Capítulo 2
"Oh, think twice, 'cause it's another day
For you and me in paradise1"
Another Day in Paradise, Phil Collins
Com grande dificuldade, Jaime conseguiu sair de seu apartamento para procurar um local onde pudesse comprar sua bebida e voltar rapidamente para casa. Tinha a impressão de que Tyrion ficaria decepcionado com seu relato, pois o sentimento que o dominava desde que colocara os pés na rua, era pânico. Era ridículo, até mesmo para ele, mas Jaime sentia muito medo.
Medo de encarar as pessoas e descobrir que elas o viam como um aleijado; medo de enxergar a pena ou asco em seus olhos quando constatassem que ele não tinha uma das mãos. Porém seu pior medo era a percepção de que estariam certos. Ele era digno de pena, e este fato não se devia a ausência de uma de suas mãos.
Ainda perdido em pensamentos soturnos, Jaime avistou um mercadinho após se afastar alguns metros do prédio onde morava e decidiu que era ali que faria suas compras. Apenas esperava que ainda conseguisse se lembrar da senha de seu cartão de crédito. Fazia muito tempo que não o usava.
Entrou na loja com os olhos baixos e com os punhos escondidos nos bolsos do casaco vermelho que usava. Se tudo corresse bem, entraria e sairia dali em cinco minutos sem que nada de mais acontecesse; e logo estaria seguro em casa.
Logo visualizou o local onde ficavam as bebidas e estendeu a mão para pegar uma garrafa de uísque. Apenas então notou como estava tremendo, e sabia que ainda não podia creditar este fato à abstinência; o que significava que aquela tremedeira se devia ao nervosismo.
Pegou duas garrafas. Prendeu uma sob seu braço direito e a outra carregou na mão esquerda normalmente. Aquelas garrafas não durariam mais que dois ou três dias, no entanto, não conseguiria carregar mais sem passar despercebido. Além disso, caso aquela missão desse certo, poderia retornar ao mercadinho quando elas acabassem.
Começava a acreditar que tudo acabaria bem, pois já estava se encaminhando para o caixa e ninguém pareceu se importar com sua presença ali, porém havia comemorado cedo demais.
A dois passos do caixa, algo inesperado aconteceu. Uma mulher branca, de corpo atlético e com cabelos curtos e loiros, se colocou em seu caminho com um caderno e uma caneta nas mãos, além de ostentar um sorriso tímido. Jaime ainda tentou se desviar dela, no entanto, a jovem se colocou em seu caminho novamente, tornando quase impossível que ele não a encarasse.
Não a qualificaria como uma mulher bonita, mas a primeira característica da jovem que chamou sua atenção foi que, apesar de tímido, o sorriso dela era lindo; e a segunda era que os olhos azuis como o oceano que o encaravam eram estonteantes. Infelizmente ou não, isso não o impediu de desejar se afastar dela o mais rápido possível.
— O que você quer?
Jaime não queria causar uma cena, porém não conseguiu evitar a arrogância e a fúria em sua voz. Notou que suas maneiras pegaram a jovem de surpresa, pois seu sorriso desapareceu instantaneamente e ela empalideceu um pouco, fazendo-o perceber que, provavelmente, a jovem à sua frente tivera que reunir um pouco de coragem antes de se atrever a se aproximar dele.
— Você é Jaime Lannister, não é? — ela indagou envergonhada, desviando seus olhos dos dele.
— E se for? Qual a relevância disso pra você? — a frieza na voz de Jaime era palpável para qualquer um que se dispusesse a ouvi-los e isso, claramente, causava um desconforto à jovem.
— Eu... Eu só queria um autógrafo — ela respondeu engolindo em seco, voltando a encará-lo. — Meu pai é um grande fã seu e eu também.
— Eu não dou mais autógrafos — ele explicou tentando passar por ela mais uma vez.
— Se for pelas garrafas, eu posso...
Jaime a encarou com raiva e pousou as garrafas no chão fazendo um barulho que chamou a atenção das pessoas que os cercavam. Tentara resolver as coisas de maneira pacífica, mas aquela mulher não estava facilitando.
— Não, não é pelas garrafas! — replicou com agressividade, exibindo seu punho direito. — Eu não tenho mais a mão com que assinava autógrafos e, se você e seu pai são meus fervorosos fãs, deveriam saber disso. Ao perder minha mão, encerrei minha carreira e, por conseguinte, minha vida.
A jovem o fitou boquiaberta e, por um momento, apenas piscou sem saber o que dizer, porém logo a seguir se recompôs e o encarou com raiva também. A essa altura quase todos os fregueses e funcionários os encaravam.
— Não sei quem você pensa que é pra me tratar desse jeito. Nos álbuns que ouvi com meu pai, parecia que escutávamos alguém que tocava com a alma e que tocava a alma das pessoas, alguém que provocava inúmeras emoções com apenas algumas notas musicais, mas, aparentemente, esta pessoa não existe.
Ela fez uma pausa e mordeu os lábios levemente; e Jaime percebeu que ela se segurava para não chorar na sua frente.
— Eu ouvi falar de seu acidente, é claro, mas não é algo em que eu fique pensando o tempo todo; e é evidente que esta seria a última coisa que eu pensaria ao encontrar um dos meus músicos favoritos numa loja de conveniências.
'Sinto muito se o importunei, senhor Lannister, mas o fato de ter passado por sofrimentos em sua vida não o torna especial e, certamente, não te dá o direito de destratar as pessoas ao seu redor. Eu não tenho culpa do que aconteceu, e me sinto muito triste em saber que sua vida se resumia a apenas um membro do seu corpo. Aparentemente, sem ele o senhor deixou de ser humano. Me desculpe, não vou mais te incomodar.
E, da mesma forma que surgira em sua vida, ela saiu da loja sem oferecer qualquer chance de réplica a Jaime, algo que ele, de fato, não merecia.
Ele podia sentir os olhares dos outros clientes da loja sobre si e começou a suar ao perceber que era o centro das atenções. Respirou fundo e decidiu que era melhor fazer suas compras em outro lugar; isso se ainda tivesse forças para prosseguir com seu objetivo depois do que se passara.
Abaixou-se para pegar as garrafas e colocá-las no lugar e então notou que a mulher com quem discutira acabou deixando seu caderno cair. Jaime deixou as garrafas onde estavam e pegou o caderno antes de seguir para a saída com o intuito de devolvê-lo. Não sabia bem por que esse impulso o assolara depois do que se acontecera entre eles, entretanto, não ganharia nada ficando com aquele caderno. Buscou pela jovem por todos os lados, porém não a encontrou.
Jaime olhou para o caderno em sua mão e decidiu voltar para casa. Aquela tarde lhe proporcionara mais emoções do que estava acostumado e precisava de algum tempo para colocar a cabeça no lugar. Não estava disposto a encarar mais ninguém naquele momento, nem mesmo para comprar algo tão importante para ele quanto sua bebida.
1 "Oh, pense duas vezes
Porque é outro dia pra você e pra mim no paraíso". Tradução Livre.
