Olá Pergaminhos e Nazarins, com mais um capítulo da minha fanfic Aquele que Voltou.

Renner busca orientação de quem mais entende de mentiras.

Com vocês

Aquele que voltou

Capítulo 64: Não Adoce a Verdade

06 horas antes da reunião

- Lord Demiurge, há uma visita aguardando uma audiência.

- Deixe-a entrar Pulcinéia; imagino de quem se trata.

A pessoa entrou no escritório do arquidemônio, ao se aproximar fez uma genuflexão.

- Senhorita Renner, não há necessidade de se ajoelhar todas as vezes, basta uma mesura, assim como todos.

- Obrigado, Lord Demiurge. Vim solicitar ajuda em um problema que surgiu.

- Imagino qual seja. Aiz-Sama pediu que você acompanhasse ele na reunião com o Conselho da Cidade Estado Argland.

- Sim, acredito que ele queira que...

- Você preste depoimento sobre a situação do antigo reino de Re-Estize.

- Sim, mas temo que não farão simples perguntas. Acredito que eles...

- Usarão magia de controle mental, ou no mínimo para detectar mentiras.

- Sim, Lord Demiurge. Eu sou boa atriz, o suficiente para enganar todos os humanos.

- Mas não para enganar um feitiço.

- O senhor está além de minhas capacidades mentais, antecipando toda esta situação. Então, o senhor poderia me ajudar?

- Com o controle mental não há preocupações; eles já estarão reticentes sobre usar tal feitiço em um soberano. Caso ainda insistam nisso, basta uma pequena manipulação, e irão esquecer essa opção rapidamente.

- Mas quanto ao feitiço de detecção de mentiras? Nunca passarei por ele, nem com amuletos anti-clarividência. Estes seriam identificados rapidamente por qualquer conjurador.

- Nisso eu não poderei ajudar.

- Mas, meu senhor, somos demônios, o senhor como o mais forte deve ser... - Renner caiu de joelhos, cortando a frase ao ver o olhar severo de Demiurge - ... PEÇO DESCULPAS PELAS MINHAS PALAVRAS!

- Senhorita Renner, só porque somos demônios, você acha que somos mentirosos?

- N-n-não, L-Lord Demiurge, lamento ter falado tal coisa, mas os tomos que o senhor indicou para eu ler...

- Dizem que demônios são mentirosos. Pelo jeito, você ainda está nos registros religiosos; estes falam mais sobre superstições do que estudos realmente.

- S-sim, Lord Demiurge. Decidi começar lendo sobre o que a nossa principal oposição teria a dizer sobre nós.

- Uma boa decisão, mas você precisa estar ciente de sua própria nova natureza. Veja, então começaremos com o básico: Não quero dizer que não mentimos; fazemos isso como qualquer espécie. No entanto, preferimos a manipulação e a enganação, oferecemos exatamente o que daremos, deixamos os humanos se confundirem, se enredarem com suas próprias suposições e erros. Olhe para si mesma; você mentia muito quando ainda era humana? E agora?

- Bem, sim, Lord Demiurge, a maioria das minhas conversas antigas incluía mentiras descaradas, mas pensando bem, desde que eu me tornei um ser demoníaco, acho que eu oculto mais a verdade quando falo com Climb ou Lakius. Meias palavras ou com duplo significado fazem o necessário; minto somente como um recurso limitado.

- Sim, isso faz parte da nossa própria satisfação, a manipulação. Mas usar meias palavras, duplo sentido, ser evasivo ou vago não evitarão totalmente uma descoberta.

- Eu imaginei que não, por isso vim procurar ajuda. Eu não entendo por que nosso senhor tomou tal decisão; ele apenas me avisou que eu iria junto, sem nenhuma preocupação.

- Isso, minha cara, é porque nosso senhor Ainz-Sama tem total confiança que possamos superar este obstáculo. Mas ele não dará as pedras para pavimentarmos o caminho; nós mesmos precisaremos talhá-las.

- Lord Ainz é o governante mais sábio. Então, Lord Demiurge, o problema se mantém. Como eu posso mentir bem o suficiente para enganar um feitiço de detecção de mentiras?

- Para isso, você deve procurar a pessoa que mais sabe sobre mentir em toda a Nazarick!

- Quem?

...

Minutos depois

*toc, toc*

- Já vai! Quem será a esta hora da manhã? Oh! Olá.

- Bom dia, Senhor Wild. Eu preciso de sua ajuda - disse Renner.

A princesa agora se encontrava na porta de uma cabana construída na beira do lago do sexto andar.

- Bem, claro Senhorita Renner, entre por favor, sente e me diga do que se trata. Por que você precisa da minha ajuda?

- Bem, resumindo a situação, eu participarei da reunião junto com Lord Ainz em Argland. Eles provavelmente usarão detecção de mentiras. Lord Demiurge me ajudou como pôde, mas me indicou para falar com o senhor sobre como mentir.

- Aquele homem tem uma fixação comigo. Você sabe que não posso mentir, né?

- Sim, recebi o memorando restrito.

- Ainda assim, você veio até mim.

- Sim.

- E quer que eu te ensine a mentir.

- Sim.

- Faltando cinco horas para a reunião.

- Sim.

- Agora sei o que uma mãe sente quando o filho pede em um domingo à noite, "cartolina" para o dia seguinte.

- Senhor, eu não entendi, o que é "cartolina".

- Nada, esqueça. Você já tomou café da manhã?

- Sim, obrigada.

- Bem, eu não. Vou preparar algo.

TW se levantou e foi até a cozinha. Na verdade, a parte interna da cabana era um ambiente bem aberto. Rústica por fora e moderna por dentro.

Ele começou a preparar o café rapidamente.

- Tem certeza que não aceita um "café"?

- O que é "café"?

- Hummm! Estranho, quando digo café da manhã e "degejum", o que você entende Renner?

- O senhor disse café da manhã duas vezes seguidas.

- Aaah, vejo o problema. A magia de tradução que permeia este mundo traduz palavras de línguas diferentes com o mesmo significado como "café da manhã" para uma palavra em comum, seja qual for a sua língua. Mas quando digo "café", ela não faz isso, talvez por que não exista café ou se existir não foi descoberto ainda e não foi nomeado em sua língua. Imagino quantas guerras começaram por erros de interpretação.

- Senhor Wild, afinal o que é "café"?

- Café é uma bebida feita com os grãos da planta chamada Café. Os grãos são secos, torrados e moídos. Depois, para preparar, são coados quase como um chá. Prove um pouco.

Renner aceitou a xícara com o líquido escuro, mais escuro do que qualquer chá que já tenha tomado. Ela deu um pequeno gole.

- Humm, delícia! - disse ela com o sorriso mais sincero que TW já tinha visto.

- Mentira.

- O quê? Como?!

- Você está mentindo, eu sei disso por que ninguém gosta de café puro e sem adoçar, não no primeiro gole. Tente de novo.

Renner novamente deu outro gole, desta vez fez uma careta.

- É a coisa mais horrível que já tomei.

- Isso foi verdade, um pouco exagerado, mas pura verdade. Café é a verdade, agora vamos por um pouco de açúcar, duas colherinhas apenas.

- O que é "açúcar"?

- Açúcar é um pó branco feito a partir do caldo de uma planta chamada cana de açúcar. O caldo é fervido até virar melado, se solidificar e transformado em pó. É mais doce do que a calda de frutas e o mel que você usa. Prove agora.

- Hum! Melhor, é bom!

- Vamos adoçar mais agora, adoçar bastante a verdade. Prove.

Renner novamente fez uma careta que parecia de enjôo.

- Doce demais, não é? Fica horrível se colocar muito açúcar. Deixe-me jogar isso fora - disse ele arremessando o conteúdo por sobre o ombro. Tal coisa voou pela janela e caiu sobre uma moita de amendoins, que desenvolveram temporariamente propriedades estranhas de super-poderes, propriedades que nunca foram descobertas.

- Certo, agora com um pouco de açúcar e leite.

- Muito bom! Eu gostei muito, parece chá com creme, mas o sabor é bem diferente e parece mais cremoso.

- Sim, é bom, dá para se acrescentar canela, "baunilha", usar cafés diferentes, leites diferentes, tomar frio ou como um "cappuccino".

- Imagino que algumas dessas palavras sejam ingredientes. Já ouvi isso na cantina ou no bar, mas o que tem haver tudo isso com o meu problema? Sei que é uma analogia, mas gostaria que o senhor explicasse.

- Certo, como eu disse, café é a verdade. Você pode adoçá-la, mas não muito; pode acrescentar coisas, melhorar o sabor, torná-lo mais palatável, como a verdade.

- Então eu devo florear e enfeitar o que eu disser. Eu posso fazer isso, mas evitará um feitiço de detecção de mentira.

- Não, não evitará, e é muito fácil perder a medida certa de tudo isso, deixando a verdade difícil de engolir. Não faça isso, sirva café puro; a verdade nua, como o café é uma questão de gosto, algumas pessoas preferem assim, e nessa circunstância você deve tornar as suas respostas pouco agradáveis. Não se esconda em meias palavras, nem tente fugir da pergunta.

- Certo, mas isso não evitará uma pergunta direta.

- Então você deve procurar o conjurador menos capaz, e o mais ansioso, para que não faça as perguntas certas, apenas aquelas as quais ele quer respostas.

- Eu devo então ser questionada pelo dragão.

...

Nota do Autor

Sobre os demônios mentirem, eu realmente queria torná-los criaturas que fossem honestas consigo mesmas sobre sua natureza enganosa.

Sobre o café jogado no amendoim é um easter egg bem obscuro, não vou dar dicas.

Em relação às palavras que Renner não conhece, imagino que no Novo Mundo não exista café ou açúcar como conhecemos e a magia de "convocar especiarias" só deve funcionar com coisas que eles conhecem.