Boa leitura!


Capítulo Vinte e Cinco

Meu Vizinho Super-herói

Por sorte o hospital não estava muito cheio quando chegamos lá, rapidamente Edward preencheu sua ficha e fomos encaminhados para a triagem. Ele queria que eu esperasse na recepção, mas claramente fui atrás e expliquei o caso para a enfermeira de plantão.

— Sua namorada está certa, uma mordida precisa ser avaliada — a mulher disse, já fazendo uma primeira higienização da ferida antes de mandar Edward para o atendimento médico, ele fez uma careta ou outra durante este processo, mas parecia estar aguentando bem.

— Noiva — corrigi a mulher automaticamente.

— Jura? — Ela sorriu para mim. — Já marcaram a data?

— Não, ainda não — murmurei e mudei de assunto. — Foi uma mordida muito feia?

— Não, não — a enfermeira negou e para Edward disse. — Seu braço estará novo em folha em breve.

Ele olhou para a mordida, franziu o cenho e perguntou:

— Jogo futebol americano, isso vai atrapalhar em algo?

— Não por muito tempo, como falei, não foi uma mordida tão feia. Mas a médica vai lhe orientar certinho sobre tudo, talvez alguns dias afastado. — Ele concordou com um aceno de cabeça, mas não estava contente. Quando a enfermeira terminou a assepsia do braço dele, disse que poderíamos voltar para a sala da recepção e aguardar pela médica.

Fizemos isso e na mesma hora que a médica chamou por Edward uma das atendentes da recepção também o chamou.

— Vai pro consultório, vou ver o que é na recepção — falei para ele.

— Não vai apontar uma arma pra minha cabeça e me forçar a entrar naquele consultório?

— Se você parar de coperar vou sim. — Ele rolou os olhos e foi até o consultório, eu segui até o balcão da recepção e perguntei para a atendente. — Oi, estou com Edward Masen, ele foi para a consulta já, você o chamou?

— Olá, sim, falta uma informação na ficha cadastral dele. — Apontou para o documento sobre sua mesa. — Um número para contato de emergência, pode ser o seu?

Eu paralisei, poderia ser o meu? Quer dizer, um número para contato de emergência era algo sério, literalmente um contato para que o hospital pudesse ligar e informar se algo tivesse acontecesse com Edward. Meu contato de emergência era papai Aro, uma vez que ele checava seu celular com mais frequência do que Charlie.

— Senhorita? — a recepcionista chamou por mim.

— Pode ser — concordei, engolindo em seco. O número não seria eterno, Edward poderia pedir a substituição quando quisesse.

— Aqui. — Ela me entregou o documento e uma caneta, eu rapidamente anotei meu nome e número e devolvi tudo para ela. — Obrigada.

Assenti e me virei para deixar o balcão da recepção, foi quando o vi. Não via aquele cara há anos, muitos e muitos anos, mas não esqueceria seu rosto nunca.

Caius… Meu pai biológico.

Eu travei no lugar que estava, o observando entrar no hospital. Meio baixinho, cabelos loiros escuros curtos e ondulados, pele clara, olhos castanhos e uma tatuagem de fogo, que sempre achei feia, em seu pescoço.

O homem não estava sozinho, andava junto com uma mulher branca de cabelos cacheados, e junto deles, no colo de Caius, estava uma garotinha. Uma menina, que não devia ter mais do que cinco anos.

Os cabelos dela eram parecidos com os de Caius, eu não conseguia ver o rosto dela direito porque a garota estava com ele apoiada sobre o ombro do homem a segurando, mas parecia ter olhos azuis como a mulher andando com eles. E eu soube, ninguém precisou me falar nada, aquela criança era filha de Caius.

Uma menina, ele tinha uma filha. Uma filha que ele estava cuidando, levando ao hospital, uma filha que ele fazia carinho nas costas e beijava sua cabeça, uma filha que ele não abandonou, uma filha que não era eu.

O olhar de Caius se encontrou com o meu, ele parecia confuso. Talvez por eu estar o encarando, talvez por eu ser tão parecida com alguém que ele um dia conheceu — Renata, no caso — mas, sabia que ele não lembrava de mim e não me reconheceria já adulta, tinha sido muito fácil para ele me esquecer, abrir mão de todos seus direitos e deveres quando fui parar em um lar adotivo quando tão pequena.

A menina nos braços dele tossiu, fazendo com que rapidamente Caius voltasse toda sua atenção para ela. Eu despertei ali, parando de o encarar e indo atrás de Edward.

X

A médica receitou uma pomada para Edward passar no local machucado antes de fazer um curativo simples, um antibiótico para ser ministrado em casa, uma aplicação de vacinas e outras medicações para o hospital. Eu o acompanhei durante tudo, mas não conseguia esquecer que Caius estava ali naquele mesmo hospital com sua família feliz, a família que ele tinha escolhido ficar.

Me encontrava tão enjoada e nervosa, que cogitei parar no consultório da médica que tinha atendido Edward e pedir por um calmante. Só queria dormir e esquecer que tinha visto Caius, também esquecer que Renata sumiu da minha vida outra vez.

— Satisfeita? Eu não vou morrer — Edward falou sorrindo quando foi dispensado, já tinha sua receita em mãos, um curativo no local da mordida, e suas medicações e vacinas realizadas, a médica também tinha achado prudente que naquela semana ele não treinasse ou jogasse para se recuperar totalmente, até porque a mordida ainda iria passar por todo um processo de cicatrização que poderia ser doloroso. — No máximo me torno um super-herói com o incrível poder de ronronar — brincou.

Eu não ri, apenas o abracei, enfiando meu rosto no seu peito. Queria enterrar meu corpo no dele, queria algo que me confortasse naquele momento e Edward fez isso me abraçando de volta.

— Ei, desculpa, você ficou mesmo preocupada. Estou bem, vou me cuidar direito, prometo.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de sabão em sua roupa, mas também procurando me acalmar. Porque sim, não estava nervosa apenas por Caius surgir, mas por Edward ter se machucado também.

— Não se preocupa, vou virar o Homem-Gato, mas prometo não te perseguir, Ratinha.

Eu ri ao escutar aquilo, mesmo que também quisesse chutar a perna dele uma segunda vez.

— Vamos?

— Não — respondi.

Apertei mais meus braços ao redor dele, não estava pronta para o deixar ir, ainda não.

X

Na manhã de domingo acordei primeiro que Edward e fui para a cozinha do apartamento dele preparar café, eu tinha dormido bem pouco aquela noite, pensando em Caius, e precisava de cafeína para lidar com o dia que teria. Era final de semana, mesmo assim iria trabalhar como babá, cuidando de um garotinho de 8 anos que tinha energia infinita e adorava quando eu jogava basquete com ele.

— Bom dia, senhora Masen — Peter entrou na cozinha, eu devolvi o bom dia falando baixo, tentando não pensar sobre como ele me chamou. — Como está seu futuro marido?

Quando Edward e eu voltamos do hospital, depois de pararmos para compras necessárias de seus medicamentos e materiais para curativos na farmácia, contamos a história do gato para Peter e Charlotte que estavam no apartamento 505 assistindo TV na sala. Nós até comemos pizza com o casal, depois, fiz Edward ir dormir para que o corpo dele descansasse e pudesse se recuperar plenamente.

Eu nem tinha passado no meu apartamento, então na noite anterior tinha pego roupas de Edward para vestir e aquela manhã continuava com elas. Uma camiseta do Green Day e uma cueca samba canção que apertei na cintura com um nó e ficava comprida como uma bermuda em mim.

— Ainda dormindo, teve uma noite tranquila. Nada de febre, o que é ótimo. — Terminei com o café e entreguei um copo para Peter.

— Opa, valeu.

— Eu preciso ir trabalhar, você vai passar o dia aqui? Edward nem queria ir pro hospital, é capaz de não tomar os remédios. Pode ficar de olho nele?

— Vou ficar por aqui e forço ele a tomar o remédio, fica de boa — respondeu. — Qualquer coisa ameaço trazer outro gato para terminar o serviço.

Ouvir aquilo me fez rir.

— Obrigada, Peter. Vou lá ver como ele tá. — Segui para o quarto de Edward levando café para nós dois, caso o estudante de arquitetura já tivesse acordado.

Abri a porta com cuidado para não derramar nada no chão e vi que meu noivo de mentirinha estava acordando, rolando na cama e resmungando quando ficou por cima do seu braço machucado. Me aproximei, colocando as xícaras na mesinha ali perto e sentei ao seu lado.

— Bom dia, Emo! — saudei, imediatamente tocando em sua testa para ver se ele estava quente, o que não era o caso. — Como está se sentindo?

— Uma bosta — reclamou, ainda de olhos fechados. — Acho que todos esses remédios e a vacina mexeram com meu estômago, estou enjoado.

— E o braço? — Mexi em seus cabelos, percorrendo lentamente meus dedos pelos fios ruivos.

— Doendo ao toque. — Suspirou e abriu seus olhos, piscando um pouco até se acostumar com a luminosidade. — Não acredito que depois do jogo foda de ontem eu vou ter que me afastar do próximo. Bendita hora que fui ajudar a pegar aquele gato. — Ainda resmungando ele sentou na cama, apoiando a cabeça em meu ombro.

— Você vai ficar bem. — Afaguei suas costas. — Eu trouxe café, vai querer?

— Não, não quero comer ou beber nada. — Ele voltou a deitar, daquela vez colocando o braço machucado cuidadosamente sobre mim. — Deita, vamos dormir mais é domingo.

— Eu tenho que ir trabalhar, te falei.

— Cancela.

— Não posso — falei, mas deitei um pouquinho com ele, que já tinha fechado seus olhos novamente. — Promete que vai fazer tudo que a médica mandou? Peter tá aí, disse que não vai sair hoje, qualquer coisa pede ajuda dele. — Toquei em seu rosto.

— Não preciso de babá, Bella.

— Promete?

— Ok, ok, prometo. Vai vir pra cá quando voltar do trabalho?

— Vou. — Beijei sua bochecha e levantei, tirando seu braço de cima de mim com delicadeza. — Qualquer sinal de febre vai pro hospital, certo? — Peguei meu café.

— Pode deixar. — Abriu seus olhos. — Você vai roubar essa camiseta também?

— Já é minha. — Pisquei para ele.

— Deita aqui de novo, deixa eu tirar ela de você.

Meu rosto esquentou ao ouvir aquilo.

— Sem sexo até você estar melhor, Homem-Gato.

X

Não contei para meus pais, ou Edward, sobre ter visto Caius. Entretanto, não aguentei e contei para meus amigos, mandei uma longa mensagem detalhando tudo quando tive um tempinho no trabalho, ou seja, distrai o garotinho com filmes da Disney.

Alice: Você quer procurar por ele?

Jasper: Por favor diz que não…

Rose: Jasper!

Jasper: O quê? Só não acho que ela deva ir atrás desse cara, que bem irá fazer?

Bella: Não, eu não quero ir atrás dele. Mas, sei lá, aparentemente tenho uma irmã por aí. Vocês no meu lugar iriam procurar por ele para conhecer ela? É uma criança, não tem culpa de nada, e vocês sabem como eu amo crianças.

Jasper: Bella, ok, é uma criança e não tem culpa de Caius não ter cuidado de você. PORÉM, se for mesmo filha dele você não conseguiria ter contato com ela sem ter contato com ele, e isso te atingiria, sabe disso. Poxa, olha só, a Renata já se afastou, você já está mega chateada por isso, vai mesmo querer tirar mais um fantasma do seu passado?

Alice: Acho que concordo com Jasper nessa…

Bella: Rose? E você?

Rose: É, também concordo… Quero dizer, se for mesmo filha dele é sua irmã biológica, mas não irmã no sentido real da palavra, sabe? Você é mais nossa irmã do que dela. Não acho que essa aproximação seria boa para você, também tem a hipótese dele te afastar e nem querer que essa aproximação aconteça.

Rose: E sobre fantasmas do passado, isso também se aplica ao Demetri. Por que insistir nesse cara de mil anos atrás quando você e Edward claramente gostam um do outro?

Sequer respondi mais as mensagens, apenas deixei o celular de lado e chamei o garoto para jogar basquete.

X

Quando deixei o trabalho, já no final da tarde, fui direto para meu apartamento. Precisava de um banho, também pegar algumas roupas ali para levar até a casa de Edward e assim conseguir sair direto de lá na manhã seguinte para malhar e depois ir para a faculdade.

— Oi, como você está? — Alice apareceu no meu quarto enquanto eu arrumava tudo.

Sabia que estávamos só nos duas em casa, já que o namorado dela estava trabalhando e Rose no apartamento de Emmett. Afinal, minha amiga agora tinha um gato com seu noivo, um gato que eles batizaram de Yoda porque o McCarty era um grande fã de Star Wars.

— Sei lá, cansada, foi uma noite difícil pensando no Caius.

— E sobre Edward? — Alice sentou na minha cama.

— O que tem ele? — Voltei a arrumar minha mochila, tirando os olhos de Alice.

— Bom, como tá seu coração sobre ele? — Eu bufei, ela insistiu. — Bella, você tá gostando pra valer dele, né?

— Não.

— Está sim. — Tocou minha mão, fazendo com que eu a olhasse por fim.

— Eu tô apaixonada por ele, Alice — murmurei, finalmente colocando aquelas palavras no mundo em voz alta.

Afastei minha mochila e sentei ao lado dela, que prontamente me abraçou.

— Mas eu não quero isso, estar apaixonada por ele, é um erro.

— Por quê?

— Ele não gosta de mim.

— Bella. — Ela suspirou, parecendo cansada com algo. — É claro que ele gosta de você.

— Por que acha isso?

— Pelo amor de Deus, amiga. — Riu um pouco. — Você realmente não enxerga? O jeito que ele te toca, que olha pra você, o cara está apaixonado.

Alice podia estar certa? Ele gostava de mim?

— Você acha? — perguntei falando bem baixinho.

— Amiga, com certeza. — Ela mexeu em meus cabelos. — Vocês deveriam conversar sobre sentimentos.

Cogitei aquilo por alguns segundos, porém lembrei de algo de extrema importância.

— Ele não quer ter filhos, enquanto eu quero.

Alice tirou a mão dos meus cabelos e fez uma cara decepcionada.

— Sério?

— É, nada de filhos para ele. Então, se Edward gosta mesmo de mim, como você supõe, não é o suficiente, já que não queremos as mesmas coisas para nosso futuro.

— Acho que você tá certa — Alice acabou falando. — Mas talvez fosse realmente bom ter aquela conversa…

— Não, acho que você só caiu na pilha da Rose, claro que ele não gosta de mim. — Fiquei de pé, voltando a arrumar minhas coisas.

— Só que você gosta dele, está cada dia mais envolvida com esse cara, vai só se machucar mais quando tudo isso acabar, Bella.

Engoli o choro e dei de ombros.

— Vou ficar com ele o máximo possível, quando for a hora de sofrer eu faço isso, agora não. — Fechei a mochila. — Por favor, por favor, por favor, não conta pra ninguém que eu estou apaixonada — implorei.

— Fica tranquila, não vou contar.

— Certo, até amanhã.

Abracei Alice, peguei minha mochila e saí do nosso apartamento rumo ao de Edward. Toquei a campainha e quem abriu a porta para mim foi Charlotte, ela, Peter e Benjamin estavam na sala jogando video game e me informaram que o Masen estava no quarto dele.

Fui até lá e Edward estava mexendo em seu celular, rindo para algo que via ali.

— Ei! — exclamou quando me viu.

— Oi, como você tá?

— Bem, passei a maior parte do dia dormindo.

— Nada de febre?

— Não, tudo sob controle.

Larguei a mochila no chão e fui para a cama com ele, deitando ao seu lado, Edward mexeu em meus cabelos e me perguntei se Alice não estava mesmo certa. Ele sentia algo por mim? No entanto, o questionamento durou até ele voltar a pegar seu celular, focando a atenção no aparelho.

— O que você está vendo aí? — perguntei.

— Ah, tô falando sobre um trabalho da faculdade com a Chelsea.

Aquilo jogou um balde de água fria em mim, ele estava rindo com ela antes? Edward estava gostando dela?

X

De alguma forma acabei aquela noite convencida a assistir uma série de zumbis com Edward, Peter, Charlotte, Benjamin e Alexander namorado do jogador. Ok, eles que conheciam a história por conta do jogo que era baseada diziam que não se tratava apenas de zumbis, que era um drama muito bom e etc, mas eu tinha medo de zumbis.

— Você vai amar The Last of Us, Bella — Charlotte disse do chão, ela e Peter estavam deitados lá. Eu estava sentada no sofá com Alexander e Benjamin, Edward sentado também no chão perto dos meus pés, a cabeça apoiada em um dos meus joelhos, enquanto eu mexia nos seus cabelos.

— Não tenho tanta certeza, acho mesmo é que só vai me render pesadelos.

Eu mal tinha acabado de falar aquilo quando Edward puxou minha mão que estava em seus cabelos para a sua. Dei um mínimo sorriso, assistir qualquer série ou filme assustador com ele segurando minha mão deixava tudo menos amedrontador.

A série começou pouco depois, primeiro eu fiquei morrendo de medo, mas depois acabei me vendo apegada aos personagens e comprovando o que tinham dito. A parte do drama era realmente boa e quando o episódio acabou já me via louca para assistir mais.

Quando Edward e eu fomos para seu quarto implorei para ele me dar spoiler de tudo que acontecia no jogo, precisava saber logo o que poderia ou não acontecer na série. Ele tentou me enrolar e não contar, dizendo que aquilo estragaria minha experiência, mas ameacei pegar Yoda com Emm e Rose para atacá-lo de novo e o Masen contou tudo.

E mesmo depois que ele terminou de contar os enredos continuei deitada entre suas pernas, a cabeça apoiada em seu peito, com minhas mãos unidas as suas. Era tão bom, eu desejei nunca precisar me afastar dele. Cogitei nunca ter filhos se aquilo significasse ter Edward comigo, ou talvez… Alice e Rosalie falavam que ele gostava de mim, se fosse verdade eu não poderia fazê-lo mudar de ideia quanto a termos filhos?

— Edward — comecei a falar, saindo de cima dele, sentando ao seu lado, meu coração disparado a mil por hora.

Era isso, eu iria falar. Diria para ele que estava apaixonada, que queria que fôssemos um casal de verdade. Que eu poderia fazê-lo ver que ter filhos seria algo legal. Ele aceitaria, nós nos casaríamos e seria tudo lindo.

— O quê? — Olhou para mim.

E tudo se dissipou quando outro rosto, não o dele, veio a minha mente. Caius não tinha dado a mínima para a minha existência, desde o começo, e se eu convencesse Edward a ter filhos comigo, mas ele depois os desprezasse como aconteceu comigo? E se ele acabasse como o próprio pai?

Eu não queria isso para meu futuro, não queria que o pai dos meus filhos, que eu queria adotar, não estivesse 100% dentro do plano. Queria uma família feliz, não uma família forçada.

— Bella?

Eu pisquei ao ouvi-lo me chamar, voltando ao presente. E soube que eu não falaria nada sobre estar apaixonada, não quando estar com Edward significava trilhar caminho por um futuro incerto.

— Vi meu pai biológico no hospital ontem — contei e no mesmo instante comecei a chorar.

— O quê? — Edward se sentou. — Ele falou com você? — Me abraçou apertado e eu chorei mais em seu ombro.

X

Edward estava desanimado por não poder jogar na noite de sexta-feira, seu braço estava melhor, mas o médico do time também o manteve afastado para preservar sua saúde. Sendo assim, ele passou o jogo inteiro no banco e de onde eu estava conseguia ver suas reações de puro descontentamento com o time que perdeu naquela noite.

— Vamos para algum lugar, você precisa se divertir — falei quando o encontrei na saída do vestiário após o jogo.

— Nem posso beber — reclamou. — Ainda estou tomando remédios.

— Oi, filha. — Charlie apareceu, sorri e o abracei.

— Oi, pai!

— Ei, foi só um jogo, não precisa ficar tão emburrado — meu pai falou para Edward, que suspirou e se limitou a assentir com um aceno de cabeça. — Vamos jantar lá em casa, Aro não pode vir por estar trabalhando, mas iria cozinhar e ele sempre cozinha para um batalhão.

Eu sabia que meu irmão estava passando a noite em uma festa do pijama, o que me chateou, depois de cruzar com Caius e a filha dele, estava morrendo de saudades de Jake. Ainda assim, seria bom ver papai Aro e passar um tempo com ele e Charlie.

— Vamos? — perguntei para Edward.

— Claro, você dirige. — Entregou a chave do seu carro para mim.

Eu concordei e fomos para o estacionamento, seguindo o carro do meu pai para fora do campus. Papai Aro ficou extremamente animado quando me viu, dizendo estar sentindo minha falta, mesmo que tivéssemos tomado um rápido café no meio da tarde daquela sexta-feira.

— Como foi o jogo? — perguntou de Edward para Charlie quando já estavamos ao redor da mesa para jantar.

— Perdemos, não foi o dos melhores — papai Charlie disse em um suspiro. — Mas ainda temos chances de chegar à final da temporada, não vamos entregar os pontos agora.

— E semana que vem você já poderá jogar — animei Edward.

— Seu braço está cicatrizando bem? — Aro perguntou para ele.

— Sim, sim, nada grave, mas ainda estão me proibindo de jogar.

— Ordens médicas, garoto — Charlie falou.

— Teve algum olheiro no jogo de hoje? — papai Aro perguntou servindo-se com mais vinho.

— Não, mas teremos um no jogo de Reno semana que vem, um cara do Las Vegas Raiders estará lá e quer conhecer Edward — o treinador respondeu animado.

Edward forçou um sorriso, se forçando também a continuar a comer. O pai dele continuava na Europa, mas sabíamos que quando Eleazar voltasse também iria fazer Edward conhecer figurões do futebol americano para que seu filho arranjasse um contrato que ele aprovasse.

— É um bom time, você se sairia muito bem lá, Edward — Charlie completou.

— É, vamos ver — Edward murmurou.

Cutuquei o pé dele com o meu, fazendo-o sorrir um pouco, sem forçar daquela vez. Queria que ele se sentisse reconfortado por mim de alguma forma naquele momento, mas não poderia o abraçar ou beijar, pois levantaria dezenas de suspeitas nos meus pais, sobre o nosso relacionamento de mentira, e sobre porque eu estar o consolando.

Antes que o assunto futebol americano continuasse, eu mudei de tema, fazendo Aro falar sobre como estavam suas aulas naquele semestre. Por sorte, ele embarcou nessa e ninguém mais falou sobre futebol americano.

Mais tarde aquela noite Edward e eu voltamos para nosso prédio com sobras do jantar e sobremesa, cada um carregava um embrulho com comida, enquanto tinhamos nossos dedinhos mindinhos enrolados um ao outro. Parecia estar tudo tranquila pelo prédio, até chegarmos ao terceiro andar e vermos que lá estava rolando uma discussão no corredor entre a moradora do 404 e o morador do 304, quem também estava por ali era a nossa irritante síndica a senhora Wilker.

— Quero que isso seja resolvido agora! — o cara exclamou.

— Olha a hora, ninguém vem resolver isso agora — a mulher disse.

— Ih, problema, corre — Edward cochichou para mim, tentando passar despercebido, mas eu ri e isso chamou atenção para nós dois.

— Do que está rindo, senhorita Volturi? — a síndica questionou, olhando para mim com cara de poucos amigos.

— Nada não — neguei rapidamente. — Vamos, meu bem. — Puxei Edward para longe da confusão.

X

Eu não conseguia tirar Renata da cabeça, principalmente naquela quinta-feira de janeiro quando fiquei sozinha em casa. Alice e Rosalie estavam em aulas até tarde, Jasper trabalhando e Edward treinando, animado que poderia enfim jogar naquele final de semana.

Como não tive de trabalho na lanchonete, ou como babá, naquela tarde e começo da noite, fiquei no apartamento encarando o teto, pensando em Renata, Caius e na filha dele. Mas, principalmente em Renata, mandei algumas novas mensagens, implorando que ela me respondesse, contasse o que estava acontecendo, só que não obtive resposta alguma.

— Quer saber, que se foda — falei para mim mesma e levantei da cama, indo calçar meus tênis e pegar uma jaqueta.

Iria sair, iria atrás de Renata no trabalho dela, se ela estivesse lá não teria como escapar de mim. Saí de casa com pressa, mas me contive para não conduzir a moto de maneira imprudente até o shopping aonde ela trabalhava.

Quando cheguei ao local voltei a me apressar, ignorando as filas para os elevadores e subindo até o segundo andar de escada. Renata era gerente de uma loja de roupas, eu já tinha ido ali outras vezes e sabia bem onde ficava.

Entrei na loja e logo a vi, estava conversando com uma das vendedoras, porém parou de falar quando me viu e empalideceu um pouco. Eu segurei o choro, apenas fiz um gesto indicando o lado de fora e fui para lá, não queria acabar chorando, ou até mesmo gritando, na loja que ela trabalhava.

Um minuto depois Renata saiu, ela tentou tocar no meu braço, mas o afastei.

— A gente precisa conversar — falei, a analisando, não parecia machucada, nem nada assim. Estava bem, trabalhando e me ignorando por mais de um mês aquela altura.

— Vamos até a praça de alimentação, certo?

Acabei concordando, seguindo-a até a praça de alimentação. Ela escolheu uma mesa mais afastada, com quase ninguém por perto, não nos incomodamos em pegar qualquer coisa para comer, apenas sentamos ali e eu questionei:

— Por que você sumiu? O que eu te fiz?

Renata suspirou, escondendo o rosto entre suas mãos por alguns segundos.

— Bella — falou, mostrando seu rosto novamente, ela estava claramente nervosa. — Você não fez absolutamente nada, querida, nunca fez. É que aconteceu algo e eu achei que seria melhor me afastar por um tempo, até estar pronta para contar sobre.

— Contar sobre o que? — Franzi o cenho, Renata respirou fundo e contou:

— Eu estou grávida.


Beijão!

Lola Royal.

21.01.24