Boa leitura!


Capítulo Vinte e Nove

Meu Vizinho e o Término

Edward largou as rosas, que já tinha recolhido, de volta no chão e em um tom de voz bem baixo perguntou:

— Amanhã?

— É — confirmei, apertando com bastante força o celular entre minhas mãos, sentindo meus dedos protestarem pelo gesto. — Amanhã.

Ele concordou com um aceno de cabeça, e me pegou de surpresa quando se moveu até mim. Suas mãos envolveram meu rosto e Edward me deu um rápido beijo na bochecha. Meu coração já acelerado bateu ainda mais forte.

— Hora de acabar com a farsa — sussurrou, ainda segurando no meu rosto apoiou a testa na minha. Eu sorri, ele iria se declarar? Diria que não iríamos mais ter um noivado de mentira? Iríamos ter um relacionamento de verdade, era isso? Soltei meu celular para tocar em Edward, mas na mesma hora ele me soltou e se afastou. Foi quando vi o sorriso em seu rosto, seguido das palavras que destruíram qualquer expectativa criada por mim. — Você precisa estar livre para ficar com ele.

Edward pegou minha mão onde o anel de noivado repousava e falou, ainda sorrindo, ainda parecendo muito tranquilo:

— Não vou te prender nesse plano, você esperou Demetri por muito tempo. Sei que queríamos muito fazer as doações, mas não posso te forçar a nada disso. Pode vender o anel e fazer o que quiser com o dinheiro, Bella. Eu vou contar o quanto antes para meu pai que nós terminamos, e você pode contar para todos que foi um término amigável, que nos distanciamos ou qualquer coisa assim.

Eu não sabia o que falar ou fazer, queria gritar e dizer que estava apaixonada por ele, mas estava sendo tão fácil para Edward por um ponto final em tudo aquilo. E Demetri estaria tão perto de mim em breve, finalmente, depois de séculos querendo o reencontrar. Sendo o cara que tinha os mesmos planos para o futuro que eu.

Tirei minha mão da mão de Edward, larguei o celular sobre meu colo e arranquei o anel de noivado do meu dedo. Ele estava certo, a farsa tinha de acabar.

— Vende isso, ou sei lá, faz o que quiser com esse negócio. — Joguei a jóia para ele, que a pegou no ar.

Sem olhar mais para seu rosto recolhi minhas coisas e saí do apartamento 505. Nunca mais pisaria ali, nunca mais beijaria Edward, nunca mais dormiria com ele. Estava acabado, tudo estava acabado. Ele tinha decidido isso, praticamente me colocado nos braços de Demetri e estava certo.

Meu futuro seria com Demetri Ducan, como sempre sonhei. Ao entrar no meu apartamento, que parecia muito silencioso e vazio aquela noite, mandei uma mensagem para o cara por quem era apaixonada a minha vida inteira.

Bella: Que horas você chega? Estarei lá para te receber com aquele beijo!

Tirei meus sapatos e corri para minha cama, e chorei, chorei agarrada ao hamster Ratinho de pelúcia. Chorei porque doía mais do que estava imaginando perder Edward. Parecia que nunca iria parar de doer.

X

Pontualmente às três da tarde eu estava na porta do desembarque do aeroporto em São Francisco esperando por Demetri, a conexão dele em New York sendo bem longa, já que ele tinha comprado o voo mais barato. Mas o que importava era que ele estava chegando, que logo eu estaria nos seus braços e isso era tudo que precisava depois de uma noite em claro.

Uma noite em claro e chorosa, que me fez parar no banheiro com uma tesoura, um pente e um sonho. Eu tinha cortado a franja, na tentativa de que o corte de cabelo de alguma forma me animasse e me fizesse renascer como uma nova mulher e não a garota que estava chorando sem parar por Edward Masen.

Só que eu estava odiando o corte, toda hora passando a mão nos cabelos que caiam sobre minha testa e me faziam parecer ter uns quinze anos de idade, quando eu também tive franjinha. Bom, pelo menos isso faria Demetri lembrar do passado imediatamente.

O nosso passado, recordado ali em nosso presente que daria caminho para um futuro glorioso. Sim, porque seria tudo perfeito entre a gente, assim que eu parasse de sentir a dor de merda no meu coração por não ter Edward, assim que parasse de tocar em meu dedo a cada cinco segundos na vã esperança de sentir o anel de noivado ali, assim que eu parasse de esperar uma mensagem dele que sabia que nunca mais iria receber.

Respirei fundo quando as pessoas começaram a cruzar pelo portão de desembarque, eu tinha uma plaquinha em mãos que escrevi "Oi, lembra de mim?". E eu estava tão ansiosa para rever Demetri, porém por um segundo ou dois cogitei largar aquela placa no chão e correr todo o caminho até encontrar Edward em Berkeley e implorar que ele me amasse de volta.

Até que eu vi Demetri, até que uma pontada de esperança encheu meu coração aflito o acalmando um pouquinho. Ele cruzou o portão de desembarque e logo me viu, deixando um sorriso gigante cruzar seu rosto, que vi por pouco tempo, já que Demetri correu até mim e me esmagou em um abraço.

Ele não era tão mais alto do que eu, mas me aninhei em seus braços, buscando aquele abraço que esperava reencontrar há tantos anos, Demetri tinha cheiro de café e amei isso. Seus lábios tocaram meus cabelos, depois ergueu meu rosto com suas mãos, sorriu para mim e me beijou.

Eu esperava amar aquele beijo, mas ele foi só… Ok. Nada demais, nada como beijar Edward, ao menos.

— Voltei! — Demetri anunciou, tão animado e realizado, quando paramos de nos beijar.

Desejei voltar também, voltar no tempo. Para meses atrás quando teria ficado mais feliz com aquele beijo, para anos antes e nem ter deixado Demetri partir dos Estados Unidos. Voltar para a antiga Bella, que eu sabia que não estava apaixonada pelo cara errado.

— Você voltou — murmurei, puxando Demetri para um novo beijo, implorando que aquele fosse melhor.

Não foi, mas eu não desistiria. Iria fazer dar certo, tinha de dar certo, eu não podia perder Demetri também. Porra, meu cabelo não aguentaria uma franja menor ainda.

X

Nós deixamos o aeroporto em um Uber que chamei e levei Demetri, sua mala e sua mochila, até um restaurante na cidade para que ele pudesse fazer uma boa refeição, não os lanches sem graça do avião. Não era um restaurante caro, eu não ostentaria assim, mas era um bom lugar há pouca distância de uma das praias de São Francisco.

— Não faz ideia de como senti sua falta — ele falou enquanto lia o cardápio e ajustava o boné bege sobre seus cabelos loiros que quase tocavam seus ombros.

— Eu também mui… — Me interrompi quando meu celular sobre minha coxa vibrou. — Desculpa. — Peguei o aparelho, mas obviamente não era Edward falando comigo, claro que não.

Rose: COMO ASSIM VOCÊ NÃO ESTÁ MAIS NOIVA DO EDWARD?

Ignorei a mensagem dela, como estava ignorando contato com todos que não fossem meus pais. Para eles, logo no começo daquela manhã, eu tinha mandado mensagens anunciando que Demetri estava de volta e que por isso o plano Robin Hood tinha sido deixado de lado.

A reação deles tinha sido.

Papai Aro: Ótimo, agora vê se nunca mais finge estar noiva de ninguém. E traga Demetri em casa, quero revê-lo!

Papai Charlie: Hum.

Sequer me dei ao trabalho de procurar saber porque papai Charlie não estava comemorando também que meu plano maluco tinha ido para o espaço. Não importava, eu estava exausta de tudo aquilo.

— Tudo bem? — Demetri perguntou quando fiquei calada demais encarando os potes de sal e pimenta sobre a mesa.

— Oi? — Ergui meu olhar para ele. — Sim, tudo ótimo, melhor impossível. — Tratei de colocar um sorriso no rosto. — Só viajei um pouco, acabei não dormindo de tanta ansiedade para te rever. — Me inclinei sobre a mesa e beijei sua bochecha, fazendo com que ele beijasse a minha de volta.

Depois, ele se levantou, saindo da cadeira à minha frente e sentando na cadeira ao meu lado.

— Você não vai dormir muito hoje — sussurrou em meu ouvido e foi fácil para mim compreender o que ele queria dizer com aquilo. E uma nova pontada de esperança tomou conta do meu corpo, eu até corei, talvez com o sexo tudo ficasse no lugar certo em meu coração.

O que queria dizer: Edward fora dele, bem longe, sem permissão para voltar.

— Onde vai ficar? — perguntei, me movendo para olhar para Demetri, segurando suas mãos e observando como os olhos azuis dele eram bonitos.

Ele suspirou e fez beicinho.

— Isso é um problema — murmurou.

— O quê? Como assim?

— Ainda não tenho um lugar para ficar. Foi tudo muito rápido, meu chefe dispensando meus serviços por falta de verba, blá blá blá — falou, eu já sabia que aquele era o motivo de ele ter voltado meses antes do previsto, Demetri tinha contado no caminho do aeroporto até o restaurante quando questionei porque a mudança de planos sobre sua volta. — E não tenho quase nada de grana, não estava prevendo essa demissão e acabei emprestando dinheiro para um amigo que está doente e ele continua doente, o que quer dizer que nem tenho como cobrá-lo agora.

— Eu posso te emprestar! — exclamei, não ostentaria com restaurantes caros, mas tinha dinheiro guardado e poderia emprestar para que ele pudesse se estabelecer.

— Não posso aceitar isso — ele negou. — Mas e se eu ficar no seu apartamento por uns dias? Até arranjar um emprego, aí consigo um lugar para ficar com o dinheiro fixo do trabalho — disse esperançoso.

Minha primeira reação foi querer dizer sim, já sonhando acordada com nós dois morando debaixo do mesmo teto, vivendo um romance cheio de cafés da manhã juntos e longas conversas antes de dormir. Porém, sabia que isso não poderia rolar, não comigo dividindo um apartamento com minhas amigas, Alice talvez até concordasse em ter Demetri morando com a gente por uns dias, mas eu sabia que a maior team Edward do mundo, Rosalie, iria rir da minha cara e falar que não aceitaria ele lá em casa e eu até poderia brigar com minha melhor amiga por isso, já que Emmett vivia no nosso apartamento, mas no fundo sabia que ter Demetri já morando comigo, mesmo que por pouco tempo, seria um passo muito apressado a se dar.

— Você sabe — comecei a falar. — Divido apartamento, minhas amigas não ficariam muito confortáveis — expliquei e ele fez beicinho de novo. — Mas eu realmente posso emprestar o dinheiro.

— Já falei que não posso aceitar. — Voltou para a cadeira de antes diante de mim. — Vou dar meu jeito, pode me ajudar a procurar um hostel para hoje?

— Claro — concordei e na hora tive uma ideia. — Espera, pensei em algo, já volto. Vai fazendo os pedidos, tá? Só quero um burrito e uma Coca-Cola.

Peguei meu celular, levantei da mesa e deixei o restaurante, indo fazer a ligação — eca — que precisava do lado de fora. Meu pai não demorou muito para atender, o que foi ótimo.

— Oi, filha — papai Aro saudou. — Cadê você? Demetri já posou? — Eu tinha contado também sobre ir buscar Demetri no aeroporto, matar as aulas do dia, mas tinha ido para meu estágio aquela manhã mesmo acabada, e ter trocado de dia no trabalho da lanchonete para poder passar mais tempo ao lado do cara que foi minha primeira grande paixão.

— Já sim, estamos naquele restaurante mexicano que a Renée gosta em São Francisco. Pai, escuta, Demetri foi demitido do nada e não tem uma reserva de dinheiro porque antes disso tudo emprestou grana para um amigo que está doente. Ele não tem muito para gastar com hospedagens agora e não dá para ele ficar no meu apartamento, sei lá, as meninas podem ficar desconfortáveis, sabe? Sendo assim, será que ele pode ficar na casa de vocês por uns dias? Ele vai arranjar um trabalho e sair o quanto antes, eu juro.

— Você sabe que não posso tomar essa decisão sozinho, seu pai precisa concordar com isso tudo.

— Pode falar com ele? Visualize minha cara fofa te pedindo isso agora — implorei e isso o fez rir.

— Eu vou ver o que posso fazer, te respondo sobre isso o quanto antes, certo?

— Certo, valeu, papai.

— Agora, antes de você desligar, me deixa te fazer uma pergunta.

— Manda ver!

— Você está bem sobre o fim do plano Robin Hood? Responda honestamente.

A vontade de chorar voltou com força.

— Isabella?

— Não — murmurei minha resposta honesta.

— E por que não? Por conta de Edward? No meio de toda aquela farsa você estava se apaixonando por ele, era isso?

Eu queria responder honestamente, mas foi uma mentira que escapou por meus lábios.

— Não, pai, tô triste pelo fim do plano por conta das doações que não serão feitas. Que coisa, eu não sinto nada romântico por Edward, acredite em mim.

— Mas sente pelo Demetri? — Aro insistiu.

Aquilo eu não respondi nem honestamente nem com uma mentira, ainda sentia algo por Demetri, porém algo não tão mais forte assim.

— Claro que sinto — falei as palavras calmamente por fora, enquanto por dentro só aumentava a vontade de chorar. — Pai, preciso desligar agora, ok?

— Certo, vou ver sobre Demetri ficar na nossa casa.

— Obrigada!

— Tchau, filha.

— Tchau, papai. — Encerrei a ligação e voltei para o interior do restaurante, nossas bebidas já estavam ali, Coca-Cola para mim e refrigerante de uva para ele.

— Ei, e aí? — Demetri perguntou quando sentei.

— Falei com alguém, ele vai tentar arranjar um lugar para você ficar.

— Quem? — perguntou.

— Hum, alguém. — Dei de ombros, sem querer que Demetri acabasse chateado caso meu pai não conseguisse convencer Charlie a deixá-lo ficar na casa da família.

Mudei de assunto, querendo saber mais sobre o tempo dele no Egito e Demetri contou sobre o trabalho dele lá, ainda estava falando quando a comida chegou e eu dei apenas duas mordidas em meu burrito quando recebi uma mensagem do meu pai.

Papai Aro: Vou te ligar.

— Só um instante, Demetri — pedi e levantei, voltando a sair do restaurante para atender a ligação que Aro logo fez.

— Falei com seu pai — ele foi logo falando assim que atendi. — E ele não aprovou a ideia de ter Demetri aqui, disse que apesar de ter sido um bom garoto no passado, não sabe se ele ainda é um bom garoto e que não quer um semi estranho em nossa casa colocando nossa segurança em perigo. — Revirei os olhos, mas entendia o ponto de vista de Charlie Volturi. — E agora?

— Falei com meu amigo Laurent, o dono da boate que me apresento aí em São Francisco. Tem um quartinho nos fundos da boate, disse que Demetri pode ficar lá por um tempo sem pagar e que se quiser, pode trabalhar na limpeza do lugar, o que você acha? Demetri toparia?

— Acho que sim — sussurrei, incerta da resposta, sabia que Demetri já tinha trabalhado em várias coisas diferentes ao redor do mundo, sem ter uma graduação em faculdade ou algum curso formal. — Espera, vou voltar para perto dele e perguntar.

— Deixa que eu pergunto — papai se prontificou.

— Tá booom — concordei, animada pelas as coisas estarem se ajeitando.

Voltei para o restaurante praticamente saltitando, Demetri abriu um sorrisão para mim e eu falei estendendo o celular em sua direção:

— Papai Aro quer falar com você.

— Opa! — Demetri pegou o celular e falou. — Oi, Aro. Bom falar com você!

Eu sentei em meu lugar, escutando a conversa, ou as respostas de Demetri, enquanto meu pai falava com ele.

— Hum, limpeza? Eu não sou muito bom nisso — disse nervoso, dando uma risadinha, o cutuquei e fiz um sinal de positivo, querendo o incentivar. — Mas aceito, claro que aceito

Eles conversaram mais um pouquinho até Demetri devolver o celular para mim.

— Oi, pai, valeu! — agradeci.

— Eu vou encontrar vocês em São Francisco para levar Demetri até a boate e o apresentar para Laurent.

— Tá bom, maravilha.

— Mas Laurent sabe que você estava noiva, eu disse que você e Edward terminaram e que Demetri é um grande amigo seu do passado. Mas, ele pode acabar comentando sobre Edward e o noivado com Demetri, dessa forma, é melhor que você conte logo sobre o plano Robin Hood para Demetri.

— Claro — falei baixinho, sentindo minhas forças se esvaindo. — Pode deixar.

— Te mando uma mensagem quando eu estiver em São Francisco.

Concordei, me despedi e encerrei aquela ligação. Cuidadosamente apoiei o aparelho sobre a mesa e me voltei para Demetri, ele tinha voltado a comer, bastante concentrado na comida, mas olhou para mim quando chamei seu nome.

— Preciso te contar algo.

X

Mais tarde aquele dia, já de noite, entrei em meu apartamento e me deparei com Rosalie sentada no sofá, no mais profundo silêncio, seus olhos logo estavam me encarando, com reprovação.

— Isabella, precisamos conversar — minha melhor amiga afirmou.

— O que você quer? — perguntei na defensiva, sabendo que aquilo seria sobre Edward.

— Você não pode ficar com Demetri — Rosalie declarou, ouvir aquela frase me fez rir.

— Não posso é? Por quê?

— Porque você não o ama, obviamente por isso, você ama o Edward.

— Quer saber de algo, Rosalie? Eu fui até o apartamento ao lado ontem. — Gesticulei com a mão. — E sabe o que recebi? Edward me tratando com grosseria, depois deixando bem claro que eu deveria ficar com Demetri, é o que estou fazendo.

— E você chegou a dizer a ele o que sente?

— Não, Rosalie, eu não disse, por que eu diria mesmo? Ele não quer as mesmas coisas pro futuro que eu quero. E estou cansada, sabe? De não ter a vida que quero. Estou cansada de ser a garota que o pai biológico rejeitou desde o começo, cansada de ter sido abandonada por minha mãe, cansada de ter vivido por anos em lares que não eram os meus, cansada de Mike ter me traído quando pensei que seria para sempre. Estou cansada do fingimento com Edward, porque sei que seria só isso, porque sei que ele não sentiu por mim o mesmo que senti por ele, porque sei que ele nunca, nem por um segundo, cogitou viver comigo em uma casa amarela, ou casar e ter filhos.

— Você não perguntou, deveria ter falado claramente com ele…

— Quer saber, Rosalie? — A interrompi. — Eu também estou cansada de você. — Ela arregalou os olhos. — Estou farta de você dizendo o que eu devo fazer ou não, que merda, me deixa em paz! — gritei.

Ela ficou de pé, ficando diante de mim, seus olhos azuis marejados por lágrimas.

— Tá cansada de mim? Só lembra que eu fui a pessoa ficando ao seu lado no meio disso tudo, Isabella — disse irritada. — Mas que se foda, você quer viver um conto de fadas que idealizou na adolescência com Demetri sendo que nem gosta pra valer desse cara? Vive isso, porque eu também tô exausta de tentar te trazer para a realidade, mas dane-se, vai lá fingir que está vivendo em um desses seus livros idiotas.

— Você é a idiota aqui — esbravejei.

— É, sou mesmo. — Ela pegou seu celular que estava sobre o sofá e o enfiou no bolso da sua calça jeans. — Sou idiota de ficar aqui tentando te ajudar, vive sua vida, só não vem chorar no meu colo quando isso tudo desmoronar, porque também tô cansada de você choramingando quando teve mais oportunidades de ser feliz que eu.

— Não é minha culpa se ninguém quis te adotar — as palavras saíram por minha boca e no mesmo segundo me arrependi. — Rosalie, não, me perdoa. — Tentei tocar nela, mas minha amiga se afastou na hora.

— Não fala mais comigo, Isabella — ordenou e saiu do apartamento, batendo a porta com força.

— Merda — xinguei, me odiando por ter sido tão otária com Rosalie. — Jasper… — murmurei quando o vi cruzando a sala e indo atrás da irmã, mas ele sequer se deu ao trabalho de olhar na minha cara.

Caí no sofá, chorando e me sentindo a pior pessoa do mundo. Nada do que falei para Rosalie deveria ter sido dito, eu só fui uma grande imbecil descontando nela os sentimentos conflitantes dentro de mim e ela talvez nunca fosse me perdoar.

— Calma, respira. — Ouvi a voz de Alice, notando que ela tinha sentado ao meu lado e estava afagando minhas costas.

— Você e Jasper ouviram tudo?

— Sim — confirmou, eu solucei, meu amigo provavelmente também me odiaria.

— Rosalie teve um dia bem difícil — Alice contou baixinho, fazendo com que eu olhasse para seu rosto.

— O que aconteceu?

— Ela foi demitida do estágio, depois o cartão de crédito dela foi clonado e ainda não conseguiu resolver esse problema com o banco, pra completar o gato dela e do Emmett tá passando mal desde manhã e Rose tá se culpando porque comprou para ele uma ração nova diferente, o bichinho foi até internado.

— Por que ela não me contou nada disso? — perguntei sem crer que minha amiga estava tendo um dia tão caótico assim e em momento algum falou nada para mim.

— Você não respondeu nenhuma mensagem dela, ou nossa, hoje — Alice disse ainda em um tom de voz baixo, mas que eu podia sentir a reprovação.

— Tem muita coisa rolando na minha vida — disse em minha defesa.

— Tem muita coisa rolando na vida dela também, Bella. — Alice suspirou. — E eu sou amiga da Rosalie, Jazz é o irmão dela, mas nós sabemos que você é a melhor amiga. E agora vocês brigaram feio, depois de Rose ter passado o dia preocupada com você, mesmo com tudo que estava rolando na vida dela.

— Eu sou uma pessoa detestável, não sou? — questionei.

— Não, você não é. — Alice limpou as lágrimas do meu rosto. — Vai ficar tudo bem, eu espero — disse incerta. — Por que não vai tomar um banho e ir descansar? Amanhã vocês duas conversam direito. Eu vou ligar pro Jazz, ver como eles estão. — Ela me abraçou e saiu de perto de mim, seguindo para seu quarto.

Em algum momento eu parei de chorar, mas continuei no sofá pensando na briga com Rosalie. Pensando em Demetri dormindo na boate de Laurent e como tinha entendido perfeitamente meu plano Robin Hood, dito que sentia muito por ter o estragado, mas que estava feliz que agora eu não tinha mais um anel de noivado no dedo e ele podia me beijar o quanto quisesse.

Beijos que eu não queria tanto assim. Ainda assim, pensei pouco em Demetri, pensando mais na minha amiga, preocupada de ela nunca me perdoar. Preocupada que Jasper também estivesse furioso comigo.

Quando a campainha tocou eu dei um pulo no sofá, pega de surpresa pelo som. Levantei e caminhei até a porta, a abrindo e me deparando com Edward do outro lado, um Edward que carregava uma sacola em mãos que não explicou a existência dela e foi logo falando:

— Você estava chorando.

Não era uma pergunta, sim uma constatação. Eu assenti e sem ligar para mais nada, o abracei, buscando conforto nos únicos braços que queria me envolvendo naquele momento. Então, eu voltei a chorar.

Ouvi a sacola cair no chão, pouco antes de Edward me abraçar de volta. Eu enfiei o rosto em sua camisa, enquanto ele apoiava sua cabeça na minha.

— O que aconteceu? Sua avó piorou?

— Não, eu briguei com Rose. — Me soltei dele, ainda chorando, mas sabendo que abraços de conforto com ele deveriam acabar. — O que é isso? — Apontei para a sacola, mudando de assunto, sem querer que ele soubesse sobre o motivo que iniciou a briga entre Rosalie e eu.

— Algumas coisas suas que estavam no meu apartamento. — Se abaixou e pegou a sacola, entregando para mim, dei uma espiada lá dentro vendo uma camiseta minha, uma caneta e uma das capas do meu Kindle.

— Certo. Você já contou para seu pai?

— Ainda não, mas vou contar o quanto antes. Já contou para seus avós?

— Vou fazer isso o quanto antes também.

— Ok, depois acho que a gente tem que contar nas redes sociais, né?

— É, acho que sim.

— Para você poder circular por aí com o Demetri sem criar boatos de traição.

Engoli em seco ao escutar aquilo, mas assenti.

— Ele chegou bem? — Edward perguntou.

— Sim, tudo bem, ele está em São Francisco.

— Você contou sobre o plano? Ele levou na boa?

— Sim.

— Contou sobre a gente…

— Ele só sabe sobre o plano, não sabe que nós estavamos… Transando casualmente.

— Beleza, vou te deixar descansar. Aliás, gostei do seu cabelo. — Apontou para a franja.

Eu não queria que ele fosse, mas sabia que era o certo a se fazer.

— Valeu.

— Tchau, Rati… Bella.

— Tchau.

Edward seguiu para seu apartamento e eu fechei a porta do meu, precisava dormir, precisava esquecer de tudo aquilo, quem sabe eu sonhasse com algo muito bom.

Como meu cabelo maravilhoso de antes, sem a franja estúpida na minha testa. Uma franja que Edward tinha gostado, uma franja que Demetri não comentou sobre.

X

Rosalie sequer olhou na minha cara quando apareceu no apartamento na manhã seguinte, muito menos respondeu meu bom dia. E eu a entendia, também seria a pessoa com raiva se ela tivesse dito as merdas que falei na noite anterior.

Jasper me respondeu, disse que não estava muito feliz pelo que falei da adoção, mas aceitou minhas desculpas e falou que iria tentar convencer a irmã a voltar falar comigo. Porém, ressaltou que não insistiria, que eu tinha mesmo pisado feio na bola, e eu sabia disso, ensaiei o dia inteiro um texto de pedido de desculpas para minha amiga, mas nada parecia bom suficiente depois da merda que falei.

Entretanto, mesmo com meu mundo virado de ponta cabeça, tentei me animar para a noite que teria com Demetri. Ele estava vindo de São Francisco para jantarmos com meus pais e Jake, o que eu estava muito ansiosa para acontecer logo.

Quando a campainha tocou eu sabia que era ele, sozinha em meu apartamento corri até a porta e a abri para o loiro, que sorriu e logo estava me beijando.

— Já estava morrendo de saudades suas — falou ao se afastar e foi quando vi Edward chegando ao nosso andar, provavelmente voltando do seu treino, que eu sabia que seria encurtado aquela noite por conta do jantar.

— O-Oi — gaguejei, olhando para Edward, ao me sentir impactada demais por seus olhos verdes me encarando profundamente.

No entanto, o olhar penetrante dele se suavizou quando ele sorriu, um sorriso meio estranho, meio forçado, talvez? Que deu bem na hora que Demetri olhou em sua direção.

— Demetri, Edward. Edward, Demetri — os apresentei rapidamente, sabendo que um sabia quem era o outro àquela altura.

— Ei — Edward saudou.

— O cara do plano — Demetri falou baixo como se nós três estivessemos conspirando algo. — Sinto muito ter estragado tudo, cara, mas você pode pedir o dinheiro pro seu pai como um ânimo pelo término e fazer as doações ainda assim, que tal? — brincou, mas Edward não achou engraçado, seu sorriso morreu e os olhos ficaram cheios de irritação.

— Preciso ir. — Seguiu até seu apartamento e bateu a porta ao entrar.

— Falta senso de humor nele, né? — Demetri perguntou para mim.

— Vamos? Não podemos demorar muito. — Naquele instante eu nem queria mais ir, queria cancelar tudo e ir até o apartamento 505, deitar com Edward e perguntar sobre seu dia, mas sabia que nada aquilo nunca mais aconteceria.

— Vamos, estou ansioso para andar na sua moto.

Eu dei um sorrisinho, Demetri e eu partilhavamos o amor por motos, isso era bom. Deixamos meu prédio, eu pilotei minha moto até a casa dos meus pais e abri a porta com minha chave, indicando que deveríamos entrar sem sapatos.

Logo encontramos meus pais e meu irmão na sala, papai Aro estava feliz, papai Charlie parecendo entediado e Jacob. Bom, meu irmão foi o primeiro a falar:

— Não gosto de você!

Primeiro, eu não entendi, até ele completar.

— Você nunca vai ser o Edward! — gritou, olhando para Demetri.

— E-Eu… — Demetri gaguejou, e Jacob correu da sala até o segundo andar.

— Vou conversar com ele — papai Aro o seguiu.

— O que foi isso? — questionei papai Charlie.

— Você sabe que o garoto adorava o Edward. — O treinador deu de ombros, levantando-se do sofá com um resmungo e andou até perto de nós. — Oi, Demetri, bem vindo de volta aos Estados Unidos. — Esticou uma mão para o garoto ao meu lado, mas cada palavra que disse parecia ter sido ensaiada, saindo da sua boca com o mesmo tédio de antes.

— Obrigado, senhor, é bom lhe ver. — Demetri apertou a mão dele, mas meu pai logo a soltou.

— Aham — papai falou sem dar muita bola. — Como você viu. — Voltou-se para mim. — Seu irmão não está nada contente sobre o fim do seu noivado com o Edward, talvez você também devesse falar com ele.

— Ele não sabia que era um noivado falso? — Demetri quis saber.

— Não — neguei. — Ele é novinho, não entenderia, então pra ele a gente não contou a verdade. Vou conversar com ele também, já volto. — Beijei o rosto de Demetri e segui até o quarto do meu irmão.

Jacob estava sentado em sua cama, chorando enquanto papai Aro dizia que ele poderia encontrar Edward vez ou outra para jogar futebol americano. Fiquei com o coração na mão, odiando ver meu irmão chorar, me sentindo extremamente culpada por tudo aquilo. Era tudo minha culpa, estava machucando Jacob e machuquei Rosalie, tudo por conta do noivado falso com Edward, eu nunca deveria ter pensado naquele plano.

Bati na porta, fazendo com que os dois percebessem que eu estava ali.

— Jake, posso conversar com você? — perguntei, me aproximando da cama.

— Pode — respondeu em meio ao seu choro.

— Qualquer coisa me chamem. — Papai Aro beijou a cabeça de Jacob, depois deixou a cama e beijou minha bochecha.

Ele fechou a porta ao sair e eu sentei ao lado do meu irmão, que se agarrou a mim e chorou copiosamente. Eu chorei um pouquinho também, enquanto afagava as costas dele e me lembrava de quando Jacob tinha chego à nossa casa.

Era um garotinho de cinco anos de idade, tão pequeno e muito assustado. Seus pais biológicos tinham falecido em um acidente um ano antes e Jacob foi adotado cerca de dois anos após minha adoção.

No começo, fiquei com receio de Charlie e Aro estarem o adotando por estarem insatisfeitos comigo, mas isso não durou muito. Eu logo me apaixonei por Jake, logo amei me tornar uma irmã mais velha.

— Eu nunca mais vou ver o Edward agora que vocês terminaram — falou choroso.

— Vai sim, papai Charlie pode te levar para ver ele, tá?

Jacob se remexeu, se movendo na cama para olhar para mim. Rapidamente limpei minhas lágrimas, sem querer continuar chorando.

— Por que você terminou com ele?

— Nós terminamos porque não estava mais dando certo, nada demais. — Afaguei seu rosto. — E você vai amar o Demetri quando o conhecer melhor, já o conheceu antes, mas era do tamanho de um mosquitinho — brinquei.

— Ninguém é mais legal do que o Edward — reclamou.

— Pode tentar ao menos gostar de Demetri? — pedi. — Por mim, irmãozinho — implorei, precisando que aquele relacionamento com Demetri desse certo.

— Ok — cedeu. — Posso tentar, mas ainda vou querer ver o Edward!

É, eu entendia, também ainda queria ver Edward.

X

No sábado Demetri e eu fomos ao cinema em São Francisco, um passeio rápido, já que ele teria de trabalhar na boate aquele dia. Na sexta não tínhamos nos visto, ele estava no seu primeiro dia de trabalho e eu ocupada com a faculdade e meu próprio trabalho na lanchonete, também triste por ver, pelas notícias, o time do meu pai perder mais um jogo.

Quero dizer, Edward tinha uma superstição com nossos beijos pré jogos. E se sem eles o time perdesse a temporada?

Só não seria mais triste se Rosalie nunca mais falasse comigo, já que ela continuava sem sequer olhar na minha cara, passando inclusive todas as noites na casa do seu noivo, me evitando ao máximo. Ao menos, eu soube por Jazz e Alice, o gato dela e de Emm estava melhor e já tinha deixado a internação.

— Bella? — Demetri chamou por mim.

— Oi? — Voltei o olhar para ele, estávamos parados na porta do cinema esperando o Uber chegar, primeiro para deixá-lo na boate, depois para me levar até Berkeley, já que eu não tinha ido até São Francisco em minha moto.

— Perguntei quanto tempo falta para o carro chegar, mas você estava voando — comentou, soltando minha mão para ajustar o boné em sua cabeça.

— Ah. — Desbloqueei a tela do meu celular e abri o aplicativo, vendo que em dois minutos o carro estaria ali. — Já está próximo.

— Bem, então terei que ser rápido.

— Como? — perguntei confusa, mas dei um mínimo sorriso quando ele me beijou, suas mãos segurando minha cintura e costas.

— A cada beijo só fica melhor, não? — perguntou quando me soltou, uma buzina alta ali perto doeu meu ouvido, mas não foi por conta dela que senti minha cabeça começar a doer, foi por saber que eu não estava na mesma página de Demetri, mas também não estava me permitindo fechar aquele livro.

Minha sessão de terapia no dia anterior tinha vagado entre Demetri e Edward por todo tempo, mas eu não sentia que tinha chegado a algum lugar. Não, tudo ainda era tão caótico para mim.

— Chegou — falei ao olhar para baixo e ver o aplicativo avisando que o carro já estava parado.

Eu respirei, um pouco mais aliviada, quando deixei Demetri na boate e segui só no carro até Berkeley. Minha cabeça estava mesmo doendo, tudo que eu queria era tomar um banho e dormir, descansar por incontáveis horas.

Entrei no prédio e topei com Edward pegando sua correspondência no escaninho do térreo, ele olhou para mim por um segundo, apenas murmurando um rápido oi.

— Oi — devolvi e gesticulei para a saída do prédio. — Viu esse carro aí fora? Quem será que ganhou na loteria? — perguntei, me referindo ao Porsche estacionado diante do nosso prédio, mesmo sabendo que não deveria estar por aí puxando papo com o Masen.

— Vi, mas acabei de chegar também, não faço ideia de quem é o dono. — Terminou com suas correspondências e acabamos subindo as escadas juntos, um clima totalmente desconfortável nos envolvendo. — Estava com Demetri?

— Sim, ele tá morando em São Francisco.

— Saquei. Bom, tem uns dois minutos que avisei meu pai sobre o término.

— Alguma resposta dele?

— Ainda não — disse ansioso.

O resto do caminho foi feito em silêncio até nosso andar, e quando chegamos lá vimos Eleazar Mansen. O homem estava parado na porta do apartamento de Edward, claramente com raiva de algo, só parecia muito rápido ele já estar ali por conta da mensagem sobre o fim do noivado.

Quando nos viu, Eleazar exclamou:

— Precisamos conversar!


Por favor, sejam gentis hahaha

Beijos!

Lola Royal.

18.02.24