Capítulo 16 - Onde a linha do tempo se quebra

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Antes de pegar o caminho que a levaria até a cabana, Samantha decidiu passar na delegacia para ver se conseguia uma carona com Hopper. Àquela altura estava molhada até os ossos e com dor de cabeça, só queria descansar o corpo já que a mente não dava trégua. Passando pelo centro da cidade um carro estacionado chamou sua atenção, na parca luz da rua o azul eletrizante do Camaro barulhento podia ser visto em frente a loja de discos. Determinada a esclarecer aquela dúvida que apertava seu peito, parou a bicicleta próximo e entrou na loja.

Encontrar Billy não foi difícil, além da fumaça do cigarro era só procurar a seção de heavy metal. Ele estava parado no final de um dos corredores, cigarro na boca e uma capa de disco nas mãos.

– Então fui trocada por Motörhead? – brincou ao se aproximar, buscando uma réplica divertida como sempre acontecia entre eles, ansiosa em se agarrar a qualquer fio de normalidade e grudar nele de agora em diante se fosse preciso.

Diferente do que esperava, não recebeu nenhum sorriso atrevido ou resposta espirituosa, sem se mover o garoto apenas virou os olhos na sua direção indicando que tinha sido notada. Parecia frio, distante, quase outra pessoa.

– E então, não vai falar nada? – tentou novamente, sempre mantendo um tom de brincadeira na voz. – Você me deixou sozinha esperando no meio da noite, acho que mereço uma explicação.

Munida de coragem se aproximou ainda mais colocando a mão no braço dele, ao seu toque Billy se encolheu, mas ainda assim Sam sentiu a pele fria e úmida.

– Vá embora – o comando entrou pelos ouvidos dela como uma sentença assustadora. O que ele estava dizendo?

– Billy aconteceu alguma coisa? Se me contar eu posso te ajudar, eu posso-

– Vá embora, Sam! – o tom de voz mais alto, irritado, a assustou. Não era uma atitude normal dele e isso era angustiante quando sabia o seu destino no futuro. Frio como em sua lápide. – Fique longe de mim.

Devolvendo o LP para a prateleira o garoto deu as costas e saiu pisando duro, quase como se precisasse de muita força física para manter o controle, depois passou pela porta de entrada em direção ao seu carro na noite chuvosa; o Camaro cantando pneu na partida. Parada em seu lugar como a estaca de uma cerca, Sam se sentia confusa demais para conseguir reagir. Com o coração pesado soltou o ar que nem percebeu ter segurado. Não havia dúvidas, ela tinha falhado em protegê-lo.

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Sam teve uma noite horrível regada de pesadelos desconexos com as pessoas que tanto tinha aprendido a amar. Em todos os cenários possíveis tinha falhado em tudo que tentou fazer, com as pessoas que queria proteger, e sempre terminava sozinha em um vazio sem fim. Foi o som insistente do telefone que a acordou para o seu alívio. Na sala encontrou Hopper enrolado em uma toalha e estampando hematomas no rosto, ao seu lado a Sra. Byers deu um aceno sem graça. Até tentou perguntar se estava tudo bem, mas o delegado a interrompeu com um resmungo.

– Atendam a droga desse telefone pelo amor de Deus.

Arrastando os passos até o aparelho, a garota atendeu com a voz sonolenta apenas para ter que afastar o aparelho do ouvido pois Mike gritava desesperado do outro lado da linha.

– Sam? Onde a El está? Temos um código vermelho, vocês estão bem?

– O que?

– Um código vermelho! Onde está a El?

Droga, era difícil raciocinar tão cedo, ainda mais com Mike Wheeler berrando "temos um código vermelho" na sua orelha.

– Mike a El dormiu na Max, ela não está aqui.

– Certo. Então vem agora para a minha casa, é urgente. Temos um código vermelho!

É, não há nada ruim que não possa piorar.

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Quando entrou no porão dos Wheeler todos já estavam lá, exceto por Dustin, eles se sentaram em círculo e Will começou a narrar sua história. O garoto contou sobre os arrepios que voltou a sentir desde o dia que aconteceu o apagão no shopping, era a mesma sensação que ele teve no ano anterior com o Devorador de Mentes e agora sentiu novamente na noite anterior perto do Castelo Byers.

A teoria de Will de que eles trancaram o pedaço da criatura que estava dentro dele naquela dimensão parecia mais do que boa, era precisa. Sam poderia até não saber como as coisas tinham acontecido, mas sabia com certeza que tinham ocorrido, que esse mesmo pedaço tinha controlado Billy como um fantoche de onde veio.

Foi só depois que Eleven perguntou sobre como identificar o novo hospedeiro – já que a criatura não se movimentava sozinha – que o nome de Billy foi trazido para a conversa. Sam continuou em silêncio por mais algum tempo sobre o que aconteceu na noite anterior na loja de discos, em partes porque não queria acreditar que fosse verdade. Quando chegaram na piscina, olhando pelos binóculos do lado de fora, o encontraram em sua cadeira de salva-vidas: óculos de sol, boné, camisa de manga e toalha cobrindo as pernas. Novamente Will deu uma aula sobre o comportamento do Devorador de Mentes no corpo do hospedeiro e todos os sinais a serem notados.

Max ainda custava a acreditar que o meio-irmão estivesse com uma criatura do Mundo Invertido dentro dele. Não era por falta de provas, era só a realização de o quão horrível era para a pessoa passar por isso; Will estava ali, era a prova viva do trauma que ficava para trás, não existia uma vida normal depois disso. Então foi por isso que enfim Sam tomou a frente revelando o ocorrido na loja de discos, da atitude estranha, da pele fria e das palavras que ouviu. Se tivesse mesmo algo de errado com o amigo faria o possível para ajudar a reverter a situação, continuar mentindo só poderia prejudicá-lo mais.

Como normalmente acontecia, Mike foi o primeiro a se movimentar, sua mente aguçada arquitetando um plano que dividiu todos em uma tarefa. Sam e Max ficaram do lado de fora vigiando os passos do salva-vidas enquanto os demais pegavam o que era preciso para tudo funcionar. A garota ruiva estava nervosa com o resultado, com o binóculo em mãos torcia baixinho para que o irmão não fosse o hospedeiro.

– Espero que não seja você. Eu espero mesmo que não seja você.

Era difícil quando você queria garantir que tudo ficaria bem, mas não tinha certeza de nada, então o máximo que Samantha conseguiu dizer para acalmá-la foram palavras que nem ela mesma acreditava.

– Daremos um jeito nisso. Vai ficar tudo bem, Max.

Quando o horário avançou e a piscina esvaziou, eles puderam colocar em ação o plano que chamaram de "o teste da sauna". Se Billy fosse mesmo o hospedeiro, tirariam essa dúvida e tentariam expulsar o Devorador de Mentes de dentro dele com o calor. Isso se tudo desse certo, a prática era sempre mais difícil do que a teoria.

Atrair Billy até a sauna foi fácil, irritado como de costume só era difícil dizer se aquilo era o seu eu normal ou alguma criatura agindo. Quando ele mordeu a isca, El o jogou contra a parede e os demais, em um perfeito trabalho em equipe, travaram a porta com um cano de metal, corrente e cadeado.

Parados em frente a porta o viram lutar para tentar abri-la pela força bruta, murros poderosos fazendo o metal tremer sob seus punhos. Quanto ele levantou a cabeça seus olhos se encontraram com os de Sam e de Max, em descrença balbuciou seus nomes. Will foi rápido em ligar a sauna, não tinham tempo a perder caso aquele fosse mesmo o hospedeiro. Os demais apenas encaravam ansiosos pelo resultado enquanto gritos de "me tirem daqui" ecoavam pelo banheiro vazio. Billy estava transtornado, gritando e esmurrando o metal pesado, fazendo com que Sam se encolhesse como se pudesse sentir dor física com a cena que se desenrolava ao vê-lo sofrer.

Quando a temperatura atingiu 100 graus o garoto se sentou no chão da sauna, obrigando quem estava do lado de fora a se aproximar para ver melhor seu corpo encolhido no chão, balançando como uma criança que tenta se acalmar.

– Não foi culpa minha, eu juro. Eu juro, Sam – Billy começou a falar, sua voz tremendo no processo.

– O que não foi culpa sua? – perguntou Sam, sentindo o nó na garganta apertar. Seus pés se moveram e ela se aproximou um pouco mais. – Billy?

– Eu fiz uma coisa ruim. Não queria fazer, eu fui obrigado.

– Do que você está falando? Quem te obrigou?

– Tommy.

Longe de qualquer resposta que esperava ter, aquele novo nome a fez ficar parada alguns instantes com a boca aberta sem conseguir dizer nada. O que Tommy tinha a ver com tudo aquilo? Billy, que tinha abaixado o rosto, voltou a encará-la com um semblante cansado.

– Tommy? O que ele te fez? – estava ansiosa demais em saber, essa nova informação poderia mudar todo o curso dos acontecimentos se fosse verdadeira e, naquele momento, era tudo o que tinha para se agarrar.

– Por favor.

– Billy o que aconteceu? Precisamos saber para poder ajudar.

– Por favor, acredite em mim. Não é minha culpa. Eu não sabia que isso aconteceria, a Heather...

– O que tem a Heather? – Max agora tomou a frente, a voz embargada pelo choro.

– Eu tentei impedir. Eu tentei – o garoto continuou de sua posição no chão abraçado aos joelhos, seu cabelo grudando no pescoço pelo suor e o peito subindo e descendo numa respiração pesada. Ele parecia pequeno ao se encolher daquela forma tão desolada. – Ele me pediu ajuda porque ela estava chateada e eu dei uma carona. Foi só isso.

– Billy, vai ficar tudo bem – a meia-irmã repetiu mesmo em meio a tanta incerteza dos demais. – Queremos te ajudar.

– Não é ele – Sam se virou para Mike e Will. – Não é o Billy, precisamos abrir a porta.

– Ainda é cedo para dizer – Mike tentou argumentar.

– Não é cedo. Olha a temperatura dessa coisa, se fosse o Devorador de Mentes já teria se manifestado – a garota repetiu séria, sentia a urgência de tirar Billy dali. Não era ele, sentia que não era e estava disposta a apostar nisso. – Lucas me passa a chave do cadeado.

– E se for ele? – o garoto Wheeler tentou segurar seu braço ao voltar a argumentar. – Vai se responsabilizar?

– Vou. Não é ele, eu sei que não é e vocês também sabem. A chave agora!

Pegando a chave para abrir o cadeado, Sam tomou a frente desligando a temperatura da sauna e entrando pela porta, Max seguiu seus passos sem precisar de um pedido. No chão Billy tinha o rosto lavado de suor, os olhos vermelhos e a respiração arfante. Enquanto se certificava de que estava tudo bem, o garoto ainda repetia que não era sua culpa. Ao ajudá-lo a se levantar, dividindo o peso com a garota ruiva, ele deitou a cabeça em seu ombro demonstrando todo o cansaço que sentia. Tão rápido quanto conseguiram saíram de dentro do cubículo abafado e se apoiaram na parede do lado de fora, músculos pesavam e os dele eram difíceis de carregar.

Distraídos com o que acontecia no momento, ninguém percebeu a figura que se aproximava até que seus passos estivessem perto demais.

– O que aconteceu aqui? – a voz masculina falou ao mesmo tempo em que Will endureceu o tronco.

Samantha viu Tommy Hagan, sustentando um sorriso tão robótico quanto o de Heather, parado próximo a porta que dava acesso àquela área, o único problema é que tinham trancado o vestiário para que ninguém entrasse ou saísse. Os mais novos se moveram de imediato se afastando de onde ele estava.

– Como você entrou aqui? – perguntou dividindo sua atenção entre Billy que parecia querer desmaiar a qualquer momento e o convidado inesperado.

– Com a chave – Tommy mostrou uma chave que não sabiam de onde tinha conseguido. Dificilmente ele teria em seu chaveiro uma chave do vestiário masculino da piscina pública de Hawkins. – Ei, cara, você está bem?

Quando o garoto tentou se aproximar ela levantou a voz. Ao seu lado, Billy sussurrava em uma voz quase delirante que ela precisava sair dali, sair de perto do Tommy.

– Não se aproxime!

– Ora, Sam, somos amigos.

"Mike", ouviu Will chamar pelo amigo. Ele apertava a nuca e se encolhia enquanto Tommy ainda se aproximava.

– Já disse para não se aproximar.

– Ou o que? – agora o falso sorriso dele tinha sumido, havia um tom ameaçador em sua voz grave. Seus passos pesados ecoavam pelo lugar vazio, não estava nem um pouco disposto a parar. – Ou. O. Que. Sam?

– Ou isso – Eleven tomou a frente do grupo, com a mão estendida, levantou e lançou Tommy para dentro da sauna.

Tão ágeis quanto conseguiram ser, Lucas e Mike aproveitaram o atordoamento do rapaz para voltar a trancar a porta com o cano e a corrente; não foi tão difícil desde que já estavam com eles em mãos para usarem como armas. Will voltou a ligar a sauna, mas Sam achava desnecessário continuar o teste, estava claro quem era o hospedeiro do Devorador.

– O que você fez com ela? – Eleven gritou do lado de fora, a pose de combate permanecia a mesma. Heather era toda sua preocupação naquele momento.

Havia tanto o que pensar e fazer, porém Samantha continuava parada no mesmo lugar ajudando a sustentar o peso de Billy que resmungava coisas sem sentido aparente, cansado e fraco demais para reagir, mas ainda assim preocupado com ela e Max. Queria poder tomar a frente e tirar todos dali, levar os mais novos para um lugar seguro, mas quando a sauna, já quente de antes, voltou a esquentar, um urro animalesco foi ouvido ao mesmo tempo em que as luzes piscaram frenéticas. Tommy apareceu com o rosto colado na janelinha de vidro da porta e começou a esmurrar o metal mandando que o soltassem, tinha veias negras por todo a face, braços e torso, ali estava o Devorador de Mentes. A sensação que ela sentiu era a de que todo o ar de seus pulmões foram drenados, restando apenas incertezas; a história havia mudado.

Tommy era um garoto forte, isso somado ao Devorador o tornou uma ameaça que não esperavam ou estavam preparados para lidar. Seus socos faziam o metal ranger, as dobradiças tremiam e os gritos afundaram o vestiário em uma cacofonia confusa demais. Com horror viram quando ele quebrou a janela de vidro – um braço suado, sangrando e cheio de veias enegrecidas passando pelo buraco como se os cacos de vidro não fossem nada – puxando o cano de uma só vez e se chocando com a porta até que ela abrisse.

Fora de sua prisão, Tommy se ergueu com uma calma aterrorizante. Não era apenas a perseguição, era o ato calculado de aterrorizar suas presas antes de realmente atacar. Aquela lentidão calculada antes de dar o bote. Eleven novamente tentou ser mais rápida jogando um peso nele, porém ainda era uma criança contra uma criatura de força sobre-humana.

Muita coisa acontecia ao mesmo tempo enquanto as luzes piscavam. Tommy tinha invertido a situação a seu favor e estava com a mão em volta do pescoço da garota menor, seu aperto fechando a traqueia dela. Mike foi rápido em acertá-lo com a barra de ferro obrigando que ele soltasse a menina, mas isso só fez com que o monstro mudasse sua vítima. Em uma incrível demonstração de poder, El se levantou novamente para erguer Tommy no ar e jogá-lo através da parede de tijolos, fazendo um buraco por onde seu corpo passou. Ainda fragilizados viram quando ele se levantou e saiu cambaleante para a escuridão da noite de Hawkins.

Billy até poderia não ser mais o hospedeiro, o que era bom, mas isso não queria dizer que tudo daria certo. Ainda sustentando o grande peso dele, Sam se perguntou quais seriam as consequências de seu envolvimento e da mudança dos fatos.

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Ainda chocados demais com o que tinha acontecido e com duas pessoas precisando ser socorridas, Sam acabou se tornando a adulta responsável novamente. Eles precisavam sair o quanto antes da piscina, se alguém pelos arredores tivesse ouvido o barulho da batalha logo um carro de polícia apareceria. Depois de pegarem o Camaro pararam em uma área mais isolada do centro e esperaram pacientes pela recuperação de El e de Billy. Mesmo com o silêncio havia expectativa nos olhos de todos, queriam entender o que tinha acontecido e o verdadeiro significado por trás das palavras que ouviram.

Depois que Billy tomou toda a água da garrafa que compraram numa máquina, ficou um tempo em silêncio encarando o céu estrelado. Mais do que devendo explicações via que ele precisava falar, colocar para fora o que quer que tinha presenciado e qual era a culpa que o atormentava. Sabia que seria difícil para ele se abrir com tantos estranhos ao redor, sendo assim Sam se encostou ao lado dele no capô do carro e segurou sua mão.

– Não precisa passar por isso sozinho. Somos uma dupla lembra? Ninguém aqui vai te culpar de nada – começou apertando a mão trêmula. – Você pode olhar só para mim enquanto conta o que aconteceu se isso te deixar mais confortável.

Foi exatamente isso o que o garoto fez, virando sua atenção para ela, e apenas para ela, limpou a garganta antes de começar a narrar o que tinha passado em um tom de voz menos arrogante do que sempre empregava. A vulnerabilidade atípica tinha chamado a atenção de todos ali.

– Lembra que marquei de nos encontrarmos na parte alta da cidade? – após um aceno positivo ele continuou. – Encontrei com Tommy naquela tarde dentro do depósito de materiais químicos da piscina, ele parecia estranho, agitado e meio aéreo. Achei que tinha fumado um baseado, sei lá, isso não me interessava. Ele contou que tinha furado um encontro no motel com a Heather na noite anterior, que ela estava furiosa e que precisava da minha ajuda para consertar as coisas.

– Motel? – perguntou curiosa.

– Aquele na Cornwallis – Sam deve ter feito uma cara muito confusa porque isso fez o garoto parar sua história por alguns segundos para explicar outra coisa. – Eu devolvi a chave, não tinha motivos para usar.

Isso a tinha pegado de surpresa. Samantha realmente achou que teria usado a chave.

– Ok, mas e depois? – Mike perguntou impaciente. Ele não ligava se as pessoas estavam ou não em um motel, ou nas explicações que os dois mais velhos trocavam, estava parado ao lado de El que ainda parecia esgotada com o último embate.

– Deixa ele falar – Max resmungou de outro canto. Seria difícil qualquer conversa mais pessoal entre eles naquele momento.

Ignorando os demais, Billy se manteve firme encarando Sam nos olhos para poder continuar.

– Ele queria que eu a levasse para um lugar especial onde pediria suas desculpas, você deve imaginar o tipo que seriam. Avisei que não poderia, que precisava me encontrar com você e mesmo assim ele insistiu que era só uma carona rápida para a Heather. Eu estava de saco cheio, mas resolvi passar no lugar só para dar a carona e depois ir até você.

– Vimos vocês dois no carro – El se pronunciou em tom suave, parecia difícil para ela se comunicar. Seu pescoço ainda estava bastante vermelho do aperto.

– Mesmo irritada ela não mostrou resistência em ir encontrar Tommy. Só disse que era bom que o meu amigo tivesse uma boa desculpa por ter feito ela passar a noite esperando num quarto de motel barato – Billy ignorou o que a menina falou, estava focado demais nas próprias lembranças e em tudo o que precisava dizer. – Depois que chegamos no lugar marcado não consigo me lembrar de muita coisa.

– Como assim? – Sam questionou.

– O lugar não parecia certo, lembro de ter árvores ao redor, mas nada do Tommy. Saí do carro porque a Heather começou a reclamar que era uma pegadinha e depois disso ficou tudo escuro. Quando acordei estava deitado no chão – aqui ele parou por alguns segundos, seus olhos tinham ficado vagos como se mentalmente estivesse revivendo o acontecido. – Era escuro, sujo e eu estava amarrado. Braços e pernas. Heather estava do meu lado da mesma forma, a boca tinha uma mordaça. Achei que alguém tinha sequestrado a gente, algum maluco terrorista, não sei. Antes fosse isso.

Ele sorriu, uma risada sem humor. Era um claro sinal de que as coisas sempre podiam piorar e foi o que aconteceu.

– Aproveitei que não vi ninguém e consegui cortar as cordas dos meus braços com o canivete – aqui ele lançou um aceno de cabeça positivo para Sam. – Depois do ano passado achei que era uma boa ideia andar com um no bolso igual a você, ainda bem que fiz isso. Soltei minhas pernas e fui até Heather, tirei a fita da boca dela e cortei os nós. Eu estava abaixado quando Tommy apareceu. Ele começou a falar coisas sem sentido, um discurso sobre não ter medo, que tudo acabaria logo e que deveríamos ficar parados. Ouvimos o som de um animal, quase como uma fera, vindo de uma entrada dentro do galpão, de uma escada que descia para um lugar escuro. O barulho era igual ao dos democães no ano passado.

– O Devorador de Mentes – ela ecoou em voz alta o pensamento de todos.

– De repente aconteceu alguma coisa, não sei explicar. Senti alguém me vigiando, não parecia ruim, mas estava lá, dentro da minha cabeça – aqui Max sussurrou "El" e Sam a encarou em concordância. Foi o momento em que Eleven entrou na mente de Billy. – Tommy também pareceu ter sentido e ficou parado, distraído o suficiente para que eu pegasse a mão da Heather e começasse a correr. Estávamos quase na saída quando a mão dela escapou da minha, quando me virei vi aquelas vinhas da toca arrastando ela pelos tornozelos. Eu tentei ajudar, juro que tentei, só que aquilo era diferente do ano passado. Era maior, mais resistente e eu não consegui.

Aqui Billy parou de narrar para desviar o olhar para o chão, estava envergonhado com o que precisava dizer.

– Eu a deixei para trás, não consegui salvá-la. Heather continuou a gritar pelo meu nome enquanto era arrastada para o buraco escuro, aconteceu muito rápido. Só consegui voltar a correr depois que entendi que eu seria o próximo se não fizesse algo. Tommy começou a se aproximar e eu só fui em direção a saída, ele gritava que se eu não ficasse calado as pessoas ao meu redor pagariam por isso. Ele disse que iria até você, Sam.

– Billy...

– Não queria falhar com você. Eu não podia deixar que ele te fizesse algum mal. Não como com a Heather.

– Foi por isso que me afastou ontem na loja de discos – ela não perguntou, não precisava disso. Sabia exatamente como a cabeça dura dele funcionava. Preferia segurar sozinho os próprios problemas ao invés de dividi-los.

– Sinto muito por isso. Precisava colocar minhas ideias no lugar, tentei procurar o delegado Hopper e não consegui. Sei que ele seria o único policial a acreditar em mim.

– Ah, Billy – suspirou sentindo o peito apertar. Ele teve que aguentar tanto sozinho.

– E a pochete? O gelo, o sangue? – Max lembrou do que encontraram no quarto dele. – Estavam no seu quarto.

– Você entrou no meu quarto? – o irmão perguntou mostrando um pouco de irritação na voz. Nada como um irmão mais novo invadindo seu espaço particular para acordar seus sentidos.

– Nós entramos. Te vimos no Vazio – Sam tomou a frente.

– Vazio?

Eles precisaram explicar toda a dinâmica de El no Vazio, não foi preciso muito para que ele acreditasse. Inclusive concordou que pode ter sido mesmo a garotinha superpoderosa que sentiu em sua mente naquele fatídico fim de tarde. Ao menos fazia sentido.

– A pochete era da Heather – ele voltou a explicar. – Ela esqueceu no meu carro e eu só... só joguei fora.

– O gelo e o sangue? – El insistiu.

– O sangue era meu, minha cabeça tem um machucado. E o gelo era para o meu corpo, eu estava todo dolorido.

– E a camisa de manga? – Mike trouxe mais uma peça do quebra-cabeças para ser resolvida. – Te vimos na piscina de óculos, boné e camisa de manga.

– Eu 'tô doente. Ou não posso? – aqui Billy já parecia voltar um pouco ao seu normal. Não gostava nem um pouco de ser questionado por um bando de pirralhos. – Estava na rua naquela chuva de ontem.

– Billy só mais uma coisa, você esteve ontem na casa da Heather? – Sam precisava tirar essa dúvida. Sabia que não era ele, mas mesmo assim precisava daquelas palavras para que ninguém mais o interpretasse errado.

– Na Heather? Não, por que eu estaria lá? A Heather desapareceu.

– Ela não desapareceu – anunciou sem titubear. – Heather está viva e estava em casa ontem. Tinha alguém mais.

– Quem? Como? – o garoto perguntou confuso.

– Tommy – Max sussurrou chegando na resposta correta. – Ele estava lá?

– Eu acho que tinha mais alguém, tinha uma sombra na cozinha que continuou parada mesmo depois que a Heather saiu de lá com os cookies.

– Por que não nos avisou? – El perguntou confusa.

– Não tínhamos certeza de nada e eu não queria você ainda mais preocupada.

– Espera, como a Heather pode estar viva? Essas coisas não matam? – Billy agora encarou os demais em uma mistura de confusão e esperança. – Vocês estão me dizendo que aquela coisa que estava no pirralho Byers no ano passado agora está neles? Você não fechou aquele portal?

Era realmente difícil de aceitar que estava acontecendo novamente. Mais uma vez pessoas próximas a eles estavam sendo abatidas por aquela droga de Mundo Invertido como se fosse impossível desfazer aquela ligação doentia que foi formada. E infelizmente ainda estavam longe do fim. Foi preciso de mais um longo tempo de conversa para que explicassem suas primeiras teorias sobre o que pode ter acontecido, desde o pedaço do Devorador que foi retirado de dentro do Will até a alta probabilidade de Tommy ser o novo hospedeiro e de ter feito algo parecido com Heather. Também explicaram, e se desculparam, sobre o teste da sauna, da teoria de que ele fosse o novo hospedeiro e que tudo foi apenas o método escolhido para livrá-lo da criatura. Levou um bom tempo para que ele parasse de resmungar por ter sido trancado em uma sauna como quem enfia um peru no forno e assiste dourar, dada as circunstâncias ele deveria agradecer que a cabecinha do Mike pensou em tirar o Devorador dele – caso fosse o hospedeiro – ao invés de algo que o prejudicasse. No final o mais seguro agora era ficarem longe de Tommy e de Heather o máximo de tempo possível, novamente Hawkins não era um lugar seguro para se estar.

Depois de ficar mais tranquila com a forma que tudo tinha acabado até aquele momento, Sam estranhamente se sentiu disposta a dar uns bons chacoalhões do amigo, gritar e quem sabe até mesmo estudar o que tinha dentro daquela cabeça oca cheia de permanente. Não era porque se sentia aliviada que estava satisfeita com a forma que ele resolveu lidar com aquela situação, com o perigo que ela representava. Novamente Billy Hargrove não confiou nela o suficiente para dividir algo tão sério como aquilo.

– Vamos embora – chamou pronta para fazer mais uma vez as vezes de motorista, mas quando viu a mão estendida entregou a chave ao dono do carro. – Primeiro vamos deixar eles nos Wheeler e depois vamos até a cabana. Hopper precisa saber disso.

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