Capítulo 14

"It's up to you, and it's up to me
No one can say what we get to be
So why don't we rewrite the stars?
Maybe the world could be ours tonight1"

Rewrite the Stars, Zac Efron & Zendaya

— Aonde vamos? — ela perguntou olhando para ele com suspeitas. Apesar de ter aceitado seu convite, não significava que estava tudo bem entre eles.

— Podemos ir à mesma cafeteria da outra vez — Jaime sugeriu e logo notou que Brienne ficara incomodada com a ideia. Provavelmente, assim como ele, não queria voltar lá tão cedo. — Ou podemos ir pro meu apartamento — completou rapidamente antes que ela mudasse de ideia. — Não é muito longe daqui e...

Apenas após proferir aquelas palavras, ele percebeu como sua proposta podia ser interpretada e que a jovem devia considerá-lo louco por sequer pensar em algo assim.

— Podemos escolher outro lugar, é claro. Eu só sugeri o apartamento porque é perto e poderíamos conversar com mais tranquilidade, mas entendo que você não queira ir à casa de um homem praticamente desconhecido. Podemos...

— Vamos ao apartamento — Brienne falou, pronunciando-se pela primeira vez desde que Jaime a abordara.

É claro que ela cogitara o teor daquele convite, no entanto, não percebera nenhuma malícia nas ações de Jaime até então e, caso ele tentasse fazer alguma coisa, ela sabia se defender muito bem. De qualquer forma, enviaria uma mensagem a Renly informando onde estava.

Eles caminharam até o apartamento de Jaime em silêncio e quando chegaram ao local ele pediu que ela aguardasse na sala, enquanto buscava algo para beberem. Como a única coisa que dividia os dois cômodos, era uma bancada, Brienne podia observar todos os passos de Jaime, porém dedicou sua atenção a observar a casa. Ficou admirada com o fato de não haver fotos, quadros, ou qualquer coisa relacionada ao passado de Jaime ou de sua família no ambiente. Notou que tudo estava limpo e bem cuidado e também que não havia um aparelho de som ali, o que considerava muito estranho, tendo em vista que, até pouco tempo, a música era a vida dele.

Jaime regressou com dois sanduíches num prato e Brienne se levantou para pegar os dois copos de suco que jaziam sobre a bancada.

Depois que ambos estavam sentados em poltronas diferentes, de frente um para o outro, ele finalmente tocou no assunto que os levara até ali.

— Imagino que a essa altura você acredite que sou um verdadeiro patife, e não tiro sua razão, mas, mesmo assim, quero pedir desculpas pelo que fiz na última vez em que nos vimos. — Brienne apenas o fitava sem demonstrar o que pensava. — Sei que deveria ter feito isso há algum tempo...

— E por que não fez? — ela indagou tensa, controlando-se para manter seu tom de voz baixo. — Houve muito tempo pra isso e eu te dei uma ótima oportunidade com a mensagem que enviei. Ainda assim, se não tivéssemos nos encontrado no parque hoje, duvido que entraria em contato.

Agora que estavam colocando as cartas na mesa, as emoções que Brienne guardara nas últimas semanas, faziam questão de vir à tona.

— Sei que soa ridículo, mas eu achei que seria melhor assim, até que eu tivesse voltado a ser ao menos uma sombra do homem que já fui — ele explicou receoso tentando escolher as melhores palavras para expor seus pensamentos. — E só quando te encontrei hoje percebi que não podia simplesmente agir como se não nos conhecêssemos. Eu não quero agir como se não te conhecesse.

— E o que mudou agora? Não posso acreditar que o fato de nos esbarrarmos na rua o faria mudar de ideia tão repentinamente. Eu não...

— A verdade é que não foi repentinamente — Jaime prosseguiu com um sorriso receoso, sentando-se na beira da poltrona e fazendo seus joelhos se tocarem levemente ao ficar mais perto dela. — Sei que você provavelmente não quer saber disso, mas eu enfrentei uma crise de abstinência muito intensa desde a última vez que nos vimos e apenas há cerca de uma semana consegui começar a colocar um pouco da minha vida nos eixos.

Brienne engoliu em seco. Ao ver Jaime tão bem, não havia lhe ocorrido que ele tivesse passado por momentos extremamente ruins para que isso acontecesse.

— Acredite, quando vi sua mensagem eu não tinha condições de responder, e depois que passei por essa fase turbulenta quis muito entrar em contato, mas... minha vida ainda não está totalmente nos eixos. Minha mente ainda não está cem porcento no lugar... E não achei que seria sábio te envolver nisso. Ainda mais depois do que aconteceu — Jaime completou de maneira cuidadosa.

Refletira muito tempo a respeito do que queria dizer à jovem e, por mais que a realidade fosse sempre diferente da imaginação, dessa vez queria fazer tudo certo.

— Estava tudo indo relativamente bem por esse caminho, mas, ao te ver novamente, percebi que não queria que as coisas permanecessem do jeito que ficaram. Isso me ajudou a finalmente tomar uma decisão a respeito de uma ideia que estava na minha cabeça há dias e que eu tentava ignorar.

Depois de tudo o que escutara, Brienne tentava se agarrar à única coisa que fazia sentido naquela conversa. Tinha que se concentrar em algo além do rosto de Jaime, que agora estava com uma barba por fazer bem diferente da barba desgrenhada que ele ostentava algumas semanas atrás, o que lhe permitia ter um vislumbre completo do homem cuja carreira ela acompanhara.

Jaime, definitivamente, era muito mais bonito pessoalmente do que nas fotos, era difícil não olhar para ele fixamente. E a maneira como ele falava que pensara nela quase lhe dava a ilusão de que Jaime se importava com ela de uma maneira que ia além da amizade. No entanto, isso seria ir longe demais em suas fantasias.

— E que ideia seria essa? — Brienne questionou encarando suas mãos.

— Que você podia ser minha aluna.

A jovem, que havia levado o copo de suco a seus lábios para tomar um gole, começou a tossir, engasgada com a bebida.

— O quê? — conseguiu perguntar em meio à tosse, indagando-se se escutara direito.

Jaime a fitava preocupado, mas logo Brienne conseguiu se estabilizar.

— É tão absurda assim a ideia de ser minha aluna? — ele questionou com um sorriso brincalhão ao notar que ela já estava bem. — Foi você mesma quem sugeriu que eu desse aulas.

— Sim; e me lembro muito bem como você reagiu diante da vaga menção desta ideia — a jovem falou com os olhos arregalados. — Como pode ter mudado de ideia tão rápido?

— Posso garantir que não foi algo que aconteceu tão rápido assim — Jaime explicou dando uma mordida em seu sanduíche. — Refleti bastante e cheguei à conclusão de que você estava certa. Minha vida não terminou ainda e eu tenho que parar de agir como um pobre coitado.

— Não foi exatamente isso que eu disse — Brienne respondeu um pouco constrangida.

Se fora isso que ele entendera com suas palavras, estava explicada a atitude explosiva.

— Eu sei que não, não com estas palavras pelo menos, mas é a verdade. Garanto que pensei em te enviar uma mensagem inúmeras vezes, mas o que eu diria? Pedir desculpas não adiantaria de nada se eu não começasse a mudar — ele afirmou enquanto comia. — Obviamente, apesar de estar confiante agora, esse é um processo que requer tempo e sei que ainda vou cometer muitos erros. Sei que admitir isso não serve como incentivo, mas eu ficaria muito feliz se você aceitasse participar da minha "reabilitação" como ser humano.

Brienne respirou fundo e permaneceu em silêncio por um momento, pensando no que acabara de ouvir.

— Fico feliz por notar que você está melhor e que está buscando um meio de se encontrar novamente, Jaime, mas não sei se é uma boa ideia me escolher como sua primeira aluna — expôs, tentando ser o mais objetiva possível. — Nossas conversas até agora sempre terminaram em brigas e há muitas pessoas que fariam de tudo para tê-lo como professor. Se quiser posso verificar com os alunos da minha turma na faculdade, sei que alguns deles também têm interesse em aprender a tocar algum instrumento musical.

Era óbvio que a ideia de ser aluna do famoso Jaime Lannister a deixava empolgava, todavia, não sabia se queria correr o risco de enfrentar uma nova reviravolta nas atitudes dele.

— Eu encaro nossas brigas iniciais como um teste que serviu para conhecermos o pior lado um do outro antes que o melhor fosse revelado — ele brincou, fazendo-a rir junto com ele.

Brienne tentava permanecer séria, porém, a alegria de Jaime era contagiante. O homem que estava à sua frente naquele momento, se parecia mais com aquele que ela vira em entrevistas no youtube.

— E eu não quero outros alunos. Quero você.

Ela sentiu seu rosto esquentar e Jaime certamente podia perceber, porém o tom que usava era totalmente intimista e a forma como dissera aquelas palavras fazia com que soassem quase como uma declaração de amor.

— Por quê? — Brienne perguntou afastando aquelas ideias românticas de sua cabeça.

— Porque gostei da maneira como você fala da música em seus estudos. Parece ser alguém totalmente dedicada e que gosta do que faz. Além disso, você mesma disse que gostaria de aprender a tocar alguns instrumentos pra descobrir qual é aquele que mais toca sua alma. Esta seria uma ótima oportunidade para nós dois.

A jovem ainda não parecia totalmente convencida e Jaime suspirou resignado.

— Sei que não posso te obrigar a aceitar, e confesso que me afastei de tudo o que pudesse ser relacionado à música durante estes anos que passei isolado, mas, como você mesma disse, a música faz parte de quem sou e sem ela é como se mais do que uma mão tivesse sido arrancada de mim. Quero redescobrir a música e quero que você, uma das pessoas que abriu meus olhos, participe disso. Meu irmão até concordaria em ser meu aluno, mas sei, por experiência própria, que ele não tem o menor talento musical. — Os dois riram novamente e isso quebrou a tensão da conversa.

— Acho que não perdemos nada por tentar, certo? — ela se pronunciou por fim voltando a encará-lo com um pequeno sorriso.

— Concordo plenamente — Jaime replicou sentindo um arrepio percorrê-lo ao se encontrar sob o olhar dela.

Não estava apaixonado. Não, não era isso; mas havia algo na maneira com que Brienne o fitava que mexia com ele. Era uma sensação que o atormentava quando estavam distantes e que o afligia quando estavam perto um do outro, como agora. Definitivamente não estava apaixonado, porém isso não significava que permaneceria assim por muito tempo.


Renly:

Como assim você vai ao apartamento do Jaime?

O que está acontecendo?

Não acredito que você soltou uma bomba dessas e sumiu.

Eu vou te matar, Brienne!

Que conversa demorada é essa?

Eu preciso de respostas!

Ao sair do apartamento de Jaime e pegar o ônibus para ir embora, finalmente, Brienne pôde pegar seu celular e riu ao ver que havia várias mensagens de Renly, assim como algumas chamadas perdidas. Era óbvio que ele estava desesperado para saber o que havia acontecido; ela estaria do mesmo jeito se fosse o contrário.

Brienne:

Oi, saí do apartamento dele agora.

Renly:

O que está acontecendo? Vocês se entenderam?

Estão juntos? Como isso aconteceu?

Brienne:

Você soa como se nós tivéssemos terminado e reatado, Renly.

E nunca tivemos nada pra começo de conversa.

Hoje nos encontramos por acaso e conversamos. Só isso.

E agora ele vai me dar algumas aulas.

Renly:

O quê? Eu preciso de detalhes. Detalhes!

Vou te ligar agora, e acho bom me atender dessa vez.

Brienne caiu na gargalhada e logo viu o nome de Renly brilhar na tela de seu celular. Atendeu a ligação prontamente e começaram a conversar de maneira animada. Não era só ele que precisava ouvir aquela história, ela também precisava repassar tudo o que acontecera para acreditar que não se tratava de apenas um sonho, afinal ela teria aulas com um de seus músicos favoritos!


1 "Depende de você, e depende de mim

Ninguém pode dizer o que seremos

Então por que não reescrevemos as estrelas?

Talvez o mundo possa ser nosso hoje à noite" Tradução Livre.