Oi!


Capítulo Vinte e Dois

Meu Vizinho e o Brooklyn

O voo não estava atrasado, nem nós dois, mas por precaução tínhamos chego mais cedo ao aeroporto, que estava mais cheio do que o shopping na semana anterior às vésperas do Natal. Lancei um rápido olhar para Edward, que estava sentado perto de mim no chão do aeroporto, com um livro sobre arquitetura romana em mãos, parecendo muito concentrado no conteúdo ali.

Meu estômago revirou, não de fome, mas sim de tristeza de saber que em breve o ano iria virar. E com o ano virando estaria mais perto do plano Robin Hood acabar, o que significava que em breve eu estaria livre para me afastar de Edward.

Eu sabia que precisaria me afastar dele, de certa forma já tinha começado a me afastar. Não visitava o sofá cama do Masen, ou convidava ele para minha cama desde o Natal.

Era melhor assim, eu precisava esquecer o sentimento que só crescia em mim dia após dia. Quer dizer, era tão difícil quando ele estava lá todos os dias, assistindo jogos com Charlie, jogando com Jake e descobrindo que adorava conversar sobre história com Aro.

Encostei a cabeça na parede atrás de mim e fechei os olhos, tentando me desconectar do barulho que dominava o aeroporto, mas era impossível. Tinha um bebê chorando, alguém gritando que ia perder o voo, e uma conversa ali próxima entre duas mulheres.

— Tô falando que eles são minha meta de casal, eu não sei se queria ser ele, ou ser ela, os dois são tão sortudos e fofos juntos. E ainda tem a Holly, que com certeza é ainda mais fofa.

— Mas eles não começaram com uma traição? — Outra perguntou.

Eu não ouvi a resposta, do que eu achava ser uma conversa sobre um casal de cantores famosos, pois alguém cutucou meu joelho e fez com que eu abrisse os olhos. Era Edward, esticando em minha direção um pacote de M&M's.

Aceitei, sem conseguir recusar meu doce favorito, mesmo que estivesse tentando cortar laços com o Masen. Separei os amarelos e devolvi a embalagem para meu vizinho, que perguntou:

— Por que você não aproveitou as férias de inverno para ir até o Egito encontrar o Demetri? — Parei de mastigar ao escutar aquilo.

Edward estava mesmo me incentivando a ir atrás de Demetri? Caramba, o Emo até sorria, satisfeito com sua ideia.

Não, eu não tinha deixado de amar Demetri por estar apaixonada por Edward. Era confuso, mas meu coração parecia dividido entre os dois.

Fragmentado entre aquele que sempre amei e o que despertou em mim uma paixão que talvez fosse coisa do momento, só talvez. O coração partido, um pedaço no futuro que sempre sonhei, a outra metade no que eu queria viver no presente.

— É caro — foi tudo que respondi ao engolir os M&M's, levantei e apontei para minha mala de mão e a mochila. — Olha para mim, vou ao banheiro.

Nem olhei mais para seu rosto, apenas me afastei em direção ao banheiro, precisando de minutos longe de Edward para clarear a cabeça. E sabia bem que o quarterback não iria atrás de mim, ele nunca ia.

X

Estar na classe executiva do voo era ótimo, mas estar sentada bem ao lado de Edward — ainda que as poltronas tivessem um belo espaço entre elas — aumentava a agonia no meu peito. Ao mesmo tempo em que eu queria gritar e me declarar, sabia que tudo que receberia de volta dele seria nada, apenas um completo vazio de quem não sentia o mesmo por mim.

— Você quer fazer algo em New York? — ele perguntou, colocando seu cinto, enquanto a comissária de bordo lá na frente repassava as instruções de voo. Foquei minha atenção nela, não por ter medo de voar, eu até gostava de aviões. — Tipo, algum passeio turístico — esclareceu.

— Não — sussurei, tentando não pensar em como seria divertido fazer passeios turísticos com ele como se fôssemos um casal.

— Pensei em ir ao Empire State, tem mais de 10 anos que não piso lá, mas talvez esteja muito lotado…

— Uhum, que seja, vá para onde quiser — respondi o interrompendo.

Demorou quase um minuto, até ele perguntar:

— Tá tudo bem?

— Melhor impossível! — Forcei um sorriso e olhei para ele, que parecia confuso. — É que estou pensando em Demetri, sabe? Poderia mesmo estar pegando um avião até ele. — Só que não, porque naquele instante eu queria mesmo era estar só ao lado de Edward, mas o Emo pouco se importava comigo.

— Ele parece ser um cara legal — Edward disse, pegou seu livro novamente e voltou a se concentrar em arquitetura romana.

Romana, Roma, Itália. Um lugar maravilhoso para a lua de mel que nunca iríamos ter.

X

O aeroporto em New York também estava caótico, como era de se esperar. Ainda assim, carreguei minha própria bagagem, sem querer que Edward fizesse aquilo por mim, mas fiquei resmungando internamente por não ter mais carrinhos disponíveis.

— Você não quer mesmo ajuda? — perguntou enquanto caminhávamos até a saída do aeroporto, Emmett tinha mandado um carro nos buscar, então pelo menos chegar ao hotel seria mais fácil.

— Não precisa — murmurei, desviando de uma família imensa que cruzou nosso caminho. Era fácil saber que se tratava de uma família, todos usavam suéteres bordados com o nome "Família Cooper", desde o bebezinho a um senhor que se locomovia com apoio de um andador.

E o meu coração se apertou, Edward e eu nunca estaríamos em um aeroporto com nossa família usando suéteres iguais. Eu estava apaixonada, mas era só isso, uma paixão que deveria ser erradicada o quanto antes, afinal aquela cena da família feliz nunca se aplicaria a nós dois.

Logo na saída do aeroporto vimos um motorista carregando uma plaquinha que dizia: Emo e Ratinha. Aquilo me fez rir, mas Edward apenas revirou seus olhos, o que logo me fez parar de rir, afinal era isso, não estávamos na mesma sintonia, nunca estaríamos, não éramos um casal de verdade.

No hotel a recepcionista nos deu as chaves para a suíte que ocupariamos, afinal quando Emmett nos consultou sobre a reserva falamos que estaria tudo bem dividirmos um quarto. Não estava mais, não por mim, mas quando Edward se afastou e perguntei em um cochicho para a funcionária se ela tinha algum quarto vago — mesmo sabendo que boa parte das minhas economias seriam gastas nessas diárias por ser um hotel caro próximo a Times Square — a mulher riu da minha cara.

— Senhorita, estamos lotados!

Tudo que me restou foi cruzar o saguão do hotel até os elevadores, Edward estava ali me esperando. Seu olhar para mim era desconfiado, mas não disse nada até estarmos na suite, dividida entre um espaço de sala de estar, o quarto com uma imensa cama king size, o banheiro e closet igualmente gigantes.

— Isabella — Edward falou meu nome enquanto eu terminava meu tour pelo closet. — Eu te fiz algo? — perguntou, sentando-se na cama, seus olhos focados em mim.

— Não, por quê? — rebati, cruzando os braços na frente do meu corpo.

Obviamente não falaria que eu tinha feito algo, a maior burrice de todas, tinha me apaixonado por ele.

— Você está… distante — sussurrou.

— Não é nada sobre você — sussurrei de volta, desviando meu olhar para o chão. — Eu só… — Engoli em seco, tinha a desculpa perfeita na ponta da língua. — Renata ainda não me respondeu, ou retornou minhas ligações, enfim, estou irritada com isso. — E estava mesmo, tão revoltada por ela estar me ignorando por sabe-se lá qual motivo, talvez tivesse percebido que não gostava mais de mim, provavelmente nunca gostou. — Eu só queria ficar um pouco sozinha, não desisti da viagem porque sei que Rosalie vai querer comemorar o noivado comigo. — Isso era uma verdade, se a viagem não fosse motivada por conta do pedido de casamento eu sequer tinha entrado naquele avião, precisava me afastar de Edward.

— Eu posso ir para outra suíte… — ele começou a falar, mas o interrompi.

— Está tudo cheio, eu já chequei.

Ele assentiu e tentou de novo.

— Posso dormir no sofá, para você ficar mais a vontade aqui.

Olhei em direção à sala, mesmo que dali de onde estava não conseguisse ver o sofá e decididi que aquilo seria sacanagem. Poderia até ser um sofá grande, mas seria desconfortável para Edward e eu não poderia fazê-lo dormir lá pelas próximas noites.

— Não, você pode dormir aí. — Gesticulei para a cama. — Bom, vou começar a me arrumar para o jantar.

Emmett, Rose, Jazz e Alice que já estavam em New York estavam fazendo turismo pela cidade, por isso não tinham ido nos buscar no aeroporto. No entanto, todos nós iríamos jantar juntos aquele dia em um dos restaurantes do hotel.

— Eu posso ligar para Renata, e dessa vez perguntar o que está acontecendo — Edward sugeriu, mas prontamente neguei.

— Não, fica fora disso. Se ela não quer falar comigo eu não irei ficar forçando.

X

Apesar de tudo que estava acontecendo na minha cabeça, meu coração estava quentinho de estar ali em New York com Rosalie na véspera do grande dia dela. Sabia como minha amiga ficaria feliz ao ser pedida em casamento e que aquele era apenas um dos grandes passos que ela daria na vida ao lado de Emmett, também sabia como ela queria uma família tanto quanto eu.

Um marido, filhos, uma casa. O pacote completo.

— Tudo bem? — Rose perguntou para mim em um sussurro durante o jantar no restaurante japonês do hotel mais tarde naquele dia 30 de dezembro. Nós duas estávamos sentadas próximas, Emmett do outro lado dela e Edward junto ao McCarty, eu tinha Alice perto de mim, depois Jasper, ficando bem longe do Masen o tanto que era possível.

— Sim, tudo ótimo.

— É que você tá me olhando com um sorrisinho suspeito, quer me contar algo? — Rosalie continuou falando baixo apenas para eu escutar. — Você e Edward finalmente esqueceram a ideia maluca do plano Robin Hood e assumiram que se amam?

Revirei meus olhos e respondi:

— Nunca!

Amava Rosalie, era minha melhor amiga, minha eterna confidente. No entanto, sabia que não podia contar sobre meus novos sentimentos para ela, não quando a garota ia aumentar sua torcida para que eu ficasse com Edward.

— Por que tá me olhando desse jeito, então? — indagou e arqueou uma sobrancelha.

— Só tava pensando em quando éramos crianças — desconversei e dei de ombros, o resto do pessoal à mesa estava conversando sobre os nossos planos para o dia seguinte, sendo assim Rose e eu estávamos numa bolha. — Sonhando com viagens por aí, aqui estamos. — Afaguei as costas dela. — Sabe que eu te amo muito, né?

— Sei! — Ela apertou meu nariz, afastei a mão dela com um tapa, fazendo minha amiga rir. — Também te amo, mas esse tapa terá volta!

Eu ri e a abracei, recebendo um abraço de volta. Estava muito feliz por ela, Rose e Jazz já tinham passado por muito, desde a morte de seus pais, cresceram em lares adotivos, nunca foram adotados e se estavam numa faculdade era por terem pedidos vários empréstimos estudantis, então a vida deles realmente não era nada tranquila, por isso cada sonho que eles realizassem era como se eu estivesse realizando um sonho próprio de tanta felicidade em vê-los realizados.

— Ai, Rose — resmunguei quando ela deu um tapa na parte de trás da minha cabeça.

— Falei que ia ter volta.

X

Eu estava congelando, e quase arrependida de ter topado aquela viagem. Como iríamos passar a virada do ano na Times Square, o local mais disputado e que mais lotava na data em New York, tivemos de chegar cedo para conseguir um lugar.

Até porque Rose estava animada com os shows que rolariam, mesmo que a apresentação mais famosa fosse do Duran Duran. Ok, eles eram bons, mas puta merda, estava tão frio.

— Sou uma garota da Califórnia — me queixei em voz alta mais uma vez do frio.

— Não está tão frio assim — Alice disse, mas claro que para ela e Rosalie não estava congelante assim, elas tinham seus namorados a abraçando, enquanto eu mantinha uma distância segura de Edward.

Algo que fiz durante a noite também, me recusei a fazê-lo minha conchinha menor, com isso mais fiquei acordada do que dormindo me policiando para não cruzar a separação bem-vinda concedida pela grande cama. Mas, ali naquele frio, estava quase cedendo e pedindo abrigo nos seus braços para tentar contornar um congelamento.

— Deixa de choro, Isabella — Rosalie mandou, eu revirei meus olhos e desviei meu olhar para longe do meu grupo de amigos e Edward. Estávamos bem perto da loja de M&M's na Times Square, só queria entrar ali, comer doces e me aquecer, mas se eu saísse perderia meu lugar.

— Você quer ir lá no dia 2? — Me virei em direção a voz, que já conhecia bem até demais, para ver Edward mais próximo de mim e gesticulando em direção a loja.

— Não sei… Ai quer saber, quero sim — declarei, eu não perderia a oportunidade de ir à loja, poderia aguentar um tempinho a mais sozinha com Edward, talvez mais alguém se animasse em ir com a gente. — Você já foi?

— Toda vez que estive em New York desde que ela abriu — contou e sorriu.

— E você?

— Duas vezes, também todas as vezes que estive na cidade — contei de volta e em seguida me tremi toda com um vento que nos cortou.

— Você vai congelar?

— Possivelmente.

— Calma aí, tenho uma música para você — falou e tirou seu celular do bolso, logo depois estava tocando Ice Ice Baby do Vanilla Ice. Primeiro eu gargalhei, ele também riu, depois dei um tapão em seu braço. — Ei, sem agressão — me repreendeu, mas ainda estava rindo.

Parou a música em seu celular, devolveu para o bolso de sua calça e perguntou:

— Você acha que vai aguentar mais todo esse tempo aqui em pé e no frio?

— Vou — murmurei, mas com medo de acabar não aguentando e perdendo o pedido de casamento.

— Posso tentar te aquecer. — Se aproximou mais e senti meu corpo tremer de novo, não de frio, mas de nervoso. Porém, não aguentava mais, precisava de algo a mais para me aquecer, Edward poderia me abraçar rapidinho, não? Quer dizer, nós não tínhamos virado amigos? Seria um abraço de amigos, pronto, só isso. Um dia eu riria da minha própria cara e de quando achei que estivesse apaixonada por ele.

Caramba, talvez Edward acabasse sendo tão meu amigo que ele fosse ser um dos padrinhos em meu casamento com Demetri. Era isso, eu não transaria mais com ele, não o beijaria mais, entretanto, um abraço não era nada demais, eu abraçava Jasper, pois o loiro era meu amigo e amigos se abraçavam.

— Pode ser — concordei.

Edward me envolveu em seus braços e no mesmo segundo eu soube que até um abraço entre nós dois era grande coisa. Ainda assim, não o afastei, não tive forças, permaneci em seus braços o máximo possível, sabendo que em poucos meses nosso plano chegaria ao fim e eu não teria mais abraço algum.

Eu com certeza não convidaria Edward Masen para ser meu padrinho de casamento.

X

Quando Emmett nos contou sobre o pedido de casamento me voluntariei a ser a responsável pela gravação do vídeo, o que se tornou uma escolha muito sábia da minha parte, isso me faria não ficar choramingando por não beijar ninguém à meia-noite. Ao início da contagem eu já estava gravando, focando primeiro no telão da contagem e na famosa bola se movendo à nossa frente, mas sabia o momento exato de focar em Rose e seu futuro noivo.

Eu virei a câmera para eles. Estavam abraçados, de frente um para o outro. Ela olhou para meu celular, sorriu e acenou, com certeza sem ter ideia nenhuma do que estava prestes a acontecer.

Emmett lhe deu um beijo de um segundo quando ela voltou a olhar para ele, quando se afastou vi a confusão no olhar dela, mas o resto de tudo foi muito mais rápido. Ele se soltou de Rose e se ajoelhou, tirando o anel de seu bolso.

Pontualmente à meia-noite, para uma Rosalie que tinha as mãos cobrindo a boca, ele proferiu as palavras:

— Rosalie, você aceita se casar comigo?

O som de pessoas gritando pelo ano novo, se abraçando e todo o resto ficou em segundo lugar em minha mente. Só conseguia ficar ali chorando no meu canto por minha amiga e o amor da vida dela, mas também tinha minhas mãos firmes para não perder um segundo sequer daquele grande momento.

Ela tirou as mãos da boca para gritar:

— Sim, sim, sim!

Emmett sorriu de orelha a orelha, Rosalie esticou a mão para o noivo, que tirou a luva dela e ali colocou o anel. O jogador se levantou e eles se beijaram, depois se viraram para mim e minha amiga, exibindo seu anel para a câmera, continuou gritando, daquela vez falando:

— Eu tô noiva!

— Você está noiva! — gritei de volta, interrompendo a gravação para abraçá-la, logo Jasper também estava envolvido em nosso abraço.

Rose abraçou Alice em seguida, depois Edward, enquanto Jazz e eu dávamos parabéns para Emmett. Quando os parabéns terminaram, era a hora de irmos continuar a comemoração em outro lugar.

— Vem noiva, vamos encher a cara de champanhe! — Emmett pegou Rosalie pela mão e os dois saíram saltitando na frente, Jasper e Alice foram atrás, Edward ficou para me acompanhar e cochichou em meu ouvido.

— O seu anel é maior, noiva — disse em um tom bem humorado, mas eu não ri.

O meu anel era uma mentira.

X

Edward e eu fomos os primeiros a descermos para tomar café da manhã no dia primeiro, afinal também tínhamos sido os primeiros a voltamos para o hotel depois da festa que fomos com os outros. Emmett tinha fechado o camarote de uma boate, tivemos um espaço reservado para nos enchermos de champanhe, comidas e tirarmos um trilhão de fotos.

E apesar de ter tudo ocorrido bem por lá, quis voltar antes dos outros, mas Edward acabou querendo voltar comigo. Eu acabei mais uma noite dormindo ao seu lado sem poder tocá-lo para não trair minhas promessas de não beijar mais aquele cara, ou transar com ele, tinha dado certo, mas resistir era exaustivo.

— Merda — ele resmungou, olhando algo em seu celular, de boca cheia.

— O quê? — perguntei, colocando um pedaço de bacon na boca.

— Meu pai vai tá em New York hoje, puta merda.

— O que isso quer dizer? — Pude sentir péssimas notícias com aquela informação, nada sobre Eleazar Masen era agradável.

— Ele vai estar numa festa hoje e quer que a gente dê uma passada por lá. — Edward suspirou. — Disse que não aceita não como resposta.

— É claro. — Revirei meus olhos. — A gente pode ir, mas vai ser bem rápido, não quero começar o ano já me estressando.

— Claro, o mais rápido possível. — Assentiu, largou o celular de lado depois de digitar a resposta para o pai e esticou seu garfo para pegar um pedaço de bacon do meu prato. Eu sequer protestei, não quando já tinha roubado uma torrada do prato dele minutos antes.

— Olá! — Rosalie e Emmett apareceram. — Vocês viram que eu estou noiva? — Nos mostrou sua mão.

— Ela mostrou o anel para todos no caminho até aqui — Emmett comentou, todo orgulhoso de si.

— Deveria ter uma foto minha ostentando esse anel na própria Times Square — minha amiga disse. — Bella, nós já decidimos a data.

— Sério? Quando? — perguntei animada.

— Dezenove de maio de 2024, estamos pensando em fazer na casa de campo da mãe do Emm, será maravilhoso. Um grande casamento como eu sempre sonhei, com comemorações desde a quinta feira anterior a data do grande dia.

— E vocês dois serão nossos padrinhos, junto com Alice e Jasper. Vocês aceitam, né? — Emmett questionou para Edward e eu.

— Tá doido? — Rose chamou a atenção dele. — Eles não tem direito de escolha, serão nossos padrinhos e ponto final.

— Qual será a cor do meu vestido, chefe? — perguntei, rindo, para ela.

— Vamos decidir. Ai, falta tão pouco para o casamento — se queixou. — Quero que chegue logo, mas tem muito a ser organizado, vou enlouquecer.

— Falta mais de um ano — Edward falou, roubando mais comida do meu prato.

— E você acha isso muito? — Eu ri da cara dele. — Será um casamento grande, eles vão precisar decidir tanta coisa, e ainda vamos nos formar esse ano. Rose, meu Deus, precisamos correr para decidir o modelo do seu vestido!

X

A festa para qual Eleazar nos chamou estava acontecendo em uma cobertura em Manhattan e no momento que pisamos no apartamento luxuoso e vimos um grande quadro na entrada soubemos de quem era aquela casa, Vladimir Bryant. Simplesmente o quarterback do time de futebol americano New York Giants, o cara era muito bom e eu admitia isso mesmo que torcesse para o San Francisco 49ers, minha família e Edward também torciam, era nosso time da liga profissional.

— Acho que meu pai infarta se eu levar um autógrafo para ele, tem papel e caneta aí com você? — perguntei para Edward enquanto caminhávamos pelo apartamento e fomos vendo outros jogadores do time de Vladimir. — Okay, vou precisar de muito papel. — Meu falso noivo riu um pouco, mas nossas mãos estavam unidas e eu podia sentir a dele tremendo um pouco e como o aquecedor ali dentro estava ligado sabia que não era por conta do frio e sim de nervoso, Edward sempre ficava estressado quando estava na presença do pai, ou prestes a encontrá-lo.

E logo Eleazar nos achou.

— Finalmente chegaram! — O homem tinha um copo de uísque na mão e uma garota ruiva ao seu lado, ela parecia bem nova, talvez tivesse a mesma idade que Edward e eu. — Essa aqui é a Tiffany — a apresentou. — Grande modelo.

— Olá. — Ela sorriu para a gente. — Na verdade é Trisha…

— Certo, certo — Eleazar a interrompeu. — Edward, vamos, vou te apresentar a todos. O dono do time está aqui e o técnico também. Se tudo ocorrer bem, você termina a noite com um convite formal para se juntar ao time na próxima temporada.

Edward soltou minha mão, olhei para seu rosto e o vi empalidecer.

— Hum, não — ele começou a falar, passando a mão por seus cabelos, estava muito nervoso. — Não sei se é isso que eu quero.

Eu sabia do que ele estava falando, mas Eleazar não.

— Edward, este é um grande time, com chances reais de ganhar o Super Bowl de 2023. Você não vai ficar de choro querendo se guiar pelo coração ou qualquer coisa para escolher o time que quer ir após a faculdade, eu já escolhi, é o New York Giants e ponto final.

— Não vou para nenhum time — Edward proclamou, o que me pegou de surpresa, ele estava mesmo falando aquilo para o pai.

— O quê? — O rosto de Eleazar estava vermelho de pura raiva.

— É o que ouviu, eu não vou me tornar um jogador profissional, vou trabalhar como arquiteto.

— Você enlouqueceu? — Eleazar gritou, isso fez vários olhares se virarem para a gente e Trisha se afastou um pouco.

— Não, estou bem consciente da minha escolha. Você queria que Bella e eu viéssemos apenas por conta deste possível contrato, se era só isso, ok, nós estamos indo embora.

Edward voltou a segurar minha mão e me fez andar em direção ao elevador, Eleazar estava atrás de nós. Gritando e nos mandando parar. Não conseguimos ser mais rápidos do que ele, que entrou no elevador conosco.

— Volte para aquela festa agora mesmo, Edward! — ordenou.

— Não vou fazer isso. — Edward não o encarava, preferindo olhar para o teto do elevador.

— Volta para a porra daquela festa, fale com as pessoas certas, aceite o convite formal e esqueça essa ideia de merda. Arquitetura não é seu futuro, o futebol é!

Edward ficou quieto e Eleazar continuou, mas daquela vez falando comigo.

— Põem juízo na cabeça dele, ou podem dar adeus ao presente de casamento, Isabella.

— Foda-se! — eu gritei com ele, aquele homem idiota realmente achava que Edward abriria mão do seu sonho por aquele dinheiro? Que eu o deixaria fazer isso? Queríamos a grana para as doações, mas que o plano se explodisse, Edward tinha de ser egoísta naquele momento e priorizar a si e eu o apoiaria nisso inteiramente. — Faz o que quiser com seu dinheiro, Edward e eu não precisamos dele. E seu filho vai ter sim futuro na arquitetura. Feliz ano novo, Eleazar! — desejei entredentes, o elevador abriu suas portas no térreo e foi minha vez de puxar Edward, que parecia meio fora de si naquele instante.

Daquela vez o pai dele não nos seguiu.

— Merda, não, eu fodi com tudo — Edward se queixou quando deixamos o prédio.

— Cala a boca, você não fez nada de errado — o repreendi. — Que se dane o plano, tá? Não deixa seu pai mandar na sua vida, isso não é certo.

— Bella, não…

— Edward, chega! — gritei.

Eu estava na merda? Sim, se o plano acabasse ali iríamos nos afastar muito antes do planejado por mim, seria terrível perdê-lo tão cedo, mas talvez aquilo fosse o melhor para meu coração apaixonado.

— Vamos encontrar o pessoal na boate — murmurei, começando a tentar conseguir um táxi. Precisava encontrar nossos amigos, que estavam na mesma boate da noite passada, ocupando mais um camarote comprado por Emmett, e encher a minha cara.

— Não, podemos ir para outro lugar? — ele perguntou, ainda parecendo muito nervoso.

— Não quero ir para o hotel agora, está cedo e preciso beber — declarei, um táxi finalmente parou.

— Não é para o hotel, é para um bar de rock no Brooklyn, preciso me distrair.

— Mas na boate que os outros estão toca Lady Gaga — reclamei.

— Justamente por isso que não quero ir para lá.

— Idiota!

Mas eu fui com ele, para o bar de rock no Brooklyn.

X

Pegamos as garrafas de cerveja, brindamos pela milésima vez aquela noite e começamos a contagem:

— Três, dois, um…

Começamos a beber, eu ainda estava na metade quando Edward terminou, deixando a garrafa sobre o balcão diante da gente.

— Não! — gritei, parando de beber, ele apenas riu da minha cara, se inclinou, apoiou uma mão em meu joelho e falou:

— Aceite a derrota, Volturi, você nunca vai beber mais rápido do que eu.

— Te odeio, sabia?

— Pior que sim. — Ele riu mais, fechando os olhos e inclinando sua cabeça para trás, curtindo a canção que estava tocando.

— Quem são esses?

Estavamos naquele bar por volta de uma hora já, e eu estava a todo momento perguntando a quem pertenciam as músicas tocando. Ele já tinha falado AC/DC, Muse e outros artistas e bandas que não conseguia decorar o nome.

— Red Hot Chili Peppers, tá tocando By The Way. — Reabriu seus olhos, que se voltaram para mim. — Como você pode saber toda a história da Gaga de trás para frente mas não conhece esses caras?

— São entediantes, Lady Gaga é com certeza muito melhor.

— Implicante. — Edward apertou meu joelho, fazendo com que eu desejasse não estar de calça jeans. — Já sei, vamos jogar outra coisa.

— O quê?

— Dardos. — Tirou a mão de mim e apontou para o outro lado do bar, na parede ali viamos um alvo para o jogo de dardos.

O bar como um todo estava bem vazio, além de nós dois eu contava no máximo mais umas dez cabeças.

— E aí, topa? — perguntou, deixando o banco que estava sentado, esticando uma mão para mim.

— Topo. — Envolvi minha mão na dele e desci do banco que ocupava.

Jogamos dardos por meia hora, entre risadas e mais cervejas. Edward também era melhor naquele jogo do que eu.

— Se fosse um quizz sobre a Lady Gaga eu ganharia — falei em minha defesa quando perdi mais uma vez, andei até a mesa de sinuca ali perto e sentei sobre ela, não deveria fazer aquilo, mas nenhum funcionário do bar pareceu se importar.

— Sinuca agora? — Edward apontou para a mesa e se aproximou de mim.

Não resisti, abri minhas pernas e ele se encaixou entre elas. Suas mãos se apoiando na mesa, seu rosto perigosamente perto do meu. Eu duvidava muito que fosse ser forte o suficiente por muito mais tempo, acabaria transando com Edward aquela noite.

Poderíamos fazer aquilo, não? O plano tinha sido arruinado já que Eleazar não nos daria mais o dinheiro, dessa forma eu podia transar com Edward aquela noite, uma última vez antes de tirar aquele anel do meu dedo e tudo acabar de vez.

Meu vizinho afastou meus cabelos do meu pescoço e repousou seu rosto ali, eu apertei minhas pernas ao redor dele, esquecendo que estávamos em um local com outras pessoas. Seu nariz passeou pela pele sensível do meu pescoço, depois seus labios, arrancando de mim um suspiro longo.

Levou suas mãos até meu corpo em seguida, uma segurando na base das minhas costas, a outra entrelaçou em meus cabelos da nuca. E cedo demais tirou sua boca de onde eu mais queria que ela estivesse, voltou a olhar para mim, olhos verdes brilhantes, me analisando como se pudesse enxergar minha alma, para minha surpresa, Edward começou a cantar junto com a canção que tocava.

Maybe I will never be. All the things that I want to be. But now is not the time to cry. Now's the time to find out why. I think you're the same as me. We see things they'll never see. You and I are gonna live forever.¹

Então, ele me beijou, ainda me segurando em suas mãos, ainda preso a mim por minhas pernas. Um beijo lento, mas também necessitado, eu estava morrendo de saudades de beijá-lo.

Quando Edward tirou seus lábios dos meus, eu choraminguei. Imundada por tesão, falta e paixão.

— Live Forever, Oasis.

— Boa música — murmurei ainda entorpecida por tantos sentimentos.

— Vamos para o hotel? — Sorriu, beijando o canto da minha boca.

— Por favor.

Nos soltamos, ele me tirou da mesa me segurando pela cintura e foi pagar nossas contas enquanto eu pegava nossos casacos, gorros e luvas. Saímos do bar rapidamente, indo enfrentar o frio lá fora para pegar um táxi que para nossa sorte parou bem rápido.

No hotel cruzamos o saguão praticamente correndo. No elevador, voltamos a nos beijar. Na suíte rapidamente encontramos lugar no sofá.

No entanto, ele me tirou de cima de si enquanto eu beijava seu pescoço e correu até o banheiro. Confusa, eu fui atrás, encontrado Edward no chão, vomitando no vaso sanitário.

— Ah não, coitadinho. — Me ajoelhei perto dele.

— Eu exagerei, foi mal — murmurou. — Saí daqui, você não precisa lidar com isso.

Mas eu lidei, enquanto ele vomitava novamente deixei o banheiro e peguei um remédio para enjoo na minha mala, uma agua e levei para ele. Depois molhei uma toalha com água gelada e limpei seu rosto, quando ele melhorou um pouco tomou banho, se vestiu e foi para a cama.

— Quer mais um pouco de água? — Deitei ao lado dele.

— Não — negou, de olhos já fechados, o remédio estava fazendo efeito, mas sua mão se moveu até encontrar a minha. — Obrigado, Ratinha.

Eu não reclamei, apenas segurei a mão dele de volta e lamentei uma porção de coisas.

X

Quando acordei na manhã seguinte percebi que ainda estava usando as roupas da noite anterior, só que sozinha na cama. Porém, o cheiro de Edward ainda estava por ali, eu apertei o lençol entre meus dedos por um minuto, sentindo que já estavam frios, antes de me levantar.

Passei rapidamente no banheiro, depois fui até a sala para pegar um pouco de água no frigobar. Foi aí que vi o Masen, junto a uma recheada mesa de café da manhã.

— Ei — sussurrei.

— Oi! — Ele sorriu e se levantou, caminhando até mim. — Pedi nosso café, um agradecimento por você ter cuidado de mim ontem. — Beijou minha testa e meu coração quebrou em mais uma centena de pedacinhos. — E preciso te contar algo.

— O quê? — Olhei para seu rosto, sentindo meu corpo gelar, era ali que ele pediria o anel de volta?

— Falei com meu pai, nosso plano continua de pé.

— Espera, o quê? — Balancei a cabeça, completamente confusa. — Edward, não, você não pode desistir da arquitetura.

— Eu não vou. — Segurou em minhas mãos. — Liguei pro meu pai, menti e disse que ele tinha razão, que era maluquice largar o futebol. Falei que aceitaria participar de qualquer reunião que ele tivesse para mim, mas que eu decidiria o time. Ele reclamou, mas aparentemente topou e disse que iria nos dar o presente como prometido. Isso vai postergar qualquer assinatura de contrato, vou empurrar isso até termos o dinheiro para as doações.

— Vo-Você tem certeza?

Se o plano continuasse de pé queria dizer que eu poderia aproveitar mais meu tempo com Edward, mas isso não era um tiro no pé para meu coração?

—Sim, vamos fazer aquelas doações, Ratinha. Tudo pelo plano Robin Hood, não?

Claro, tudo para ele era apenas pelo plano. Ele não gostava de mim, nunca sentiria a paixão que eu sentia. Eu tentei negar, tentei dizer que não ligava mais para o plano, mas seria uma mentira, já tínhamos passado por muita coisa, teríamos de ir até o final para honrar minha ideia e fazer aquelas doações.

— Claro, tudo pelo plano. — Tentei me soltar dele, mas Edward segurou meu rosto. — O que foi?

— Talvez, depois do café, a gente possa conversar sobre… — Ele se calou quando meu celular tocou.

Estava no bolso da calça que eu ainda usava, em algum momento da noite devia ter apertado o botão e tirado ele do silencioso. Peguei o aparelho e vi que estava recebendo uma ligação de Demetri e aquilo me fez sorrir, eu não tinha Edward, mas tinha aquele por quem era apaixonada desde minha adolescência e isso era o suficiente, teria que ser.

— Vou atender ele. — Mostrei a tela para o Masen, que assentiu e tirou suas mãos de mim. — Sobre o que você quer conversar?

— Sobre você ser péssima jogando dardos.

— Que seja. — Fui até o banheiro e lá atendi Demetri. — Olá!


¹Talvez eu nunca seja. Todas as coisas que eu quero ser. Mas agora não é hora para chorar. Agora é hora de descobrir o porquê. Eu penso que você é igual a mim. Nós vemos coisas que eles nunca vão ver. Você e eu vamos viver para sempre.

Beijos!

Lola Royal.

14.01.24