Capítulo 26

"I know I was born and I Know That I will die,

The in between is Mine. I am Mine1"

I am Mine, Pearl Jam

Brienne chegou a sua casa sentindo-se feliz e leve como há muito tempo não se sentia. Era como se ninguém pudesse tirá-la daquela bolha de felicidade que construíra com Jaime durante a tarde. No fundo tinha plena noção de que ainda era muito cedo para acreditar que aquela fagulha que surgira entre eles pudesse durar para sempre, contudo, era praticamente impossível fazê-la descer das nuvens; e, aparentemente, era isso que Tormund, o filho do amigo de seu pai, estava tentando fazer.

Era um pouco difícil para a jovem se manter concentrada em seus pensamentos felizes, quando aquele sujeito, que mais parecia um selvagem, olhava para ela como se fosse um pedaço de carne. Ele era tão alto quanto ela e, em conjunto com os olhos azuis, seus cabelos ruivos, pelo que ela podia observar, tinham vida própria, criando uma enorme bagunça sobre sua cabeça; o que lhe dava um ar rústico, que muitas pessoas chamariam de exótico. O pai parecia uma versão mais velha e mais séria do filho. A única diferença era que seus cabelos já apresentavam alguns fios brancos.

Infelizmente, o fato de ele a encarar de maneira indiscreta não era o pior naquela situação. Segundo seu pai, ele começaria a estudar na mesma faculdade que ela e, por isso, seus pais acreditavam que seria bom apresentá-los.

— Afinal — Selwyn, o pai de Brienne, prosseguia com a conversa —, é sempre bom ter um conhecido quando vamos para um lugar novo; e vocês podem se tornar amigos.

— Ou algo mais — comentou o pai de Tormund num tom brincalhão, fazendo todos, com exceção de Brienne, rirem.

Aquele comentário apenas serviu para que Tormund a encarasse mais fixamente do que antes, deixando-a ainda mais constrangida.

— Acho que teremos que manter apenas uma amizade, pois já estou saindo com uma pessoa — ela disse bebendo um pouco de vinho.

Esta era a primeira vez que mencionava o seu recente envolvimento com Jaime a alguém e não sabia se já deveria tocar no assunto, no entanto, não gostava da forma como se referiam a ela naquela conversa; como se não tivesse qualquer escolha além de ficar com o troglodita à sua frente.

— Está falando sério minha filha? — perguntou seu pai surpreso. — Você não tinha mencionado nada sobre isso.

— Não vejo razão pra mentir, pai; e, se não comentei antes, é porque é algo muito recente — ela replicou encarando-o com um pouco de irritação, tanto pela incredulidade em sua voz quanto por sua insistência em contradizê-la. — Além disso, mesmo que eu não estivesse saindo com alguém, isso não significa que precisam me empurrar pra cima do Tormund como se eu fosse uma mercadoria.

A mesa silenciou por um momento depois dessa admoestação.

— Não era a minha intenção ofender — disse o pai de Tormund, constrangido. — Apenas mencionei uma possibilidade.

— Uma possibilidade que depende do querer de duas pessoas e, no meu caso, não há este interesse.

— Brienne! — seu pai a repreendeu. — Timothy já se desculpou. Por que está agindo dessa maneira? Você nunca foi assim.

— Acho que estou cansada de comentários que dão a entender que não tenho opção a não ser aceitar o que me oferecem — ela falou séria. — Não tenho nada contra você Tormund, mas não gosto da maneira como me olha desde o início deste jantar e, mesmo se gostasse, isso não significa que queira ter algum tipo de relacionamento com você. — Brienne pousou o guardanapo sobre seu prato e se levantou. — Com licença. Já terminei de comer.

E, assim, ela deu as costas a eles e seguiu para seu quarto.


Jaime:

Como foi o jantar? Não pensa em me trocar por outro, não é?

Brienne riu ao se deparar com aquela mensagem ao chegar ao quarto e pegar o celular. Era incrível como Jaime, ainda que por meio de brincadeiras, conseguia ser tão inseguro quanto ela. Mesmo sem estar ao lado dele, a jovem podia jurar que ele tivera que se controlar para não telefonar para ela ou surgir em sua casa repentinamente durante o jantar.

Brienne:

Digamos que o jantar não acabou muito bem.

E eu, definitivamente, ainda não planejo trocar você. rs

A jovem pensou que a resposta demoraria, mas, aparentemente, Jaime estava de prontidão ao lado do telefone.

Jaime:

Esse 'ainda' me fez sentir bem confiante agora. rs

O que aconteceu?

Brienne:

Não sei se o intuito do meu pai era mesmo me jogar pra cima do Tormund,

mas quando o pai dele sugeriu que podíamos ser mais que amigos,

cortei a conversa e disse que já estava saindo com alguém.

Não sei se fiz bem em sair afirmando que estamos juntos,

mas não estava mais aguentando aquela conversa.

Jaime:

Fez muito bem! Não quero esse tal de Tormund de olho em você.

E Jaime nem sequer fazia ideia de como ele a encarar durante o jantar.

Brienne:

Bem, depois disso, eu meio que discuti com meu pai

e com seus convidados; e saí da mesa, indignada.

Não sei se essa foi a melhor maneira de agir...

Talvez eu tenha exagerado.

Jaime:

Não quero te colocar contra seu pai ou qualquer outra pessoa,

mas eles não têm o direito de decidir com quem você deve sair ou não.

Ninguém tem. E, conhecendo você, não acho que conseguiriam, se tentassem. rs

Brienne sorriu ao ler aquela mensagem. Jaime podia ser um grande idiota às vezes, no entanto, sabia exatamente como apoiá-la quando era preciso.

Brienne:

Obrigada, Jaime.

Jaime:

Disponha. ;)

Ela estava prestes a dizer mais alguma coisa apenas para continuar conversando com ele, quando uma batida soou à sua porta. Só podia ser seu pai.

— Entre — ela falou soltando um suspiro.

Não queria voltar a discutir com ele, no entanto, se seu pai voltasse a mencionar Tormund, Brienne não sabia se conseguiria se conter.

— Posso me sentar? — Selwyn indagou constrangido, aproximando-se dela. A jovem apenas assentiu e ele se sentou à beira da cama. — Acho que te devo desculpas — disse por fim.

— O senhor acha? — Brienne inquiriu arqueando uma sobrancelha.

— Ok, senhorita cabeça dura. Eu tenho certeza — ele replicou com um sorriso de canto. — Eu não devia ter rido do que Timothy falou e não devia ter ficado tão surpreso com o fato de você ter um namorado. É perfeitamente normal na sua idade.

— Perfeitamente normal, mas sei que é mesmo surpreendente que eu esteja saindo com alguém. Eu mesma estou surpresa com isso — Brienne falou e um sorriso envergonhado despontou em seu rosto.

— Eu sempre soube que um dia alguém a enxergaria, mesmo que você sempre tente se manter escondida; acho que eu só não estava preparado pra esse momento. — Selwyn acariciou a mão dela. — Agora me resta saber quando conhecerei esse sujeito — ele falou com um sorriso divertido. — Esperei muito tempo pela oportunidade de intimidar seus namorados.

Os dois acabaram rindo e já não havia mais nenhum sinal de ressentimento entre eles.

— Ah, pai, não começa. É tudo muito recente. Jaime e eu nem mesmo somos namorados oficialmente e...

— Jaime? Quais músicos conheço com esse nome? Lannister... Quem mais? — Selwyn comentou, tentando pensar em outros músicos que tivessem aquele nome.

Brienne sorriu diante da mania de seu pai de associar qualquer nome que escutava a alguém relacionado ao mundo da música. Dessa vez ele havia acertado em cheio, mesmo sem querer.

— Jaime Lannister. É dele que estamos falando. — Brienne voltou a rir ao notar a expressão chocada no rosto de seu pai.

— Deixa eu ver se entendi direito, minha filha está namorando Jaime Lannister, o músico? — A jovem apenas assentiu. — Aquele músico que sempre colocamos pra tocar no rádio? — Brienne voltou a assentir. — Uau. Eu cheguei a pensar que ele estava morto. Nunca mais vi nenhuma notícia sobre ele depois daquela história do acidente.

— Bem, acho que quando o conheci ele não estava exatamente vivo, mas Jaime está melhorando bastante.

— Com a sua ajuda, sem dúvidas — seu pai afirmou convencido. — Eu sempre disse que você era uma luz na minha vida; e é evidente que esse brilho não se restringe apenas a mim. Amanhã quero ouvir essa história completa, hein.

— Pode deixar — ela concordou e Selwyn se levantou e deu um beijo em sua testa.

— Eu te amo. Nunca se esqueça disso.

— Também te amo, pai.

A seguir ele saiu do quarto e a deixou sozinha com seus pensamentos. Brienne odiava brigar com seu pai e ficava feliz por aquela conversa ter corrido tão bem. Agora que estava sozinha podia se dedicar às recordações de tudo o que se passara naquele dia e voltar a conversar com Jaime.


1 "Eu sei que nasci, e sei que vou morrer

O que está no meio, é meu. Eu sou meu". Tradução Livre.