"A vida nunca é completa sem desafios."
STAN LEE
Em um fio, a aranha teceu seu caminho; suas pernas contorcidas e longas davam toques à crescente linha de teia, enquanto seu corpo balançava pela passagem da janela aberta. Os ventos do outono também invadiam o quarto, e os raios de sol da manhã pintavam as velhas paredes azul-marinho em tons de dourado, batendo diretamente contra o menino deitado sobre a própria cama desorganizada.
Seus despertadores já perdiam a batalha contra o sono, e a manhã se tornou seu alarme natural. Com a luz contra seu rosto, Peter abriu os olhos, sentindo as pálpebras pesarem toneladas.
Ombros tensos, ardência nos tendões e o desconforto no pulso eram consequências de outra noite de perseguições em uma cidade que, ao contrário dele, nunca descansava. Já lençóis amassados, pratos com restos e seu corpo encostado na parede, em vez de estar com a cabeça no travesseiro que se encontrava travesseiro caído no chão, eram provas de mais uma noite em pé, perdendo uma batalha inútil para não dormir.
Percebendo que havia novamente adormecido usando o traje, exceto pela máscara perdida na bagunça, Peter ajeitou-se, notando meia dúzia das pequenas cápsulas cilíndricas em seu colo.
"Apagou estudando o fluido de teia", disse a si com um gosto amargo na boca. "Que herói." Recostando-se sobre a comodidade da cama, ele se confortou, sabendo que seu cansaço era o descanso de outros.
Estendendo o pé, ele puxou o lençol para perto, agarrando-se no tecido, cobrindo os cartuchos e a si mesmo, percebendo em sua mão o que não havia soltado durante o sono: seus velhos óculos.
Uma simples coisa que representava tanto do que era antes. Correndo o polegar pelo aro redondo, reconheceu a ponte curvada entre as lentes, ressurgindo lembranças de dias em que corria dos valentões, em vez de persegui-los.
Examinando uma das hastes envergadas, vieram memórias de tempos quando erros não tinham consequências.
Tocando a fissura em uma das lentes, lembrou-se de quando a vida era algo simplesmente mais embaçado, nada precisava ser definido. Tempos simples em que a juventude era feita de inocência e fantasia.
Largando o memento, Peter fechou os olhos. O passado era difícil de se desapegar, até com coisas simples, mas naquele momento, dormir era mais fácil do que perder-se em lembranças, e nada poderia fazê-lo sair daquela cama.
Nada, exceto pela voz vinda de fora das paredes de seu quarto. "Peter, sabe onde deixou aquele cupom de desconto do seu Romita?"
"Não!" Berrando, com o sono exorcizado do corpo, Peter saltou da cama. Jogando o lençol para trás e deixando os cartuchos em seu colo caírem aos seus pés. "Não, não, não, não..." Repetiu de joelhos, catando a primeira cápsula que pudesse alcançar no chão, guiado pelo desespero, ouvindo passo após passo de sua tia se aproximando.
Acoplando o pequeno compartimento ao bracelete em seu pulso e em um movimento tão ligeiro quanto um espasmo muscular, Peter disparou certeiro com sua mira na porta do outro lado do quarto, cobrindo a fechadura com uma massa de teia.
"Eu não consigo achar." Ela disse mais próxima.
Ainda ao chão, pegou outros quatro cartuchos, ouvindo os esforços frustrados da tia para abrir a porta lacrada. Odiava mentir para ela, mas detestava ainda mais a ansiedade de quase ser pego.
"Peter, sabe que porta trancada não pode nessa casa."
"May!" Berrou, correndo em tropeços até a porta. Com solavancos fracos, ele usou o mínimo de força para fingir tentar abri-la. "Tá emperrada de novo", mentiu, enfatizando na voz um falso esforço.
"Ah, só o que me faltava, mais um pepino pra consertar." Ela se queixou no corredor.
"Eu me viro pra arrumar isso." Disse, continuando a farsa.
"Tem certeza?" May insistiu.
"Tenho."
"Vou ver lá embaixo, mas olha, só vai dar de abastecer o carro mais tarde, então hoje a ida é de ônibus."
"Beleza!" Respondeu, virando-se para olhar o despertador na cabeceira assim que ouviu May se afastar.
Apenas treze minutos para se arrumar e chegar no terminal. Jogando o par de botas, a dupla de luvas e o conjunto de lançadores de teia na cama, Peter começou a procurar a máscara no caos de folhas, roupas, livros e bugigangas no chão, percebendo que na sua organização dependeria da sorte para achá-la.
"Ah!" May chamou das escadas. "Ainda não conseguiu olhar o encanamento, não é?"
Xingando mentalmente a si por esquecer, Peter jogou-se de costas no colchão, rangendo a cama com solavancos enquanto se contorcia para vestir jeans por cima do uniforme.
Impaciente, May chamou seu nome outra vez.
"Não! Mas vou!" Prometeu, incerto se realmente se lembraria de fazer.
Vestindo o que encontrava, Peter escondeu o traje vermelho e preto com vestes de um rapaz comum do Queens, agradecendo por não ser verão ou primavera, não aguentando mais o desconforto de usar roupas extras nos dias quentes.
"Peter, você tinha prometido fazer—" Ela parou com uma breve pausa antes de destacar. "Dois dias atrás!"
"Eu sei!" Disse, perplexo que haviam se passado dois dias. Juntando os livros no chão, procurava também as palavras certas para se justificar. "Eu me distraí—com um show de mágica."
"Show de mágica?"
Oferecendo somente um grunhido como afirmação, Peter aceitou que merecia ser cobrado dessa vez. Alcançando sua escrivaninha, pegou todo o material necessário, convencido de que nada faltava, e enfiou na mochila sem pensar muito.
"Essa peça que você comprou. Acho que é a errada." Desconversou, guardando o estojo antes de voltar-se para a mesa novamente, achando sua máscara sobre uma bagunçada caixa de tralhas e pertences, entre seu notebook fechado com folhas rabiscadas dentro e os currículos impressos na noite anterior.
Paralisado e perdido com os olhos sobre caixa, Peter pensou no que todo seu esforço para esconder o mínimo de May só resultava em mais segredos empilhados.
Com uma mão, Peter pegou a máscara, símbolo de tudo que escondia; com a outra, segurou os papéis. Murmurando uma promessa falsa de corrigir seu erro, enfiou ambos na mochila.
"Eu acho que você nem olhou os canos." Ela acusou, estando correta.
"E você provavelmente tá certa." Respondeu, colocando a caixa no chão e arrastando-a para debaixo da cama com o pé. "Mas já faço isso."
Indo até a mesa ao lado direito da janela, Peter encarou sua infame exibição de conquistas feitas por May, exibindo troféus de feiras de ciências, certificados acadêmicos e exames escolares, todas conquistas que marcaram seus quinze anos. Um espaço do quarto que Harry e Gwen nunca lhe deixaram em paz por existir.
Mas ignorando os símbolos de exibicionismo, Peter olhou para o retrato colocado entre esses prêmios, reencontrando uma foto de anos atrás, onde sorria ao lado de May e Tio Ben no Rockefeller Center.
Erguendo o olhar, ele encarou o mural de provas na parede, mantidas por alfinetes e fita adesiva, mostravam notas perfeitas em matemática, química e biologia. – O que fosse letivo, Peter Parker havia dominado, era um mostruário de esforços que já não significavam nada de especial para ele.
Erguendo uma das folhas, Peter revelou anotações postas por trás dos exames. Suas novas responsabilidades escondidas sob seus antigos deveres. Desprendendo o papel, ele examinou sua investigação, semanas de pesquisa, das quais se tornavam provas suficientes contra o último maníaco fantasiado que havia encontrado.
"Agora quero ver qual vai ser seu truque, Beck." Murmurou, falando consigo mesmo.
"Peter! Não instalou a lâmpada também?"
"Tia May, eu disse que já faço!" Replicou, amassando os papéis no meio dos livros e currículos em sua mochila.
"Essa porcaria de gás tá falhando de novo." May reclamou no andar debaixo, batendo na lataria do gasômetro.
Pronto para salvar o dia, Peter organizou mentalmente suas tarefas, encontrando o primeiro obstáculo da manhã – sua porta, trancada com a mesma teia que usou minutos antes para evitar que May entrasse.
Forçando com repetidas tentativas inúteis, ele tentou agarrar a maçaneta dentro da massa viscosa. Apoiando um pé na parede, ele puxou com força, sentindo o material esticando ao preço da madeira rangendo. Frustrado, ele não sabia dizer se devia se orgulhar do quão eficaz sua fórmula se provava, ou se devia revoltar-se com a própria burrice por ter se trancado no quarto.
Peter só desistiu quando ouviu o estalo da parede se rachando. Ele poderia partir o lacre de teia, ao preço de levar o concreto junto, ou poderia esperar uma hora, tendo em visto que tinha só mais seis minutos restando.
Dependendo de uma terceira opção, Peter virou-se para a janela aberta, alinhada com a casa ao lado, ponderando fazer algo que já estava acostumado.
Sem ninguém que conseguisse enxergar no vizinho, ele segurou as alças da mochila e correu, saltando com as pernas agachadas, ultrapassando o pequeno vão da janela do segundo andar.
Caindo, Peter abriu seus braços na breve queda até o gramado. Batendo os pés na terra, usando o cercado que separava o terreno deles dos da Watson como apoio, em seguida investigou as ruas vazias, dissipando qualquer dúvida de que outros moradores tivessem o visto.
Limpando as solas dos calçados sujos, ele caminhou para frente da casa, tirando o celular do bolso, incapaz de segurar um sorriso.
Ele tirava proveito quando havia despretensão com seus dons. Podendo fazer coisas fantásticas que outros não imaginavam, mas além dos seus poderes, havia outra razão de alegria, justificada nas notificações de mensagens exibidas na tela de seu celular.
3 Mensagens Novas
De: GWENDY
20 Out. 2:57AM
'sacanagem ter perdido de ver a gente ontem, tava ocupado lambendo os sapatos do Jonah?'
Ele leu, subindo os poucos degraus da entrada.
De: GWENDY
20 Out. 2:57AM
'a galera do Flash brotou no fim'
Caminhando no deck antes da porta, o nome na mensagem caiu com um gosto amargo na boca dele.
De: GWENDY
20 Out. 7:06AM
'só não vacila se atrasando de novo'
Guardando o celular, Peter evitou responder a amiga. Não estava ignorando-a, talvez nem tivesse coragem de fazer uma coisa dessas; seria uma bronca sem fim, mas a melhor forma de não se atrasar seria deixando de se concentrar no aparelho.
Entrando em casa, logo após fechar a porta, os olhos dele caíram sobre os envelopes no chão do corredor. Pegando os papéis, ele folheou avisos de contas após contas ainda não pagas: advertências de energia, água e hipoteca; atrasos no gás, internet e os planos de antena.
"Vai se atrasar", May advertiu no fim do corredor. "Outra vez!"
Deixando as contas sobre a mesa na entrada, Peter se perguntava se May o chamava porque realmente se atrasaria ou se era por saber que ele havia se rendido à cruel curiosidade. Não importava. Mesmo que ela detestasse que ele visse aquelas contas, não era de seu feitio fechar os olhos para seus deveres.
Eles compartilhavam da mesma ignorância um com o outro. Sua tia fingia não saber que Peter olhava, já ele mentia que não notava o quão desesperada May estava. No fim eram péssimos mentirosos.
"Eu não acordei com o alarme, outra vez", ele disse, entrando na cozinha, forçando um ato que não se abalava pelas letras em vermelho que havia visto nas folhas.
"Conselho de quem sabe", May respondeu, percebendo que o sobrinho escondia algo. "Você não marca quinze alarmes. Seu sono ignora um, achando que pode acordar no próximo." Explicou, afagando-o pelo ombro. "Só serve para enganar seu sono."
Por outro lado, enganar a si próprio era o último dos problemas de Peter Parker.
"Pode até ser", passando ao lado dela, ele pigarreou uma risada. "Mas deixar de ser acordado pela solteirona mais cobiçada do Queens? Já me chamam de louco o suficiente."
"Sei." Levando uma mão sobre o próprio quadril, ela lhe alcançou uma pequena caixa, indicando com o polegar para a lâmpada queimada no teto. "Vou desligar o disjuntor."
"Não precisa." Peter respondeu, rasgando a embalagem e arrastando uma das cadeiras para o centro da sala. Zelosa, May segurou o assento pelo encosto, vendo o menino subir o banco. "E o senhor disse, haja luz e voilà! Luz se fez."
Encaixando o bico da lâmpada no teto, luz se ascendeu sobre a palma de sua mão segurando o bulbo.
"É. Só uma pena que no oitavo dia o Senhor não olhou o encanamento." May lamentou, alcançando o sobrinho para ajudá-lo a descer. "E ao nono dia Ele não pagou o gás."
"Tem certeza?" Peter indagou, guardando a cadeira. "Parece o tipo de coisa que Ele faria no novo testamento."
"Volta só às onze hoje?" Ela perguntou, correndo entre pautas no pouco tempo que o sobrinho tinha.
"Eu..." Com sua tia voltando à mesa, Peter distraiu-se com ela servindo café a si mesma, segurando com um aperto trêmulo o bule, esquecendo de segurar o recipiente fumegante sobre sua tampa, quase derramando o líquido antes que o deixasse escorrer para caneca. "Acho que sim." Respondeu, soando mais incerto em sua resposta do que deveria. "Sabe que quem dita a hora é o chefão do bigode de vassoura—"
"Shesh!" Ela o cortou, apoiando o bule na mesa. "Sem falar mal do Jonah. Ele é severo? Sim. Mas também é compreensível."
Peter pensou se falavam do mesmo J. Jonah Jameson.
"É só conversar. Com o horário que você tem feito, ele vai entender." May assegurou, passando sua atenção para a torta de amora sobre a mesa, separando um pedaço dela para o sobrinho.
Ela estava errada. Jonah não se daria ao trabalho de entender. – Porém, não importava, ele não era mais um empregado de Jameson, e por enquanto, ela não precisava saber desse detalhe. Com contas e dívidas não sumindo tão cedo, Peter decidiu que mentir sobre seu trabalho era o melhor a se fazer.
Significava menos preocupações para tia e menos tempo gasto inventando desculpas para as noites em Manhattan.
"Depende do que é pra fazer", falou cauteloso, agachando-se para abrir as portas abaixo da pia, começando a estudar a bagunça no encanamento.
"Jantar com as Watson." Ajeitando o pedaço, ela estudou Peter com o canto da visão, olhando-o trabalhar na selva de canos. "Se não aparecer hoje, a Anna e a MJ vão pensar que você realmente tem medo de mulheres."
"MJ?" Perguntou, ignorando a acusação da tia.
"É o apelido da Mary Jane. Ela disse que eu poderia chamá-la assim."
"Ela se chama de MJ?" Persistiu no apelido, ignorando o assunto sobre sua presença na janta.
"Se chama sim. Combina com o caráter animado dela." May disse contente, dando de ombros para o desdenho do sobrinho, guardando o pedaço em um pote, garantindo que estava bem fechado.
Com traços de água correndo por seu pulso, Peter apertou o registro, escondendo sua força bruta de May. Não demorou para entender que o problema não estava nos canais. Ele teria que descer no porão mais tarde.
Se erguendo e limpando as mãos, fechou o armário da pia com o calcanhar, ponderando sobre o caráter animado que May exaltava.
Sua tia tinha um fraco: pessoas que lhe tratavam como jovem. Por outro lado, havia um desdenho passivo-agressivo com quem lhe considerava velha. Desde o dia em que Gwen havia lhe chamado de senhora, tentando ser educada, ela tinha um pé atrás com a amiga do sobrinho.
"Eu posso dar um jeito. Depende do Jonah." Mentiu, guardando o pote com a torta na mochila. "A torta é pra me fazer aparecer?"
"Faz parecer fácil conseguir te comprar."
"Vai ter pego no meu ponto fraco se meter um bolo de banana." Peter comentou, beijando o lado do rosto da tia, em seguida caminhando em passos rápidos para a saída.
"Peter, sem correr, vai sujar tudo com a torta." May praguejou. "Tá agasalhado?"
"Tô sim, pode deixar!" Disse, evitando ver as contas na mesa ao retornar pelo corredor, encontrando do lado de fora o sol da manhã iluminando o Queens, lutando para transparecer entre nuvens carregadas da estação.
Mas mesmo que desviasse os olhos de algo como May queria, haviam outras coisas para lembrar de seus deveres. Vendo o velho carro estacionado na entrada, Peter aceitou, não havia responsabilidades se fugisse dos problemas e tão pouco maturidade se justificasse seus erros em vez de enfrentá-los.
Caminhando as poucas quadras até a parada, ele teve seus pés nas calçadas e as mãos nos bolsos do agasalho, tirando proveito de uma manhã de comodidade, com música ressoando pelos fones de ouvido.
"Ahh, are you safe asleep? Can't you hear—"
Eram poucas pessoas nas ruas, mas aqueles que o olhassem enxergariam só um garoto normal, sibilando letras em harmonia com a canção, até ser abruptamente cortada, com o toque de uma ligação inesperada. Olhando a tela, de instinto ele atendeu o número chamando.
'Você já tá na esquina?' Gwen perguntou, apreensão carregada em sua voz pela ligação.
"Só um minutinho e já chego." Afirmou confiante, abrindo os ombros e estufando o peito enquanto respondia a alguém que nem podia enxergá-lo.
'A gente tá duas quadras daí. Não esqueceu nada?' Ela continuou o interrogatório, com sua voz quase abafada pelo som do ônibus na estrada e as dezenas de conversas ao redor dela.
"Tá duvidando muito, Gwendolyn."
'Eu não gosto quando me chama assim.' Ela disse, autoritária mesmo pela linha. 'Vou guardar um lugar.'
Poucas palavras foram precisas para Gwen fazê-lo mergulhar em um longo silêncio, fazendo-o se sentir mais desconectado do mundo do que quando escalava o topo do Chrysler.
'Peter?' Ela o chamou.
"Aqui. Eu só—"
'Tô te vendo. Pelo menos eu acho que é você. Não tô acostumada a te encontrar no horário.' Ela disse, poucas quadras dele, conseguindo enxergá-lo do grande ônibus aproximando-se na estrada. 'Roupas limpas. Cabelo em ordem.'
Não poderia culpa-la pelos comentários. Peter também estava surpreso. Dessa vez ele não só ignorou seu hábito de repetir vestes do dia anterior, como também tinha sua cabeleira, normalmente desgrenhada, arrumada o bastante para não ser a bagunça dos outros dias.
Porém, dessa vez ele havia conseguido, mesmo que em tropeços, tudo estava organizado dentro da medida do possível.
'E o trabalho do Dr. Connors tá dentro da mochila.' Ela disse, sem imaginar o que se seguiria.
"O trabalho do Connors." E tão simples assim, o dia de Peter era virado ao avesso.
O ronco do ônibus advindo o paralisou na calçada. Não havia esquecido de fazer seu projeto de biologia, mas entre as coisas que pegou em seu quarto, o trabalho de Connors era algo que tinha deixado passar.
E o professor havia lhe falado, "sem mais segundas chances". As palavras eram o bastante para Peter mentalizar o caminho até sua casa. Três quadras para correr, mas só uma esquina até o transporte chegar.
Ouvindo Gwen lhe chamando, ele deu as costas. "Faz o Hickey segurar um minuto." Suplicou, desligando.
Subindo o gorro do agasalho, ele escondeu seu rosto, sem permitir que a pressa desse lugar ao cuidado, ao que se virou para travessas do bairro. Entre as moradas do subúrbio, ele saltou, jogando seu corpo, abusando de força e agilidade para cruzar quadras antes feitas em minutos, agora em segundos.
Correndo jamais conseguiria pegar o projeto e voltar ao ônibus em tempo, mas com um atalho entre telhados, tinha uma chance.
Connors não podia ameaçá-lo com sua média, mas suas notas nunca foram o bastante para fazer Curt ser fácil com Peter, e perder um trabalho, somando aos atrasos, era tudo o que o professor precisava. – Parecia até uma rixa. Uma obra de um fator de sua vida chamada Sorte dos Parker. Um termo que havia criado para definir a forma que seus dias não eram escritos em linhas tortas, mas sim rabiscados em traços sem sentido.
May ligava e desligava o interruptor, olhando a lâmpada recém instalada ascender e apagar.
Seus olhos sobre a luz que vinha e desvanecia, carregavam um peso que a fazia parecer sobre um transe. Parada na entrada da própria cozinha desolada, poucas coisas restavam a ela além de um mosaico de ansiedades em sua cabeça, e o clique do interruptor, que parecia acompanhar o ritmo das batidas de seu coração palpitante.
Os momentos que se tornavam difíceis eram os que não tinha ninguém com ela, pois era quando sobrava espaço para os pensamentos que nunca gostava de dar lugar rastejarem em sua consciência.
Liga e desliga. A lâmpada brilhava e desvanecia.
Os dias com Ben, ela ansiava para que pudesse reviver essa época. Quando insistia ao marido nas brigas desnecessárias de casal que a cozinha era muito apertada três pessoas ainda mais com convidados, mesmo que recebem poucas visitas.
Liga. A luz voltava.
E agora os olhos dela se abriam para enxergar algo diferente. O cômodo se tornava desconfortável, como se faltasse algo, apenas com ela e Peter. Parecendo então um lugar abandonado quando havia só uma pessoa.
Desliga. A luz partia.
May pensou o quão longe sua solidão a levava. Era um tipo de sensação que não era a primeira vez que sentia, tampouco achava que seria a última. Essa angustia lhe acompanhava, um constructo de insegurança feita para si mesma.
Antes que ela ligasse o interruptor novamente, May foi desperta por um estrondo súbito na entrada da casa. Devaneios que tentou se livrar logo tornaram-se lapsos que lhe faziam reviver uma noite de anos atrás. Do momento que a paz em sua vida foi invadida por batidas em sua porta.
"May. Sou só eu!" Peter berrou sem dar espaço entre as palavras, pulando degraus da escada para ganhar tempo. "Acredita que esqueci o projeto de biologia?!"
No segundo andar, Peter agarrou a fechadura e jogou seu corpo contra a porta, em um impacto rompendo o lacre de teia e estourando a maçaneta junto.
"Só o que me faltava." Disse, com o botão do trinco rolando pelo chão.
Cruzando o caminho até a escrivaninha, Peter ergueu o notebook trincado, tirando de dentro os papéis do projeto. Pegando as folhas amassadas, escritas a mão invés de digitalizadas como Connors havia pedido, com páginas ainda não terminadas, ele dobrou sem dar importância na mochila, decidido em terminar o restante no ônibus.
"Falou!" Berrou para tia, saindo pela porta antes que pudesse ouvir qualquer protesto dela.
Fazendo uma última trilha até a parada, Peter parou com as acrobacias uma esquina antes da estação, mas sem dar tempo ao fôlego, manteve a corrida ao ver o ônibus partindo do terminal. Tentando fechar a distância, ele enxergou alunos que se erguiam dos assentos para assisti-lo em sua perseguição atrás do transporte.
Peter continuou correndo, ignorando as coisas que passavam em sua cabeça sobre o que falavam dele.
Mas como uma piada de mal gosto na manhã, antes que Peter fechasse a distância, sirenes da polícia ecoaram quadras à frente do ônibus, veículos abriam passagem na via para que viaturas que pareciam surgir do nada cruzassem a estrada, passando tão ligeiras que as luzes vermelhas e azuis sobre os carros logo dissipavam como borrões na direção que iam.
Deveria ser simples não seguir a mesma direção que eles, era um costume quase instintivo evitar o perigo. Se as ignorasse nesse instante, ele ainda chegaria no colégio mesmo sem transporte, antes que as portas se fechassem no começo do primeiro período.
Sem deixar de correr, o ônibus de Peter seguiu para uma direção e ele para outra.
Desviando seu caminho, Peter se fez mais uma vez oculto nas sombras dos becos do Queens, saltando, seus pés trocaram o concreto das ruas, pelas paredes das casas, livrando-se das vestes para revelar o uniforme vermelho e preto que usava por baixo.
Subindo os telhados, o menino tirava os tênis, calças e enfim o abrigo, mas jamais deixando as vestimentas voarem para longe, sempre as agarrando e as colocando para dentro da mochila, sem o direito ao luxo de simplesmente poder comprar roupas novas.
No segundo pulo, ele agarrou os lançadores e os colocou no pulso. Ainda incerto sobre seu caminho, ele não sabia o que escolher, preso no dilema que no fim deveria ser uma decisão simples.
Em sua queda, disparou um fio de teia que serpentou os céus até alcançar uma das casas, agarrando-se na linha, como um pêndulo vivo, Peter foi jogado aos ares poucos metros antes de cair ao chão, partindo na direção que ainda ouvia as viaturas seguirem. Lembrando que as escolhas cujo achava ser as mais simples em sua vida acabavam se provando as mais fatídicas.
Dar as costas para um problema no presente poderia se tornar o próximo grande erro de amanhã.
'Tá bom, como se eu não soubesse o que eu ia escolher.' Trajando a máscara vermelha, Peter Parker sentiu uma última vez o vento correr contra seu rosto, bagunçando seus cabelos antes ajeitados ao que seus olhos castanhos eram escondidos por trás das grandes lentes brancas. 'Mas desobedecer à constituição logo cedo é muita falta de vontade de procurar trabalho.'
Em uma longa teia, o Homem-Aranha teceu seu caminho na direção de sua responsabilidade. Sua imagem entre as nuvens como um espectro escarlate contrastando no azul cinzento da manhã. Seu poder implicando dever.
'Eu vou botar esses caras pra justificar minha falta.'
Agora era sua hora e nada conseguiria pará-lo.
