Capítulo 3
"That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion1"
Losing my religion, R. E. M.
Por mais estranhas que as coisas estivessem, nenhum deles poderia esperar por tudo o que se passara no dia seguinte e as consequências que viriam disso.
A manhã começara de maneira amena, embora Negan tenha feito questão que todos eles tomassem café juntos sentados à mesa. Olivia alimentava Judith com sua mamadeira tentando não prestar atenção no homem que se sentava do lado oposto bebendo seu café despreocupadamente, enquanto Carl o fitava com desconfiança.
— Se você quiser, posso dar a mamadeira dela pra que você possa comer, Olivia — Negan disse terminando de beber seu café. — Aposto que está com fome depois de ir pra cama sem comer nada.
— Estou bem — ela replicou —, além disso, não dormi de barriga vazia. Carl e eu dividimos uma barra de chocolate deliciosa. — Olivia lançou um olhar vitorioso para ele e Negan deu um sorriso satisfeito.
— Fico feliz de ter sido útil à sua felicidade, mesmo que não tenha sido da forma que eu queria.
Olivia corou e voltou a desviar seus olhos dos dele sem saber definir o que Negan causava a ela. Havia algo em sua maneira de falar e em seu olhar que a fazia se sentir sempre constrangida. Era como se cada ato dele fosse uma tentativa de seduzi-la.
— Ainda assim acho que deveria comer alguma coisa. Deixe que eu cuido de Judith — ele insistiu levantando-se e se aproximando dela para pegar a menina em seu colo.
Olivia engoliu em seco e pensou em se recusar, porém, antes que pudesse ter qualquer reação, Negan já estava estendendo os braços e pegando Judith. A menina o encarava com seus olhos resplandecentes e sorria.
— Viu como ela gosta do tio Negan? — ele questionou fazendo uma careta para Judith, que riu mais ainda.
— Isso é porque ela não te conhece — Olivia resmungou se levantando e lhe entregando a mamadeira.
— Nem você — Negan respondeu com o rosto a centímetros do dela —, mas ainda teremos muito tempo pra isso.
Ruborizando, ela lhe deu as costas e pegou uma xícara para se servir de café, esperando que isso pudesse ajudá-la a se acalmar e pôr seus pensamentos no lugar.
A maneira como Negan matara Spencer fora totalmente sanguinária, embora Olivia tivesse suas desconfianças com relação às atitudes do falecido. Já fazia algum tempo que Spencer vinha agindo de maneira suspeita.
E como se isso não bastasse, Rosita tentou assassinar Negan, porém tudo o que conseguiu foi atingir Lucille, o taco que ele levava para cima e para baixo, o que gerou uma situação ainda pior. Talvez se ela tivesse sido bem-sucedida, os outros Salvadores decidissem partir sem causar mais problemas, contudo, diante daquela falha, era inevitável que Negan matasse mais um de seus amigos.
— Um ato desses não pode permanecer sem punição — Negan falou relanceando todos os presentes. — Acho que vocês precisam de um lembrete a respeito de quem realmente manda aqui. Arat! — ele chamou uma de suas subordinadas que, rapidamente, se aproximou. — Escolha um deles e mate — disse sem pensar duas vezes.
— Qualquer um? — Arat indagou com um sorriso maldoso.
— Qualquer um — Negan insistiu. Sua subordinada passou os olhos pela multidão que os cercava e logo localizou Olivia.
Olivia pensou em baixar os olhos ou implorar por sua vida, mas sua salvação significaria a morte de outra pessoa de quem ela gostava, portanto, apenas encarou Arat, como se não estivesse apavorada por dentro.
A Salvadora ergueu a arma e mirou a mulher gorducha que a encarava com o que ela acreditava ser arrogância, e estava prestes a pressionar o gatilho quando Negan baixou seu braço.
— Ela não — ele falou encarando sua subordinada.
— Por que não? — Arat perguntou em dúvida. — Você disse qualquer um. Eu...
— Vai mesmo questionar minhas decisões, Arat? — Negan indagou arqueando uma sobrancelha e sorrindo maliciosamente. — Eu disse que quero aquela mulher viva e tenho minhas razões, mas, se você não pode compreender isso, talvez seja necessário lembrá-la quem dá as ordens por aqui quando voltarmos para casa. Talvez você já tenha se esquecido da cena que presenciou ontem — ele comentou, fazendo-a se lembrar da forma como queimara o rosto de um dos moradores do Santuário por tentar desafiá-lo.
O sorriso sinistro no rosto de Negan lhe dizia que o mesmo aconteceria a ela se voltasse a questioná-lo.
— Não precisa — ela respondeu engolindo em seco. — Há tantas pessoas aqui que não terei problemas em escolher outra.
— Ótimo. Fico feliz que tenhamos chegado a um acordo — concluiu antes de lançar um olhar misterioso na direção de Olivia, que ajeitou seus óculos, constrangida e com receio do que poderiam pensar da atitude dele.
Por fim uma pobre senhora foi escolhida como vítima. Olivia chorou por ela e ficou triste por terem perdido mais um membro de seu grupo, entretanto, não podia negar que estava feliz por continuar viva. Eram sentimentos extremamente contraditórios e que só serviam para deixá-la ainda mais confusa e angustiada, enquanto refletia as razões para Negan mantê-la viva. Nada do que vinha acontecendo ultimamente fazia muito sentido.
1 "Este sou eu no canto.
Este sou eu sob os holofotes
Perdendo minha compostura". Tradução Livre.
