Sob o dossel, ela ressonava serenamente, os cachos negros espalhados pelo travesseiro. Os pálidos raios de sol da manhã incidiam sobre o seu rosto, fazendo com que Rosette abrisse preguiçosamente os olhos. Ela passou a mão pelo colchão, percebendo que Phineas já se levantara.
Rose se ergueu da cama com um pouco de dificuldade. Estava sentindo dores nas costas desde o dia anterior, mas preferiu não dizer nada ao marido. Phineas estava agindo de forma superprotetora desde que descobriram que ela estava grávida de gêmeas.
Ela se dirigiu a passos arrastados até a penteadeira. Sentou-se e, com delicadeza, começou a escovar os cabelos, que alcançavam a altura dos ombros. O movimento quase hipnótico daquela ação fez com que a mulher se perdesse em seus pensamentos. Ela estava feliz como nunca se lembrava de ter sido antes. Mal parecia que fora há quase cinco que ela e o marido haviam trocado o primeiro beijo. Agora, com a chegada das filhas, a vida parecia ser perfeita. Apenas lamentava que a mãe não estivesse mais entre eles.
Ela foi resgatada de seus devaneios ao sentir uma das filhas chutando-lhe o ventre.
-Calma, coração. Mamãe já vai levantar e providenciar nosso café.
Rose trocou de roupa, colocando um vestido leve e confortável. Quando estava quase no pé da escada, escutou a voz do marido.
-Então Corbin e Cassius levaram Pericles para Lyon, para visitar os mestres bardos de seu marido? - ele dizia - Seu sobrinho está com quantos anos? Dezessete?
-Sim. - uma melodiosa voz feminina se pronunciou – Mas acredito que a empolgação de Pericles se deva mais ao passeio posterior à Paris que ao encontro com velhos druidas.
Enquanto Phineas soltava uma gargalhada diante do comentário da mulher, Rosette sorria ao reconhecer os cabelos rubros e a expressão usualmente suave de Aribeth Thorne, antiga colega de seu marido dos tempos de Hogwarts.
-Betsy - ela disse, com carinho - Se soubesse que estava aqui, teria me levantado mais cedo.
-De forma alguma - a ruiva respondeu - Você está prestes a dar à luz, precisa guardar energia.
Rosette apenas sorriu em resposta. Aproximou-se do marido, reclinando-se para lhe pousar um cálido beijo nos lábios.
Phineas levantou-se da cadeira, dando o braço à esposa e ajudando-a a sentar-se na cadeira próxima.
-Espero que o desjejum esteja do seu agrado e das meninas. - ele disse.
-Acredito que sim.
Aribeth observou os amigos com imensa afeição. Era notável para qualquer um o quanto os dois se amavam.
-Mesmo sabendo o quanto estima Betsy, não quis te acordar, querida - Phineas começou a se explicar- A visita dela é principalmente sobre negócios.
-Eu gosto das discussões de vocês - Rose respondeu, antes de dar uma generosa mordida na torrada coberta de geleia de framboesa.
-Não seja por isso - Aribeth chamou a atenção para si - Me disseram que não é bom contrariar uma grávida. Então, Sr. Black, o que me diz?
O moreno terminou de bebericar a xícara de Earl Grey antes de responder à amiga.
-Concordo. Imagino que tenha vindo aqui conversar comigo sobre o último editorial que escrevi.
A ruiva assentiu com uma expressão ligeiramente carregada.
-Meu amigo, não me entenda mal, eu até admiro a engenhosidade dos trouxas. Como antigo membro da casa de Rowena Ravenclaw, eu não consigo deixar de respeitar quem se utiliza do intelecto para triunfar. Carros, aviões, navios estão aí para provar que eles não são tão ineptos quantos nossos pares bruxos acreditam, embora eu tenha ressalvas quanto à questão da miscigenação entre nós e eles. Contudo, a maioria da comunidade mágica é bem mais intolerante.
-Inclusive seu irmão? -Phineas não conseguiu se refrear; nunca fora muito simpático a Cassius.
Aribeth revirou os olhos; admitia que o irmão mais velho sabia ser intransigente quando queria. Aquilo inclusive prejudicou o sobrinho mais do que ela gostaria de aceitar. Além de elitista, Pericles se tornara pouco proativo. Mesmo sendo os Thorne uma linhagem matrilinear e ela a líder do Clã, não havia muito mais que pudesse fazer além de tentar colocar um pouco menos de preconceito na cabeça do irmão, em todas as vezes que discutira com Cassius.
-Inclusive meu irmão, mas você há de admitir que existem pessoas mais radicais que ele, talvez a ponto de partirem para violência. - ela retorquiu.
Phineas passou a mão por entre os cabelos. Como poderia explicar à Betsy o quanto aquela posição lhe era cara, que dificilmente abriria mão das suas crenças?
-Você vai parar de financiar o jornal?
A ruiva olhou para o lado, observando Rosette com o canto dos olhos. A morena se mantinha calada, apenas esperando o desenrolar da conversa. Betsy não desejava trazer um assunto tão espinhoso para alguém no estado da esposa do amigo, mas era preferível que Rose soubesse a verdade. Florear a realidade nunca trazia benefícios.
-Não, não vou parar, Phineas. Apesar de discordarmos em algumas coisas, acredito que seu jornal tem sua importância. Você sabe que o poder de Grindelwald está aumentando e existem coisas que o ministro Fawley prefere que não sejam noticiadas. O Profeta pode questionar o governo às vezes, mas não são incisivos como você. Por isso seu trabalho é tão importante. Só peço que tome cuidado.
Black abaixou a cabeça pensativamente, refletindo sobre tudo aquilo. Conhecendo o marido, Rosette percebeu que a conversa se estenderia muito mais até que ele e Aribeth chegassem a um consenso. Ela levantou-se, pegando o bule de chá que estava sobre a mesa.
-Vou esquentar mais água para nós.
Mal ela deu dois passos, deixou que o bule escapasse de suas mãos, caindo estrondosamente no chão. Rosette inclinou-se, segurando o ventre com uma das mãos devido à forte pontada de dor, enquanto com a outra se apoiava na mesa. Phineas levantou-se de súbito para acudir a esposa, derrubando a cadeira no processo.
Aribeth também se prontificou a ajudar Rose. Ela pousou a mão sobre o ventre da morena, murmurando palavras na língua de seus ancestrais celtas. Embora houvesse frequentado Hogwarts, a escola dos Altos Magos, era à Antiga Magia ensinada aos membros de sua família a que ela recorria em situações como aquela. A pulseira que usava começou a brilhar, como se estivesse se tornando um metal incandescente, e uma luz azul emanou da mão da ruiva. Rosette sentiu um calor reconfortante, a dor diminuindo sensivelmente.
-Eu estou bem... já passou. - ela murmurou.
-Mesmo assim prefiro não arriscar - Black retorquiu -Vamos para o St. Mungus.
Phineas depositou um beijo na fronte da esposa que dormia profundamente após as horas que passara em trabalho de parto. Era justificável, dado tanto esforço.
Ele se aproximou do berço onde as filhas ressonavam tranquilamente. As duas tinham os cabelos escuros como os dele e de Rosette, mas Phineas percebera, quando estavam acordadas, que uma delas possuía os olhos verdes como os da mãe, enquanto a outra tinha os olhos azuis.
Cassiopeia Marguerith e Betelgeuse Sandrine. Ele e Rosette discutiram tanto sobre quais nomes dariam às garotas. Apesar de ter sido expulso da família, Phineas desejava manter aquela tradição de dar nomes de estrelas ou de origem mitológica para os descendentes. A esposa, por sua vez, não achava justo que apenas ele tivesse a palavra final naquela questão. Optaram por um meio termo, cada um escolhendo um dos nomes para as filhas.
O homem sorriu, embevecido. Aquelas meninas eram a confirmação de que estava fazendo a coisa certa. Iria lutar para que elas crescessem em um mundo melhor, sem preconceitos, onde poderiam escolher o próprio caminho.
