O sol estava queimando nesse dia específico. Tsuna amaldiçoou Reborn por ter jogado ele para comprar os mantimentos para o jantar nessa hora e calor, ainda era de tarde!

O jovem Sawada suspirou com sua vida miserável.

Enquanto caminhava em direção ao mercado, Tsuna não notou alguns de seus antigos valentões do outro lado da rua. Se ele tivesse percebido, teria corrido o mais rápido possível, mas isso não aconteceu e agora ele estava sendo empurrado em um beco escuro.

Tsuna mordeu a língua com força quando foi jogado abruptamente no chão sujo desse beco. Ele não tentou gritar por ajuda, nunca, realmente, alguém vinha em seu pedido.

Quando os chutes vieram em direção a sua barriga, Tsuna só pode gemer de dor. Ele tinha esquecido como era ser espancado todos os dias por seus valentões. Ele só tinha que aguentar até que seus valentões ficassem entediados com isso e fossem embora. Porém, contra todas as probabilidades, eles pararam e ficaram olhando com olhos famintos e escuros.

Tsuna abriu seus olhos e se recostou até suas costas baterem em uma parede suja. Seus olhos se arregalaram com o arrepio que sentiu, principalmente depois de notar que existia um garoto mais velho entre seus valentões. Ele era grande e musculoso.

Tsuna tentou afastar seu corpo quando o adolescente mais velho se abaixou em sua altura e agarrou seu queixo.

- Você tem razão, Tajiri, o garoto até que é bonitinho - Tsuna estremeceu quando aquele olhar desceu para seu corpo - Ele vai dar um belo brinquedo hahaha.

- Sim! A gente sabe disso. Segurem as pernas e braços, eu vou ser o primeiro a brincar e marcar ele.

Tsuna tentou gritar quando percebeu o que queriam fazer e o pequeno canivete na mão de cada um, contudo, uma mão áspera bateu forte em sua boca. Ele sentiu quando seu corpo estava sendo tocado, a camisa foi rasgada na frente.

O canivete brilhou em sua direção.

Estava claro que eles iriam machucar seu corpo e o humilhar, onde ninguém pudesse ver.

Tsuna não sabia o que sentir além do desespero, medo e terror. Com todos esses sentimentos fortes o dominando, ele não se preocupou com a sensação de fogo em seu peito, crescendo em nível alarmante.

Eles tinham uma navalha na mão e o objetivo tinha o objetivo de causar grandes cortes em seu corpo. Mas, pelos olhares escuros, ele não iria parar só nisso.

Quando as mãos tocaram no zíper de sua calça, foi como se algo tivesse rompido dentro dele. Os olhos de Tsuna ficaram laranja como ouro derretido e chamas mais quentes do que o próprio fogo tomaram conta de seu corpo.

Um grito aterrorizante foi ouvido, logo sumindo em seguida.

O beco escuro voltou a ficar silencioso.

Tsuna abriu os olhos, a chama começou a diminuir e permitiu que ele observasse a cena à sua frente. Um dos seus valentões estava encostado na parede do outro lado, o olhando com medo para ele. O segundo valentão estava olhando para suas mãos queimadas e soltando murmúrios incompreensíveis.

Faltava o terceiro. Foram dois que seguravam suas mãos e pés, junto com aquele adolescente mais velho que estava em cima dele.

No lugar onde deveria estar, só existiam cinzas.

Tsuna não teve tempo de analisar o que tinha acontecido, com gritos de desespero, os dois garotos que restaram, correram para cima dele com canivetes prontos para matar.

Seus olhos fecharam com medo, esperando a lâmina atingir seu corpo, mas o som de dois corpos caindo o fez abrir eles rapidamente.

Uma adolescente de cabelos rosados em uniforme escolar, estava parada na sua frente, com seus dois valentões desmaiados no chão.

Sasagawa Sakura.

Tsuna estremeceu com aqueles olhos esmeraldas o analisando e percorrendo seu corpo, o jovem Vongola tentou se cobrir com o que restava de sua camisa, mas um peso macio em seu rosto o impediu de prosseguir com essa missão inútil.

Era um casaco preto grande.

- Vista.

Sem exitar, Tsuna vestiu rapidamente. Sasagawa-san acenou para fora do beco, o pedindo para seguir ela.


A casa era grande e parecia bem organizada. Tsuna não sabia como reagir, ele tinha seguido Sasagawa, mas não imaginava que ela o levaria para a própria casa.

A casa de Kyoko-chan.

Tsuna deveria estar em êxtase por estar dentro da casa de sua paixão, contudo, ele não conseguia esquecer as lembranças do que aconteceu no beco.

Será que ele mat-

Seus pensamentos deprimidos foram cortados por uma mão quente segurando a sua. Sasagawa-san estava na sua frente, olhando com atenção para seus olhos, os mesmo que desviaram logo em seguida.

Ele não queria que ela pensasse o como Tsuna era patético.

- Você precisa de um banho, vamos.

Tsuna só pode seguir mais uma vez. Eles subiram e entraram em um corredor grande em direção a uma porta que ficava no final, mais afastada dos outros quartos. Quando entraram, Tsuna percebeu que era o quarto de Sasagawa-san.

O quarto era grande e tinha outra porta, que deveria ser para um banheiro próprio e particular, mas ele também era simples. Branco e preto. Não havia fotos ou coisas de garotas, sendo o único móvel de destaque, a grande estante cheia de livros encostada na parede.

E um cartaz grande com um símbolo que lembra uma folha.

Uma toalha branca foi colocada em suas mãos. Nenhuma palavra foi dita entre eles e Tsuna ficou aliviado por esse detalhe.

O banho foi um pouco demorado, Tsuna não queria fazer nada que o lembrasse daquele beco sujo.

Sua consciência só voltou para onde ele estava, quando saiu do banheiro com uma simples toalha no quadril e se deparou com Sasagawa-san sentada de pernas cruzadas na cama.

Com um livro em suas mãos.

Ela continuava vestida com um uniforme escolar, mas sem o blazer. Mostrando certo volume que Tsuna logo desviou o olhar.

- Vista essa roupa. É melhor do que andar pelado ou com roupas queimadas e rasgadas, Sawada.

- O que ? - Tsuna olhou para as roupas que Sasagawa-san apontou, sem tirar nenhuma vez os olhos do livro. Gritando envergonhado depois de notar sua situação - Desculpa!

Tsuna correu para o banheiro outra vez para se vestir. As roupas consistiam em uma calça de exército escura e uma camisa preta que ficou um pouco grande nele.

Não parecia muito seu estilo, mas não deveria reclamar. Contudo, Reborn vai fazer perguntas depois. Bem, não é como se Tsuna fosse dizer algo.

Seu batimento cardíaco diminuiu quando voltou para o quarto. Sasagawa-san ainda estava no mesmo lugar e lendo o seu livro nas mãos. Mas, logo seus olhos o esmeraldas o fitaram.

Desde a primeira vez que a viu, Tsuna não consegue parar de assemelhar o olhar verde com esmeraldas. Brilhantes e fascinantes.

E que sua intuição diz ser muito perigosa.

Sua boca travou com o que ele queria dizer, mas logo juntou coragem para se curvar.

- Obrigado! Eu.. eu não sei … o que teria… hun… acontecido - Tsuna agradeceu envergonhado e tímido, sua voz gaguejando no caminho.

- Não agradeça - Sasagawa-san respondeu indiferente e com um rosto impassível.

- Você… você viu o que tudo que aconteceu? - Tsuna perguntou com certo medo, não apenas das chamas, mas sim, do garoto que ele transformou em cinzas.

Do garoto que ele… matou.

Sua mente ainda não conseguia assimilar esse evento.

Ele não queria pensar neles agora.

Sasagawa-san o olhou atentamente, abaixando o livro e com um leve sorriso no rosto, gentil demais, o respondeu com uma voz calma e sedosa.

- Do que você está falando, Sawada? Eu apenas te encontrei todo molhado da chuva, quando estava voltando do mercado e ofereci para ficar na minha casa até ela passar. Eu emprestei umas roupas. Você é um amigo de Kyoko, ela ficaria com raiva se não ajudasse, né?

Sua boca abriu diversas vezes, mas a única coisa que saiu dela foi…

- Chuva?

- Sim. Está chovendo, Sawada - Sasagawa-san apontou para a janela, realmente, estava chovendo.

Tsuna a encarou com olhos surpresos. Tsuna olhou para a janela, realmente estava chovendo muito. Quando foi que começou?

Tsuna só pode olhar sem acreditar. Ele engoliu em seco tentando tirar algumas palavras da garganta, mas nada saia.

O que ele deveria fazer quando sua intuição dizia que ela, Sasagawa-san, estava mentindo e sabia exatamente o quê aconteceu naquele beco?

Tsuna ficou tanto tempo pensando o porquê dela está mentindo, que não notou quando o outro ocupante da sala se levantou.

- Sawada. O que aconteceu hoje, foi algo simples e sem importância, você não deveria pensar mais no assunto. Ok?

- Mas…mas…

Ele matou alguém.

Sasagawa-san o olhou com esmeraldas escuras naquele momento. Se aproximou dele e pegou seu queixo gentilmente, com a boca perto de seu ouvido, sussurrou palavras que o fizeram não olhar duas vezes para o beco quando voltou para casa na mesma direção.

O que não é visto, dito ou ouvido… permanece no escuro.