Parte II

"Há uma grande lição na 'Bela e a Fera':

Tem coisas que precisam ser amadas antes de ser amáveis."

G. K. Chesterton

Capítulo 16

"I'm gonna pick up the pieces and build a Lego house
When things go wrong we can knock it down1"

Lego House, Ed Sheeran

Renly:

Assim que acabar sua "aula",

Quero saber tudo o que aconteceu entre vocês.

Brienne:

É realmente uma aula, Renly.

Não vamos ficar nos agarrando.

Renly:

Bem, ainda assim, quero saber.

Vai que vocês mudam de ideia no meio do caminho. rs

Brienne:

Você não tem jeito, sabia?

Renly:

Sabia. Ainda bem que você me ama assim mesmo. ;)

O fim de semana se passara num piscar de olhos, o que significava que já era o primeiro dia de aula de Brienne com Jaime; e a jovem sentia-se muito nervosa com isso. Talvez ainda acreditasse que esta história não terminaria bem, ou talvez simplesmente ainda não soubesse muito bem como se comportar perto dele. Jaime exercia uma espécie de magnetismo sobre ela, mesmo quando ainda não havia decidido mudar e, apesar de tentar se manter afastada para não se deixar levar por seus encantos, não podia negar que morria de vontade de se aproximar ainda mais dele. Brienne vivia em um constante paradoxo.

Esses e outros pensamentos não deixavam sua mente em paz e os comentários de Renly também não a ajudavam nessa questão. Aparentemente, seu melhor amigo era capaz de perceber suas emoções mesmo à distância.


Brienne almoçou rapidamente no refeitório da faculdade após o término de suas aulas e seguiu para a casa de Jaime.

— Está com fome? — ele perguntou assim que ela entrou no apartamento. — Eu já almocei, mas fiz um pouco a mais pra você.

— Eu já comi — Brienne respondeu um pouco envergonhada diante da gentileza dele. — Seu eu soubesse, não teria...

— Bem... nas próximas vezes podemos combinar melhor e você almoça comigo aqui.

Ela assentiu ainda constrangida e Jaime a guiou em direção a uma escada estreita que, à primeira vista, ficava escondida dos olhos daqueles que entravam no apartamento, pois se localizava numa das extremidades da sala.

— Aonde estamos indo? — a jovem perguntou curiosa.

— Ao meu estúdio — ele explicou enquanto subiam as escadas e, assim que chegaram ao topo, Brienne estacou deslumbrada.

Jaime não possuía um estúdio dentro de casa, ele transformara o apartamento acima do seu num estúdio; e havia todos os tipos de instrumentos no local. Havia um piano de cauda feito de mogno, violinos, saxofones, violões, guitarras, amplificadores, e tudo o que ela podia imaginar e o que não podia. Isso sem falar no aparelho de som de última geração. Era como entrar num paraíso musical.

— Eu pensei que você havia desistido completamente da música e que não tivesse mais dinheiro para manter algo assim — a jovem comentou assombrada pelo requinte daquele ambiente.

Os prêmios que a banda de jazz dele ganharam estavam expostos numa estante com portas de vidro, e havia pôsteres e fotos deles espalhadas pelas paredes.

— Não sou um miserável, se é isso o que pensava — Jaime explicou rindo da suposição dela. — Tenho alguns investimentos e ações na empresa de meu pai, que fazem parte da herança que minha mãe deixou pra mim e pro meu irmão. Além disso, meus discos e músicas ainda fazem algum sucesso, embora a maioria das pessoas hoje em dia prefira outro tipo de música. Se é que podemos chamar de música essas coisas que tocam agora. — Brienne caiu na gargalhada ao ouvir suas palavras. — O que foi? — Jaime perguntou confuso.

— Você parece o meu pai falando que pop e rock são um lixo — ela disse antes de voltar a caminhar e admirar os instrumentos expostos por toda parte.

— Já começo a gostar dele — replicou Jaime sorrindo, observando a atenção que ela dedicava a cada instrumento pelo qual passava. — Ele está totalmente certo.

— Ah, Jaime, por favor, não seja exagerado. Nem todas as músicas atuais são um lixo. Não é possível que não goste de nenhuma — Brienne contestou voltando seus olhos para ele, repentinamente.

— Isso não vem ao caso — ele respondeu corando levemente. — O que quero dizer é que não há mais cantores como Frank Sinatra ou Louis Armstrong hoje em dia.

— Ok. Ok. Com isso eu posso concordar — ela concedeu rindo.

— Ótimo. Porque eu já estava repensando a ideia de te dar aulas — comentou fazendo-a rir novamente.

Felizmente a interação entre eles não estava sendo tão conturbada quanto Brienne esperava.

— Agora chega de conversa — Jaime prosseguiu. —Vamos começar essa aula de uma vez.


No decorrer daquela tarde, ele passou um bom tempo falando sobre os instrumentos e suas especificações; e Brienne se mostrou mais interessada pelo piano e pelo saxofone, talvez pela empolgação de Jaime ao manusear o instrumento ao qual mais se dedicara durante sua vida e que era o mesmo que ele usara na maioria de seus shows.

Após algumas explicações, a jovem foi capaz de tocar uma ou duas notas do instrumento; algo que deixou Jaime muito emocionado, embora tentasse não demonstrar.

— Fazia muito tempo que eu não ouvia esse som — ele comentou olhando para o chão.

— Se quiser, podemos nos concentrar nos outros instrumentos — Brienne disse afastando o saxofone de seus lábios um pouco constrangida.

— Não. Se você gostou do sax, não vou impedi-lo de ser apreciado. É bom que ele volte à ativa depois de tanto tempo — Jaime explicou passando a mão pelo objeto e esbarrando na dela. — Você deve me achar louco por falar de meu saxofone como se fosse um ser vivo, mas...

— Não acho — ela respondeu interrompendo-o. — Acho perfeitamente normal. Aposto que você passava mais tempo com ele do que com as pessoas — concluiu sorrindo envergonhada e Jaime deu risada.

— Pode ter certeza disso. Na verdade, preferia muito mais a companhia dele a de algumas pessoas.

Ele continuou explicando as nuances dos sons do saxofone e como ela poderia alcançá-los; e a tarde progrediu desse jeito até que anoiteceu sem que eles percebessem.

— Nossa, as horas passaram muito rápido — Brienne falou ao notar como o céu estava escuro ao se levantar para esticar as pernas e olhar pela janela.

— É o que acontece quando fazemos algo que gostamos. — Jaime também se levantou e parou ao lado dela.

— Essa vista é incrível! — a jovem falou olhando para o céu.

Considerando-se que Jaime morava em um dos andares mais altos daquele edifício, era possível observar as estrelas sem muita interferência das luzes da cidade.

— Na minha casa não consigo ver as estrelas tão bem assim.

— Se você fosse na casa de campo da minha família ia ficar louca. Lá a vista é muito melhor, ainda mais se o telescópio que eu usava quando criança ainda estiver lá — ele comentou. — Houve uma época em que eu sonhava em ser astrônomo. Dá pra acreditar?

— E desistiu? Ainda dá tempo — ela falou animada e Jaime riu, pensando tratar-se de uma brincadeira, porém Brienne continuava a encará-lo de maneira decidida.

— É sério? — A jovem assentiu. Ele ainda sorria pensando no que ela dissera. — Acho que não é algo totalmente impossível, mas não sei se ainda gostaria de me tornar um astrônomo. As pessoas crescem e mudam de planos; e eu já segui meu sonho uma vez. — Indicou os instrumentos às suas costas.

— Você não precisa ter apenas um sonho. Eu tenho vários — ela comentou de maneira sonhadora. — Posso não conseguir alcançar a metade deles, mas isso não quer dizer que vou deixar de sonhar. Tenho tantos sonhos como tenho músicas favoritas, tanto atuais quanto antigas; e ainda vou te fazer admitir que gosta das músicas de hoje em dia. — Os dois voltaram a rir.

— Duvido muito disso, mas eu também duvidava que daria aulas algum dia, e aqui estamos nós.

— Me aguarde — ela brincou, afastando-se da janela e se aproximando de sua mochila. — Agora acho que é melhor eu ir embora antes que fique muito tarde.

— Certo. Se quiser posso te dar uma carona — ele disse surpreendendo-a.

— Você dirige?

— Ultimamente, não muito, mas tenho um carro adaptado às minhas necessidades. Meu irmão fez questão que eu comprasse um logo depois do acidente. Não preciso explicar o porquê de ter usado tão pouco, afinal você ainda deve se lembrar de como eu estava na primeira vez que me viu. — Ela assentiu sem saber o que dizer. — De qualquer forma, dirigir é como andar de bicicleta.

— Eu acho que prefiro que você pratique um pouco antes de aceitar sua carona — Brienne falou num tom divertido. — E hoje eu vim de carro.

— Escapou por pouco — Jaime brincou enquanto começavam a descer as escadas e ele a acompanhava até a porta. — Depois me envie uma mensagem dizendo se vai querer continuar com as aulas e quando faremos isso.

— Se? Eu estava pensando em todos os dias da semana — a jovem disse empolgada —, mas depois percebi que você, provavelmente, tem outras coisas pra fazer e eu também, então poderia ser segunda, quarta e sexta. Se não for atrapalhar, é claro.

— Acho que temos um acordo, então — ele concordou e Brienne fez o melhor possível para tentar se controlar e não sair do apartamento dele pulando de alegria, como queria fazer.

— Até quarta, Jaime.

— Até, Brienne.


Brienne:

A aula foi incrível!

Estou ansiosa para que quarta chegue logo.

Acho que isso vai dar certo.

Renly:

Está ansiosa apenas pelas aulas?

Brienne:

E por que mais seria?

Renly:

Pra ver aquele homem maravilhoso, né, Brienne?

Para de ser fazer de cega!

Brienne sacudiu a cabeça e resolveu ignorar seu amigo. Agora não era o momento para se deixar levar pelo que sentia ou deixava de sentir por seu mais novo professor. Jaime estava fazendo com que um lado seu, com o qual ela não tinha muito contato, despertasse; contudo, isso não significava que planejava se jogar de cabeça nesta descoberta. Além disso, seu foco principal eram as aulas de música e era a isso que se dedicaria. Ao menos era o que planejava.


1 "Eu vou juntar as peças e construir uma casa de Lego

Quando as coisas derem errado, podemos derrubá-la". Tradução Livre.