"Cante para mim."

A seus olhos, Dorothea era tão bonita. Sua voz era tão calmante, era como uma canção de ninar.

Ferdinand muitas vezes se via perdido na melodia de suas palavras, como se fossem uma brisa suave que o levava para um lugar de consolo. Era nesses momentos, em que o mundo parecia desaparecer em segundo plano, que ele realmente se sentia vivo.

Sua beleza, tanto na aparência quanto no espírito, o arrebatava. A maneira como seus olhos brilhavam de travessuras, refletindo a luz como pedras preciosas, podia derreter os corações mais duros. E seu sorriso, poderia iluminar o quarto mais escuro, espalhando calor e alegria a todos aqueles ao seu redor.

No entanto, Dorothea sempre se mantem em silêncio. Ele só era capaz de ouvir a voz dela quando ela falava alegremente com outras pessoas que não eram ele.

Então, ele não permitia que as pessoas falassem com ela. Ela está ainda mais distante dele desde então, mas não importa. Seu silêncio não lhe é mais ofensivo para ele do que a bile que subia à garganta sempre que ele tinha que ouvir aquelas belas canções dirigidas a outra pessoa.

Todas as noites, Ferdinand deitava-se na cama, imaginando o som que encheria o quarto se ela cantasse só para ele. Mas à medida que os dias se transformavam em semanas, seu desejo começou a se transformar em algo mais sombrio. Uma semente de possessividade criou raízes em seu coração, alimentado pela amarga experiência do ciúme.

Ele não conseguia entender por que ela esbanjava a voz dos outros, enquanto o mantinha à distância de um braço, como um estranho, um invasor em sua própria casa. Ele estava tão desesperado para ouvir sua voz, a maneira como ela cantava o lembrava sempre de quando ele a ouviu pela primeira vez.

Ferdinand passava os dedos pelos cabelos dela enquanto sua cabeça aninhavava-se em seu colo. De súbito, seus dedos agora puxam os belos cabelos castanhos, fazendo Dorothea gritar de dor.

"Eu disse para você cantar."