Capítulo 5

"Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end,

Waiting, round the bend
My Huckleberry Friend, Moon River, and me1"

Moon River, Frank Sinatra

Brienne acabara de sair do banho e começou a se vestir para encontrar Renly antes de perceber que seu telefone vibrava. A jovem não reconheceu o número, mas decidiu atender, pois podia ser algum conhecido ou amigo da faculdade usando o telefone de outra pessoa.

— Alô.

— Brienne? — indagou uma voz que ela não identificou de imediato.

— Sim. Quem fala?

— Jaime Lannister.

Sua voz estava levemente receosa, pois temia que Brienne desligasse o telefone antes mesmo que ele pudesse se desculpar e falar a respeito do caderno, no entanto, aquele nome era o último que ela esperava ouvir ao atender a ligação e, sendo assim, acabou caindo sentada em sua cama, sem saber o que dizer.

— O que você quer? — perguntou por fim, recuperando sua presença de espírito. — Como sabe meu nome e como conseguiu meu telefone?

— Bem, o que eu quero é me desculpar — Jaime explicou cuidadosamente. Há muito tempo não tinha que tomar esse tipo de iniciativa, portanto estava fora de prática. — Fui desnecessariamente grosseiro com você e...

— Foi realmente desnecessário — Brienne o interrompeu num tom ácido —, mas acredite, não cometerei o erro de tentar falar com você novamente. Se era só isso o que queria...

— Não. Não era só isso o que eu queria — ele respondeu irritado. — Você é uma mulher muito teimosa e cabeça dura, sabia? Estou tentando agir da maneira correta e você não permite.

— Depois do que fez pensou que eu simplesmente ficaria deslumbrada com sua ligação, o desculparia e nos despediríamos como velhos amigos? — Brienne questionou com raiva. — Faça-me o favor, Lannister. Você me destratou e agora está arrependido, mas eu não sou obrigada a aceitar suas desculpas.

— Ótimo! — Jaime replicou no mesmo tom que ela. — Não aceite minhas desculpas, então. E já que não quer me ouvir, creio que devo jogar seu caderno no lixo, não é? Duvido que queira olhar pra minha cara, mesmo que seja pra pegar ele de volta. — A jovem sentiu seu rosto corar ao se lembrar do rosto dele.

À primeira vista achou que havia se deparado com alguma miragem, pois, apesar da aparência cansada, Jaime ainda era muito bonito. Seus olhos, que sempre a encantaram nas fotos que encontrava pela internet, eram ainda mais verdes do que ela pensara, no entanto, isso não estava em questão.

— Você está com meu caderno? — indagou ao, finalmente, se concentrar na única informação importante daquela frase.

Não havia percebido que deixara seu caderno para trás.

— Sim. Você deixou cair naquele mercado e eu o peguei. Tentei te alcançar na rua, mas não consegui te encontrar.

Brienne sentia-se uma idiota por ter perdido seu caderno daquela forma. Se aquele sujeito não o tivesse encontrado, perderia muitas informações que fariam falta nas provas que se aproximavam e, até mesmo, na elaboração de sua monografia.

— Eu preciso desse caderno — murmurou num tom mais humilde. — Não o jogue fora.

— Vou pensar no seu caso — Jaime replicou sorrindo e Brienne bufou indignada.

— Não faça isso, Lannister. Eu não gosto desses joguinhos.

— Jaime — ele disse simplesmente, confundindo-a.

— O quê?

— Meu nome é Jaime e, se quiser ver seu caderno de volta, podemos nos encontrar para que eu o entregue.

Ele não sabia exatamente de onde aquela ideia surgira. Havia inúmeras maneiras de devolver o caderno a Brienne sem que eles se encontrassem novamente, mas havia uma parte dele que queria revê-la, mesmo que fosse pela última vez. Um desejo estranho para alguém que se considerava feliz em sua reclusão.

— Não está falando sério — Brienne retrucou com incredulidade.

— Pode apostar que estou.

O riso em sua voz deixava claro o quanto Jaime estava se divertindo com aquela situação. Aquele canalha não estava brincando.

— Está bem. Onde e quando? — ela inquiriu a contragosto.

— Amanhã à tarde em alguma cafeteria. Podemos decidir os detalhes por mensagem, mas é melhor que você escolha o lugar, já que não faço a menor ideia de onde poderíamos ir.

Depois do tempo que passara dentro de casa, era evidente que Jaime não sabia se os lugares que costumava frequentar ainda existiam.

— Certo. A gente se fala mais tarde, então. Tenho um compromisso e não posso me atrasar — Brienne respondeu levantando-se da cama e se aproximando de seu guarda-roupa para terminar de escolher a roupa que ia usar.

— Ok. Até depois, Brienne.

— Até, Jaime.

A chamada foi encerrada, contudo, Jaime continuou segurando o telefone e o fitou por algum tempo, pensando no que acabara de fazer. Decidiu enviar uma mensagem para Tyrion, esperando que as coisas passassem a fazer algum sentido depois disso.

Jaime:

Liguei pra ela. Brienne não me perdoou,

mas aceitou me encontrar amanhã pra pegar o caderno de volta.

Tyrion:

Deixa eu ver se entendi direito,

você tem um encontro com a Brienne?

Jaime:

Não é exatamente um encontro, Tyrion.

Vou apenas devolver o caderno dela.

Tyrion:

Em um lugar que não é a sua casa e onde estarão a sós.

É um encontro, maninho. Você vai sair de casa por dois dias seguidos.

Estou orgulhoso. Já quero conhecer minha futura cunhada.

Jaime:

Não é um encontro!

Jaime jogou o telefone no sofá e decidiu procurar alguma coisa para comer, já que passara o dia sem se alimentar. Enquanto fazia isso, pensava em como agiria no dia seguinte. Na hora em que fizera a proposta esta questão não lhe passara pela cabeça, mas só de pensar no fato de que teria que sair de casa para encontrar Brienne, começava a se sentir nervoso.

Passou uma parte da noite tentando convencer a si mesmo de que tudo correria bem e que não havia problema em sair de casa mais uma vez, afinal era um ser humano e precisava apenas se readaptar à sociedade. Abriu as cortinas e se deitou no sofá enquanto refletia.

Somente mais tarde percebeu que aquela era a primeira noite, em meses, que não sentiu vontade de beber até perder a consciência.


1 "Dois andarilhos, vagando para conhecer o mundo

Há muito do mundo para se ver,

Estamos atrás do mesmo fim do arco-íris,

Esperando, numa curva,

Meu amigo Huckleberry, Rio da Lua e eu". Tradução Livre.