Capítulo 7

"I'm the dust that spins and the gust of wind that's blowing by

I'm a desert dry and in my thirsty eyes

You look like rain1"

You Look Like Rain, Luke Bryan

Negan abriu a porta com um sorriso charmoso, formando aquela bendita covinha que sempre chamava a atenção de Olivia, e se afastou para que ela pudesse entrar no cômodo, no qual uma mesa com o jantar deles já estava posta.

— Você está linda — ele disse acompanhando-a até a mesa e puxando a cadeira para ela. Negan não usava sua camisa branca e jaqueta de couro costumeiras, e sim uma camisa social azul, com as mangas dobradas até a altura de seus cotovelos.

Olivia comportava-se de acordo com o que seria esperado numa situação dessas, contudo, não se deixava iludir. Ela acabara de entrar na toca de um predador e esperava um ataque a qualquer momento. Depois que ela se acomodou, Negan se sentou à sua frente e começou a servi-la.

— Como tem sido tratada até o momento? — ele questionou e Olivia se perguntou se ele realmente pretendia fingir que estavam em um encontro romântico numa noite qualquer, como se fossem um simples casal apaixonado antes do mundo acabar.

— Bem — ela respondeu; e planejava dizer apenas isso. No entanto, antes que pudesse se deter, as palavras continuaram saindo de sua boca. — Suas "esposas" me trataram muito bem e já me colocaram a par de como as coisas funcionam por aqui.

Negan parou de colocar a comida no prato dela e soltou um suspiro. Se não o conhecesse, Olivia poderia pensar que ficara constrangido com a situação, porém sabia que o homem à sua frente era um completo sem vergonha e que não se intimidaria por suas palavras.

— Eu posso explicar isso... — ele começou passando a língua por seu lábio inferior, como se pensasse na melhor forma de se expressar. — Nós, homens, muitas vezes temos necessidades e precisamos de mulheres para satisfazê-las, e...

— Sei... E se a mulher em questão não quiser atendê-lo, será obrigada. — Negan a fitou chocado.

— Nenhuma delas foi obrigada a se deitar comigo, Olivia.

— Aposto que não — Olivia retrucou com ironia. — E aposto que você nunca ameaçou as famílias delas, não é? Porque isso seria o mesmo que obrigá-las, se você não sabe.

Negan olhava para seu prato pensando no que responder, porém Olivia não estava disposta a lhe dar essa chance.

— É isso que vai acontecer comigo? Se não atender seus desejos, vai matar meus amigos? Ou... — Ele segurou a mão dela, que estava sobre a mesa, deixando-a sobressaltada.

— Olivia... Eu nunca faria isso com você — Negan falou encarando-a com seriedade.

— E por que não? Por que eu sou digna desse tratamento especial e elas não foram? Qual é a diferença entre nós? Além do óbvio é claro. Eu...

— Um líder às vezes precisa tomar decisões difíceis, Olivia — ele iniciou, mas ela o interrompeu.

— Sim. Decisões pelo bem de seu grupo e não em benefício próprio — ela insistiu. — Isso que você fez é revoltante.

— Será que não podemos apenas ter um jantar tranquilo e conversar sobre isso depois? — ele indagou pressionando a mão dela levemente.

Seus planos para aquele jantar estavam saindo totalmente diferentes do que havia planejado.

— Como espera que tenhamos um jantar normal nestas circunstâncias? — Olivia questionou com incredulidade. — Sou uma refém aqui, não faço ideia do que planeja fazer comigo e descubro todos esses absurdos. Como esperava que eu fosse reagir ao saber disso tudo?

— Acho que meus planos de te trazer até aqui não chegaram tão longe — ele admitiu um pouco constrangido.

Não esperava ser questionado daquela forma, embora soubesse que Olivia jamais concordaria com suas atitudes. Pelo pouco que conhecida dela, podia afirmar isso.

— E no que tinha pensado ao tomar essa decisão? — Olivia questionou com incredulidade.

— Que quero conhecê-la. Quero que me conte mais sobre você. — Se Negan planejava deixá-la surpresa, certamente tinha conseguido. — Quero saber sobre sua vida antes disso tudo.

— E a troco de que eu deveria me expor a você? Duvido que fará o mesmo.

— O que você quer?

— O quê? — Olivia o fitou confusa.

— O que seria razoável o bastante para que você comece a acreditar que eu digo a verdade?

Olivia refletiu por um momento e, por fim, deu um sorriso vitorioso. Se teria que se sujeitar a esta situação, ao menos tentaria ajudar outras pessoas.

— Quero que pare de ameaçar essas mulheres para que se deitem com você e não quero que faça nada contra elas por terem me contado o que acontece aqui. — Negan a encarou com um brilho divertido nos olhos.

— Tudo bem — respondeu assentindo. — Farei o que me pede, mas estou surpreso. Eu não sabia que você era tão ciumenta, Olivia. Já quer se livrar de suas rivais? — perguntou de maneira brincalhona.

— Não seja ridículo, Negan — ela contestou puxando a mão que ele segurava há algum tempo. — Eu apenas não quero que se machuquem por tentarem me ajudar; e você seria bem capaz disso.

— Eu seria capaz de muitas coisas — Negan concordou. — Ainda assim, você não incluiu nenhuma cláusula em nosso trato a respeito do que posso fazer a você. Isso é, sem sombra de dúvidas, muito sugestivo. — Olivia voltou a corar. — Isso me dá muitas ideias a respeito de nós dois, ainda mais agora que só poderei dedicar minha atenção a você.

— Não necessariamente. Suas "esposas" podem optar por continuar ao seu lado — ela replicou constrangida. — E está implícito que você não deve me obrigar a nada também.

— E eu já lhe disse que não vou obrigá-la — ele reafirmou com convicção —, mas não vou deixar minha situação com as meninas em aberto. A partir de amanhã não terei mais "esposas", e você não poderá mais questionar a seriedade dos meus atos. — Olivia engoliu em seco e desviou seus olhos dos dele. Não esperava que a conversa fosse terminar desse jeito. — Agora que já resolvemos isso, podemos voltar a ter uma conversa mais amena e normal. — Negan passou a se servir. — Me fale mais sobre você.

Olivia piscou e mexeu sua comida com o garfo antes de começar a falar. Sentia-se numa espécie de sonho e era um dos sonhos mais loucos que já tivera.

Após o desentendimento inicial entre Negan e Olivia, o jantar transcorreu tranquilamente e, cumprindo sua parte do acordo, Olivia falou sobre sua vida antes daquele apocalipse enquanto comiam e bebiam o vinho que Negan abrira, algo de que Olivia realmente sentia falta naqueles dias onde tudo era escasso.

Ele agia como se estivesse genuinamente interessado no que ela dizia. Ria nos momentos adequados e fazia as perguntas esperadas na hora certa, o que a deixava satisfeita e animada por prosseguir, já que fazia muito tempo desde que alguém dispendera tanta atenção a ela.

Se aquela cena se desenrolasse em outros tempos seriam apenas um casal se conhecendo e, ao chegar a esta conclusão, Olivia ficou ansiosa para voltar ao seu quarto. Ela sabia que não devia acreditar nas palavras e falsas boas intenções de Negan, porém era difícil se convencer disso naquele momento. Seus sentimentos estavam extremamente conflituosos e, além disso, o vinho a deixava mais desinibida.

— Acho que seria melhor continuar esta conversa depois — ela disse um pouco receosa. — Estou cansada e gostaria de ir para o meu quarto. — Olivia o encarou temendo que Negan pudesse se recusar a deixá-la ir, mas tudo o que ele fez foi dar um pequeno sorriso de canto e assentir.

— Claro. O trajeto que percorremos foi realmente cansativo. E sempre haverá outro dia para conversarmos.

Olivia concordou, limpou os lábios com o guardanapo e se levantou para, em seguida, caminhar até a porta; contudo, ao girar a maçaneta percebeu que a porta estava trancada. Isso a deixou sobressaltada mais uma vez e ela se voltou para encarar Negan, que riu ao ler o temor em seus olhos.

— Isso só significa que eu não queria que fossemos interrompidos — ele explicou se levantando e pegando a chave em seu bolso. — Quantas vezes vou ter que dizer que não a obrigarei a se deitar comigo? — Negan parou ao lado dela tocando levemente seu corpo com o dele e entregando-lhe a chave.

— Sempre que agir de maneira suspeita — ela respondeu estreitando os olhos em sua direção. Negan voltou a rir.

— Acho melhor eu já andar com uma placa dizendo isso pendurada no pescoço. — Olivia não conseguiu evitar um sorriso diante da brincadeira e isso o deixou feliz. Ela abriu a porta e se sentiu mais tranquila ao ver que estava mais perto da liberdade.

— Obrigada — falou à guisa de despedida lhe devolvendo a chave. Ficou ainda mais envergonhada ao notar o olhar perscrutador dele.

— Vou acompanhá-la até seu quarto — Negan replicou.

— Isso é desnecessário — Olivia falou alarmada. — Meu quarto fica apenas a algumas portas de distância.

— Eu insisto. — Ela assentiu a contragosto e seguiu ao lado dele pelo corredor. — O que me diz de jantar comigo novamente amanhã? — Olivia o encarou surpresa.

— Você está doente?

— Não. Por quê?

— Porque está me perguntando se eu quero ir e não me obrigando. Só pode estar doente. — Negan baixou a cabeça e sorriu.

Desta vez era um sorriso que, até então, Olivia nunca tinha visto nos lábios dele. Quase um sorriso tímido. Um sorriso que, provavelmente, ele usara muito na época em que era adolescente e ainda lhe restava alguma timidez ao lidar com as garotas.

— Ouvi dizer que tenho que parar de coagir as mulheres a fazerem o que eu quero. Só estou colocando o conselho em prática. — Eles pararam diante da porta dela e Olivia encarou-o como se o visse com novos olhos, porém não sabia o que dizer a respeito daquele convite.

— Ainda não entendo por que insiste nessa ideia de me conquistar, mesmo depois de suas explicações. Não sou como suas "esposas". Não sou bonita, nem prendada. Não tenho habilidades secretas na cama. Tenho certeza de que não faço seu tipo... — Negan a silenciou com um beijo. Um beijo que, por mais que Olivia tentasse negar, fora muito bom. Quando se separaram ela estava incrivelmente vermelha. — Mas você disse...

— Foi só um beijo, Olivia — ele respondeu voltando a usar seu sorriso charmoso e dando de ombros. — E eu não a obriguei a me corresponder. Essa parte foi decisão sua — concluiu num tom convencido e fazendo um aceno de despedida, antes de se virar e seguir em direção ao seu quarto. — Espero sua resposta amanhã.

Olivia ainda ficou parada ali durante alguns segundos, tentando processar o que acabara de acontecer, no entanto, logo entrou em seu quarto e fechou a porta sentindo que seu coração disparava, da mesma forma que ocorrera quando ele a beijara pela primeira vez. No que estava se metendo?

1 "Eu sou a poeira que gira numa rajada de vento que passa

Eu sou um deserto seco e nos meus olhos sedentos

Você parece chuva". Tradução Livre.