitir, sentia preocupação pelos amigos que estavam combatendo em outros campos. Sacudindo a cabeça em negativa, sondou um modo eficaz de não se deixar abalar por tais sentimentos momentâneos ou ser vencido por reles soldados rasos. O rodopiar breve das varinhas e as luzes cortando a escuridão transfigurariam o horror em um espetáculo de luz e sombras, oferecendo à noite e ao único prisioneiro daquele lugar um fantástico show de cores.
Era uma batalha. Não uma batalha qualquer, mas uma que o próprio Voldemort se orgulharia de participar se soubesse de sua existência. O cenário de caos e sangue beirava a perfeição completa, ao ser visto do alto de uma das janelas, pelo solitário e satisfeito expectador.
O alvoroço frenético e a gritaria obstinada causaram uma explosão inexplicável no meio da luta. Repentinamente, uma árvore foi partida ao meio, tombando sobre dois jovens aurores desesperados. Aproveitando o tumulto e o choque gerado pela cena aterradora, Severus apunhalou um dos seus adversários no peito.
Insensível aos berros, usando um poderoso feitiço escudo para desviar das maldições lançadas pelos outros, não se importava com a quantidade de vezes que os golpeava, retalhando-os por completo.
- Mais alguém? Algum novo voluntário para explodir as coisas e se foder com isso, ou já estão suficientemente satisfeitos por verem o que um maldito Comensal da Morte é capaz de fazer sozinho?
Virando-se para os demais, sua obscura intenção sombreava suas palavras e gestos, ocultando a ideia de abalar os nervos daqueles que ousavam lhe impor resistência. Faria o possível para executar com perfeição, disfarçando a vontade de chorar e a ânsia que queimava sua garganta por ter que novamente se entregar à veemência de sua própria bestialidade.
- Não ouse...
- Quer me desafiar mesmo, auror?
Feitiços de proteção, novas maldições e ameaças eram lançadas ao vento. A perturbação ao verem que conseguia voar sem vassoura, como previra, facilitou muito o desenrolar dos fatos. Severus conhecia bem a potência paralisante do medo e o quanto era um agente peçonhento que corroía aqueles a quem tocava. Era apenas um elemento condicionante, aos assombrados que viram que nunca haviam se preparado para uma magia das trevas daquele nível, para que cometessem erros tolos e triviais.
Bruxos não voam sem vassoura. Bruxos não entravam em luta corporal. Bruxos não matavam com as próprias mãos, principalmente, com tamanho sangue frio. Utilizando o corpo retalhado de sua vítima como escudo, Severus lhe rasgou a garganta, sorrindo aos olhares de pânico que lhe eram destinados. Apreciando a própria perversidade e bebendo do veneno do furor vingativo, acertou mais algumas vezes o ser inerte e sem vida, que pesava tanto e pendia para frente. Não era mais humano. Seu corpo mole parecia mais um boneco de pano sem olhos e destroçado.
O que poderia atestar era que muitos ali já se achavam extremamente abalados e desorientados. A ausência de aurores mais gabaritados para comandá-los ou orientar quanto à forma de proceder desestabilizava e apenas dava lugar ao caos e ao desespero. Imaginava que seus companheiros de causa estavam passando por alguns sufocos no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, ao terem de enfrentar tropas de aurores do mais alto nível de treinamento e chefiados por Alastor Moody, Rufus Scrimgeour ou Kingsley Shacklebolt.
Eles sim eram bons adversários. Sabiam ser cruéis e sanguinários, principalmente, quando o adversário e algoz desfrutasse de uma alma hedionda e corrupta. Um pássaro negro que cantava e se alimentava da morte, sempre envolto na escuridão. Alguém tão soturno que se manifestava apto para as técnicas mais avançadas e selvagens de atordoamento. Um indivíduo disposto a lamber o sangue do mártir e agir como um vampiro experiente.
Em meio a tais ponderações, os ponteiros de todos os relógios aceleraram. Volteando violentamente, com igual intensidade aos gritos que ecoavam pelas pedras, o sangue inundava o gramado. O cheiro ferroso infestava o ar, deixando que as tintas vermelhas tingissem o que antes era verde, assombrando a plenitude do cosmo e desestabilizando o centro de moralidade que sempre regeu o mundo que conhecia desde o nascimento.
Sentindo-se debilitado pelos feitiços que o atingiram e cansado pela batalha que ainda estava travando, Severus não se permitia dar-se por vencido. Andando pelo campo lentamente, negava-se a fechar os olhos e deixar que a dor o dominasse. A necessidade de ser forte e levar aquilo até o fim para alcançar o prêmio desejado pulsava em cada passo, enquanto a força dos acontecimentos que protagonizara ao redor contribuía para carregar o ambiente de dor, tensão e desespero.
Entre seres dilacerados, ele experimentava uma sensação de paz e tranquilidade, como se a tormenta tivesse se afastado, permitindo-lhe assistir a toda a cena em terceira pessoa. Não se reconhecia naquele contexto. Alheio aos ruídos de tamanha desordem, aproximou-se do último que agonizava, encarando-o por longos minutos. Sem esboçar qualquer reação ou compaixão, seu olhar era meditativo, sério e curioso a respeito do fim que traçara muito antes do confronto. Não aceitaria a existência de um adversário ou um sobrevivente disposto a barrar seus planos.
- Você... você não vai conseguir vencer – ofegou o jovem auror, cuspindo sangue com o rosto banhado em lágrimas.
- Vejo que é o corajoso que me desafiou e acha que o seu último grande ato de honra é subestimar todo o meu poder? – comentou Severus, calmamente, examinando as pernas laceradas e as pisoteando com toda a força que possuía.
Queria que chorasse, se humilhasse e se arrependesse, até o último segundo, por ter cruzado o seu caminho. O monstro interior se expusera, mais transtornado e furioso, pela ira mais desenfreada que em seu estado normal. Ajoelhando-se perante o rapaz sem nome, puxou a navalha para lhe desfigurar o rosto.
- Algumas palavras finais para o epitáfio, auror?
- A sua vitória é vazia... você é um homem sujo e sem propósito... um canalha... um canalha sem alma.
- Muito profundo... creio que esperasse a minha comoção ou que eu estivesse disposto a lhe conceder alguma misericórdia, contudo, você não obterá de mim qualquer sinal de empatia como resposta ao seu discurso moralizante.
- Que a minha morte seja a sua maldição!
- Ótimo! Que a sua filosofia barata se concretize assim que a sua alma tiver paz, auror.
Foram as últimas palavras de Severus antes de começar a se divertir com os urros angustiados de dor que acompanhavam cada rastro da tortura infringida. Rindo abertamente em alguns estágios, sussurrava palavras estranhas e mórbidas, como se uma entidade desconhecida novamente dominasse o seu espírito, reabrindo feridas que o tempo nunca pôde curar.
Gerando uma insanidade absoluta, aqueles segundos o entorpeceram, gravitando sob a sua pele e silenciando os sentidos. Totalmente fora do seu controle, a escuridão o abraçou como uma velha amiga, fazendo com que a luz desaparecesse ao seu redor por um tempo indefinido, enquanto tentava respirar.
Sem perceber ou calcular por quanto tempo permanecera desacordado, em meio às suas vítimas, Severus se ergueu um pouco zonzo do chão. Passando a varinha pelo corpo e nas vestes para retirar o sangue, não aceitaria aquela grandeza, a partir do momento em que não se julgava qualificado o suficiente para cometer uma chacina daquela proporção. Especialmente quando lutara contra soldados tão ou mais treinados do que ele. Quem sabe, sempre fora uma máquina de matar, ao contrário de seus inimigos? Será que fora isso que tanto encantara Voldemort anos atrás?
Apavorado com as suas próprias capacidades, concebendo que em algum lugar suas atitudes eram sentenciadas por sua perícia insana em gerar o caos e semear o terror, se distanciou vagamente. Seus passos lentos e suas mãos trêmulas eram vestígios de que talvez preferisse renegar os seus próprios absurdos, um rasgo de verdade e exposição do quanto os seus pensamentos lhe afirmavam o quanto os bruxos poderiam se mostrar vulneráveis a toda e qualquer luta corporal ou vestígios de barbárie absoluta.
- Eu vou destruir aquele verme desgraçado. Nem que seja a última coisa que eu faça na vida, nada vai me impelir a mudar de opinião. Nada... nem se a merda de um passarinho agora abrir o bico para encher a minha paciência – afirmou, tendo o sabor das palavras, com o significado amargo do que queria dizer.
Com os pensamentos acelerados e as conjecturações em fluxo constante, Severus entrou no imponente prédio de grossas paredes de pedra e mármore branco. A penumbra que o envolvia iluminava o local parecendo sussurrar segredos esquecidos por séculos. Talvez aquelas paredes rugosas fossem capazes de emanar uma sensação de antiguidade precoce, como se cada pedra guardasse memórias de um passado distante muito aquém dos quase 40 anos que aquele prédio fora erguido.
O som abafado de seus passos reverberava nos corredores vazios, criando uma sinfonia solene que contrastava com a imponência do lugar. Uma prisão, com bichos papões, fantasmas e animais noturnos, circundando Severus através de sua atmosfera gélida e sua constante aura de mistério.
Seus olhos atentos examinavam a mobília empoeirada e gasta. Móveis deteriorados, quadros desprovidos de habitantes, estátuas quebradas... cada detalhe retratava o cenário decadente, indicando que toda a vida se extinguira ao cruzar aquela porta. Quem sabe o seu único habitante estivesse morto? Quem sabe seu espírito, ou o que quer que houvesse se tornado, fosse a única resposta e o melhor amigo que pudesse encontrar naquele lugar tão sublime.
Segurando firmemente a varinha em sua mão direita, Severus foi subindo as escadas, observando os corredores e abrir cada porta que pudesse levá-lo a algum cômodo habitado. Ao longe, ouvia o farfalhar das folhas e os sussurros do vento que insistiam em acompanhá-lo. Foram longas as buscas até chegar à última torre e ter de usar todos os feitiços que conhecia para abri-la, controlando a respiração e a ansiedade em relação ao que poderia encontrar.
- Noite, meu jovem... vendo você de perto, fico abismado com o quanto é semelhante ao seu avô na fisionomia. Muito mais do que imagina, quero acrescentar agora que nos conhecemos – comentou Grindelwald, emergindo do breu, encarando-o seriamente, como se buscasse desbravar sua alma.
- É bom tê-lo encontrado, senhor. Cheguei a cogitar que estivesse morto...
- Muitos gostariam que esse boato fosse verdadeiro.
- Vamos sair dessa cela, meu jovem? Ou gostaria que conversássemos aqui?
- O que o senhor decidir.
- Me siga.
Ambos se avaliaram como se medissem forças silenciosamente, estabelecendo uma quietude mórbida e desconfortável. A firmeza do olhar que mantinham fixos um no outro trazia o peso de dois velhos desconhecidos que estavam prestes a seguir pelo mesmo caminho, com uma falsa mansidão.
- Preciso ressuscitar os mortos e trazer todo o passado à tona para que seja possível. Eu só posso ser leviano... – pensou Severus, conservando a indiferença no semblante e no olhar.
Ao encarar Grindelwald, refletindo sobre como poderia solucionar as suas questões e descrenças, Severus se empenharia em descobrir modos de questionar aquele homem, ao qual considerava infinitamente pior do que o Lorde das Trevas. Vivenciando uma confusa sensação de conforto, estava prestes a vender a alma ao diabo, mas não desistiria das suas pretensões. Pelo menos, aquele velho bruxo ainda era humano e, tal fato, lhe proporcionava um sentimento de otimismo.
Isolados no castelo, envolto por ruas sem nome e estradas tortuosas, não precisavam de máscaras sociais. O silêncio que pairava no entorno enquanto andavam calmamente pelo castelo era apenas quebrado pelo som abafado de seus passos. A cada janela, a paisagem se transformava, revelando um cenário que mesclava a beleza natural externa e a melancolia interior, contribuindo para a aura de mistério que permeava o ambiente.
Apenas controlavam os seus impulsos naturais, dois revoltos sem rumo, empenhados em caçar novas vítimas para saciar a infinita sede de sangue da humanidade. Assim, atravessariam os seus dias presos àquele acaso até a morte, estarrecendo o mundo com as suas ideias e projetos.
Os passos e as respirações eram os únicos sons que ecoavam, conferindo um tom de suspense à situação. Cada olhar trocado era uma faísca de desconfiança num intrincado jogo de xadrez. Cada palavra denunciava a astúcia e a intuição que Severus e Grindelwald compartilhavam, armas tão afiadas e mortais quanto os núcleos mágicos que possuíam. E, cada pausa, tornava-se um emaranhado denso que ousava revelar detalhes ainda obscuros sobre as possíveis ramificações daquela aliança inesperada.
Severus ponderou se não deveria se preocupar com o que lhe aconteceria ao adentrar a sala iluminada por toscas e velhas velas, acrescidas das chamas trepidantes da isolada lareira. Entretanto, livre de receios e ignorando as estátuas do cômodo que analisavam seus gestos e atitudes, julgou o espaço como parte da natureza mórbida e sufocante que o constituía e na qual se situava.
- Me conte a que devo a honra de sua silenciosa e surpreendente visita?
A voz grave de Grindelwald ecoou na sala, enquanto ele se acomodava no sofá verde musgo próximo à janela. A luz vespertina filtrava-se pelas cortinas puídas e corroídas por fadas mordentes, lançando sombras que dançavam preguiçosamente nas paredes empoeiradas.
- Estou aqui para lhe propor uma aliança. Quero convidá-lo a vencer uma guerra ao meu lado – Severus propôs cautelosamente.
Seu olhar perspicaz percorria cada detalhe, e sua intuição indicava a necessidade de mover-se com cuidado para se livrar da tensão que pairava no ar, refletida em seu tom vago e impreciso.
- O senhor concorda?
A tensão era palpável, pesando entre os dois, como a eletricidade que antecede uma tempestade. Grindelwald, estudando com calma, cruzou os braços junto ao peito, provocando um estremecimento mágico que fez uma corrente de ar frio serpentear pela sala, tremulando as chamas.
- Interessante... realmente, você é intrigante e proveitoso para um futuro promissor. Gostaria de ser informado sobre o que lhe faz supor meu aceite. Por que eu me envolveria nas suas batalhas e infortúnios, jovem Prince?
- Como sabe quem eu sou? Por que mencionou o sobrenome da minha família materna com tanta ênfase? – o questionamento veio acompanhado de uma expressão insípida, contrastando com o ambiente carregado de interesse.
Algo estava errado. A suavidade na postura de Grindelwald e sua disposição em ouvi-lo faziam com que Severus se cobrisse pelo manto da desconfiança e do ceticismo diante das atitudes suspeitas que ele apresentava.
- Longa história... me revele suas projeções primeiro, e eu irei contar tudo o que tanto anseia em aprender e dominar.
