Capítulo 8

"Why must we all conceal what we think and how we feel?
Must there be a secret me, I'm forced to hide?1"

Reflection, Christina Aguilera

A jovem permaneceu na cafeteria por mais alguns minutos refletindo sobre o que acabara de acontecer. Havia algo de muito errado com Jaime, era inegável; e Brienne se perguntava se isso se devia realmente ao fato de ele ter perdido junto com sua mão a esperança de ter uma vida normal, ou ao rancor que guardava contra si mesmo por conta de tudo a que se privava.

De qualquer forma, apesar de não estar satisfeita com o desenrolar das coisas, sentia que agira de maneira correta ao lhe dizer que a vida continuava mesmo que ele tivesse perdido uma parte de si. Alguém precisava fazer isso. Jaime podia se irritar com ela e espernear, mas talvez algum dia viesse a enxergar isto.

Entretanto, Brienne não acreditava que saberia quando isto acontecesse. O desfecho da conversa daquele dia arruinara qualquer avanço que tivessem feito e ela acreditava que não teria mais notícias dele agora que Jaime devolvera seu caderno.

Era de certa forma triste, mas também reconfortante saber que estava certa. Renly teria que aceitar que ela tentara e que as coisas não aconteceram conforme ele imaginava. Não havia romance ali, apenas duas pessoas quebradas. Uma delas talvez um pouco mais destruída que a outra, porém, ainda assim, quebradas para o mundo.

Agora que parara para refletir sobre suas ações, recriminava-se um pouco. Quem ela pensava que era para dar conselhos a alguém, quando também vivia fugindo da vida?

A jovem pegou o caderno que estava sobre a mesa e seguiu em direção ao carro de seu pai. Estava na hora de voltar para casa.


Brienne jogou-se sobre sua cama e encarou o teto por alguns minutos. Pensava na conversa que tivera com Renly na noite anterior. Será que se fechara tanto por medo das pessoas a machucarem, que se tornara alguém insensível? Talvez tivesse exagerado mais uma vez ao lidar com Jaime, afinal não sabia o que se passava em seu interior. Quem poderia dizer que tipo de batalhas ele estava enfrentando dentro da própria mente?

Suspirou resignada. Não adiantava ficar pensando nessas coisas agora; o que estava feito, estava feito. Era melhor se concentrar em seus estudos.

Ela pegou o caderno que Jaime lhe devolvera e o abriu. Ia começar a folheá-lo para encontrar a página que lhe interessava quando notou um rabisco na contracapa. Parecia algo escrito por uma criança, entretanto, logo a jovem percebeu que era o autógrafo de Jaime, feito com sua mão esquerda. Brienne deu um sorriso enternecido e passou a mão sobre a dedicatória:

"Espero que tenha sucesso em seus estudos, Brienne.

Jaime Lannister"

Jaime, claramente, se esforçara para agradá-la. Ela podia imaginar como havia sido difícil para ele se decidir a escrever uma mensagem para uma fã com a mão esquerda quando se ressentia tanto por não poder mais usar a direita. Do jeito que se encontrava agora, provavelmente considerava isso até mesmo degradante e, ainda assim, se esforçara para deixá-la feliz. Isso, por si só, mostrava que ainda havia esperança para Jaime. Ele não estava morto por dentro como afirmava, no entanto, ainda precisava se dar conta disso.


1 "Por que todos nós devemos esconder o que pensamos e sentimos?

Deve existir um "eu" secreto, que sou forçada a esconder?" Tradução Livre.