Capítulo 3

"Please don't see just a girl caught up in dreams and fantasies
Please see me reaching out for someone I can't see1"

Lost Stars, Keira Knightley

Brienne saiu do pequeno mercado à beira das lágrimas e com o coração acelerado. Já devia ter imaginado que um homem famoso como Jaime Lannister seria arrogante e presunçoso, porém, ao vê-lo naquela loja, ficara tão surpresa e empolgada que não pensara em mais nada além de conseguir um autógrafo e quem sabe uma foto ao lado de seu ídolo.

A jovem notou que o ônibus que pegaria se aproximava do outro lado da rua e se apressou em sua direção. Na maioria dos dias usava o carro de seu pai, contudo, volta e meia, gostava de se locomover pela cidade usando o transporte público. Quando estava dirigindo, não podia se dar ao luxo de se perder nas músicas que tanto amava e, depois do que acontecera, com certeza, precisava de um momento de reflexão. Brienne se sentou em um acento que dava para a janela do ônibus e colocou seus fones de ouvido antes de se entregar a seus pensamentos, enquanto as batidas de seu coração se acalmavam.

Lembrava-se de que desde que tinha cerca de quatorze anos ouvia seu pai elogiar e enaltecer o trabalho de Jaime, afirmando que era um dos maiores músicos que existiam no mundo atualmente. Na época não dava muita atenção ao assunto, mas, com o passar dos anos, seu pai a levou a algumas das apresentações da banda de Jaime e, aos poucos, a jovem foi percebendo o que ele queria dizer. As músicas que Jaime tocava soavam como mágica para ela. Algo que a elevava e a fazia se sentir bem. E, desde que percebera isso, decidiu que seja lá o que fosse fazer de sua vida, teria que envolver música.

As coisas nunca foram fáceis para ela, principalmente por ter estudado num colégio no qual as crianças eram majoritariamente ricas, arrogantes e compunham a nata da sociedade, cujos pais não aceitavam muito bem a presença de alguém que não se enquadrasse naqueles padrões perto de seus filhos. Sendo assim, era praticamente inevitável que aquelas crianças a insultassem por não ser tão bonita e rica quanto eles; e o fato de gostar mais dos esportes e brincadeiras praticados pelos meninos não tornara as coisas mais fáceis.

Brienne entendia que seus pais não tinham culpa por querer lhe proporcionar uma vida melhor do que a que tiveram, já que tiveram essa oportunidade, mas crescer ouvindo que era feia e inadequada simplesmente por ser quem era não foi muito divertido. Ela passou por muitas situações desagradáveis até perceber que a única opinião com a qual deveria se preocupar era a sua.

Isso, obviamente, não queria dizer que não tinha mais crises de baixa autoestima quando recebia insultos, porém, hoje em dia, conseguia lidar melhor com situações assim.

A jovem fitou seu próprio rosto na janela do ônibus e analisou-o, perguntando-se se Jaime a teria tratado de maneira diferente se suas feições fossem mais agradáveis e delicadas, como as dele. Contudo, por fim, sacudiu a cabeça e afastou estes pensamentos. O problema ali não estava nela ou na falta de suavidade em seus trejeitos. Jaime, claramente, passava por um momento ruim em sua vida e ela tocara num ponto sensível.

No momento em que ele lhe mostrara seu punho direito, sentiu-se uma idiota por ter esquecido algo tão simples. Assim como seu pai, ficara terrivelmente abalada quando o acidente de Jaime fora noticiado na televisão e nos jornais.

A questão era que, ao ouvir suas músicas e pensar em como se sentia ao escutá-las, o acidente desaparecia de sua memória; e ocorrera o mesmo ao vê-lo diante de seus olhos. Talvez, no fundo, ela também tivesse um pouco de culpa na situação que se desenrolara naquele dia. Deveria ter levado os sentimentos de Jaime em conta, afinal, era óbvio que aquele acidente mudara a vida dele para sempre.

Brienne suspirou. A essa altura não estava mais com raiva de Jaime, entretanto, também não poderia dizer que sentia pena dele. O que sentia era uma mistura de tristeza, mágoa e decepção. Passara anos de sua vida tendo-o como um exemplo a ser seguido e agora descobrira que, depois do acidente, Jaime desistira do que mais amava e acreditava que sua vida não tinha significado.

Podia imaginar como fora difícil para ele perder a mão e ter que abandonar sua carreira como instrumentista, porém isso não significava que deixara de ser um músico. Jaime ainda podia compor ou se dedicar a alguma área da música que não envolvesse uma participação tão direta. Talvez se ele se esforçasse poderia até mesmo reaprender a tocar alguns instrumentos, no entanto, optara por abandonar seu dom e, além disso, descontava suas frustrações em pessoas que nada tinham a ver com isso. Era triste ver alguém tão talentoso perdido em meio à pena que sentia de si mesmo e à bebida, se as garrafas que ele segurava serviam de alguma indicação das atividades as quais se dedicava agora.

De qualquer forma, isso era algo que estava além de sua alçada e o melhor a fazer era esquecer do encontro que tiveram.

Neste momento, o celular de Brienne vibrou, interrompendo a música que ela ouvia, e a jovem decidiu ler a mensagem que acabara de receber:

Renly:

O que me diz de uma festa hoje à noite?

Resolvi visitar meus pais este fim de semana,

e não podia deixar de te ver também.

Brienne sorriu. Renly Baratheon era seu melhor amigo há anos e, por muito tempo, fora o único. Desde que seus pais o matricularam no mesmo colégio que ela, Renly passou a estar ao seu lado quando os outros meninos e meninas resolviam ser idiotas; e ambos agiam como o escudo um do outro ao serem alvo de insultos. Ele foi a primeira criança naquele colégio a vê-la exatamente como ela era: apenas uma criança, como ele.

Brienne:

Por que só estou sabendo disso agora?

Pensei que me contasse tudo.

Renly:

Não seja dramática, Bri, por favor rs

Você sabe muito bem que não existo sem você.

Era pra ser uma surpresa,

mas eu não consigo ficar calado.

Houve um tempo em que Brienne acreditara estar apaixonada por seu amigo, no entanto, logo percebeu que o amor que sentia por ele era algo apenas relacionado à amizade que tinham. Com o tempo entendeu que a paixão que imaginara sentir por Renly se devia ao fato de todos os seus colegas começarem a se envolver em algum relacionamento, e ela não.

Brienne nunca sentira, de fato, o tipo de amor descrito em livros e que fazia as pessoas perderem a razão, e acreditava que talvez isso não fosse acontecer com ela; porém era algo com que estava mais do que tranquila. Em sua opinião, havia coisas muito piores do que não encontrar o amor de sua vida. A época de sua adolescência lhe trouxera lições valiosas a este respeito.

Brienne:

Vou fingir que acredito nisso.

De qualquer forma, estou mesmo a fim de sair hoje.

Não tive um dia muito bom.

Renly:

O que aconteceu?

Brienne:

É uma história um pouco longa.

Falamos disso mais tarde.

Quer que eu passe pra te buscar?

Renly:

Sim! Podemos conversar um pouco antes de sair.

Brienne:

Certo.

Vou pra casa tomar um banho e trocar de roupa.

Nos vemos daqui a pouco.

Renly:

Te aguardo. ;)

Brienne voltou a ouvir música, enquanto observava as ruas passando por ela pela janela. Sentia-se cansada e tudo o que mais gostaria de fazer era ficar em casa debaixo das cobertas, porém, agora que Renly fazia faculdade em outra cidade e não podiam se ver com tanta frequência, precisavam aproveitar todas as oportunidades que tinham de se ver. E a verdade era que, se ficasse em casa, passaria o resto do dia pensando no que acontecera; e se recusava a permitir que Jaime Lannister estragasse sua noite.


1 "Por favor, não veja apenas uma garota presa em sonhos e fantasias

Por favor, me veja, tentando alcançar alguém que não posso ver". Tradução Livre.