Dedicado a um herói que acreditou
JOHN ROMITA SR, 1930 - 2023
"E essa realmente foi sua maior preocupação?" perguntou, incapaz de impedir a própria curiosidade.
"Olha..." O Sentinela da Liberdade pensou por longos segundos que pareceram outras décadas no gelo até dizer: "Sim." Havia várias formas de responder, mas entre todas preferiu a verdade. Ele aprendeu que ser sincero era melhor.
"O mundo inteiro mudou." O Capitão América explicou, vago em seu tom, enquanto seus olhos passavam para as pessoas sentadas sobre a arquibancada circulando o palco.
Todos os rostos eram incomuns, de desconhecidos, que ainda assim o olhavam de volta com uma expressão como se o conhecessem, alguns até mesmo com uma feição da qual pareciam vê-lo como um velho amigo.
"Casas viraram prédios. Prédios se tornaram arranha-céus e os próprios arranha-céus caíram."
Fosse no século XX ou no século XXI, mesmo com seus anos carregando o escudo, e mesmo aprendendo a lidar com o nervosismo, ele ainda não havia se adaptado bem à mídia. Mesmo sem a boca seca e as palavras não tropeçando mais umas nas outras quando respondia algo, as câmeras e os espetáculos das luzes dos holofotes jamais casariam bem com o velho Steve Rogers.
E o pior era que, se pudessem ver além do ídolo que se tornou, tudo nele admitia seu desconforto.
"O que eu conhecia se tornou ultrapassado." Ajeitou-se na poltrona de veludo, sentindo-se em um assento de espinhos. "Símbolos de nações e símbolos para nações mudaram e se foram."
Pousando uma das mãos sobre o escudo ao lado, apoiado no braço da cadeira, ele sentiu a familiar sensação dos dedos calejados por incontáveis batalhas encontrando apoio no velho amigo polido de vibranium frio. "Tem coisas que você não pode acompanhar, não importa o quanto tente, e se torna mais fácil pensar nas coisas que você ainda conhecia o ritmo."
"Porém, agora você citou apenas representações..." Respondeu o apresentador, mais acomodado na própria poltrona, erguendo sua mão à figura de Steve, enaltecendo-o como um símbolo vivo, vestido de azul, com linhas de vermelho e branco. Certamente, era um tipo de vestimenta mais excêntrica quando comparado aos seus outros entrevistados que evitavam a exibição de cores para exibir um conjunto Armani no horário nobre. "Por outro lado, antes, você falou de outra coisa." Ben Urich continuou, sendo fausto em sua fala, mas não se preocupando em soar indignado caso seu tom fosse bem escondido entre linhas de profissionalismo.
"Você comentou que a maior preocupação do Capitão América-" Atropelou as próprias palavras por um momento. "A sua preocupação. Você. Símbolo do ocidente." E continuou quando encontrou a forma mais correta e direta para se dirigir a figura de Steve, não faltando títulos ao herói. "Quando finalmente foi descongelado, pensou antes de tudo em uma mulher?"
Ben sabia bem como manipular o jogo das mídias. Fosse nas linhas da redação do Clarim ou em uma transmissão no Estúdio-SM62 com câmeras para a América assistir ao seu programa de auditório.
"Uma mulher." Steve murmurou as palavras. "A mulher." Corrigiu-se, em tom brado, certo do que respondia.
Urich não disse nada, e seus espectadores permaneceram tão calados quanto ele. Entre as paredes do estúdio houve uma concordância em silêncio, no momento em que eles ingeriram as palavras do Capitão América. Limpando a lente dos óculos, o repórter pensava em que direção seguir após o que Rogers lhe admitia. No fim, até mesmo a lenda era apenas um homem. Até mesmo ele poderia ter alguém especial. Colocando os óculos, estudou bem Steve. O Capitão América era um artigo de carreira, promissor para qualquer um que se encorajasse a tentar desvendá-lo, mas ser o maior símbolo da nação lhe tornava um grande desafio a qualquer repórter.
Urich queria mostrar ao herói o quanto ele era um veterano de guerras; ele também era um titã do jornalismo. Era sobre provar que seu palco era, de fato, seu, até mesmo perante as lendas da história. Ficando frente a ele, Rogers parecia centrado e a falta do elmo, expondo sua face, revelava isso. As luzes acentuavam a expressão marcante, desenhando traços pesados no rosto que não oferecia nada que fosse agressivo, mesmo que a sombra que caía nos olhos azuis revelasse um abismo de experiência que aquele homem viveu, e Ben sabia que jamais teria a oportunidade, muito menos a coragem, de conceber a fração dos encontros que Steve já sobreviveu. Era a face de um homem simples, enquanto aqueles eram olhos de alguém preso em uma constante guerra. E atrás disso tudo, mesmo entendendo agora um pouco mais da pessoa além do símbolo, Urich ainda não enxergava que havia um rapaz do Brooklyn escondendo o nervosismo.
"Wow." Ben soprou com uma voz rouca depois de anos dependente da nicotina. Uma sutil surpresa era a única resposta de sua mente em meio à avalanche de pensamentos.
"Capitão, acho que você deixou nosso apresentador sem mais perguntas." Enfim, falou a terceira cadeira entre eles, rasgando o silêncio; as risadas do público imediatamente percutiram pelo estúdio. E tão simples assim, a inquietação era perdida por Ben, enquanto Steve oferecia apenas um sorriso ao companheiro ao seu lado. O Doutor Reed Richards nunca foi celebrado por ser uma pessoa pública; na verdade, era mais conhecido por ser extremamente ignorante em relações sociais. Ainda assim, até mesmo aos olhos de Reed, havia uma tensão a ser quebrada.
Além de tudo, ele não mentiria a si mesmo. Após superar o receio que tinha de escapar do laboratório para atender ao convite de Ben Urich, enfim, podia reconhecer o apelo de estar ali. Se interessando tanto em uma visão de estudo, quanto também em se ver envolvido pelo o que Steve Rogers tinha a dizer.
"Não entenda errado." Steve falou, ao mesmo tempo em que as risadas dissiparam-se em meio à sua explicação. "Eu vi coisas nesse novo mundo das quais eu não imaginava quando marchava com o escudo por Berlim e Paris, mas a principal semelhança que esses dois tempos tiveram para mim foi simples..." A plateia se aquietava, enquanto Rogers tinha a atenção de Reed e Ben para si. "O que eu pensava, enfrentando o Terceiro-Reich ou cruzando a Times Square, foi sempre nela."
Steve pensava nela naquele momento, não só citando simplesmente alguém que significava pouco. Quando se preparou para subir ao palco e nas muitas vezes em que sua vida estava no fogo cruzado, ela estava ali. Não era como se pensasse nela em cada um de seus dias, mas sim nos momentos que o definiam.
"Penso que quando acordei aqui... Eu só mudei a minha guerra e no fim só sou ainda o mesmo Steve."
"E pensar nela te prova isso?" Ben perguntou.
"E pensar nela me prova isso."
Outra vez, Urich ficou pasmo. Sempre que respostas vinham à sua mente, ele percebia que não havia nada a complementar, pois Rogers não era apenas sincero, mas também direto. Assentindo a Steve, o apresentador soube o momento de passar a palavra para o terceiro membro de sua mesa redonda.
"Dr. Richards. Você é um homem da ciência. Acha que faz sentido o relato de nosso veterano?"
No primeiro instante, Reed ponderou. Para ele, o dilema não estava no sentido da afirmação de Steve, mas sim no que tal afirmação falava do Capitão América. Estudando a situação antes de responder qualquer coisa com a qual não concordava, olhou para a sua esquerda e analisou Rogers, assim como Urich fez momentos antes.
"Olhe. Sendo um 'homem da ciência'..." Começou, parafraseando Ben, do qual voltou a olhar logo à sua frente. "Eu diria que muitas das circunstâncias da história do Capitão, isso sendo, de sua criação ao seu retorno, trazem muitos elementos que não fazem um sentido exato para mim. Afinal, o corpo humano..."
Antes que terminasse sua linha de raciocínio, outra onda de risadas começou pelo estúdio, com os espectadores atropelando as palavras de Reed com seus risos sobre a sua afirmação exageradamente técnica a uma pergunta simples.
"O corpo humano não poderia..." Tentou uma segunda vez, falhando novamente pela batalha de sua presença no palco. Ajeitando-se ao assento, Reed alinhou o microfone já bem posto na bainha da gola de seu uniforme. "Eu vou tentar me prender à pergunta." Concluiu, falando com uma garganta seca, no que conseguiu a atenção de todos mais uma vez.
"Eu penso que sim."
Afirmou com simplicidade, alcançando a caneca posta sobre a pequena mesa colocada entre ele e Steve.
"Faz sentido. É fácil pensar no Capitão mais como uma representação do que uma pessoa, mas imaginem, para qualquer homem ou mulher. Para qualquer um. No vasto entendimento que temos sobre o ser humano, que é insignificante perto de tudo que ainda não compreendemos sobre nós... é algo natural se agarrar a figuras que nos evocam sentimentos. Essas pessoas definem em parte quem somos no presente."
Parando por um instante, olhando para aqueles sentados que os assistiam, Reed assegurou que usava as palavras corretas, não querendo perder o fascínio de ninguém. Sue muitas vezes lhe acusava de complicar até mesmo a mais simples das explicações. "É uma questão de emoções. Nostalgia, digamos, talvez seja a emoção que mais move o Capitão." A forma de Reed falar era mais técnica que a de Steve, porém, enquanto a simplória honestidade do Capitão era o que cativava o povo, a complexa didática do Senhor Fantástico era tão efetiva quanto para fisgar o interesse deles. "Afinal, o Capitão América é um símbolo da nossa nostalgia patriótica." Reed falou, bebericando enfim o café na caneca que tinha em seu colo.
"Uma forma educada de me chamar de velho." O Capitão respondeu, arrancando mais risadas.
Urich enxergou-se como um coadjuvante na presença de ambos os heróis.
"Sendo assim." Ben tentou falar, simplificando o que Reed dissera. "O que define o Capitão, o que admiramos nele, parcialmente... é a lembrança dessa mulher. Dessa amada." Ele falou em afirmação, mas com um tom de pergunta ao fim, procurando a aprovação de Steve na forma como se referia à misteriosa mulher.
Enquanto o Capitão assentiu positivamente à forma que Ben referiu-se a Peggy, Reed terminava de degustar o sabor do café já morno após longos minutos de conversa. Para ele, o gosto não era ruim, porém não era forte para atentar os requintes de um paladar já forçado a altas doses de cafeína.
"Ao que parece, seria isso." Respondeu, deixando a caneca novamente na pequena mesa. "Podemos assumir que a lembrança dessa amada traz muito do que admiramos no Capitão América hoje."
Em todas suas palavras, ele tomava um extremo cuidado em jamais afirmar algo além do que podia entender ou saber. A psicologia das pessoas não era a força de Richards, assim sendo, em todas as formas das quais ele apresentava sua visão sobre o assunto, Reed não encontrou exemplo melhor para dar se não falando de suas próprias experiências.
"Eu, por exemplo, guardo muitas memórias do meu pai que me definem intencionalmente e subconscientemente. Meu pai foi minha inspiração."
Sua voz tomou um tom rouco, involuntário, do qual o Senhor Fantástico não percebeu a forma mais distante da qual conversava. Era como se a mera fala de seu pai expusesse outra parte de Reed ao palco.
"Nós todos temos experiências com pessoas queridas. Nossas mães e amigos. Até mesmo personagens." Para continuar o que já se tornava uma palestra ao público, Reed ergueu suas mãos, pairando-as frente ao seu rosto, garantindo estar alinhado com a perspectiva da câmera. "A Sue já me falou que muitas vezes essas convivências são algo mais natural do que a própria matéria que nos compõe."
Com seus dedos entrelaçados, Reed concentrou-se, permitindo que a própria estrutura de sua forma se alterasse.
"Diferentes de nossas células e material genético que podem ser alterados, essas relações são permanentes no desenvolvimento de cada um, elas nos constroem e nos tecem."
Gravando a demonstração do Sr. Fantástico, o grande painel atrás dos três transmitiu os dedos de Reed esticando-se muito além do comprimento comum, como se puxados por uma força invisível aos olhos de todos, na qual sua forma virava extensa, mas ainda da mesma finura, moldando-se ao desejo de Richards, que enlaçou os dedos uns aos outros.
As feições sobre a plateia variavam com olhares de encanto, outros de espanto, enquanto alguns viam a mutação à sua frente como algo grotesco, mas todos compartilhando o interesse.
"Eu não seria um quarto do que sou sem minha equipe fazendo-me ser mais homem do que ciência."
Em um tom tão simplório quanto o próprio Capitão, Reed ignorou quaisquer coisas que os outros pensassem ou julgassem com suas expressões, tendo a própria visão presa à bagunça de vinhas de dedos que ele formava, enquanto seus pensamentos se distanciaram dali, mas se voltavam às lembranças de sua família no Quarteto Fantástico.
"Resumindo suas palavras." Ben tentou dizer, enquanto sua mente não lhe permitia distrair-se da amostra das habilidades de Reed. "Essa convivência é o melhor cheque de realidade para vocês."
"Olha, Ben." Desenrolando os próprios dedos que tomavam proporções normais novamente, Reed respondeu a Urich, abrindo e fechando a mão, sentindo a familiar sensação de dormência nos tendões.
Depois de anos, já não incomodava tanto a sensação de esticar-se.
"Se eu não concordar, podem me dar um cheque de realidade indesejado quando voltar para casa." Tateando a mão esquerda, sentiu por dentro do grosso tecido emborrachado da luva que usava a forma da aliança envolta no dedo anelar.
Ele sorriu sem perceber.
"Isso me lembra, Dr. Richards, eu gostaria de parabenizá-lo pela criança. Meus parabéns também à Dra. Storm, por mais que ela não tenha vindo hoje. Eu falo por toda a equipe do Clarim, nós desejamos a ela uma boa comodidade no conforto do Baxter."
Aplausos reverberaram pelas paredes do estúdio, tanto daqueles que se erguiam na plateia quanto dos outros que já ficavam de pé por trás das câmeras. Reed foi discreto, agradecendo com um sutil aceno de cabeça a Ben, que erguia sua mão como sinal de que não era necessário.
"Agora, Steve." Urich continuou, voltando-se mais uma vez ao Capitão, que parabenizou o Senhor Fantástico com um aperto de mãos. "Se eu lhe perguntasse..." Corrigiu-se antes de terminar. "Se eu tomasse a coragem de perguntar. Quem é a garota misteriosa que você pensou até mesmo nos piores cenários da história... nos falaria quem ela é?"
"Não." O veterano replicou, sem cerimônias e com uma repentina rispidez em sua voz. "Eu não falaria."
E reforçou uma segunda vez, com tanta certeza quanto na primeira.
"Por mais que não seja difícil saber quem foi ela... ela ainda foi a minha garota, e eu fui o cara dela. Isso faz eu me lembrar que existe algo mais que é só meu por trás do escudo."
Steve acreditava que partilhou de algo que foi único apenas com aquela pessoa especial e queria preservar a si.
Em sua mente, ainda eram memórias das quais faziam poucos anos desde que viveu, enquanto para esse mundo no qual acordou, onde crianças nasceram depois dele e faleceram antes do seu retorno, não passavam de acontecimentos de uma outra vida.
E talvez fosse melhor assim, para ele, para o mundo e para Peggy. "É um respeito à privacidade dela." Sua voz despojou-se de qualquer rispidez prévia e em seu tom pediu a compreensão dele.
"Sorte que eu não perguntei nada." Urich respondeu no instante seguinte que Steve terminou de falar, pigarreando uma risada discreta a si, não por desrespeito, mas por ironia.
Não era a primeira vez que havia cruzado caminhos com alguém que dizia coisas semelhantes a essa, no entanto, a pessoa de quem escutou essas palavras não era nada como o Capitão América.
"A forma como você falou, também o que você disse, me lembrou muito quando eu ainda era um repórter trabalhando no papel e caneta. Em uma das minhas noites passando por Hell's Kitchen, tive uma reportagem com um vigilante que atua por lá."
Endireitando-se, usando o dedo indicador para erguer dos óculos quase caídos a metade do nariz, ele desviou o olhar para ver a equipe por trás dos holofotes. Vendo faces familiares dos bastidores, mas felizmente não encontrando o único indivíduo que não queria ali.
"Meu chefe vai me matar por fazer essa comparação, mas... isso que você me falou lembrou muito do que o Diabo de Hell's Kitchen me contou. Essa privação em defender pessoas por trás do símbolo."
"Talvez eu não seja tão diferente de um vigilante." Steve respondeu. "Mas quem somos nós para julgar as razões de qualquer um em querer privar-nos de certas coisas? Principalmente de querer proteger alguém, mesmo que seja usando uma máscara."
"Alguns diriam que é um ato de covardia." Ben vociferou lentamente, não sendo claro se essa era sua própria opinião ou se ele realmente falava pela visão de outros.
"Não posso dizer que concordo." Reed franziu o cenho, refletindo bem no que Urich destacou como covardia, mas também abstendo-se no que era guiado pela própria curiosidade em saber o que teriam a falar.
"Muitos patrulhando as ruas..." Ben disse, erguendo a mão pedindo a palavra uma última vez antes que Steve falasse. Pisando em ovos enquanto sentia que devia se explicar. "Não usam uma máscara, mas um distintivo. Eu me considero um defensor de vigilantes. Independentemente de ser certo ou não sua conduta, eles fazem sua parte."
Fechando a mão, ele abriu o seu dedo indicador, listando.
"Indivíduos como o Demolidor."
Levantou o dedo médio.
"Como o Cavaleiro da Lua."
Enfim, o dedo anelar.
"O Homem-Aran-"
E Urich calou-se antes que falasse algo que custaria seu emprego no Clarim Diário. "Eu só não deixo de pensar, não há mais coragem naquele que não tem medo de esconder seu rosto? Aquele que usa uma máscara não é só alguém que tem algo a esconder, mas também a temer?"
"Não." Steve retorquiu. Compreensível da posição que o próprio apresentador havia se posto, mas também descrente que tal discriminação fosse feita. "Todo cidadão deve deter o direito de escolha, essa é uma liberdade. É algo que defendemos com ou sem máscaras, mas não é só isso. Mostrar seu rosto, por mais que corajoso, não significa que aquele usando a máscara é um covarde."
Não havia heroísmo que deveria ser confundido com covardia nas crenças do Capitão América, pois em tudo que aprendeu, se as ações detinham a coragem e a intenção do bem para os outros, jamais deveriam ser desvirtuadas, tanto quanto pré-julgadas. Acima de tudo, quando o injustiçado era um benfeitor que colocava sua vida em risco.
"Quem recusa a glória, aquele que veste uma máscara, constrói algo que nem eu e o Dr. Richards conseguimos com nossos rostos expostos." Ele alcançou o elmo posto ao lado do escudo, segurando-o com suas duas mãos, vendo o azul marcado com pequenas asas brancas delineadas aos cantos. "É um tipo de heroísmo muito diferente."
"Que seria?" Richards indagou, olhando Steve com seu rosto baixo e visão voltada ao capacete posto ao seu colo.
"A máscara permite a ideia de que qualquer um pode ser um herói." Falou, sem olhá-lo de volta. "Quem veste a máscara pode ser um dos nossos amigos na plateia. Até mesmo o rapaz que leva a câmera atrás do Sr. Urich." Erguendo seu rosto em direção à lente, o Capitão América continuou. "Pode ser você sentado ao sofá em sua casa. Qualquer um que comete deslizes tão pequenos quanto quebrar parte da louça enquanto a lava, ou que se atrasa ao trabalho por atender a outros deveres."
Ele sempre ficou desconfortável frente às câmeras, mas neste momento Steve sentiu como se pudesse falar com qualquer um que o escutasse além da transmissão.
"Olhe a pessoa ao seu lado. Se for alguém que você ama, arriscaria a vida dela fazendo inimigos todos os dias?" Seus olhos azuis passaram para Ben, arqueado na própria poltrona para observar a Steve, ouvindo atentamente seu discurso. "Sr. Urich, imagino que você tenha uma esposa."
Ele concordou.
"Se pudesse fazer o que eu faço. Fazer o que Reed é capaz, mas além do traje ainda fosse um homem comum, deixaria qualquer risco cair sobre alguém que você ama por algo tão simples quanto reconhecimento?"
Ben não pôde responder, pois com qualquer réplica seria hipócrita. Atrás do reconhecimento ou caminhando pela verdade, foram sempre as razões que estiveram por trás do seu desejo no jornalismo e muitas vezes ele recuou de artigos perigosos dos quais pensava o que poderia ser de Doris se ficasse envolvido. A ideia dela o esperando na porta em uma noite e ele nunca chegando, ou o pesadelo de chegar em casa e ver que qualquer pessoa que tivesse irritado fizesse o pior à sua esposa antes que pudesse protegê-la o fazia tremer. Urich entendeu o que o Capitão América tentava lhe falar e quando gentilmente assentiu em negação à pergunta, Steve retribuiu com um olhar de quem sabia que Ben compreendia.
O Capitão apenas fez o que Peggy lhe ensinou quando estava diante daquelas câmeras que lhe deixavam desconfortável. Ele simplesmente estava sendo Steve Rogers.
"Eu acho que colocar uma máscara é despir-se da glória e, no lugar dela, trajar a responsabilidade."
"Bem." Urich suspirou, ainda agarrado pela forma como Steve falou. Ele não sabia descrever o que era, mas o sentimento era algo que ele podia sentir ser semeado com aqueles que assistiam em sua plateia.
Olhando para a lente à sua frente, posta um pouco atrás dos assentos do Capitão e do Senhor Fantástico, Ben disse.
"Se você gosta de heróis uniformizados. Soldados que trocaram a camuflagem por cores vibrantes, nós teremos um intervalo comercial e, após isso, um pouco mais de conversa com Steve Rogers e Reed Richards. Não mude seu canal, pois é apenas na mesa redonda que nós sempre apresentamos algo um pouco... diferente."
