Parte I

"Há uma rachadura em tudo.

É assim que a luz entra."

Leonard Cohen

Capítulo 1

"A day in the life of a fool

A sad and a long, lonely day1"

A Day in the Life of a Fool, Frank Sinatra

Dois anos depois

Jaime abriu os olhos lentamente, sentindo-se irritado com a luz do sol que invadia o cômodo pela janela da sala. Mais uma vez dormira no sofá e acabara se esquecendo de fechar as cortinas antes de se deitar. Uma das poucas coisas boas que ainda lhe restavam eram as estrelas e a lua, as únicas coisas que ainda iluminavam sua vida; e ele gostava de cair no sono observando-as. Aparentemente um sonhador não deixava de ser um sonhador, ainda que estivesse no fundo do poço.

A contragosto, sentou-se no sofá e afastou os fios loiros que caíam sobre seu rosto. Fazia algum tempo que não cortava os cabelos ou aparava a barba, pensou enquanto esfregava o queixo cheio de pelos, entretanto, estes eram detalhes que já não o preocupavam e que não faziam qualquer diferença, afinal não recebia visitas além de seu irmão e da faxineira que limpava o apartamento duas vezes por semana.

Sendo assim, levando em conta que não planejava ir a lugar algum e que ninguém veria o estado miserável em que se encontrava, não havia por que dedicar mais que um segundo de seu tempo a este assunto. Com um suspiro colocou-se de pé e quase caiu a seguir, ao pisar na garrafa que deixara no chão.

Voltou a sentar no sofá e pegou a garrafa de uísque que finalizara na noite anterior. Não se lembrava de ter bebido tudo, contudo, isso não era o que o incomodava. O que o incomodava era a nítida impressão de que aquela era a última garrafa de seu pequeno estoque; e a certeza de que a faxineira retornaria apenas na semana seguinte.

Jaime se levantou mais uma vez, cambaleante, e seguiu para a cozinha, onde jogou a garrafa no lixo e ouviu-a tilintar com as outras que jaziam ali. O barulho ressoou por sua cabeça como o clangor de um sino e fez a dor que o assolava se intensificar. Aquele som, além de lembrá-lo de sua ressaca, o fazia recordar do que se tornara depois do acidente de carro e depois que Cersei o deixara.

Às vezes, pensamentos como este o faziam sentir vergonha da decadência em que se afundara, porém não o suficiente para que considerasse mudar seus hábitos. A bebida o ajudava a esquecer e, se não podia ser o homem que fora há alguns anos, preferia esquecer que em algum momento de sua vida havia sido uma pessoa completamente diferente daquela que existia agora. Naquela época ele tomava banhos com frequência e fazia questão de se vestir de maneira elegante, e agora era um milagre quando sequer trocava a camisa... ou tomava banho.

No entanto, Jaime tratou de afastar essas questões da sua mente. Tinha um problema muito maior em mãos no momento. Precisava fazer alguma coisa a respeito das bebidas. Da última vez em que isto acontecera, não fora nada agradável. Além dos tremores, do suor e do desespero que percorreram seu corpo por conta da abstinência, os pensamentos sombrios que o dominaram quase o levaram a cometer uma loucura.

Para ele, a morte não seria um acontecimento tão terrível diante da forma como levava sua vida, no entanto, ainda podia se lembrar do olhar de seu irmão ao vê-lo implorar pela morte. Tyrion sofrera junto com ele em cada passo do caminho, estava lá nos bons e maus momentos, e seu apoio e incentivo foram a única razão para que ele fosse capaz de se recuperar e sair daquele hospital. Algo que, aparentemente, nem sequer passara pela cabeça de seu pai.

Desde o momento em que Jaime decidira seguir uma carreira na música e Tyrion se tornara um professor universitário, Tywin Lannister os banira de seu convívio. Todos que o conheciam sabiam que ele era um homem distante e frio, porém o fato de Tywin ter, praticamente, ignorado o acidente que, de inúmeras maneiras, acabara com a vida de seu primogênito, causara uma surpresa geral.

Para não dizer que seu pai não fizera absolutamente nada, Jaime tinha uma prótese que ele lhe enviara e que, em suas próprias palavras, serviria para que pudesse cobrir a "vergonha" do que ele se tornara. Desde então a mera ideia de usar uma prótese fazia com que Jaime mergulhasse num humor tão terrível que ele fazia de tudo para se manter longe delas.

A constatação de que a única pessoa com quem realmente podia contar era seu irmão, fez Jaime perceber que não teria coragem de causar uma dor tão imensurável a Tyrion, como aconteceria caso acabasse se matando em um momento de desespero. Portanto, prometera a ele que não pensaria mais naquela hipótese, mesmo que em alguns dias fosse muito difícil cumprir esta promessa. Era para isso que usava a bebida. Sem ela... bem, era melhor não pensar nas opções.

Inquieto, Jaime procurou por todos os cantos e não encontrou nenhuma garrafa de bebida alcoólica na casa. Começando a se desesperar diante da ideia de estar preso naquele apartamento sem nenhuma bebida, pegou o telefone e ligou para a única pessoa que poderia ajudá-lo.

— Aconteceu alguma coisa, Jaime? — perguntou Tyrion após apenas dois toques do telefone.

Era raro que Jaime entrasse em contato com ele por meio de ligações, então Tyrion logo deduzira que alguma desgraça havia acontecido.

— Não — Jaime respondeu tentando sorrir e passar tranquilidade em suas palavras. A preocupação na voz de seu irmão sempre o levava a um fluxo de sentimentos que pairava entre o agradecimento e a culpa. — Eu apenas... preciso de sua ajuda.

— Minha ajuda? — Tyrion indagou desconfiado. — Com o quê?

Desde que resolvera se isolar do mundo, seu irmão desenvolvera o terrível hábito de criar abismos onde eles não existiam e isso era motivo para algumas discussões entre eles.

Alguns anos atrás, Jaime não era o tipo de homem que gostava de contar com a ajuda de outras pessoas para nada, sua independência era motivo de orgulho para ele. Todavia, depois do acidente, tornara-se totalmente dependente daqueles ao seu redor, afinal evitava sair de casa a todo custo, como se ao colocar os pés na rua uma calamidade pudesse acontecer.

— Eu... Preciso que compre algumas garrafas de uísque pra mim — disse um pouco constrangido.

— O quê? — Tyrion inquiriu com incredulidade, quase rindo diante do absurdo que escutava.

— Preciso que compre algumas garrafas de uísque pra mim — Jaime repetiu suspirando.

Ergueu o braço direito para passar a mão pelos cabelos, porém, a visão do coto que substituía sua mão o lembrou que isso era impossível. Alguns hábitos eram difíceis de abandonar independentemente da quantidade de tempo que se passasse.

— Você só pode estar de brincadeira, Jaime — replicou seu irmão um pouco irritado. — Eu estou ocupado. Não posso simplesmente largar minha vida porque você quer uma bebida.

— E o que você está fazendo de tão importante que não possa ajudar seu irmão mais velho? — Jaime perguntou também num tom aborrecido.

Sabia que seu pedido era um pouco irracional, no entanto, nunca pediria algo desse tipo se não fosse realmente necessário para que conseguisse manter o que ainda restava de sua sanidade mental.

— Sei que você não costuma prestar atenção às nossas conversas, Jaime, mas esperava que pudesse ao menos se lembrar de que me casei na semana passada e estou viajando em lua de mel — Tyrion respondeu de maneira incisiva e Jaime fechou os olhos, sentindo-se um idiota.

Agora que seu irmão mencionara, lembrava-se vagamente da menção a algum casamento nas mensagens que trocaram, contudo, não recordava que era o casamento de seu próprio irmão. Como pudera ser tão negligente a ponto de não comparecer ao casamento de Tyrion ou lhe parabenizar?

— Que droga, Ty! Me desculpe — pediu arrependido engolindo em seco. — Eu nem sei o que dizer... Parabéns!

Tyrion deu uma risada irônica e sacudiu a cabeça, fazendo com que alguns fios castanhos saíssem do lugar. Diferente de seu irmão, se parecia mais com a falecida mãe deles.

Casar sem a presença de seu irmão fora horrível, mas, em algum momento, durante os dois últimos anos percebera que não podia deixar sua vida de lado porque Jaime decidira desistir da dele.

— Obrigado, Jaime — disse já se sentindo um pouco mais calmo.

Amava demais seu irmão e odiava ver a transformação que ele sofrera depois daquele acidente.

— Agora seja razoável, irmãozinho, e vá você mesmo comprar sua bebida. Até onde sei, seu problema não é nas pernas. — Os dois acabaram rindo do pequeno trocadilho.

Mesmo que essa não fosse a resposta que gostaria de ouvir, era por esse tipo de coisa que Jaime gostava mais da companhia de Tyrion à de qualquer outra pessoa no mundo. Seu irmão não o tratava como se fosse um inválido.

— Você é ridículo.

— E, ainda assim, não sou eu quem está com medo de ir à rua comprar uma bebida.

Jaime suspirou e olhou na direção da porta de casa. Fazia mais de um ano que não ia a lugar algum; e só de pensar em sair de seu casulo, o pânico começava a dominá-lo.

— Sei o quão insensível isso deve ter soado, maninho, mas já está na hora de sair deste apartamento e respirar ar puro. Você não está morto, Jaime, apenas perdeu uma mão e uma namorada que não merecia todo o valor que você dava a ela. Eu diria que você saiu no lucro por ter se livrado da Cersei em troca da sua mão, mas sei o que deixar de tocar com a banda te causou.

'Você se tornou um recluso e passou a fingir que não existia, só que a verdade é que continua existindo. E existe um mundo lá fora também, cheio de pessoas e oportunidades; e tudo o que você precisa fazer pra voltar a conhecê-lo é dar o primeiro passo.

— Eu não consigo, Tyrion — Jaime respondeu à beira das lágrimas. Sabia que estava agindo de maneira patética, entretanto, não conseguia evitar.

— É claro que consegue, Jaime. Não pode continuar fugindo da vida pra sempre — seu irmão afirmou confiante. — Você consegue e, assim que voltar, quero um relato a respeito do que viu e sentiu em seu primeiro passeio depois de tanto tempo. Prometa que me ligará mais tarde.

— Eu não quero atrapalhar...

— Prometa, Jaime — Tyrion insistiu. — E prometa que vai tomar um banho também. Aposto que está precisando.

Jaime voltou a sorrir, mesmo a contragosto. Seu irmão o conhecia bem demais.

— Prometo tentar — concedeu.

— Já é um começo, eu acho.

Eles encerraram a ligação após se despedirem e Jaime voltou a olhar para a porta do apartamento. Ainda não tinha certeza se iria à rua, porém havia algo em que concordava com Tyrion: precisava de um banho.


1 "Um dia na vida de um tolo

Um triste e longo dia solitário." Tradução Livre.