Capítulo 29

"It isn't your sweet conversation
That brings this sensation, oh no
It's just the nearness of you1"

The Nearness of You, Ella Fitzgerald & Louis Armstrong

Brienne tinha consciência de que algumas pessoas das mesas vizinhas olhavam para eles, alguns admirados e outros surpresos. Sabia disso pelos comentários esporádicos que podia escutar. Muitos dos que estavam almoçando no restaurante reconheciam Jaime da época em que tocava em bares e, evidentemente, não esperavam encontrá-lo por ali.

Jaime, ignorando os olhares direcionados a eles, conversava com ela sobre sua família e sua infância, sobre música e filmes; para ele qualquer coisa se tornava interessante simplesmente por estarem juntos.

— Está gostando do restaurante? — ele perguntou quando surgiu uma pausa na conversa.

— É perfeito — a jovem respondeu mais uma vez analisando o ambiente tranquilo e acolhedor, cuja música de fundo a encantava tanto quanto a comida.

Almoçar ao embalo de jazz era reconfortante e muito romântico.

— Como descobriu este lugar se vivia trancado dentro de casa? — indagou curiosa.

— Já toquei aqui — Jaime explicou em um dar de ombros e isso mostrou a razão de todos aqueles sussurros. — Já faz alguns anos, mas eu tinha esperanças de que o lugar ainda existisse. Achei que você pudesse gostar, então valia a pena arriscar; agora estamos aqui. E pensar que você queria ir direto pra casa... — Ele lhe lançou um olhar de leve repreensão. — Teríamos perdido uma ótima oportunidade.

— É verdade — Brienne concordou sorrindo feliz. — Obrigada por me fazer mudar de ideia.

— É pra isso que eu estou aqui — ele respondeu segurando a mão dela e a beijando.

Seu olhar dizia que sua vontade era de beijar sua boca, assim como ela também queria que ele fizesse, porém, a mesa entre eles os atrapalhava nesse sentido. Quando estivessem em casa seria outra história.


Agora que já estavam em seu apartamento, Jaime não sabia se aquela ideia era a melhor opção para sua saúde mental. Estavam sentados no sofá diante da televisão e ele envolvia Brienne pelos ombros com o braço direito, enquanto ela encostava a cabeça em seu ombro; uma cena tipicamente normal.

O problema era o que essa proximidade causava a ele. A jovem o abraçava pela cintura e eles trocavam beijos esporadicamente, porém o calor que assolava seu corpo não condizia com uma cena tão inocente. Jaime se sentia quase febril e os pensamentos que passavam por sua cabeça não tinham qualquer inocência.

Por um momento cogitou a possibilidade de que o fato de ter passado tanto tempo sem ter contato com uma mulher o estivesse afetando de maneira exacerbada, no entanto, não acreditava que fosse só isso. Brienne despertava nele a vontade de ser alguém melhor, mas também lhe despertava uma volúpia com a qual ele não estava sabendo lidar.

Na próxima vez em que trocaram um beijo, Jaime o aprofundou e forçou seu corpo sobre o dela, beijando-a de maneira apaixonada. Brienne ficou um pouco surpresa com sua atitude, no entanto, não sentia a menor vontade de lutar contra aqueles beijos. Logo o corpo de Jaime estava quase completamente sobre o dela no sofá e eles se beijavam sofregamente. O filme continuava sem que nenhum dos dois prestasse atenção.

Brienne nunca estivera numa situação semelhante a esta, mas seus instintos pareciam guiá-la; e a forma como seu corpo reagia ao contato de Jaime não deixava de surpreendê-la. Apesar das esperanças secretas que existiam em seu coração, não imaginara que pudesse se sentir realmente tão apaixonada e conectada a alguém como naquele momento. Quando Jaime começou a beijar seu pescoço e o vale de seus seios, o gemido que escapou de seus lábios não era algo que ela esperava se ouvir dizendo; nem a maneira como Jaime enlouqueceu por isso, aumentando o ritmo de seus beijos.

— Você está me deixando maluco, Brienne — ele disse voltando a beijar os lábios dela para, em seguida, se afastar. — Estou ficado totalmente fora de controle. — Jaime voltou a se sentar no sofá, ofegante. — Acho que estou com febre de tanto que a desejo.

A jovem permaneceu deitada, também ofegante, observando-o atentamente. Ela também estava com calor depois do momento que se passara entre eles, porém, agora que o observava com cuidado, Brienne notou que havia um brilho estranho nos olhos de Jaime; um brilho realmente febril. Ela sentou-se ao lado dele e pousou a mão sobre sua testa. Levou um susto com o calor que emanava dele.

— Jaime, você está muito quente — ela comentou preocupada e ele sorriu divertido.

— Isso é muito normal depois de um amasso, Brienne — Jaime respondeu tentando se aproximar para beijá-la mais uma vez, todavia, a jovem o impediu e revirou os olhos ao ouvir suas palavras.

Nunca tivera namorados, mas também não era uma completa idiota a respeito do assunto.

— Eu sei disso, Jaime, e o que estou querendo dizer é que você está ardendo em febre de verdade. Está doente. Deve ser por causa daquela chuva que pegamos no outro dia — ela insistiu angustiada, perguntando-se como demorara tanto a perceber isso. — Tem um termômetro por aqui? Precisamos verificar sua temperatura. Talvez seja preciso te levar a um médico.

— Eu estou bem, Bri — ele replicou tentando voltar a beijá-la.

A jovem não permitiu que ele a beijasse e teve que segurar o riso ao ver a expressão infantil e emburrada que surgiu no rosto dele por conta disso. Neste momento a voz dele soava como a de um bêbado e ela teve certeza de que Jaime não estava bem. Brienne se levantou do sofá e o ajudou a fazer o mesmo.

— Pra onde vamos? — ele perguntou abraçando-a, enquanto ela o ajudava a caminhar. Jaime cambaleava levemente.

— Pro seu quarto. Você precisa se deitar — Brienne falou acompanhando-o.

— Uau. Essa vai ser sua desculpa pra me levar pra cama então? — Jaime indagou com um sorriso malicioso e, dessa vez, a jovem não pôde deixar de rir.

— Você não existe, Jaime — ela comentou ajudando-o a se deitar na cama e cobrindo-o. — Agora você fica quietinho aqui, enquanto eu vou comprar um termômetro e algum remédio pra essa febre.

— Mas a gente nem terminou o filme — ele disse soando um pouco triste e sonolento. Brienne deu um sorriso e o beijou na testa com carinho.

— Vamos ter muito tempo pra isso.

Em seguida, ela saiu do quarto, desligou o DVD e a televisão e pegou as chaves do apartamento para ir à farmácia; antes mesmo que ela saísse, Jaime já havia adormecido.


Quando retornou, Brienne mediu a temperatura de Jaime, que realmente estava alta, e fez com que ele tomasse o remédio indicado pelo farmacêutico. Esperava que isso surtisse efeito, no entanto, se a febre persistisse, o levaria ao médico. De qualquer forma, decidiu preparar algo leve para que Jaime comesse mais tarde.

Estava na cozinha, analisando os itens da geladeira e pensando no que poderia cozinhar quando o telefone dele começou a tocar. Brienne se aproximou do aparelho e viu o nome Tyrion na tela. Sabia que se tratava do irmão de Jaime e que ele era a única pessoa com quem ele podia contar, o que significava que, provavelmente, Tyrion estava ligando para saber como seu irmão estava. No entanto, Jaime não tinha a menor condição de atendê-lo; e Brienne se perguntava o que devia fazer.

Se ela atendesse, Jaime poderia considerar isso uma invasão de privacidade; por outro lado, se deixasse o celular tocar indefinidamente, Tyrion podia pensar que Jaime tivera uma recaída e ficar preocupado. Esta decisão precisava ser tomada rapidamente, pois logo o telefone pararia de tocar, e foi então que Brienne se decidiu a atendê-lo.

Este não era o caso de uma simples invasão de privacidade; Tyrion tinha o direito de saber que seu irmão não estava bem.

— Alô — falou ao levar o aparelho ao ouvido.

Seu coração batia descompassado. Esta era a primeira vez que falaria com seu cunhado e não sabia o que esperar da conversa.

— Alô — Tyrion respondeu com um tom de dúvida. — Este é o celular de Jaime Lannister, não é?

— S-sim — Brienne falou envergonhada —, mas ele não pode atender no momento. Meu nome é Brienne.

— Ah! Então você é a famosa Brienne de quem tanto ouvi falar — respondeu Tyrion com satisfação. — Fiquei muito feliz em saber que você e meu irmão finalmente se entenderam. Eu já não aguentava mais ouvir o Jaime se lamentando pelos cantos e falando de você o tempo todo — ele completou rindo e Brienne se sentiu envergonhada, embora tenha ficado contente ao ouvir aquelas palavras.

— Eu também fiquei feliz com isso — conseguiu dizer dando um pequeno sorriso.

— E eu posso saber por que meu irmão não pode atender o telefone ou isso envolve vocês dois nus? — Tyrion brincou. — Espero não estar atrapalhando nada. — Brienne ficou mais vermelha do que já estava.

— Nós não estamos nus! — negou rapidamente, fazendo Tyrion rir. — Na verdade, Jaime está de cama com febre — ela explicou.

— Jaime está com febre? — ele inquiriu surpreso. — Aposto que quando estiver melhor vai ficar revoltado por ter estragado o primeiro encontro de vocês.

— Ele não ficou doente de propósito. Não tem por que ficar revoltado.

— Você ainda tem muito que conhecer de Jaime se diz isso — ele comentou com gentileza. — Acha que é necessário chamar um médico? Posso enviar alguém aí.

Brienne constatou que, apesar de vir de uma família que tinha bons recursos, Jaime e ela realmente viviam em mundos diferentes. Já devia ter imaginado que ele não ia a hospitais quando ficava doente, o hospital vinha até ele.

— Já dei um remédio pra febre a ele — a jovem explicou. — Se daqui a algumas horas a febre persistir, te aviso pra chamar o médico.

— Ok — concordou Tyrion. — Você planeja dormir aí ou prefere que eu vá?

Ela não tinha pensado tão longe ainda. Esperava que quando Jaime acordasse, já estivesse se sentindo melhor, porém isso não significava que seria capaz de cuidar de si mesmo. A jovem não havia cogitado a possibilidade de dormir na casa dele naquele dia, mas não teria coragem de abandoná-lo naquelas condições.

— Vou ficar com ele — respondeu por fim.

— Certo. Tenho certeza de que ele também prefere sua companhia à minha — Tyrion replicou rindo. — É melhor que anote meu número no seu telefone para que possamos trocar mensagens. Qualquer coisa, não hesite em me ligar. — Assim ela fez. — Obrigado por cuidar do meu irmão, Brienne. Ele tem muita sorte de ter te conhecido.

— Eu também tive muita sorte — ela disse antes de encerrar a ligação e ir verificar Jaime mais uma vez.

Realmente tivera muita sorte em encontrar alguém que a fizesse se sentir de maneira tão única; até mesmo quando estava doente.


1 "Não é sua conversa doce

Que traz esta sensação, oh não

É apenas estar perto de você". Tradução Livre.