Capítulo 21
"But when you're crying, you bring on the rain
So stop your sighing, be happy again1"
When you're Smiling, Louis Armstrong
Após alguns minutos presa em suas próprias emoções, Brienne conseguiu se acalmar e se levantou para limpar o rosto no banheiro. Jaime devia estar pensando que ela era louca por se deixar levar assim por uma história que fazia tanto tempo e que não tinha qualquer relação com ela, mas a jovem não conseguia deixar de pensar no sofrimento pelo qual ele passara; e como seus problemas pareciam tolos diante disso.
Assim que Brienne conseguiu se controlar e saiu do banheiro, percebeu que Jaime havia retirado a mesa e agora estava sentado no sofá bebendo uma xícara de café. Havia outra preparada para ela posicionada de frente para o assento ao lado dele. Ela se sentou e respirou fundo antes de beber um gole do conteúdo da xícara. Sabia que seus olhos estavam ainda mais vermelhos, e sentia-se envergonhada por isso.
— Depois de tudo o que ouvi, sinto que minha história é banal, se comparada à sua — ela disse com um pequeno sorriso antes de beber mais um pouco de café. — Eu não perdi ninguém; não como você. E não tive que abrir mão do que mais amava por conta de um acidente.
— Não concordo com isso — Jaime respondeu sério. — Acho que você acabou abrindo mão de si mesma no meio de tudo pelo que passou, Brienne. Não sou o dono da verdade, mas percebo o quanto é reservada; até mesmo quando toca algum instrumento. É como se tivesse medo de ser você mesma, e isso também é uma espécie de prisão.
Brienne o encarou esperando ver algum traço de zombaria ou pena em seus olhos, contudo, já devia saber que tudo o que encontraria ali era compreensão.
— Eu nunca fui bonita segundo o padrão que a sociedade estabeleceu — ela começou voltando a pousar a xícara sobre a mesa de centro. — Também nunca fui como as outras meninas com vestidos cheios de lacinhos e acessórios cor de rosa. Minha mãe faleceu quando eu tinha cerca de dois anos, então foi meu pai quem me criou. Ele sempre se esforçou pra me dar tudo do bom e do melhor, mas nunca foi um homem jeitoso. Você iria morrer de rir se pudesse ver a dificuldade que ele tinha pra me arrumar pra escola. — A jovem riu da lembrança. — Eu não era fácil, obviamente...
Jaime e ela trocaram um olhar de entendimento antes de rirem juntos.
— Eu posso imaginar o que ele sofreu com você — Jaime comentou brincalhão.
— Eu sempre queria fazer as coisas do meu jeito e acho que, com o tempo, meu pai desistiu de lutar contra mim e permitiu que eu fosse exatamente quem era. — Neste momento o sorriso sumiu dos lábios dela.
'O problema é que a pessoa que eu era, e ainda sou, é bem diferente do aceito por uma boa parte das pessoas com quem tive e tenho que conviver — ela explicou num tom soturno. — Eu não gostava de brincar com bonecas, preferia lutas de espadas; e todas as brincadeiras que os meninos gostavam. Pra mim, isto não era nada demais, mas, pros professores e os alunos, incluindo o Ronnet, era algo que me transformava numa anomalia; e o fato de ser uma menina feia que estudava num colégio onde a elite de Nova York estudava era apenas um acréscimo a isso tudo.
'No começo meu pai não percebeu que os machucados que surgiam no meu corpo não eram o resultado de brincadeiras, e eu não dizia nada. Tinha medo de que as coisas piorassem caso revelasse que as outras crianças me tacavam pedras no caminho pra casa ou as diferentes palavras que tinham pra me insultar e criticar. Esse medo era típico de uma criança ingênua e se provou completamente infundado; as coisas pioraram sem a necessidade de que eu abrisse a boca.
'Quando parei no hospital por ter caído de uma árvore, o médico questionou meu pai a respeito dos hematomas. Acreditavam que era ele quem os causava e queriam me afastar dele. Só então resolvi contar tudo ao meu pai, que ficou chocado por eu ter me mantido em silêncio por tanto tempo.
— Você não tinha nenhum amigo? — Jaime indagou engolindo em seco, tentando conter a raiva e a tristeza que o assolavam.
Como Brienne conseguira suportar tudo isso? Se ele pudesse encontraria todos aqueles que a magoaram e faria com que pagassem por isso.
— Nessa época, não — ela disse num dar de ombros. — Meu pai falou com a escola a respeito da situação, mas as coisas continuaram as mesmas, apesar da intervenção dele. Provavelmente porque o colégio não queria perder os alunos que realmente importavam pra eles. Então meu pai já estava buscando outra escola pra mim, quando conheci Renly. Aí eu implorei pra ele me deixar ficar ali mesmo e, desde então, Renly é meu melhor amigo. Ele era o único que me defendia e eu era a única que o defendia por ser menor que os outros, então formamos uma espécie de time.
'Inclusive aprendemos a lutar juntos. Aprendemos um pouco de tudo, judô, boxe... E também fiz algumas aulas de autodefesa. Garanto que, depois disso, eram poucos os que se atreviam a se meter com a gente; e tudo ficou calmo por um tempo... Até o último ano do ensino médio, pra ser mais exata.
'Essa é aquela época em que começamos a evoluir e acreditamos que todos fazem o mesmo, ledo engano. No começo do último ano entrou um aluno novo na minha turma e, apesar de não termos muito em comum, acabamos nos aproximando e nos tornamos amigos; ou era o que eu pensava. Ele me convidou pra ir com ele à festa de formatura e eu nunca fiquei tão feliz quanto naquele dia. Era a primeira vez que um garoto realmente parecia estar interessado em mim e eu acreditei que as coisas mudariam a partir de então.
Brienne soltou um suspiro triste e fechou os olhos por um momento, como se buscasse os tristes detalhes daquele dia em sua mente.
— Caron foi me buscar em casa de carro e seguimos pra festa de formatura. Nós dançamos, nos divertimos e, quando estava perto da festa terminar, ele falou que queria respirar um pouco de ar puro, então saímos da quadra da escola e nos sentamos nas escadas da entrada. Havia muitos alunos espalhados pelo jardim, mas estávamos sozinhos ali, e ele me roubou um beijo. Me senti num conto de fadas, sabe? Imagine a cena da gata borralheira, na qual ninguém reparava, até que o príncipe chegou e a enxergou; foi algo mágico...
'Até que senti um impacto nas minhas costas. Algo gosmento escorria pelo meu vestido e Caron e eu nos afastamos. Não precisei me virar pra saber que os garotos que me atormentavam na escola estavam jogando ovos em mim, pois um deles caiu no chão ao meu lado; e quando vi o sorriso zombeteiro no rosto de Caron, percebi que ele também estava envolvido naquele plano.
— Não — murmurou Jaime sentindo-se mortificado.
— Sim — ela confirmou com um sorriso triste. — Eu estava sonhando com um príncipe encantado e, na verdade, ele era um sapo que estava brincando comigo. Depois disso os insultos começaram e a única coisa que consegui fazer antes de ir embora foi quebrar o nariz de Caron e dar um chute no meio das pernas dele.
Jaime riu ao ouvir isso e a encarou com satisfação. Sabia que o sofrimento físico não compensava tudo o que aquele calhorda causara a ela, porém ficava feliz em saber que o imbecil não saíra totalmente impune.
— O resto você já sabe — Brienne concluiu com um suspiro. — Os ataques diminuíram bastante depois que terminei o colégio, embora haja muitas pessoas preconceituosas por aí; mas, infelizmente, acabei reencontrando o idiota do Ronnet na faculdade e, com o apoio dele, seus novos amiguinhos começaram a me atacar. Eu me mantenho sempre afastada, evitando esse tipo de confronto, mas há ocasiões, como hoje, em que as coisas fogem do controle.
— Entendo sua atitude agora, mas não consigo compreender por que não os denuncia. Já tentou falar com a direção da faculdade? Ou talvez com a polícia?
— Depois de ver como o colégio onde estudei agiu, mesmo com a reclamação de meu pai, confesso que não acredito muito que denúncias resolvam alguma coisa. Além disso, todo dia há casos de perseguição e injúria nos jornais e nada parece ser feito, não de verdade.
— Mesmo assim, ainda acredito que deveria denunciá-los, Brienne. Não é porque você não percebeu nenhuma mudança tangível nessas questões que deve deixar de tentar mudar as coisas — Jaime insistiu. — E, se quiser, eu posso servir de testemunha.
Brienne pareceu refletir por um momento, contudo, ainda não estava confiante a respeito daquela ideia.
— Vou pensar nisso, ok? — a jovem falou com gentileza.
Sentia-se feliz por Jaime se importar com ela, porém ainda não tinha certeza de que aquela seria a solução para seus problemas.
— Se eu mudar de ideia, prometo que você será o primeiro a saber.
— Certo — ele concordou, percebendo que não adiantaria insistir naquele momento. — Agora entendo por que não queria me contar sua história, Brienne — comentou mordendo o lábio inferior. — E não a acho menos significativa que a minha. Acho que ambos passamos por situações muito ruins, mas não podemos permitir que elas direcionem nossas vidas.
A jovem lhe lançou um olhar cético. Aquele era o mesmo homem que ela conhecera semanas atrás?
— Estou falando sério, Brienne. Eu lembro do que disse a você naquela cafeteria, mas não acredito mais nisso. Estou fazendo de tudo para que Cersei e o acidente não interfiram mais em minha vida. Realmente estou me esforçando pra isso, e você não pode deixar que esses fracassados se interfiram na sua. Sei o quanto é difícil confiar em alguém depois de passar por algo assim, mas você pode perder a oportunidade de conhecer alguém legal de verdade, mesmo que não seja perfeito — Jaime concluiu com um sorriso enigmático.
Brienne o encarou sem palavras, perguntando-se o que havia por trás daquele sorriso, ao mesmo tempo em que tentava conter suas ilusões.
— Eu sei, Jaime — ela respondeu passando a fitar suas próprias mãos —, mas, como você mesmo disse, não é fácil. — Ele riu.
— Não é mesmo, mas isso não quer dizer que vamos desistir. E, se eu, que estava no fundo do poço, estou conseguindo me reerguer, você que é literalmente uma lutadora, pode ir ainda mais longe — Jaime falou num tom animado. — Acho que podíamos começar a realizar algumas mudanças hoje mesmo. Lembro que alguém me disse que iria me convencer de que as músicas atuais não são uma completa perda de tempo; e, que melhor momento, se não o agora?
— O que está dizendo? — Brienne perguntou olhando para ele desconfiada.
— Estou dizendo que o dia não acabou e não vamos permanecer mergulhados na tristeza — explicou arqueando as sobrancelhas de maneira sugestiva e fazendo-a rir também. — Você falou que gosta muito de sair pra dançar, por que não fazemos isso hoje?
— O quê? Não — ela respondeu sacudindo a cabeça. — Eu não estou com o menor clima pra isso e, se você esqueceu, minhas roupas estão encharcadas.
— Ainda é cedo, senhora estraga prazeres. Posso te levar em casa e depois voltar pra te buscar mais tarde. Que desculpa tem agora, hein? — ele perguntou se preparado para refutá-las.
Brienne sacudiu a cabeça e mordeu os lábios, no entanto, não tinha argumentos para usar contra ele.
— Ok. Você venceu, mas já que eu vou te apresentar a músicas atuais e boas, eu escolho o lugar.
— Feito.
Eles trocaram um aperto de mão e se levantaram para dar prosseguimento ao seu plano.
Brienne jamais esperara que, após recordar as partes ruins de seu passado, estaria sorrindo e se preparando para sair para dançar com Jaime. A vida não se cansava de surpreendê-la.
1 "Mas quando você está chorando, você traz a chuva
Então pare de chorar, seja feliz novamente". Tradução Livre.
