Caminhando apressadamente pelos corredores, Severus tentava ignorar os sussurros dos quadros que comentavam sobre a sua inaptidão para executar uma tarefa tão simples. No entanto, era difícil. A expectativa em relação ao que aconteceria ao atravessar a porta e entrar na sala de reuniões o deixava ansioso e em dúvida sobre as decisões que tomara. Fazia sentido abandonar o que conquistara, reiniciando sua vida praticamente do zero, para obter algo mais? Era complicado assimilar que todo o seu conhecimento, à medida que crescia, o tornava mais ignorante em tantos pontos. Teria de reaprender e ordenar os pensamentos para alcançar o cerne da questão, o detalhe que o salvaria do provável perigo que o aguardava.
Endurecendo os passos, ergueu a cabeça decidido, esqueceria as próprias indecisões antes que suas vontades enfraquecessem suas barreiras mentais. Sem se importar com o enorme grupo que se aglomerava na entrada da porta, empurrou alguns jovens Comensais da Morte para que lhe dessem passagem. Via naqueles novatos uma série de vermes de todos os gêneros. Jamais deixariam de ser soldados ordinários, sujando-se de lama e excremento para proteger aqueles que possuíam os melhores postos. E tal insignificância era notada pelas barreiras invisíveis que os impediam de ingressar no cômodo. Não era qualquer um que seria bem-vindo no espaço destinado ao ciclo mais íntimo, àqueles que realmente comandavam e sustentavam as decisões tomadas pelo Lorde das Trevas.
Jogando a inquietação para recantos escuros de sua mente, com o olhar desfocado e sem brilho, Severus aliviou a tensão esfregando as mãos dentro dos bolsos. Era uma questão de segundos para entrar na sala e ter ciência de quem eram as vozes diversas e desconexas, que tratavam de múltiplos assuntos ao mesmo tempo.
Ao sair de seus próprios pensamentos e começando a prestar atenção no que diziam, observou que os temas convergiam em um ponto comum: várias vítimas escaparam com ferimentos leves e denunciaram a invasão para o Ministério da Magia. Aurores se encontravam em todos os cantos caçando os responsáveis por aquele ataque, e as casas de várias famílias de sangue puro foram invadidas nas buscas.
Os Cavaleiros de Walpurgis se mostravam revoltados com a audácia, contra os Sagrados Vinte e Oito, fazendo pesadas acusações uns contra os outros. Realmente, aqueles tempos incertos formavam um cenário caótico que possibilitava a propagação de desejos indefinidos misturados à raiva ante o inevitável. De qualquer modo, Severus estava convicto de que era o seu fim, quando nem ao menos tinha iniciado as práticas que imaginava executar. Tudo dependia de Lucius ter ou não delatado a sua ausência. Tudo dependia do quanto Voldemort seria capaz de desculpá-lo ou não.
Com o coração pulsando como se estivesse próximo aos tímpanos, encarou a todos com um semblante vazio e indiferente, como se fosse inocente de todas as acusações que poderiam recair sobre seus ombros. Cada vez mais, estava certo de que, toda a sua arrogância e a sua eterna procura por adversários para competir, o levaram a matar o que verdadeiramente importava. Contudo, como a sua antiga confiança e a sua ânsia de autoafirmação o auxiliariam a se libertar dos horrores que impôs a si mesmo? Qual o caminho guiava à felicidade? Especialmente, naquele instante em que se enxergava sempre vagando com os braços vazios?
Sendo imediatamente avistado por Voldemort, Severus foi convocado a se aproximar e relatar o que acontecera. O Lorde das Trevas desejava ouvir suas justificativas para a vergonha ocorrida em sua primeira grande missão como general de uma pequena tropa de Comensais da Morte. Tinha conhecimento de que Rodolphus, como representante dos sangues puros, havia se saído bem. Assim, respirando fundo e avaliando rapidamente a situação ao seu redor, percebeu que a melhor abordagem seria refletir, especialmente ao notar Lucius caído em um dos cantos, ensanguentado e inconsciente.
Esse detalhe complexo e intimidante levou-o a ponderar a possibilidade de se eximir de culpa, ao incriminá-lo ainda mais e possivelmente selar seu destino. Entretanto, escolher esse caminho o transformaria em um covarde, e muitos ali argumentariam que agira por despeito, uma ideia que o enojava profundamente. Não era necessário recorrer a tais subterfúgios para alcançar seus desejos. Não precisava eliminar Lucius para um dia reconquistar o coração de Narcissa. Tal pensamento o fez fechar os olhos e reunir coragem, convencendo-se de que o melhor seria não fugir e enfrentar as consequências. Assumiria suas responsabilidades, enganaria Voldemort por meio de sua verdade, demonstrando arrependimento ao assumir os próprios erros.
Baixando os olhos, encarando o chão fixamente, Severus reverenciou o Lorde das Trevas demoradamente. Necessitava de um recurso que lhe desse alguns segundos para conjecturar todos os cenários prováveis e decidir qual se expunha como o menos sombrio. Mas, era complicado. Isso o obrigou a se esforçar ainda mais para demonstrar o mais profundo comprometimento com a causa e ostentar o arrependimento por aquela imensa derrota.
Aparentando desconforto e pesar em sua postura, permaneceu ajoelhado e imóvel antes de formular qualquer argumento em sua defesa. Consciente de que não obteria compaixão ou reconhecimento por parte dos presentes, especialmente quando Abraxas o acusava com veemência assustadora e Eileen permanecia em silêncio. O pior era notar a ausência de seus amigos, incapazes de oferecer auxílio ou apoio, naquele momento. Certamente, haviam sido dispensados antes de sua convocação para que não se sentissem compelidos a defendê-lo caso precisasse de ajuda.
- Severus, achei que tivesse se perdido no caminho. O que me satisfaz é que Lucius cordialmente me informou das novidades associadas ao seu descuido. Como pôde me desobedecer? Por que considerou capaz de ignorar as minhas ordens e passar o comando para ele? – Voldemort o indagou, analisando calmamente com um sorriso diabólico emoldurando os lábios sádicos.
- Eu pressenti que havia outro grupo de aurores se aproximando, milorde, e fui confrontá-los em outro ponto.
- Pressentiu, foi? Interessante... crê, então, que tenha mais conhecimentos do que eu nas estratégias para esta guerra, Severus?
- Jamais, senhor.
- Por que passou o comando para o Lucius, quando poderia ter feito as duas coisas ao mesmo tempo?
Tentava encontrar qualquer esforço de fuga, disfarçando assim as suas reais intenções, justificando a tortura à qual o submeteria e prendendo-o na condição de exemplo para os demais. Se com Bellatrix atingiu os mais altos níveis de selvageria e loucura para puni-la por sua rebeldia, qual razão o impediria de quebrar todos os ossos daquele que o desafiava na frente dos demais?
Mesmo que tivesse prometido a ele o triunfo na guerra, não admitiria falhas que impedissem seu futuro reinado. Se Severus estava se mostrando um completo inapto e fraco, que pagasse por toda a sua incompetência, especialmente quando insistia em exibir a sua insubordinação e recusava-se a implorar por perdão. Essa postura alimentava sua fúria e fundamentava sua decisão de intensificar os graus de tormento aos quais o submeteria. Teria de se dobrar diante do sofrimento e teria de gritar por misericórdia, caso prezasse minimamente por sua própria vida. Entretanto, o que o Lorde das Trevas enxergava diante de seus olhos era um comportamento firme, por pior que fosse a dor infligida.
- Milorde... Por favor, eu o fiz apenas porque Lucius cobiçava liderar uma missão como esta. Ele não suportava a ideia de que, como sangue puro, não fosse designado como general mais próximo ao senhor. Eu supus que ele fosse capaz de comandar uma tarefa tão simples, dado que sempre foi acostumado a agredir mulheres e crianças. Contudo, compreendo que foi uma insanidade confiar isso a um desqualificado e...
Sem conseguir concluir suas explicações sobre o que acontecera, a agonia percorreu por todo o corpo como se um raio o atravessasse. Se debatendo compulsivamente, pelos espasmos musculares e o mal que quase lhe arrancava a alma, Severus bloqueou os gritos que insistiam em explodir na sua garganta.
Mordendo a boca para suportar a tortura, em segundos, experimentou o gosto ferroso e quente do sangue se espalhar. Foram ininterruptas sessões de Cruciatus, com os pensamentos obstruídos e relegados ao esquecimento passageiro, o fazendo ouvir o som de seus ossos quebrando um a um. Tudo ficou mais fácil quando a sua consciência se esvaiu e se distinguiu atirado na mais intensa escuridão.
Longos minutos passaram até a retomada da lucidez. Com a claridade machucando a sua visão e o seu corpo destroçado, Severus se ergueu desestabilizado e cambaleante para se unir aos demais. Não se deixaria abater. Não fora destinado a ser um general por acaso e agiria de acordo com o posto respeitável que ocupava. Fingindo manter o olhar atento, escutava como um sussurro distante, as novas instruções que eram dadas e as renovações em alguns postos de comando. Tudo pareceria perfeito se não tivesse de se manter de pé, como se nada tivesse ocorrido, ou tivesse de agir como se não sentisse qualquer dor em cada milímetro do seu corpo.
Sabia que o Lorde das Trevas ainda o analisava e buscava algum ponto de vulnerabilidade em seus olhos negros, frios e desfocados, mas não encontraria nada que não soubesse ou que soasse como uma espécie de denúncia de suas fraquezas. A verdade era que precisava, muito mais do que em qualquer outro momento, se mostrar imune e alheio a tudo aquilo. Precisava se manter naquele posto de comando e ser ainda mais temido pelos demais.
Por horas extensas e cansativas, a madrugada foi sendo arrastada e preenchida por planos, táticas intermináveis para as próximas invasões aos vilarejos bruxos. Em algum momento, foi sugerido que houvesse um atentado no amistoso entre Croácia e Inglaterra, no Quadribol, gerando uma discussão violenta. E, como era esperado, o fato de que tal proposta não fora aceita como primeira opção, outros projetos começaram a ser traçados e, em algumas oportunidades, Voldemort solicitava a sua opinião quanto às propostas que eram apresentadas.
Com as decisões tomadas, os Comensais da Morte já se dividiam em grupos para as próximas operações, indo dos mais graduados aos iniciantes afoitos por uma chance de mostrar suas habilidades e obter reconhecimento, como forma de facilitar o alcance dos objetivos pretendidos. Evan, Regulus e Rodolphus seriam avisados das decisões que foram tomadas naquela madrugada e se preparariam para os combates que viriam.
Um novo capítulo à tragédia que idealizara para aqueles que detestava começava a ser escrito. O problema é que feria, igualmente, os que lhe eram próximos. E, não demoraria muito, para levar alguém que amava.
Desanimado e sem esperar por novas sugestões, Severus saiu da residência após conhecer suas atribuições e a quem lideraria na próxima missão. Com uma expressão apática, ele permaneceu alheio às redondezas e a quem o observava. O peso das ações de Voldemort parecia ecoar em sua mente, criando um desagradável eco que reverberava um amontoado de dúvidas e receios. Sua mente pulsava freneticamente, com pensamentos colidindo como ondas tumultuadas em um mar revolto.
A alvorada, antes silenciosa e calma, transformou-se em testemunha silenciosa de sua crescente e torturante angústia. Cada passo que dava era marcado não apenas pelo desconforto físico dos ferimentos, mas também pela tempestade de sentimentos e segredos que o consumiam. A sensação de atordoamento e impotência perante o inevitável era como um nevoeiro denso que obscurecia seus pensamentos. Enquanto isso, o sabor ferroso e forte do próprio sangue escorrendo pela garganta misturava-se com a dor profunda de suas reflexões.
Seus ferimentos transcendiam as meras marcas físicas, eram metáforas vívidas e muito visíveis das escolhas feitas ao longo dos anos. Eram numerosos e tingiam sua roupa esfarrapada em tons vermelhos vibrantes, que lançavam brilho às sombras da noite, lutando para resistir ao inevitável amanhecer que as desafiava.
Severus, imerso e se afogando em sua própria ruína emocional e física, caminhava sem rumo. Uma figura solitária envolta pela escuridão, fechando-se em suas próprias conjecturas e pressupostos. Apenas alguém experimentando a crescente agonia, que começava a sufocá-lo. Não havia dúvidas de que muitos de seus ossos estavam partidos ou triturados. A dor dos espasmos musculares era aterrorizante, um martírio além do que ele conseguia acreditar ou admitir possível, pelo menos não para ele. A verdade era que Severus não conseguia compreender como ainda conseguia andar, mesmo com seu corpo tremendo violentamente e seus passos tornando-se a cada segundo mais arrastados e penosos.
Com a noção de tempo completamente perdida e o corpo falhando após tanto sofrimento e esforço, Severus permitiu-se cair junto a uma árvore frondosa e frutífera. Tremendo violentamente pela exaustão física e emocional, agarrou-se às raízes, tentando manter viva a última reserva de forças. Foi nesse momento que a personificação de seu desespero se fez presente.
Um gosto amargo invadiu sua boca, e todo o conteúdo que restava em seu estômago foi expulso. Ao cair sobre a mistura de vômito e sangue, o ar tornava-se rarefeito, e seu coração martelava como se estivesse à beira da explosão. Um novo ataque de pânico era o último acontecimento desejado, mas parecia inevitável ao perceber que era incapaz de vislumbrar perspectivas de como desaparecer completamente daquele mundo de horror que ajudara a criar. Chorando, ao testemunhar ao longe crianças brincando nos balanços, Severus viu suas forças o abandonarem, e sua visão turvar completamente.
Deitado na grama, experimentando a sensação da consciência indo e vindo, suas esperanças escorriam e se dissipavam na ausência de cuidados. O sofrimento parecia interminável, uma prisão dos monstros que o devoravam por dentro. Delirando pela febre, Severus se perguntava por que não reunira toda a coragem necessária para enfrentar o que o desestabilizava, abandonando toda a raiva e o ressentimento que o corroíam.
- Eu... eu não quero morrer...
Enquanto secava as lágrimas, a descrença crescia como uma sombra implacável, abraçando-o com força. Não era a rocha inabalável, nem o aço resistente a tormentas que sempre desejara ser. Era humano. Cheio de sentimentos, dúvidas, medos e incertezas. Era um homem desmoronando aos poucos. O peso da saudade apertava seu peito, convencendo-o de que perdera Narcissa para sempre e se tornara o ser mais miserável que já vagou pela Terra.
Lutara por anos a fio para se distanciar de fragilidades e preocupações, mas o cheiro de jasmim com rosas sempre o arrebatava, fazendo seu coração bater mais forte. Um amor mal resolvido, um sonho distante e puro, conferia uma sensualidade doce aos dias mais sombrios. O amor por Narcissa teria que se transformar em um sentimento do qual teria que aprender a sobreviver sem desfrutar. Contudo, como seguir longe da única criatura que, com seu jeito frio e postura arrogante, se apoderava de todos os seus sentidos ao sorrir? Será que os diabretes estavam certos, e ainda existia alguma chance, mesmo que extremamente remota, de recuperar o tempo perdido?
Se ela desejasse, poderia manipulá-lo como um mero fantoche, mas Narcissa era distinta, magnífica, uma nobre rainha além das múltiplas falhas humanas. O modo como se afastaram e as pequenas decepções que vieram depois o mortificavam. No entanto, nada poderia ser pior do que lembrar que ela estava próxima de se casar com Lucius. Uma verdadeira catástrofe iminente que o corroía e o aniquilava mais do que qualquer maldição existente.
- Narcissa... Cissy... onde você está? - sussurrou desgraçadamente perdido.
Fechando os olhos mais uma vez, entregou-se à escuridão. Não queria mais ver qualquer coisa, nem continuar tendo consciência do próprio pesar. O melhor era negar a si mesmo o direito de ver quem se apressava para ajudá-lo. Talvez fosse algum trouxa compadecido de seu estado. Talvez fosse algum Auror ou Comensal da Morte disposto a aproveitar a oportunidade de assassiná-lo.
Estava enganado. Correndo, com o semblante atormentado e os olhos fixos pelo choque de ver o estado em que se encontrava, ela faria tudo para socorrê-lo. Não aceitaria que morresse. Não ali e nem daquela forma.
O resto era silêncio. As árvores, chicoteadas pelo vento oeste, sentiam as dores de ter seus galhos encurvados pela intensidade da forte brisa e suas folhas arrancadas. Flutuando pelo espaço nebuloso como plumas desorientadas em um dia nascente e peculiar. Era um prenúncio de que tempos árduos estavam se aproximando e que, assim como os segundos se transformavam em horas, o ato de sobreviver tornava-se um gesto insurgente e infeliz.
A sensação constante de confusão, perplexidade e a contundência dos dias demonstravam que mais um ciclo se fechava, enquanto o perigo rondava as esquinas sem qualquer preocupação. As mortes e as notícias sobre perdas constantes se esgueiravam impiedosamente pelos cantos escuros, como feras sedentas por sangue e almas inocentes.
Os horrores agora não corriam mais em segredo. Estavam sendo exaustivamente transcritos nas páginas cinzentas do Profeta Diário, onde se expunham mortes e desaparecimentos misteriosos, quedas de pontes, membros do alto escalão do Ministério da Magia ou daqueles que foram arremessados das janelas do Parlamento Inglês, assim como de castelos pertencentes à Coroa. Eventos eram ilustrados por fotos dos corpos sendo carregados.
Como superar o horror que se instalara nas residências? A inatividade do Ministério e do próprio Ministro da Magia assustava, sobretudo quando a inércia que atingia muitos daqueles que deveriam defendê-los dos ataques gerava apreensão, paralisando a sociedade bruxa, que estava sem saber quais diretrizes deveriam ser seguidas em meio às informações desencontradas que chegavam. Existiriam maneiras de evitar a reclusão e o contínuo isolamento? Como proteger as crianças de todos aqueles horrores? Quanto tempo demoraria para que a guerra atravessasse os muros e invadisse Hogwarts? Notícias e dúvidas que evidenciavam o medo e o caos que esmagavam a população, enquanto o pânico tomava conta das ruas.
O clarão dos raios e dos relâmpagos cortava os céus, fazendo vibrar as janelas e as paredes, evidenciando mais uma forte tempestade e um novo ataque dos Comensais da Morte. Logo o Morsmordre tingiria o céu de chumbo com uma coloração verde doentia, um transcurso natural da saga de abusos contra inocentes, sangue espalhado pelas ruas, ecoando a cruel realidade que atingia a todos sem exceção.
No interior da casa, segurando firmemente a edição matinal, Narcissa andava de um lado ao outro, pensativa. Angustiada, lia atentamente os parágrafos, como se analisasse e pesasse cada frase absorvida. Buscava em cada linha encontrar um indício qualquer ou o nome de um de seus primos entre os mortos nos combates. Contudo, não era apenas isso. O que também a consumia era a incerteza e a falta de informações exatas, atordoando seus nervos e deixando-a completamente abalada.
Por mais egoísta e cruel que pudesse parecer, já não bastava Severus quase ter sido assassinado, após ser cruelmente torturado e passar dois dias sobre a cama convulsionando; ainda tentava compreender e processar toda a atrocidade a qual Bellatrix passara nas mãos de Voldemort. Por quase uma semana, viu sua irmã inconsciente e quase definhando, enquanto curandeiros e medibruxos diziam claramente que ela não teria qualquer chance de se levantar pelos próximos dois meses. Esperava que aquilo fosse um sinal para que compreendessem que deveriam se afastar da guerra. Os amava demais para cogitar que existiam possibilidades de perdê-los.
A simples lembrança de testemunhar o estado de ambos e constatar que seus rostos sempre vívidos se achavam irreconhecíveis a entristecia. Recordar que só pôde ver Bellatrix porque Andromeda brigou com os pais e a arrastou para dentro da casa fez com que um soluço amargo lhe cortasse a garganta dolorosamente.
Chorando sem qualquer controle, Narcissa sabia que jamais fora preparada para enfrentar uma atrocidade como aquela que vira. Era incapaz de assimilar como a sua família se afundara de tal modo, a ponto de permitir algo tão indigno acontecer dentro das próprias paredes, sem buscar por justiça. Ou como Eileen não fez absolutamente nada para defender o único filho.
Enxugando as lágrimas, chocada pela infâmia à qual fora jogada por aqueles em quem confiava, pensou em Regulus e Evan. Ambos, mergulhados e cegos por aquela vida detestável, pareciam seduzidos pela cobiça e a promessa de grandes poderes no futuro. A mesma lascívia hedionda que desestruturou Severus e Bellatrix e quase os levaram à morte. Todos não eram mais do que adolescentes mimados e perdidos, que mal demonstravam ter a real noção do significado de uma guerra e pareciam ver no Lorde das Trevas a figura de um herói.
Em nome de um falso orgulho de seus familiares mais próximos, eles fingiam não se importar com o que observavam diante dos próprios olhos, muito menos lembravam de quem realmente eram. Quem sabe estivessem entorpecidos pela ambição desmedida? Como ainda insistiam naquilo? Como não viam o sangue escorrendo de suas mãos?
Era um caminho triste, incerto e escuro que os carregava para o abismo da perdição e o fim de tudo o que um dia foram. Será que haviam comprado tão facilmente a tortuosa orientação que lhes fora proposta? Como alcançar as reais intenções de cada um ao se envolverem com aquele genocida?
Uma sucessão de eventos e um conjunto de situações aleatórias que se somavam prenunciavam a concretização de uma antiga profecia... mais antiga que os Comensais da Morte, os Cavaleiros de Walpurgis ou, até mesmo, a existência do próprio Lord Voldemort. A simples suposição de tal eventualidade causou-lhe um arrepio longo e uma sensação de profundo enjoo. Abraçando o próprio corpo, Narcissa afastou os maus pensamentos para ponderar sobre todas as hipóteses que se apresentavam à sua frente, sem qualquer certeza do que deveria julgar como verdadeiro.
O que ouvira na mansão dos pais, quando fora acompanhada por Sirius para visitar Bellatrix em outra oportunidade, era trágico demais para que pudesse aceitar como algo natural. Tudo estava fora de ordem, e todos pareciam querer contar a sua melhor versão dos fatos ou do que realizara. Curiosamente, nesse cenário confuso e caótico, Andromeda decidira adotar uma postura mais soturna e reclusa, recusando-se a dizer qual era o verdadeiro problema. Isso a incomodava, deixava-a assustada diante da probabilidade de perder aquela que sempre a protegera do mundo.
O que escondia tão obstinadamente? Sem dúvida, talvez, Andromeda temesse que algum segredo obscuro fosse descoberto. Será que valeria a pena perguntar? A única certeza que Narcissa mantinha era a de que se formaria em Farmacologia e que, algum dia, acabaria desmaiando por conta da exaustão que reverberava por todo o seu corpo devido ao excesso de trabalho, preocupações e as noites mal dormidas que já pesavam sobre seus ombros.
A ansiedade e a crescente repulsa que vivenciava, desde que mentiu ao dizer que se casaria com Lucius e praticamente obrigou os primos a confirmarem essa informação, se somavam e a sobrecarregavam insuportavelmente. Pensando nisso, sentia o ódio vibrando, e sua única vontade era reunir todos os seus pertences, fechar a B Elixires e fugir para muito longe sem olhar para trás. Desejava abandonar qualquer ligação que ainda mantinha com a família e se perder no mundo. Quem sabe iniciar uma nova vida? Conhecer novos rostos e se dedicar ao que mais gostava, vivendo tranquilamente e sem enfrentar tantas cobranças.
Ao fundo, o rádio tocava baixo uma série de músicas aleatórias e sem sentido, as quais Narcissa não identificava devido aos seus pensamentos distantes. Guiando suas silenciosas percepções, ao mesmo tempo em que olhava a paisagem desfocada pela janela embaçada pelo ar quente da respiração, os versos de "How Deep Is Your Love" começaram a refletir em suas emoções. Por mais que tentasse negar, Severus sempre se encontraria em uma posição de destaque em todos os seus sonhos. Mesmo que ele fosse incapaz de amá-la ou, pelo menos, sentir um terço da afeição que sempre lhe devotara, Narcissa ainda percebia que estava irremediavelmente apaixonada e entregue. Mas, não daria o braço a torcer. Se Severus a quisesse, que falasse a verdade e lutasse pelo seu amor.
Com o coração apertado, lembrava dos minutos e das horas que passaram juntos, os momentos bonitos que se perderiam nas areias do tempo e teriam de ser totalmente esquecidos, para que pudesse seguir em frente. No entanto, era isso o que desejava para si? Sua mente dizia que o certo era terminar com uma história que não mostrava qualquer sinal de que teria futuro. O clima agitado e tempestuoso da rua refletia o seu estado de espírito conflituoso. A vidraça úmida pelos pingos revoltos da chuva, que ali colidiam furiosamente, eram sinais das dolorosas lágrimas de sua alma que teimavam em sair.
Com o ar ainda mais deprimente, o cenário do Spinner's End se emoldurava pela dor, permanecendo o mesmo lugar triste, cinzento e ultrajante ao longo dos anos que estivera ali pela primeira vez. Não podia reclamar da casa, a qual sempre considerara como sua e se sentira acolhida. Entretanto, não podia ser indiferente ao fato de que os dias naquela região continuavam a representar a dor, a fome, a violência, o sofrimento, a humilhação e a inconstância para os seus moradores. Uma representação viva e sufocante de miséria e sofrimento que sugava a vida e as esperanças daqueles que ousavam andar por suas ruas abandonadas pelo descaso das autoridades, tentando manter uma rara dignidade. Até mesmo o sol se escondia por entre as nuvens densas de fumaça do carvão queimado, transformando as manhãs em uma pesada névoa de obscuridade e dureza concreta.
Como aquelas pessoas suportavam tamanha opressão? Ver aquelas crianças esfarrapadas buscando por comida em latões de lixo lhe rasgava o peito. Talvez, tempos antes de se conhecerem, Severus fosse igual a elas. E, certamente, a desolação que carregavam em seus rostos e corpos era muito mais penosa do que os cortes causados pelas navalhas carregadas pelos moradores a cada esquina.
Enquanto observava as circunstâncias e o ir e vir das pessoas pela rua, Narcissa refletia sobre quais eram as fortes motivações que levavam Severus a insistir em viver na parte mais miserável de Birmingham, como se desafiasse a si mesmo. Sentia que aquela insistência tinha algo mais. Uma quietude escondendo o desejo de suportar uma dor constante, ao cortar a própria carne e expor as feridas como troféus àqueles que quisessem ver. Quais eram as razões? Por que não viver com dignidade em um lugar que oferecesse uma melhor qualidade de vida?
Por mais que Severus alegasse que ali poderia ser visto como um ambiente estratégico para coordenar ataques aos traidores de sangue e que aquele cenário caótico e perturbador preenchia o seu vazio, Narcissa não conseguia acreditar. Tinha que existir outro tipo de estímulo para teimar em viver em meio à imundície. A verdade era que não precisava sair da cidade, porém, era urgente que saísse daquele ambiente miserável.
Levando uma das mãos à testa, Narcissa massageou levemente a têmpora esquerda para afastar a dor causada pelos receios e desconfianças, sentindo que sua cabeça implorava por instantes de descanso e paz. Se afastando da janela, com os pensamentos ainda pulsantes, considerava que se Severus estava preso às lembranças ruins que o assombravam desde a infância, já estava passando do momento de se libertar.
A cada ponderação, seus pensamentos se tornavam mais caóticos e ambíguos, fazendo com que se sentisse incapaz de encontrar soluções plausíveis aos questionamentos que iam se enumerando sem respostas em sua mente. Possivelmente, os contratempos e os abalos desequilibravam novamente a sua magia elemental. Odiava lembrar como sua existência se assemelhava a uma escultura de prata que vira na infância. Desprezava o fato de que nesses momentos sempre surgia em seus pensamentos a figura de Niniane, aterrorizando-a pela semelhança e pelo estranho ambiente que cercava aquele lugar perdido onde encontrara a sua imagem.
Deixando escapar um suspiro cansado enquanto percorria lentamente a sala, Narcissa afundou-se no sofá. O eco dos gemidos abafados de Severus no andar superior parecia permear cada canto e parede da casa, aprofundando ainda mais a sombra e tristeza no ambiente. Por alguns minutos, ela se permitiu o luxo de descansar, fechando os olhos para encontrar um breve refúgio na escuridão temporária que a envolvia, aliviando a exaustão que pesava sobre seus ombros.
Um novo impulso de aflição a atingiu, despertando-a e intensificando a angústia que já queimava em seu peito antes do breve cochilo. Determinada a dissipar aquele sentimento ruim, Narcissa levantou-se e subiu as escadas com passos ansiosos, ressoando pelo corredor o eco dos seus sapatos no piso de madeira. Com uma hesitação breve no olhar e nos gestos, oscilou na decisão entre entrar diretamente no banheiro ao final do corredor ou adentrar o quarto de Severus, apenas a pouquíssimos passos de distância. A dúvida que perdurou alguns segundos foi solucionada pela escolha de seguir sua necessidade e optar pela primeira opção.
Despindo-se lentamente, percebendo a textura da roupa deslizando por cada milímetro do seu corpo, enquanto a água quente do chuveiro começava a deixar os seus primeiros rastros de vapor embaçarem o espelho, Narcissa ignorou o piso gelado e entrou no pequeno box. Sob a névoa reconfortante e acolhedora, seus músculos, até então tensos, começaram a relaxar, proporcionando um alívio momentâneo. De olhos fechados, ela sentia os pingos de água que escorriam por sua pele e se misturavam às lágrimas que teimavam novamente em escapar no seu pequeno refúgio.
Ainda concentrada na sinfonia de sentimentos que a guiavam, ensaboando a pele, ela aproveitava aqueles breves momentos de paz no absoluto silêncio. Respirando fundo, naqueles longos minutos de tranquilidade, acariciava os próprios músculos com delicadeza. Eram pequenos gestos que buscavam atenuar os tormentos que restavam e teimavam em desestabilizá-la. Precisava se ver e se sentir limpa, em vários níveis e aspectos, para se acalmar e prosseguir.
Abandonar todo o medo era essencial para a manutenção de sua sanidade. As cenas traumáticas que presenciara ainda a assombravam e insistiam em aparecer nos seus pensamentos, especialmente a do momento em que encontrara Severus inconsciente e sussurrando por seu nome como se fosse a única salvação.
Segundos, minutos, horas do mais completo e violento terror. A carne de Severus, marcada por cortes extensos e profundos, narrava a agonia infligida a ele por um tempo interminável. Os inúmeros arranhões pelo rosto, os ossos dos braços e costelas fraturadas, as torções nos pulsos e pernas representavam detalhadamente uma história de dor imensa, quase o conduzindo ao coma. Contudo, nada poderia rivalizar com os fragmentos da varinha quebrada, cravados meticulosamente como estacas, abrindo e dilacerando o abdome, prendendo-se ao ombro e ao antebraço direito. Enquanto cacos de vidro perfuravam cruelmente a laringe e o esôfago. Uma verdadeira monstruosidade, algo inominável, planejado com cuidado para agravar a tortura.
Retirando com cuidado cada fragmento, Narcissa observava como deixavam marcas que se destacariam no transcorrer dos anos. No entanto, o mais crucial era que, apesar das múltiplas cicatrizes, Severus permaneceria vivo. Isso bastava para que se sentisse mais leve e serena.
Num momento de tensão, um pensamento perpassou sua mente, fazendo-a sorrir. Definitivamente, não era uma completa inapta, como alguns ainda insistiam em afirmar, mesmo após todo o sucesso que a B Elixires alcançara em Hogsmeade. Um fato que comprovava que podia continuar não sendo vista como a mais poderosa ou a mais inteligente das irmãs Black, mas conseguira sozinha curar todos aqueles ferimentos, até beirar a exaustão, sem pedir qualquer ajuda.
Mesmo que não fossem mais ficar juntos, não aceitaria perdê-lo e, muito menos, que morresse sozinho e agonizando como se fosse um completo nada. Não permitiria que fosse jogado ao esquecimento daquele modo tão bruto e injustificável. Por pior que Severus tivesse agido, ou miseravelmente falhado, não merecia um destino como aquele.
O ar lhe faltou, obrigando Narcissa a se sentar no piso e abraçar as próprias pernas para afastar a ansiedade que se aproximava. Fechando os olhos, puxou o ar com força para encher os pulmões de uma nova onda de coragem, apreciando as últimas gotas do jato de água que ainda a atingiam. Se debruçando por suas curvas, percorrendo os seus detalhes, aquele calor reconfortante novamente removia a sensação de vertigem e lhe renovava as energias.
Preferindo demorar um pouco mais, sem se preocupar com quanto tempo duraria o seu gesto, Narcissa se encostou na parede do box e ficou olhando para o nada. Passados alguns minutos, ela se ergueu do chão e concluiu o banho. E, em breves segundos quase contemplativos, secou o corpo e os fios de seu cabelo como se estivesse realizando um elaborado ritual. Seu olhar era atento e concentrado nas ideias que lhe surgiam. Sua imaginação se evidenciava com toques mais alegres e tranquilos, enquanto começava a pegar as roupas sobre o cesto para se vestir e averiguar qual era o estado em que Severus se encontrava naquele momento.
- Narcissa... Narcissa... – a voz distante e urgente a chamava, rouca e sôfrega, como se saísse de uma jornada exaustiva no deserto.
Aquele som profundo e desesperançoso, quase um sussurro, que antes ecoava somente em sua memória, agora, a retirava com urgência de suas reflexões. Um pedido ansioso e necessitado que a fez se apressar em colocar as roupas, já um pouco desorganizadas à sua frente, para confirmar se havia de fato alguma emergência.
Vestindo-se o mais rápido que pôde, girou a varinha para ajustar aquelas roupas masculinas ao seu tamanho e fez um coque frouxo no cabelo. Descalça e com o suéter cinza surrado, ao passar por um espelho a caminho do quarto, deu um meio sorriso satisfeito. Por piores que tivessem sido os últimos dias, ela se sentia feliz ao ver a sua imagem refletida e notar o brilho intenso das esperanças que eram renovadas.
- O que aconteceu, Severus? – perguntou, ainda no corredor, segundos antes de entrar no quarto e verificar se ele ainda permanecia na cama e precisava da sua ajuda.
Com o semblante mais pálido que o habitual e as olheiras profundas pela perda de sangue, o rosto magro assumia tons funestos e sombrios. Sua expressão era a de alguém desnorteado e totalmente perplexo, analisando todos os cantos do quarto em silêncio, sem compreender como chegara em casa. Internamente, temia que de alguma forma seu esconderijo tivesse sido descoberto.
Se fosse o caso, reuniria todas as suas forças para matar o intruso com as próprias mãos e fugir dali, empenhado em encontrar um novo lugar para se refugiar e esconder-se até conseguir se recuperar por completo. Em seus pensamentos, eram infinitas as hipóteses levantadas sobre o que acontecera após o desmaio.
Cenários catastróficos e homicidas se desenhavam em suas fantasias, até que notou a presença de Narcissa, parada junto à porta, encarando-o seriamente e com os braços cruzados. Observando o repentino silêncio que se estabelecera, olhando-a com uma espécie de vislumbre contemplativo, Severus percebeu que estava a irritando. Ao mesmo tempo, tal fato a enchia de coragem e força para dizer o que treinara por meses. Não poderia perder a confiança e nem hesitar.
Aquele era o momento em que precisaria sustentar a mentira que inventara e contar quais eram seus projetos, obrigando-o a aceitar que deveriam resolver a situação em que se encontravam ou finalizar aquela dolorosa e contínua despedida. Suas negativas em firmar um relacionamento sério e, acima de tudo, aquela sucessão de situações e eventos absurdos, haviam esgotado seus nervos e a cansado. Continuaria com sua vida e pararia de se fazer presente em todas as vezes que precisasse de ajuda.
Não suportava mais aquela situação. A insatisfação em sempre ter de colocá-lo de pé e ser vista como uma espécie de bote salva-vidas em meio ao oceano a deixaram farta. Não queria mais bancar a tola. Não queria estar disponível para ser usada como um consolo permanente. No fundo, Narcissa se culpava por, inconscientemente, sempre lhe oferecer a certeza de que estaria ao seu lado sem impor restrições ou limites. Especialmente em todas as chances que decidisse se jogar no abismo, por acreditar que suas mãos estariam dispostas a resgatá-lo do inferno mais sombrio.
- Como você me achou, Cissy? – questionou, com a voz mais áspera e grave, enquanto ela media a sua temperatura e examinava o estado das novas cicatrizes que se formavam.
Verificando as mãos grandes e os dedos longos, notava que as marcas adquiridas após a tortura permaneceriam evidentes por um bom tempo, ao mesmo tempo em que via nas feições de Severus claras evidências de seu desconforto e dor que se empenhava tanto em esconder. Discretamente, massageando a área próxima ao pescoço para aliviar o incômodo permanente, sentia uma estranha sensação percorrer todo o seu corpo e lhe causar espasmos.
Seus músculos novamente se contraíam como se estivessem prestes a se romper. Sua garganta ardia e o gosto ferroso do sangue se espalhava novamente pela boca. Como brasas que lhe queimavam e facas que atravessavam seu corpo cortando seus nervos, o sofrimento crescia. A cada pulsar da dor, sua vontade era a de chorar, mas não podia. Estava convicto de que, se o fizesse, seria pior.
- Eu o encontrei na rua desmaiado, mais especificamente, em uma praça onde você estava caído próximo a uma das árvores – comentou com uma falsa indiferença.
- No entanto, peço que não se esforce para falar. Você teve lesões sérias na sua laringe e no seu esôfago. Você sabe que, consequentemente, qualquer esforço vai causar novos sangramentos.
Se sentando ao seu lado na cama, Narcissa lhe alcançou um frasco de poção para aliviar os sintomas que se refletiam na sua expressão tão ferida. Insistindo em seu comportamento fechado, refletia continuamente nas diversas formas de reunir forças para afirmar, em voz alta, a sua decisão. Se agarrando aos próprios propósitos para ter coragem e resistir, cerrou os punhos para fortificar todo o empenho empregado em amansar o próprio coração e a respiração que teimava em acelerar. Dizer adeus a um dos seus maiores sonhos era mais difícil do que imaginava.
- Severus, eu fico feliz que tenha melhorado o suficiente para que possamos conversar, pois suponho que o melhor a ser feito é encerrar nossa amizade a partir de hoje – afirmou com o rosto endurecido e quase impassível, como se não experimentasse qualquer sombra da dor que, naquele momento, partia o seu coração.
- Como já deve ter sido informado, meu casamento com Lucius será em duas semanas... eu... eu não acho correto que essa história confusa que nós temos tenha continuidade.
Interrompendo as próprias palavras e tudo o que treinara para falar e fazer, ela o encarou, desejando perseverar em cada uma de suas certezas. Queria acreditar que essa era a melhor decisão a ser tomada. Daquele dia em diante, renunciaria a qualquer contato. Entretanto, a mera hipótese de que isso ocorreria a torturava, muito mais do que imaginar que se sentiria completamente sozinha.
Atenta e sentindo como se ele quase invadisse sua alma pelo modo como a olhava para assimilar o que acabara de escutar, Narcissa queria se convencer de que não existia mais qualquer possibilidade de voltar atrás. Não encontrava meios, formas ou circunstâncias suficientemente fortes para que desistisse. Severus teria que concordar. Era tempo de mudanças e transformações para ambos, e nada do que alegasse em defesa própria refutaria o que escolhera como destino.
- Compreendo... contudo, me diga, o que está escondendo? Por que simplesmente parou de me escrever e sumiu da minha vida, Narcissa? – a pergunta veio carregada de insatisfação, unindo as sobrancelhas, desprezando cada fase.
Seu rosto estava mais fechado e soturno do que o normal, com um brilho intenso em seus olhos de obsidiana faiscando sobre as próprias incertezas. A conhecia o suficiente para saber que não estava falando a verdade, pelo menos não toda, ao morder os lábios e acabar acariciando as próprias mãos involuntariamente em busca de consolo. Cada gesto de Narcissa lhe transmitia muito mais do que mil palavras que ela dissesse ou reflexões que pudessem ser expostas abertamente enquanto a observasse.
Em resposta à sua pergunta, o silêncio quase choroso e inoportuno predominou. O que realmente teria para lhe contar? Ignorando os protestos de seus músculos, Severus, impetuosamente, se ergueu com alguma dificuldade. Sentado e a segurando firme pelo braço, puxou Narcissa para que o encarasse, obrigando-a a olhar dentro de seus olhos. O impulso precipitado e imprudente gerou uma forte tontura, fazendo com que caíssem deitados lado a lado.
Firme em seu objetivo, enchendo os pulmões de ar, continuou impedindo qualquer possibilidade de que ela se afastasse. Descobriria qual era o problema que tanto a afligia, sobretudo quando os corações deles pulsavam com a mesma vibração forte, como se fossem apenas um.
- Me solte, Severus!
- Não.
- Eu vou repetir, mais uma vez: eu decidi que vou me casar com o Lucius, e nada vai me fazer reconsiderar...
- Eu duvido que você fará uma bobagem como essa, Narcissa - Severus respondeu com um tom áspero, tentando esconder uma pontada de preocupação que brilhava em seus olhos, por mais que tentasse disfarçar.
- Não ligo para o que você acredita ou não! Você deveria voltar para a casa da sua mãe e me esquecer. É o melhor a ser feito depois de tudo o que houve entre nós.
- Você realmente pensa isso? – a questão fez com que o olhar de Severus escurecesse, mostrando um misto de incredulidade e mágoa antes de se tornar frio.
- Eu não sumi da sua vida... foi você que decidiu partir e sequer me perguntou se eu estava disposta ou não a te acompanhar na viagem.
- Você só pode estar brincando! Eu expliquei para você que não teria como irmos juntos, pois eu ficaria morando na casa do Flamel e...
- Severus, me deixe terminar! Você quer saber as razões que fizeram com que eu me afastasse, então ouça. Não contente em ter me deixado de lado, como se eu fosse uma vagabunda, você se envolveu com uma série de coisas abomináveis. Você acha que eu faria o que exatamente? Esperaria por você e pela sua boa vontade? – Narcissa bufava de raiva e o empurrava para longe de um modo recriminador.
- A cada noite, acredite você ou não, eu me perguntava se voltaria ou se eu seria apenas mais um capítulo esquecido da sua história. E, francamente, eu estou sendo o mais sincera possível com você. Quer saber mesmo? Eu cansei de ser um ponto de interrogação na sua vida tumultuada!
Usaria frases contundentes, eliminando qualquer perspectiva de contraposição ou réplica aos seus argumentos. Não suportaria dar margem para que isso acontecesse. Ao mesmo tempo, seu peito parecia prestes a explodir pela proximidade e pela saudade que sentia de estar tão perto dele. O cheiro amadeirado a enfeitiçava, derrubando suas defesas ao entrar pelas narinas e atingir o coração sem pedir licença.
Severus estava tão ou mais nervoso do que ela, incapaz de pensar com precisão no modo como deveria agir naquele momento tão tenso. Mesmo que tentasse mascarar todas as suas emoções, era quase impossível quando estava diante de Narcissa. Estranhamente indecifrável, similar ao mais raro sopro leve do luar, a presença dela e o forte aroma de jasmim com rosas, de ervas, de seiva e suor se misturavam com uma precisão jamais vista, tornando-a uma viva poção de amor das mais poderosas e incomuns. Uma raridade feita exclusivamente para atraí-lo, para tirá-lo do eixo, para fazer com que seus sentimentos se mostrassem muito mais fortes do que o próprio discernimento.
Ambos se olhavam sem saber o que dizer, pelos mesmos motivos, fazendo um esforço hercúleo para segurar os próprios impulsos e desejos de aumentar a proximidade. Virando o rosto para o outro lado, Narcissa se afastara um pouco, para recuperar o fôlego e o foco. Sabia que se não o fizesse, acabaria cometendo o erro de beijá-lo e abandonar os seus planos. Não poderia fraquejar. Não quando lutara tanto e tão bravamente, durante todos aqueles meses, para se distanciar totalmente. Não poderia se deixar levar por um arroubo romântico. Estava decidida a continuar firme e forte.
- Eu não sei o que te contaram, porém, eu não fiz nem a metade do que andam espalhando por aí. Eu juro, Cissy! Você não tem ideia do quanto eu queria ter levado você comigo para a França.
- Sei...
- Eu não posso crer que julgue aquele estúpido como alguém apto para te fazer feliz! Lucius é um canalha que já a agrediu, mais de uma vez, e repetirá em todas as oportunidades que encontrar. Aquele desgraçado, anormal, covarde... ele não te ama – afirmou, ansioso e desesperado, agarrando-a pelos ombros com o olhar firme, sem medir a própria força.
- Você é inteligente e é impossível que esteja se enganando com a promessa de ser feliz ao encenar continuamente o papel da Lady Malfoy.
Insistia para que ela o ouvisse, que desistisse daquele absurdo e percebesse o erro terrível que estava prestes a cometer. Seria um crime contra si mesma permitir que aquele homem a atacasse e a violasse após o matrimônio. Narcissa se destruiria ao lado de Lucius. Severus pensava em várias hipóteses e não chegava a qualquer conclusão. Por mais que tivesse se equivocado ou agido de uma forma lamentável, nunca a desrespeitou ou a obrigaria a fazer algo que não fosse de sua vontade. Não admitiria que um completo covarde a ferisse.
Queria ter forças para se levantar daquela cama e caçar Lucius até o inferno. Sua vontade era de assassiná-lo com lentidão e crueldade, compensando todas as lágrimas derramadas por sua culpa. O sangue e os gritos de dor, seriam muito pouco para purificar todo o mal que já havia causado. Na verdade, seria um prêmio para alguém tão sujo a possibilidade de simplesmente deixar de existir sem ter que pagar por todos os seus crimes.
- Lucius, ao contrário de você, me assumiu. Em momento algum ele cogitou me trocar por alguém que cresceria debaixo do seu enorme nariz, me usando até que ela chegasse a uma idade aceitavelmente fodível para que a tornasse sua esposa – a acusação de Narcissa veio como uma flecha que o atingiu cheia de violência e raiva na voz.
- Ou você acha que eu não descobri toda a história envolvendo a "amada imortal"? A "sua rainha Hermione"? Minha própria sobrinha que sequer nasceu, Severus!
- Mas, como você...
- Como eu soube? Bem, eu devo agradecer a senhora Prince, sua adorável mãe, que me procurou na B Elixires e me contou tudo. Eu nunca fiquei tão envergonhada! Nunca me senti tão baixa ao perceber que para você eu nunca passei de uma prostituta de luxo. Uma puta que você usou como campo de treinamento para a sua preparação como amante. Você pensou, Severus, que eu jamais descobriria toda essa merda? Você me acha tão burra assim? – questionou cheia de rancor.
Não aceitaria que lhe exigisse qualquer coisa ou que a impedisse de fazer o que resolvera. Desvencilhando-se de Severus, Narcissa se retirou da cama, completamente revoltada. Quem ele julgava ser para lhe dizer o que fazer, sobretudo, depois que a enganara tanto? Com passos fortes e decididos, saiu do quarto, batendo com a porta para não ouvir mais a voz dele. Não havia argumentos que a fizessem parar para o escutá-lo. Aquele era o fim. Partiria definitivamente.
Sem se dar por vencido, apesar das dificuldades em se movimentar, Severus se levantou da cama e a seguiu. Inconformado e indignado, principalmente com a forma com que fora confrontado e abandonado, sem ter qualquer direito à defesa, tentou caminhar o mais depressa possível.
Narcissa tinha que compreender que havia motivos para que ele não pudesse ter revelado aquele segredo antes, justamente, por imaginar que era exatamente aquilo que aconteceria quando fosse informada de toda a verdade. Não se perdoaria se, por sua responsabilidade, a sua adorada Flor de Narciso estivesse tão magoada e ofendida.
- Se você se dispusesse a falar comigo ou com Andromeda, ao invés de guardar para si essas informações dadas por aquela velha fofoqueira, nada disso estaria acontecendo!
- A minha irmã sabia disso? – ela franziu o cenho em dúvida, parando no meio da escada, olhando para trás.
- Sabia sim! Porque eu estou tentando resolver toda essa merda, caso queira saber, Narcissa. Contudo, eu estou com as mãos atadas até que a menina nasça e eu possa desfazer essa maldição do Elo. Andie irá me ajudar a destruir o feitiço – respondeu ríspido, com um semblante de dor e decepção, enquanto a encarava.
- Eu nunca a considerei uma tola ou uma puta! Jamais a usaria e me enfurece ver que você me julgue desse jeito.
Assustado com o tom de voz que utilizara para fazer com que parasse, Severus se aproximou de Narcissa e a puxou para si. Queria dificultar ao máximo a sua saída. Precisava que ouvisse as suas explicações. Com a respiração acelerada e os pensamentos extremamente confusos. Seus gestos afoitos eram uma prova de que percebia nos olhos dela o fato de que não estava imune a tudo aquilo. Era inaceitável que algum dia tivesse suposto que tudo o que viveram juntos tivesse sido uma mentira.
Os momentos de tensão, enquanto se encaravam, se arrastavam indefinidamente. Sem conseguirem assimilar os termos corretos e mais assertivos que deveriam usar um com o outro, ambos permaneceram em silêncio. As palavras sumiam e faltava-lhes o ar. Cada vez mais próximos, os ânimos descompassados e perdidos denunciavam o nervosismo que os atacava. Preocupados por notarem o quanto eram incapazes de encerrar algo que nascera para ser infinito, a incômoda quietude só pôde ser rompida com o fim da paciência de Narcissa.
- Você acha que eu também não fui informada de que procurou outras? – esbravejou, enfurecida pelo ciúme que lhe ardia no peito e a sufocava, o recriminando com o dedo em riste.
- Severus, você é um canalha!
Depois de meses guardando toda aquela perturbação e animosidade, uma explosão de raiva se manifestou de forma surpreendente. Em hipótese alguma ela imaginara que o odiaria com tamanha força. Havia a traído da pior forma, renegando-a. Atordoada pela recusa e sentindo-se ainda mais enganada, Narcissa o empurrou para longe. Ao pisar em falso no degrau, Severus perdeu o equilíbrio, torceu o joelho e tombou para o lado. O baque que acompanhou a queda e o modo desajeitado com que ele caiu a assustaram.
Com os nervos e o ânimo em chamas, destruída pelo que acabara de fazer, ajoelhou-se diante dele. Com lágrimas nos olhos, pediu um silencioso perdão. Foi a vez de ele desviar o olhar, recusando-se a encará-la.
- Como é possível, Narcissa? Você decididamente está empenhada em me acusar de todo o tipo de coisa! Realmente confia que eu sou o único errado em toda essa situação?
- Severus...
- Agora sou eu que peço que você me ouça e, sinceramente, espero que entenda que há coisas que estão além das minhas forças ou dos meus desejos! Como eu poderia brigar com uma maldição que, até agora, não havia agido? Como eu poderia saber em que momento ela surgiria para desgraçar toda a minha vida? Algum momento passou pela sua cabecinha bonita que eu não poderia assumir nosso relacionamento estando preso a todo esse horror?
- Eu só queria que você tivesse me dito...
- Como eu poderia contar isso para você? De onde eu tiraria coragem e frieza para fazer isso? Você precisa compreender, Narcissa, que eu queria gritar para o mundo inteiro que você é a única mulher que amei e ainda amo – exclamou, firme e seguro de suas palavras, sentindo-se desolado ao perceber o quanto a distância e as ausências, aos poucos, os separaram irreversivelmente.
Severus pretendia manter-se afastado para não a magoar com frases duras e ácidas, relacionadas a tudo o que sentia ou, o pior, para evitar agir impulsivamente. O autoconhecimento que possuía era um dom que o ajudava a prever imprevistos e ações alheias, contribuindo para a preservação de sua própria sanidade. Especialmente quando isso evitava ferir a pessoa que mais amava.
Contudo, seu temperamento colérico e bruto estava prestes a explodir, manifestando-se através de seu rosto emburrado e ressentido. A carranca refletia toda a exasperação que o atingia por ter sido julgado tão mal, enquanto a olhava com decepção e desgosto.
Narcissa reagira às circunstâncias que a cercavam e o agredira fisicamente para extravasar a sua raiva. Isso era algo que jamais imaginara que um dia seria possível, especialmente vindo de alguém que sempre considerara gentil, elegante e sensível em seu modo de agir e se comportar.
Segurando-se no corrimão para se levantar e aproximando-se dela, Severus segurou-a pelos ombros novamente, fazendo com que o encarasse e não o deixasse falando sozinho.
- Como eu poderia reivindicar você como minha, enquanto vivia em meio a uma constante incerteza sobre o meu futuro? Supõe que eu não tenha imaginado como seria fugir ao seu lado para algum lugar muito distante? – falou com a voz baixa, dolorosa e resignada, apoiando-se na parede para se firmar.
- O grande "porém" é que, se o fizesse sem resolver essa questão, seria uma tragédia para nós dois. Narcissa, quero que compreenda as minhas razões. Escondi essa ligação com a Hermione apenas para poupar seus sentimentos. Preocupo-me muito com você e tive medo de magoá-la.
Com o corpo rente ao dela, Severus cheirava os fios bicolores enquanto a abraçava forte. Aquilo o tranquilizava, acalmando seu coração ao saber que podia voltar a tocá-la e tratá-la com todo o carinho possível. Narcissa era alguém que precisava de muita gentileza e amor, motivo que o levava a admirá-la com uma profundidade absurda, beirando a veneração incontestável. Mesmo que suas considerações duras e hostis ainda ressoassem em seus ouvidos, perturbando-o impiedosamente.
Entretanto, por piores que tivessem sido suas palavras, Severus não conseguia enxergá-la como alguém que merecesse ser maltratada. Muito menos considerava a si mesmo merecedor de um olhar tão cheio de dor quanto aquele que ela lhe lançava.
- Como mencionei antes, tudo o que eu precisava era ouvir a verdade, e infelizmente, você permitiu que me machucassem ao me fazer acreditar que eu não significava nada – desabafou, fixando o olhar nos próprios pés, incapaz de encontrar as palavras certas para expressar seus sentimentos.
Estava abalada, abandonando sua postura sempre implacável e fria, dando lugar à fragilidade do desencanto. Era difícil agir quando as emoções se expunham demasiadamente afloradas, causando dor no coração. Fechando os olhos devido ao toque, Narcissa se questionou se Severus fazia aquilo por mera gentileza ou porque realmente queria demonstrar o amor que sentia.
- Acredite, sinto que eu sou o pior dos homens por não ter você, minha mulher impossível e teimosa. Quer que eu me ajoelhe e implore pelo seu perdão? Quer que eu confesse ser um completo cretino? – perguntou, acariciando delicadamente o rosto dela, firmando o queixo para que continuassem se olhando.
Não suportava ser a origem e a causa de tamanha desilusão e tristeza. Sua alma estava arrasada, refletida em cada traço de desapontamento nos singelos contornos do rosto de Narcissa, que chorava copiosamente. Agarrando-o com força pela gola da camisa, ela o paralisava. Incapaz de conter as próprias emoções, ele a apertou ainda mais contra si, como se pudesse absorver toda a dor que ele mesmo causara. Sentia-se impotente diante do caos que se instaurara entre eles.
Enquanto a abraçava, tentava encontrar palavras que pudessem amenizar a mágoa que a envolvia. Em nenhum momento poderia supor verdadeiramente ter outra pessoa em seus braços que não fosse ela. Muito menos a subjugaria a toda a sujeira com a qual se envolvera e se envergonhava. Desejava Narcissa de muitas formas e intensidades. Ela era sua melhor amiga, seu maior sonho, e tudo o que sentia por ela era muito mais do que luxúria ou destino; era amor em seu estado mais puro e claro.
- Eu te amo, Narcissa. Mais do que todas as palavras podem expressar.
- Se realmente me ama, prove, Severus. Não com palavras, mas com ações. Mostre que posso confiar em você.
- Farei o possível para reparar meus erros, Cissy. Peço apenas que me dê uma nova chance.
- Saiba que isso não é mais relativo a você, Sevie... sempre foi sobre o quanto eu o quero e o quanto eu te amo – murmurou baixinho, impedindo-o de ouvir suas declarações ou entender seus medos.
