Capítulo 18

"Just a little change, small to say the least
Both a little scared, neither one prepared1"

Beauty and The Beast, Cersei Dion & Peabo Bryson

Os dois permaneceram em silêncio pela maior parte do trajeto. Jaime com o cenho franzido, ainda irritado pelo que se passara alguns minutos atrás, e Brienne tentando organizar e entender seus sentimentos, que oscilavam entre felicidade e irritação por ele tê-la defendido, mesmo quando havia pedido que não o fizesse.

— Por que você se envolveu naquela briga com o idiota do Ronnet? — a jovem indagou com um pouco de raiva, quando notou que estavam cada vez mais perto do apartamento dele. — Eu disse que podia me defender se fosse preciso.

— E por que não fez isso? Por que deixou que aquele fracassado dissesse aquelas coisas a seu respeito sem reagir? — Jaime perguntou no mesmo tom que ela. — Eu não podia permitir que...

— Permitir? — Brienne indagou com incredulidade. — Você não tem que permitir nada, Jaime. Eu disse que posso me defender; e garanto que é verdade. Se eu fosse brigar com cada pessoa que já me chamou de feia, monstro, ou aberração no decorrer da vida, não faria muito mais além disso! E você tem que respeitar a minha vontade! Eu não perco meu tempo trocando ofensas com idiotas e você deveria fazer o mesmo; ainda mais se for pra agir em minha defesa.

Jaime deu uma guinada com o carro e o estacionou na primeira vaga que encontrou. Se teriam aquela conversa agora, era melhor que não estivessem em movimento. Ele já sofrera acidentes automobilísticos o suficiente para uma vida.

— Eu fiz o que achei certo, Brienne, e faria novamente se fosse preciso — Jaime afirmou com convicção. — Essa sua atitude de oferecer a outra face é muito bonita, mas caras como esse tal de Ronnet não entendem isso! Eu sei, porque já fui um babaca como ele. Felizmente tive a oportunidade de mudar, mas eu era um imbecil na escola. Na verdade, fui imbecil durante boa parte da minha vida, e estou cansado disso! Estou cansado de me esconder e de fingir que não estou vendo quando alguém faz algo errado! Você pode ficar com raiva de mim pelo tempo que quiser, mas não vou deixar de defendê-la se achar que é preciso!

No calor da emoção, Jaime acabou dando um soco no volante e gemeu com a dor que sentiu. Sua mão ainda estava dolorida pelo soco que dera em Ronnet, e ele a pressionou levemente contra seu braço direito, tentando fazer a dor diminuir.

— Você pode se fazer de forte o quanto quiser, Brienne, mas eu vi em seus olhos o quanto aquelas palavras a magoaram — ele disse um pouco mais controlado. — Não me peça pra presenciar este tipo de coisa e permanecer calado. Você devia denunciar esses idiotas. O que eles fazem é crime.

Brienne fitava seus gestos e palavras sem saber o que dizer. Exceto por Renly e seu pai, ninguém nunca a defendera daquele jeito ou se preocupara com seu bem-estar; e eles já a conheciam há anos. Jaime conseguira enxergá-la por baixo de sua atitude de indiferença fingida mesmo que se conhecem há tão pouco tempo.

Após respirar fundo algumas vezes, Brienne percebeu o que estava fazendo. Estava brigando com o homem que a defendera daqueles valentões que a perseguiam. Onde estava com a cabeça?

— Deixa eu ver a sua mão — ela pediu já se sentindo mais calma e Jaime ignorou seu pedido.

Era evidente que ainda estava com raiva pela bronca que levara. Brienne revirou os olhos, porém, não conseguiu deixar de sorrir diante da atitude dele.

— Pare de ser infantil, Jaime — a jovem falou cutucando-o nas costelas e arrancando um sorriso dele. — Anda logo, me dê a sua mão.

Ainda relutante ele mostrou sua mão para ela e Brienne a segurou e analisou, logo constatou que estava um pouco inchada.

— Viu o que ganha por pensar que é um cavaleiro de armadura brilhante? — ela questionou sacudindo a cabeça e sentindo-se culpada por toda aquela situação.

— Com certeza vi — Jaime comentou voltando a ficar emburrado. — Ganho uma mão inchada e um sermão, ao invés de ganhar um beijo.

Brienne congelou ao ouvir o que Jaime dizia. Continuava segurando a mão dele, porém não tinha coragem de encará-lo. De sua parte, Jaime podia sentir que as mãos que seguravam a sua tremeram levemente. Talvez tivesse ido longe demais.

— Você nunca deixa de brincar, não é? Nem mesmo quando falamos sobre algo sério...

Brienne finalmente o encarou e Jaime podia notar o receio em seus olhos. A única coisa que não poderia afirmar era se ela tinha medo de que ele estivesse sendo sincero ou de que estivesse apenas brincando.

— Eu falei sério, se eu fosse um cavaleiro de verdade, você teria me dado um beijo por te salvar daqueles imbecis, mas não estamos num conto de fadas — ele concluiu com um sorriso de canto e Brienne engoliu em seco.

Por um momento Jaime pensara em dizer que realmente queria aquele beijo, no entanto, não queria que Brienne sentisse qualquer tipo de obrigação em fazer algo assim. Se algum dia este beijo acontecesse, queria que ambos tivessem certeza do que estavam fazendo; sem qualquer hipótese de que sua intenção pudesse ser interpretada como uma brincadeira.

— Bem, é melhor irmos logo pra sua casa ou você vai acabar ficando doente também, e me culpando por isso — ela concluiu soltando sua mãe e desviando seus olhos dos dele.

Ela tinha razão em afirmar que ele acabaria ficando doente caso não trocasse aquelas roupas molhadas, mas não era o único nesta situação, tendo em vista que ela também tivera que passar por aquela tempestade para chegar ao seu carro.

— Sim. É melhor irmos. Ainda não almocei e começo a ficar mal-humorado quando estou com fome.

Mais uma vez Jaime quebrava a tensão que surgira entre eles de maneira amena, quando o que realmente queria era descobrir se Brienne sentia o mesmo que ele naquele momento; algo que não podia definir em palavras ainda, mas que mexia com todo o seu ser.

Talvez estivesse sendo tolo por não a pressionar, mas acreditava que ainda havia muitas coisas não ditas entre eles e era melhor que colocassem as cartas na mesa antes que pudessem pensar em algum tipo de envolvimento mais sério.


1 "Apenas uma pequena mudança, pequena, para dizer o mínimo

Ambos um pouco assustados, nenhum dos dois preparados". Tradução Livre.