O som da música vindo da vitrola preenchia o ambiente. Uma alegre canção italiana. Um homem alto de pele bronzeada e cabelos que começavam a se tornar grisalhos cantava a plenos pulmões enquanto um casal dançava na pista improvisada. A moça de cabelos escuros e curtos ria de algo que seu par, um rapaz de olhos azuis e cabelos loiros, acabara de lhe dizer ao pé do ouvido. Duas garotinhas morenas praticamente idênticas corriam de um lado para o outro junto a outras duas crianças, que pelos traços pareciam ser irmãos, um menino com aproximadamente oito anos e uma menina com cerca de seis anos. Uma mulher de longos cabelos encaracolados, pele morena e olhos ambarinos observava as crianças enquanto saboreava uma fatia de bolo.
Phineas Black observava a cena, sentado no refeitório do jornal. Um sorriso sereno brincava em seus lábios. Todos que estavam ali se tornaram pessoas essenciais em sua vida, praticamente uma família. Suas filhas, Marge e Bete, obviamente. Pepe, sua esposa Maria e seus filhos Francesco e Giovanna. Willie e seu noivo, Goodfellow. Faltava apenas Ravi que, mesmo sendo o mais jovem, era o mais sério; como não tinha o hábito de beber, foi embora mais cedo.
-Você está feliz - ele escutou uma voz suave lhe chamar, enquanto sentia braços amorosos o envolverem por cima dos ombros.
-Muito. - Phineas respondeu, encostando a cabeça no rosto da esposa. - Embora eu ainda ache que esteja muito velho para uma festa surpresa de aniversário.
-E perder a oportunidade de comer a lasanha da Maria? - Rosette respondeu, rindo.
-O seu bolo também não fica atrás - Phineas respondeu, bem-humorado.
Rose deu um sorriso malicioso, sussurrando ao pé do ouvido do marido.
-Bem, estão todos ocupados. Maria está de olho nas crianças, talvez eu possa te dar seu presente de aniversário agora.
- No que está pensando? - ele perguntou, divertido.
- Você se lembra da primeira vez que me trouxe aqui no jornal?
O homem sorriu ante a lembrança. Ele se levantou, dando a mão para a esposa, que o guiou pelos corredores do estabelecimento. Quando chegaram ao escritório, fecharam a porta atrás de si. Phineas a trancou enquanto Rosette se sentava na mesa.
Ele se aproximou, tomando os lábios da esposa com carinho, aprofundando o beijo, enquanto suas mãos seguravam a cintura dela com firmeza. Rose correspondeu com igual ardor. Fazia quase dez anos que estavam juntos e ainda assim ela sabia que o que sentiam um pelo outro não havia mudado.
Quando se separaram estavam ligeiramente sem ar. Encostaram a testa um do outro e sorriram de modo cúmplice. Rosette beijou o pescoço de Phineas antes de se inclinar para trás, sentindo as mãos dele subindo a sua saia até a altura das coxas. Ele se reclinou buscando outro beijo da mulher, mas na ânsia do gesto acabou esbarrando no tinteiro, fazendo com que o nanquim começasse a se espalhar sobre a mesa.
-Droga - ele disse, levantando-se abruptamente, puxando Rosette consigo.
A mulher olhou para trás, percebendo que por muito pouco a sua blusa não ganhara uma bela mancha. Ela levantou-se da mesa, ajudando o marido. Enquanto ele pegava a varinha para limpar a sujeira, ela tentava salvar os papéis espalhados sobre o móvel. Seus olhos pousaram inadvertidamente sobre o conteúdo de um deles. A cor fugiu completamente do rosto de Rosette. A tez usualmente rosada se tornou pálida como a cera de uma vela.
-Phin... -ela balbuciou, a voz quase falhando - Isso é sério?
Black levantou a cabeça, guardando a varinha no bolso interno do paletó. Ao notar a expressão da esposa, ficou assustado. Parecia que Rose estava prestes a desmaiar. Ela estendeu o papel para ele. Phineas compreendeu, ao ler o conteúdo.
-Isso é uma ameaça de morte - ela disse, em um fiapo de voz. - O que escreveram aqui é... é... abominável.
Phineas aproximou-se de Rosette, abraçando-a, beijando-a por cima de seus cabelos.
-Rose, os aurores já estão cientes, e cão que ladra não morde; se essas ameaças fossem de fato reais, já teriam me atacado há muito tempo.
A morena se soltou do abraço do marido, seus olhos verdes estavam nublados e escuros como se estivessem imersos em uma tempestade.
-Desde quando você vem recebendo esse tipo de correspondência?
Phineas abaixou o rosto pensativamente. Ponderava até que ponto deveria revelar sem preocupar Rosette desnecessariamente. Nunca contara sobre as cartas ou as sabotagens que sofreram. Justificou o segurança que contratara com a história de uma tentativa de assalto. Lembrava-se do quanto Williamina o recriminara por esconder essas coisas de Rose, contudo, ele ansiava proteger a felicidade da esposa e das filhas. O trabalho que escolhera para si, os ideais que desejava propagar, eram tão árduos e cheios de obstáculos... Não desejava colocar todo peso sobre elas. Por mais que dividisse muito com Rosette, as partes mais aterrorizantes sempre guardara para si.
-Faz alguns meses - ele respondeu, finalmente a encarando - Já estão investigando. Além disso, você sabe que Goodfellow providenciou alguém para proteger o jornal. Eu não queria te preocupar.
-Não mente mais para mim. - ela exigiu, sem esconder a mágoa - Promete?
-Prometo. - ele disse, abraçando a esposa novamente. - Vamos voltar para a festa, você toma uma taça de vinho para se acalmar.
Rosette assentiu, deixando-se guiar pelo marido. Apesar da palavra dada, algo no interior dela dizia que não podia confiar na promessa de Phineas.
O homem observou a esposa e as filhas dormindo abraçadas na cama de casal. Os cabelos escuros contrastando com a alvura dos lençóis, os semblantes serenos, quase angelicais. Marguerith havia tido um pesadelo e pedira para dormir com os pais. Betelgeuse, por sua vez, sempre fora demasiadamente protetora com a gêmea caçula e não quis se separar da irmã. O homem acabou cedendo espaço para que as meninas dormissem com a mãe.
Infelizmente, ele precisava acordar a esposa do seu sono acalentador. Apesar do tardar das horas, ele precisava sair. Não queria preocupá-la caso ela acordasse e não o encontrasse.
-Rose... - ele chamou, baixinho.
Ela esfregou os olhos, tentando despertar.
-Willie mandou um patrono. Uma das fontes dela no Ministério disse que chegou um recado urgente para Spencer-Moon. A Alemanha invadiu a Polônia, é apenas uma questão de tempo até os trouxas oficializarem a guerra. Parece que ele convocou uma reunião de cúpula para definir como o governo bruxo vai se posicionar.
Rose se levantou de chofre diante da notícia. Por mais que uma parte dela soubesse que a guerra poderia realmente eclodir, outra almejou que aquilo nunca se tornasse realidade.
-O que vamos fazer, Phin? - ela perguntou, já sentada na cama.
-Nos prepararmos da melhor maneira possível. - Black respondeu, quase em um suspiro - Preciso ir para o jornal.
Ele depositou um beijo na testa da esposa em despedida.
-Tome cuidado - ela disse.
Phineas apenas assentiu, saindo porta afora. Rosette observou o marido ir embora, depois voltou sua atenção para as filhas. Os tempos estavam se tornando sombrios, ela percebia que o cerco estava se fechando ao redor deles, fosse pelos problemas do mundo mágico ou do mundo trouxa. Naquele momento ela jurou para si mesma que faria de tudo para garantir a segurança das filhas. Quaisquer que fossem os meios.
