Horas se passaram enquanto Severus expunha meticulosamente seus projetos e propostas mais sérias. Cada palavra carregava consigo a expectativa evidente do que estava em jogo, um jogo de estratégia onde cada movimento delineava o destino das sombras e da escuridão que poderia dominar o mundo que conheciam. Ao relatar os últimos eventos do mundo bruxo e os caminhos traçados até aquele momento para obter resultados positivos para o lado das trevas, Severus mostrava-se um pouco otimista. Enquanto isso, Grindelwald sorria, captando uma das questões mais relevantes de tudo o que observara e analisara até então.
Inicialmente, reconhecia o fato de que ninguém além dele mesmo prometera a vitória para Voldemort. Contudo, jamais assegurara ou oferecera garantias irrevogáveis de que não estivesse disposto a assassiná-lo quando a oportunidade surgisse. Isso era, definitivamente, um tema que interessava profundamente ao mais velho. Traição, orgulho, ambição, raiva, e todos os sentimentos que não se difundiam sem uma avaliação daqueles olhos sagazes que o examinavam imperturbáveis.
Uma série de particularidades, por mais irrelevantes que parecessem, possuía a propensão de se transformar em chaves essenciais para o delineamento de uma terceira via naquele jogo de xadrez. O vencedor não seria aquele que desse o squeeze, expondo lances arrojados e certeiros para impor uma má situação ao adversário. No entanto, quem providenciasse o mais elaborado zugzwang levaria vantagem, uma jogada que jamais tivesse sido vista, o modo mais correto de agir naquela batalha de egos e forças.
Ao posicionar todas as peças nas melhores posições, em uma terrível circunstância onde não existiriam alternativas além do erro, ao dominar as paixões e as dúvidas, alcançariam o êxito. Na perspectiva de Grindelwald, isso bastava. Severus necessitava de doutrina, de uma nova retidão, de ensinamentos sérios e solenes, para aprender a se conter e moderar sua cólera. Era um ponto indispensável para exibir um incontestável polimento e cortesia, um refinamento de sua astúcia que proporcionasse as habilidades necessárias para lidar com os dois maiores bruxos que o mundo já conhecera. E, por mais árdua que fosse a tarefa, era um desafio que valeria dedicar todo o tempo disponível. Seria primoroso conquistar esse triunfo.
- Então, meu jovem Prince, Tom ainda não percebeu qualquer indício das suas verdadeiras intenções? Não deixou transparecer qualquer desconfiança em relação às suas atitudes nas últimas semanas? – perguntou, ponderando as possibilidades para evitar qualquer deslize, com um olhar meditativo de quem contempla todas as trajetórias que poderiam se desenhar no horizonte.
Aproximando-se com um semblante amistoso, observava atentamente o brilho intenso dos olhos cor obsidiana que o desafiavam em silêncio. Com uma coloração ônix, desconfiada e insolente, eram de alguém um tanto impertinente e extremamente astucioso no comportamento. Uma verdadeira serpente, buscando ser reconhecida assim por seus oponentes. No entanto, se desejasse realmente virar o mundo do avesso, precisaria passar por uma transformação genuína. Teria de começar a ser a melhor versão de si mesmo, não apenas nas palavras, mas também nas atitudes e nos feitos.
Ainda o encarando, a visão de Grindelwald brilhou com um estranho e obscuro lampejo de ambição, iluminando todo o seu rosto. Ao examinar os detalhes no rosto de Severus, sentia-se mais do que convicto sobre sua vitória. Seu olho interior previa, naquele jovem de 19 anos, destinos promissores e um futuro assustadoramente próspero, caso este seguisse suas orientações nos próximos anos.
Mantendo a mesma força e dedicação que empregara para criar uma conversa envolvente, Grindelwald aplicaria todo o seu discernimento para o ler, que demonstrara uma coragem incomum ao procurá-lo e propor algo que muitos outros temeriam. Enquanto aguardava pela resposta, seu olho esquerdo cinzento e deformado permanecia imóvel, focado em alguma cena invisível que se desenrolava à sua frente.
Abrindo um pretensioso meio sorriso, vislumbrou que em breve desabilitaria o descrédito que ainda permeava o ambiente. Quem sabe essa estratégia surtisse efeito ao revelar sua verdadeira aparência? Ao derrubar a primeira barreira, quase intransponível e extraordinariamente transparente, as demais se romperiam em sequência diante da familiaridade e da convivência honesta.
Inflando um pouco o peito, orgulhou-se de sua condição militar, especialmente pelo fato de que sua conversa mansa havia feito com que aquele rapaz inicialmente emburrado se mostrasse mais acessível e predisposto do que inicialmente pretendia ser ao entrar na sala. Não o julgaria; afinal, a juventude proporcionava a ele a teimosia e a pertinácia características. Ao contrário de Voldemort, cuja obsessão o cegara para o que ocorria ao seu redor, Grindelwald era mais versado do que o outro desejava ser ou do que Severus aspirava naquele momento. Nem todos possuíam o dom de antever o futuro e calcular as variáveis em qualquer profecia, especialmente quando já conjurara uma delas em seu benefício no passado.
- "Morgana, novamente, foi feita pelo fogo sagrado. Mordred se enlaçará com Niniane e, juntos, terão Arthur e Lancelot. Depois, Viviane e Igraine. O filho será pai, e o amor proibido poderá se realizar. Avalon se reerguerá finalmente".
Seu olhar se nublou com pensamentos e visões distantes. Piscando o olhar antes estático, Grindelwald ponderou que Severus era extremamente profundo e sombrio, como as áreas mais remotas de um oceano. Paralelamente, se expunha límpido e vítreo no que se tratava das suas emoções mais intensas. Havia algo ali. Um fogo glacial que remetia à sua origem, ao seu sangue, a quem era por direito e ao que estava destinado.
Depois de séculos, sem perceber, ele retornara como sendo o único da sua espécie apto para governar, ao lado daquela que ainda descobriria como controlar os condões da própria alma. Somente alguém que dispusesse de uma magia elemental inabalável e um núcleo mágico tão forte mexeria com o tempo sem enlouquecer. Era um exímio Senhor do Tempo, como outrora fora, mesmo que desconhecesse a sua maestria sobre esse poder ancestral.
Grindelwald, com os olhos fixos em Severus, sentiu o frescor do ambiente gélido envolvendo a sala, enquanto mantinha-se pensativo. O calor da lareira dançava em contrastante harmonia com a frieza que emanava de sua jovem figura imponente. Internamente, julgava que um bruxo daquele nível lhe proporcionaria uma séria vantagem. O ciclo da Ilha do Dragão seria, enfim, iniciado, e os seus sonhos de ascensão se realizariam. Como negar o apoio que lhe pedia? Como fingir desinteresse quando o que lhe era ofertado era algo que sonhara por toda a vida?
- Senhor? – indagou, com uma expressão de dúvida, ao notar a distância que o mais velho exibia, buscando recuperar a sua atenção e prosseguir no seu relato.
- Eu estava apenas ponderando algumas questões antes de me concentrar no que tem a me expor – falou com um tom indecifrável, que se confundia com o crepitar da lenha na lareira, ecoando suavemente como murmúrios.
- Seguindo a explicação sobre o que o senhor me interrogou, estou em uma posição de comando, junto ao Lorde das Trevas. Sou o seu braço direito, o seu general, e ele incentiva as minhas ações, por piores que sejam – argumentou, especificamente, sem qualquer esboço de emoção ou inquietude nos gestos.
- Creio que ele considere minha fidelidade de maneira irrestrita e, acima de tudo, que seja a quem dedico total admiração. Desse modo, pressinto que o Lorde das Trevas esteja seguro de que eu não seja capaz de contradizê-lo ou de lhe fazer qualquer tipo de oposição. Igualmente, acredito que esteja mais preocupado em rastrear a recém-formada Ordem da Fênix e desmoralizar Dumbledore do que com a minha postura diante de seus comandos.
Internamente, Severus apreciava e pesava o que deveria evidenciar para aquela pessoa tão dúbia e indecifrável. Um verdadeiro enigma, altamente hostil e perigoso, estava à sua frente, curioso em relação a uma guerra que não o afetava em absolutamente nada. Como confiar em alguém que expressava tão pouco? Quais eram os seus reais interesses para auxiliá-lo? O que pressentira e escondia tão obstinadamente?
Grindelwald adotava uma postura de quem lhe ofereceria o que desejasse, mas nunca o que genuinamente quisesse. Teria de lutar para merecer a sua saída do túnel desesperador em que se colocara. Teria vencido a primeira batalha e não se dera conta?
Sentindo-se qual Ícaro, lançando-se com todos os seus sonhos e ilusões contra o sol, com suas frágeis asas feitas de cera, Severus atestava que não se daria por vencido. Não fora por pura sorte que sobrevivera tantos anos em meio a tantos que o odiavam. Contudo, pelo fato de jamais admitir qualquer derrota quando, no horizonte, sempre existiria um cais de porto o aguardando. Por que não tentar?
- Prince, elabore o que realmente deseja concretizar, e entenderá por que Dumbledore é visto como um grande líder. Na minha opinião sincera e nada humilde, vejo nele múltiplas qualidades inegáveis. No entanto, não sou cego às suas falhas. Digo isso para ressaltar que, há algum tempo, ele vem perdendo bastante o foco – sorriu diante do silêncio do mais jovem, continuando com suas argumentações.
- É uma pena, pois a profunda ambição dele o transformou no único responsável pelo que Tom Marvolo Riddle se tornou. Imagina tratar uma joia, como aquela com a qual se deparou, como algo de menor valor?
- O que quer dizer?
- Dumbledore é um homem que gosta de ter controle total e direcionar os acontecimentos em seu proveito. Ressalto que é inadmissível tratar jovens bruxos como inferiores, especialmente aqueles claramente cheios de talento e força também – seguiu mantendo um sorriso tranquilo no rosto.
- Ainda mais quando esses terão, futuramente, o domínio pleno da Arte das Trevas e podem subjugar quem os originou. E esse apontamento se aplica a você também.
Com um tom de divagação, expondo cada um dos pontos mais enfáticos sobre o próprio discurso, Grindelwald considerou o quanto seu antigo amigo e amante havia perdido a chance de aprimorar prodígios e fazer com que os caminhos da guerra fossem diferentes. No caso de Voldemort, mais do que a vida trágica de Merope Gaunt ou o fato de ele ter sido o resultado de uma poção entorpecente, a peça fundamental para o seu surgimento foi o abandono e o desprezo aos quais fora submetido.
Tom Riddle foi uma fera forjada e muito bem moldada, no mais extremo esquecimento e envolto ao indiscutível desamparo. Não tinha pais, não tinha família, não tinha amigos verdadeiros. Só a maldade era sua indiscutível e inseparável companheira. Fora ela, juntamente com a solidão, que o impulsionou e o fez enxergar-se como alguém destinado a caminhar pelos trilhos tortuosos da insana exploração dos recantos mais obscuros da magia.
Se não era amado, seria temido. Seria o único a obter toda a sabedoria capaz de proporcionar a opressão daqueles que o diminuíram, que o relegaram a um posto inferior e, principalmente, que o renegaram. De homem bonito e arrogante, transfigurou-se em uma espécie de anomalia desfigurada, renunciando à própria identidade para se estabelecer como Lord Voldemort.
Ao ouvir as palavras de Grindelwald, Severus considerava que ali se delineava uma conjuntura elucidativa. Isso evidenciava que a destruição pretendida pelo Lorde das Trevas não se limitava apenas ao mundo que o desprezava, mas também atingia a própria identidade. Quando decidiu o ato extremo de deformar o próprio rosto, expurgou a humanidade, realizando um extermínio do eu para o nascimento de um novo ser.
Um ser temível, uma sombra admirada secretamente, cujo número de seguidores crescia diariamente. Foi nesse momento que ele percebeu que o mesmo destino poderia tê-lo alcançado se não tivesse se apegado tão profundamente às suas esperanças e ao amor que nutria por Narcissa. Esse sentimento aquecia seu peito e o protegia do frio sombrio da malignidade.
- Por que o senhor me inclui ao lado do Lorde das Trevas, senhor? – semicerrou os olhos, desviando o olhar do rosto de Grindelwald para a lareira e retornando para a posição anterior.
- Porque o aperfeiçoamento da sua oclumência é invejável. Entretanto, creio que terá de aprimorar ainda mais os seus dons. Você está um pouco indisciplinado por não acreditar que nasceu para isso, Prince. Não renegue o que e quem é – advertiu, encarando de frente Severus, que parecia absorver cada palavra e análise que lhe era exposta.
A integralidade de tudo o que lhe fora dito fazia sentido. Ao fechar os olhos e revisitar as memórias na Penseira, a sensação amarga de injustiça e afronta intensificava-se, envolvendo-o em uma nuvem densa de amargura. Seus olhos chispavam com um ódio homicida, e a raiva pulsava em suas veias como um fogo incandescente e perverso. A recordação da forma como fora julgado e menosprezado ecoava como um grito de horror, causando uma dor emocional profunda. Estava extremamente claro. Tais constatações o levaram a enxergar de que forma Dumbledore fora um dos responsáveis pelo destino miserável que o seu "outro eu" tivera.
Mais terrível do que os espancamentos a que fora submetido por Tobias na infância, a perseguição do Marotos na adolescência e a falsa amizade oferecida por Lily, o que de fato destroçara Snape foi a contínua negativa de ser visto como digno de confiança. Um emaranhado de violências físicas, psicológicas e emocionais que se somaram quando sequer podia ou saberia como se proteger. Ele fora tratado como um prisioneiro, um peão, sujeitado a contínua dor de ser esmagado e conduzido para regiões muito próximas aos mais altos níveis de loucura. Severus agora via com clareza, uma que não possuía na infância quando o conheceu, que Snape nada mais era do que uma bomba de ressentimentos e raiva prestes a explodir.
Deixando escapar um suspiro pesado e permitindo que as mãos cerradas em punho denotassem a intensidade da agonia que o envolvia, Severus respirou fundo e encarou por alguns segundos as montanhas que formavam o horizonte visto através da janela.
- Pobre homem... – sussurrou para si mesmo, com a voz carregada de consternação e tristeza, antes de fixar os olhos em Grindelwald e expressar as suas reflexões sobre o que havia escutado.
- Eu agradeço, senhor. Todo o seu apoio e experiência militar contribuirão com os meus planos e me ajudarão a ter sucesso, como espero que ocorra em um futuro próximo. Principalmente ao explorar as falhas que existem nos dois lados desse campo de batalha, utilizando seus métodos de persuasão e julgamento do que está à frente.
Vários pensamentos se formavam em sua mente enquanto falava. Sua sede de inspiração e orientação, sua necessidade de ter êxito no que desejava, o guiavam a querer descobrir mais e aprimorar seus dons em um grau muito maior do que aquele já alcançado. Provar a si mesmo que era capaz de ser infinitamente melhor do que era naquele momento. Essa ambição operava como um fator para manter o foco.
- Aliás, eu tenho um questionamento para fazer ao senhor, Dumbledore alguma vez soube que o senhor era clarividente?
- Não em totalidade. Não era do meu interesse que ele obtivesse esse conhecimento, especialmente, quando eu já havia previsto que me trairia. Mas, antes que me pergunte sobre o meu próprio futuro, as visões nunca se mostraram claramente, a não ser que fosse algo incontestável. Elas sempre acabam se anunciando como flashes rápidos e imprecisos – disse com sinceridade.
- Interessante – Severus falou com um tom pensativo e surpreso.
- A propósito, Prince, não me seja grato. Eu pretendo o ensinar a agir de acordo com quem é. Você é o último da sua linhagem e, pelo visto, nunca lhe contaram sobre o seu real valor no mundo bruxo. Presumo, por conta disso, que deva se portar como um membro da realeza – alegou sem se importar com o peso de suas palavras, muito menos com a forma como era encarado.
Severus sentiu que um nó se formava em sua garganta, uma mistura tóxica de ressentimento e curiosidade diante das palavras do mais velho, que falava aquelas coisas com uma naturalidade cortante.
- Embora não tenhamos reis, você sabe que existem os que de fato comandam o nosso mundo e, eu sou só um velho general que quer lutar a sua derradeira guerra e assegurar que um menino-rei apague a figura de um mestiço cruel de suas memórias. A verdadeira elite deve nos governar novamente.
O peso das palavras de Grindelwald ecoavam pela sala, reverberando pelas paredes como sussurros nascidos para preencher o peito de Severus com um rancor até então esquecido, fazendo renascer a vergonha de carregar um status sanguíneo visto por muitos como inferior.
- O senhor deve estar ciente de que eu sou mestiço, não é mesmo? - questionou, buscando uma explicação diante da revelação perturbadora que tanto o desestabilizava.
Deixando o ar escapar novamente de seus pulmões, sem contar por quanto tempo o prendera, o bafo pesado de seu nervosismo se dissipou no vento. No entanto, Severus notava que era essencial fazer tal declaração dolorosa para evitar qualquer mal-entendido futuro ou erros de interpretação, especialmente quando aquilo o ligava à pessoa que mais odiava no mundo.
Se quisesse aquele bruxo como aliado, resolveria claramente todos os tópicos que parecessem mais problemáticos, para uma autêntica e incontestável aliança. Não permitiria qualquer sombra ou desacerto em sua proposta. Não admitiria erros.
- Claramente, você não entendeu o que eu quis dizer – Grindelwald revelou serenamente.
- Há uma enorme diferença entre vocês dois, e eu discordo do que está pensando. Definitivamente, você não é igual ao Tom. O que eu vejo são apenas uma série de escolhas erradas e controversas na sua vida. Agora, você se dispôs a buscar alternativas para consertá-las. Sabe qual é o seu maior problema?
- Não faço ideia, senhor.
- Você se julga muito mal o tempo inteiro e é sempre muito cruel nas autocríticas. Eu garanto que sempre aconselharei a se comportar de um modo adequado, pois deve assumir o seu posto de honra. Seu sangue, Prince, é mágico pelos dois lados.
Deixando claro que não o inferiorizava e que seu interesse se encontrava no fato de conhecer muitos aspectos ocultos sobre a ascendência de Severus, Grindelwald considerou que, mesmo que parecesse prematuro, percebia naquela oportunidade a chance ideal para expor o que sabia. Fundamentando cada detalhe do que teria de relatar, mostraria para ele que era alguém especial e merecia ser ouvido. O conquistaria e prepararia o terreno para que confiasse em suas críticas e opiniões.
Se desse um passo equivocado, tudo se perderia, afastando qualquer possibilidade de novas glórias. Era uma mera questão de tempo, disciplina e coragem. Preferencialmente, quando a verdade se situava em uma conjunção mais próxima do que qualquer um sonhara.
Com o refinamento das inclinações naturais e a elevação das proezas a que se destinava, as brigas internas se dissipariam, e ele pararia de sofrer tanto por antecipação. Sua insistência começaria a quebrar correntes, romper oceanos, conduzindo-o a ver com exatidão toda a realidade que sempre quis se descortinar. A angústia não o impediria mais de encarar o horizonte e observar as respostas que ali se encontravam.
- O que quer realmente dizer com isso, senhor? – Severus o interrogou, desconfiado, tentando ter a dimensão daquela frase enigmática.
Grindelwald, a cada segundo, mostrava o quanto sempre fora habilidoso com as palavras e que não perdera essa qualidade nos anos em que estivera solitário, mantendo em si a engenhosidade da arte do discurso. Sabia conduzir os diálogos, envolvendo o ouvinte para que fossem direcionados aos aspectos que mais lhe interessavam. Isso o colocava em posição de assumir e projetar quais seriam as táticas e os movimentos diplomáticos que necessitariam de uma atenciosa articulação se desejasse atingir o sucesso para os seus propósitos futuros.
- Abordaremos a sua importância no confronto e não a minha. Pretendo também falar sobre os motivos que me tornam tão interessado nas propostas que me apresentou – disse com um tom displicente, ajeitando-se no sofá, manifestando, naqueles gestos despretensiosos, que o diálogo seria ainda mais longo do que o que já desenvolviam.
- Eu não me vejo como uma peça essencial nesse conflito. Então, o senhor terá de me esclarecer de onde surgem essas ideias e por que está transitando as palavras, de um lado ao outro, para me contar – as palavras de Severus cortaram o ar, carregadas de objetividade, mas mal disfarçando a turbulência de pensamentos que fervilhava em sua mente.
A sala, antes imersa em um pesado clima, agora parecia vibrar com a intensidade das emoções ocultas. Especialmente considerando como ele seria novamente utilizado como uma peça para a vitória de outras pessoas que sequer o valorizavam.
- É muito simples. Você é neto do Credence Barebone, que, efetivamente, nasceu como Vespasian Prince.
A revelação feita por Grindelwald, com uma expressão vitoriosa, ecoou como uma bomba, provocando uma reação imediata em Severus. Seu levantar de sobrancelha incrédulo denunciava o choque diante do inesperado.
- A verdade é que, para que não descobrissem esse segredo, eu alterei os documentos no Ministério da Magia quando o encontrei. Isso só foi possível graças ao emprego de uma série de feitiços e com o auxílio da família Rosier.
- Isso não pode ser verdade...
O ambiente, até então estático, ganhou contornos de tensão palpável. O vento lá fora sussurrava como um eco das incertezas que predominavam no interior da sala.
A revelação sobre Eileen e suas origens pareciam desconcertá-lo, deixando evidente que as informações recebidas iam muito além do que imaginara. Grindelwald o analisava, permanecendo imperturbável, revelando apenas o suficiente para manter a sua atenção. Por mais que Severus buscasse se esconder por trás de uma expressão livre de sentimentos, ter o conhecimento de algo daquela importância o deixava perplexo. Internamente, se achava um pouco atordoado com tal declaração, que não lhe fazia sentido.
- Eles se propuseram a esconder, por debaixo de todos aqueles papéis, toda a verdade dos olhos desatentos dos burocratas.
- Vespasian foi morto... Eileen me garantiu que éramos de um ramo distante da família. É difícil acreditar que ela tenha concordado com isso sem hesitação – questionava, tentando compreender o papel que lhe fora destinado nessa intricada trama, enquanto suas mãos buscavam conforto uma na outra.
Andando de um lado ao outro, perplexo e enfrentando uma verdadeira tempestade emocional, Severus começou a passar as mãos nos cabelos. Aquilo serviria novamente para acalmá-lo e para recolocar as suas ideias no lugar. Não poderia se deixar abater por aquele sentimento de indignação e de desamparo, muito menos se entregar a qualquer tipo de vulnerabilidade naquele instante.
- Por que ela nunca me contou nada? Qual a razão para nunca ter se dignado a me revelar isso, se ele era o meu avô? O que ganharia mantendo-me na ignorância, permitindo que eu fosse tratado como um animal por todos esses anos?
- Eileen sabia muito bem qual era a importância de manter esse segredo. Era mais do que uma ordem direta do Tom. Ela queria protegê-lo do mal que poderia o atingir quando menos esperasse - explicou Grindelwald, analisando a expressão de Severus, apontando para ele as questões mais obscuras que estavam por trás daqueles fatos.
- Seu avô foi sequestrado quando bebê por ser um dos sangues mais puros do mundo bruxo. Você sabe que foram os Prince os responsáveis diretos pela fundação dos Sagrados Vinte e Oito. Logo, ter este sobrenome significava simbolizar a realeza e tudo mais o que deveria, um dia, se tornar a elite que comandaria todo o sistema de governo. Se você soubesse na infância ou na adolescência de algo que o ligasse ao Vespasian, alguém aproveitaria de qualquer ocasião oportuna para assassiná-lo. Desse modo, a escolha que Eileen fez foi a de mantê-lo seguro, mesmo que isso significasse ocultar a verdade de você.
- Isso é verdadeiramente uma completa loucura! – expôs com a voz um pouco alterada dando um soco na mesa.
- A propósito, caso o senhor queira ter noção de como as coisas funcionam, eu quase fui morto pelo Sirius Black sem ter a menor consciência de toda essa situação. Aliás, do que o senhor alega ser verídico e inquestionável.
- Não, não é uma loucura em absoluto. Você acha que o primogênito dos Black arquitetaria um plano tão perfeito em uma escola onde até as paredes têm ouvidos se não tivesse obtido qualquer tipo de ajuda? Ele pode ser um rapaz bastante inteligente e ardiloso, até mesmo apresentar alguns traços de psicopatia notórios em outros membros da família, mas a pessoa que aprovou a sua quase execução, como um animal peçonhento, sempre teve interesses pessoais no extermínio dos Prince. E, creio eu, que ele usará o próprio Sirius para dar fim à linhagem masculina da família – Grindelwald ponderou, pensativo e com um olhar distante.
- Pode ser que até já esteja em seus planos essa questão, mas não posso afirmar com exatidão esse ponto em específico. Um fato que me leva a trabalhar apenas no campo das hipóteses sobre o assunto com relação aos Black.
- Isso faria alguma diferença?
- Você pergunta se fará diferença para mim ou para a minha existência? Se for isso, a resposta é não. No entanto, se pensar que o fim dos Black pode significar que você nunca mais verá a sua adorada Narcissa, com certeza, a resposta é sim.
- O senhor tem um ponto.
- Ótimo, Prince. Agora, retomando o assunto, quando seu avô foi levado aos Estados Unidos, devido a um dos sequestradores não ter coragem de assassinar um bebê indefeso, confesso que se tornou extremamente difícil encontrá-lo. Havia rumores de que aquele bebê poderia ser o Corvus Lestrange ou o Aurelius Dumbledore, era difícil de dizer. Eu fiz buscas contínuas até que um belo dia eu o conheci – ponderou.
- Era um rapaz como você. Cabelos negros, nariz grande, muito recluso e tímido. Demorei para perceber que ele se tratava de um Obscurial. Um erro terrível que eu deveria ter previsto e notado como uma consequência de anos sendo maltratado pela mãe adotiva. Uma mulher repugnante, uma trouxa desgraçada, que o fez drenar a própria magia e que sofreu as merecidas consequências. Quanto a sua avó, por outro lado, era uma mulher fascinante. Caso a Eileen nunca lhe tenha dito, ela se chamava Queenie Goldstein e era mestiça, por ser filha de uma bruxa com um judeu...
Antes que Grindelwald pudesse dar continuidade ao seu relato, examinando e descrevendo os pontos que considerava mais importantes para desenrolar as teias do passado, foi interrompido por Severus, que rompeu o próprio silêncio.
- O senhor quer que eu acredite ser sobrinho-neto do Newton Scamander? Sinceramente, isso só pode significar que está disposto a fazer uma brincadeira de muito mau gosto comigo e a desperdiçar o meu tempo. Não vejo mais razão para permanecer aqui, muito menos para perder horas preciosas que poderiam ser dedicadas aos meus planos. Foi um erro eu ter vindo até aqui e perdido tempo – anunciou com um tom de voz enfático e furioso, dirigindo-se à porta, mas foi imediatamente impedido de sair.
- Eu não tenho mais tempo nem idade para elaborar piadas sobre questões tão sérias, e os tempos eram outros. Quando eles chegaram à Europa, casos como os dos Goldstein eram vistos como sangues puros de segunda linha. Mestiços eram apenas os filhos de pais bruxos com mães sem magia, ou os híbridos. As coisas só foram alteradas após aquele duelo em 1945, quando muitos bruxos foram relegados a postos indignos de sua condição de nascimento – soltou as palavras, percebendo o silêncio aterrador que pesava no ar e tomava conta do ambiente.
Mantendo o comportamento altivo que expunha desde o início, Grindelwald se levantou, buscando enfatizar sua exposição da maneira mais clara possível. A cada segundo passado, confiava que, após concluir o que tinha a expor, seria acreditado e que muitos fatos começariam a se desenhar de outros modos.
- Perceba o óbvio, meu mais novo e teimoso amigo. Se as leis tivessem sido preservadas, você seria classificado como um sangue puro. Ninguém contestaria isso, e eu não tenho razões para mentir sobre um tema tão delicado. É por esse motivo que o Tom se destaca e ainda é visto como tal. Ele se graduou em Hogwarts nessa mesma época e empreendeu o seu projeto de poder sob tal bandeira - declarou, respirando fundo, esticando o braço para pegar o copo de água que se localizava sobre a mesa.
- Olhe para aqueles que o cercam. Pense bem, pois você os conhece. Sabe muito bem que se o tivessem como inferior, por mais persuasivo e cruel que o Tom fosse, eles teriam se unido e o matariam. Não se entregariam aos seus desígnios sem uma justificação efetiva.
- O senhor se refere aos Cavaleiros de Walpurgis?
- Então foi assim que se intitularam? A modéstia não foi amiga desses homens, com toda a certeza, mas é deles a quem eu me refiro.
- E o que o senhor espera conseguir me contando tudo isso?
- Como você deve conhecer a minha história, sabe muito bem que não sou um homem que pode ser descrito como bondoso ou gentil, tampouco, posso ser visto como alguém abnegado por estar lhe contando tudo isso. Eu tenho ambições, muitas, diga-se de passagem, e eu quero sair vitorioso nessa guerra. Farei com que possua voz e poder de decisão no Ministério da Magia do Reino Unido. Claro que, em troca, quero usufruir dos benefícios ofertados pela condição de seu conselheiro. É isso que eu quero angariar - finalizou, antes de dar espaço para que Severus revelasse o que tanto lhe afligia naquele discurso, pegando novamente o copo para tomar um novo gole de água.
- Se o que me assegura for verdade, quero que me esclareça um tópico que, a meu ver, não faz qualquer sentido. Como uma bruxa de sangue puro, filha de uma exímia legilimente e um Obscurial, se casou com o pior tipo de trouxa que já existiu? Por que ela aceitou se rebaixar e se sujar com a escória?
- Eis aí um aspecto extremamente enganoso de toda essa trama! Não lhe ocorreu em nenhum momento os motivos que moveram o Tom a ter ordenado que a sua mãe se casasse com o Tobias Snape? Ou quando amaldiçoou a Andromeda Black tivesse a enviado, justamente, para ele? Apesar de que, no caso da segunda eu tenha muitas dúvidas e restrições sobre quais seriam os verdadeiros planos dele – respondeu pensativo ampliando a gama de incertezas que atingiam Severus sobre aquele assunto.
- Para Eileen, o que eu sempre soube foi que o casamento com o Tobias e o meu nascimento foram uma ordem para que fosse entregue ao Lorde das Trevas um general mestiço que o apoiasse na guerra. Ecce homo, como a prova da sua tarefa realizada com triunfo! Quanto a Andie, aquilo foi uma punição hedionda e que a faz sofrer até hoje. Tudo porque ela é orgulhosa de suas convicções e jamais aceitaria se submeter aos desmandos daquele sórdido – a declaração veio envolta ao tom aborrecido.
Olhando para os próprios pés, sentindo o ódio crescente vibrando por todos os seus poros, sua vontade era esganar Grindelwald e sair de lá o mais rápido possível. A raiva já estava latente, pulsando em cada gota de seu sangue, o obrigando a chegar aos seus limites de autocontrole. Não poderia e nem deveria fazer nada que pudesse se arrepender depois.
- É um belo ponto de vista, porém, raciocinando as informações me dou ao direito de levantar um pressuposto intrigante. Sua irmãzinha, talvez, possa ser notada como um auxílio em potencial – Grindelwald sorriu triunfante, com o novo abalo que causara em consequência daquele reconhecimento.
- Aponto isso porque eu lhe asseguro que, se não existisse qualquer tipo de sangue mágico em Tobias, você ou ela não seriam bruxos tão poderosos.
Sem esboçar qualquer reação ou dizer qualquer palavra, Severus se manteve firme na sua postura rígida e indiferente, com os braços cruzados junto ao peito. Encostando as costas na parede próxima à entrada da sala, o seu olhar era taciturno e questionador, verificando todos os detalhes do que lhe fora dito. Analisando o seu comportamento, Grindelwald decidiu responder ao que não estava sendo claramente questionado.
- O seu pai não era um sem magia qualquer, meu caro. Ele era filho de uma romani com um bruxo abortado. Certamente você conheceu a sua avó paterna, a Ada Laine, e sabe que ela era uma rainha entre o seu povo. Uma mulher exemplar, muito forte em suas convicções e posturas, que se reaproximou do mistério para falar com os mortos e prever o futuro. Já o seu avô paterno se chamava Arthur Shackleford e foi renegado pela família, desde o nascimento, devido à sua condição. Por consequência desse abandono, e porque não dizer desprezo, ele adotou o sobrenome Snape para se distanciar de tudo aquilo que o feria e homenagear a região que o acolheu – ponderou, refletindo quanto essas palavras poderiam ter força, como se estivesse se recordando de muitas coisas que vivenciara no passado.
- Essa união fez com que o seu pai indicasse sangue mágico em suas veias desde muito cedo. Mesmo que não tenha desenvolvido qualquer talento, além do voltado à violência física, ele carregava essa aptidão.
- Eu discordo da sua visão confiante e bucólica quanto aos eventos. Apesar de soar bastante impertinente, os romani não passam de trouxas e eles nunca serão bruxos como nós – Severus expressou sua opinião ácida, diante de tantas explicações fortes que lhe eram expostas em tão pouco tempo, demonstrando a sua aversão àqueles que não possuíam qualquer traço de sangue mágico.
Não era uma tarefa fácil escutar a história de sua família sendo revelada por outra pessoa que não fosse a sua mãe. Mais uma vez, Eileen lhe negara algo relevante. Isso o deixava mais cismado e ressentido quanto às reais intenções que ela possuía. De tudo o que ouvira, a única conclusão a que chegara era a de que a relação frágil entre os dois se romperia irrevogavelmente. Não tinha como voltar atrás ou tentar refazer laços que notoriamente nunca existiram.
- Bobagem, rapaz! Eles são um dos mais raros povos que fazem a ponte entre os dois mundos com maestria. Muitos carregam dentro de si a sabedoria e os conhecimentos do ocultismo. É por essa razão que são um povo tão perseguido pelos trouxas – Grindelwald afirmou mantendo a tranquilidade inabalável, com os olhos fixos no rosto hesitante de Severus, o segurando pelo queixo para que o encarasse.
- Então, meu estimado e jovem Prince, se orgulhe! Comece a usar ternos, corte um pouco esse cabelo e pare de agir como um eterno injustiçado. Você é um Prince e pretende se casar com uma Black. Se inspire no seu avô, pois ele sabia se vestir muito bem, depois que se tornou meu amigo. Além disso, deixe claro que não permitirá que a sua linhagem seja esquecida ou apagada. Não deixe que a história se repita e os Príncipes Negros sejam impedidos de existir. Lute por isso, Severus, porque este é o seu direito e, se quiser, será o seu destino!
Enquanto Grindelwald o soltava e desviava o olhar para outro ponto da sala, Severus percebia que, finalmente, encontrara a resposta que buscava há anos sobre os verdadeiros motivos pelos quais Dumbledore desejava sua morte. Nesse momento, um calafrio lhe percorreu a espinha, como se um novo tipo de revelação sombria se desenrolasse diante de seus olhos.
Aquele homem, assustadoramente erudito na História da Magia, ansiava destruir tudo o que pudesse impedir o renascimento das suas ideias de formação de um antigo império. A perspectiva não revelada da união entre os Prince e os Black, descendentes dos Pendragon e dos Le Fay, estava na mira de Dumbledore para ser aniquilada.
Voldemort, por sua vez, preferia permanecer alheio à verdadeira dimensão de toda a intriga que envolvia os Príncipes Negros, limitando-se a enxergar o que lhe era conveniente. De observar apenas a possibilidade de ter um aliado poderoso para se unir ao seu Agoureiro. A complexidade dessa situação, que sempre ultrapassara o seu entendimento e vontade, levava Severus a ponderar sobre as mensagens subliminares contidas nos conselhos recebidos. Não apenas de Grindelwald, como também de Flamel.
Antes que pudesse formular novas perguntas, uma dor aguda trespassou seu antebraço esquerdo, forçando-o a fechar os olhos para conter o sofrimento. O grito sufocado em sua garganta, fazia com que seu coração palpitasse freneticamente, ecoando em seus pensamentos uma sinfonia de tormentos.
A Marca Sombria latejava, pulsando em suas veias e rasgando a pele. Era a confirmação do que temia. O pior havia acontecido. O Lorde das Trevas descobrira o descumprimento da ordem e a certeza da punição pairava à sua volta como uma sombra feroz.
- Não esqueça de um detalhe, Prince. Delphini ainda é uma criança e, se for criada com amor, jamais se transformará no monstro que o Tom tanto aguarda – Grindelwald afirmou, olhando para a tatuagem escurecida no antebraço de Severus que parecia queimar, fazendo um gesto para que partisse antes que a tortura o incapacitasse.
- Seja um dos primeiros a defender que ela é filha legítima do Sirius Black e verá como a guerra ganhará contorno inimagináveis.
O silêncio da despedida, atormentado pelo sofrimento e a sensação de ter os músculos abertos, foi a promessa não anunciada de que se encontrariam outras vezes. O assunto não se encerraria ali. Ele dava os seus primeiros passos, deixando pairar entre os dois uma aura de suspense e inevitabilidade.
