Capítulo 43

"First things first, I'ma say all the words inside my head

I'm fired up and tired of the way that things have been

Second thing second, don't you tell me what you think that I could be

I'm the one at the sail, I'm the master of my sea1"

Believer, Imagine Dragons

O casal estava tão concentrado no piano que perdeu a noção do tempo, e só saíram dali quando Tyrion e Sansa chegaram e vieram falar com eles.

— Achei que nunca mais veria você tocando alguma coisa, maninho — Tyrion disse num tom alegre. — Vocês fazem uma ótima dupla. Não acham que eu daria um bom empresário?

— Não exagere. Ainda tenho um longo caminho de aprendizado — Brienne falou rindo e se levantando para cumprimentá-los.

— Bem, eu não sou uma expert em música, mas também gostei bastante — comentou Sansa, enquanto elas trocavam um abraço.

— Isso porque Jaime estava fazendo a maior parte do trabalho — a jovem respondeu sem deixar de sorrir. — Mesmo tocando só com a mão esquerda, ele é muito mais talentoso do que eu.

— Já vi que minha ideia de ser empresário está indo por água abaixo — Tyrion comentou fingindo estar chateado.

— Quem sabe? — Jaime falou depois de cumprimentá-los também. — Nos dê alguns meses e talvez isso possa ser arranjado. — Todos na sala olharam para ele boquiabertos. — O que foi, gente?

— Você está falando, sério, Jaime? — questionou Tyrion.

Era óbvio que sempre acreditara que seu irmão tinha talento o suficiente para continuar sendo músico mesmo depois do acidente, mas depois que ele desistira de tudo, acabara perdendo as esperanças com relação ao assunto.

— E por que não? — ele indagou rindo. — Consegui largar a bebida e estou colocando minha vida nos eixos. Começo a acreditar que tudo seja possível.

Brienne quase gritou de felicidade antes de abraçar seu namorado. Jamais pensara que aquele dia que se iniciara de maneira tão sombria, poderia guardar uma surpresa como esta.

— É claro que é possível! — ela falou com os olhos brilhando de alegria. — Vou te perturbar todos os dias porque amo ouvir você tocar.

— Esse é o espírito — concordou Tyrion. — Mas antes de dar prosseguimento com esse plano, acho melhor a gente levar nossas malas pro quarto. Se Rosalie ainda fosse viva já teria puxado nossas orelhas.

— Quem é Rosalie? — perguntou Sansa.

— Era nossa governanta — Jaime respondeu com um olhar saudoso. — Ela foi a pessoa que nos criou depois que nossa mãe faleceu, mas já faz alguns anos que ela partiu também. Sinto falta dela — completou sorrindo ao lembrar das inúmeras broncas que levara quando criança.

— Eu também — Tyrion concordou enquanto começavam a subir as escadas. — Nossa casa tinha outro ambiente quando ela estava por perto, embora eu prefira que ninguém puxe minhas orelhas.

Apesar do clima de tristeza as palavras de Tyrion desencadearam pequenas risadas do grupo.

— Agora Brienne e eu já sabemos como colocar vocês nos eixos quando for preciso — comentou Sansa causando novas risadas.

E, a partir desse momento, Tyrion e Jaime começaram a relatar algumas de suas brincadeiras e como Rosalie lidava com eles, tornando o clima muito mais ameno e divertido.


A primeira coisa que Jaime reparou ao entrar em seu quarto foi que seu telescópio ainda estava lá. A segunda foi que havia um embrulho sobre sua cama, cujo conteúdo ele tinha certeza de que não gostaria. A contragosto, aproximou-se da cama e tirou a tampa da caixa. Como temia, havia uma nova prótese ali, com mais um recadinho "carinhoso" de seu pai.

"Já que perdeu a outra, consegui uma nova.

Espero que faça uso dela hoje à noite".

Tywin Lannister

— Canalha! — murmurou Jaime amassando o bilhete e jogando a caixa no chão com um movimento de seu braço.

— O que houve, Jaime? — Brienne questionou assustada.

Ela estava tão distraída em analisar os detalhes do quarto, um ambiente que ainda retinha inúmeros detalhes da juventude de Jaime, que apenas ao vê-lo jogar aquela caixa de presente no chão, percebeu que havia algo errado.

— Meu pai — ele falou lhe entregando o bilhete amassado. — Mal colocamos os pés aqui e ele já começou seus ataques.

Brienne leu o bilhete com tristeza. Apenas após descobrir a maneira como Tywin lidara com o acidente de seu filho foi que compreendeu a aversão que Jaime sentia ao utilizar qualquer tipo de prótese.

— Lembro que vocês mencionaram uma prótese quando estávamos na casa de Tyrion... O que aconteceu? — ela perguntou sentando-se ao lado dele.

Precisava entender o que se passava, caso quisesse ajudá-lo a lidar com o que sentia.

— Basicamente o mesmo que aconteceu aqui. A única diferença é que o bilhete que ele me enviou daquela vez não foi tão sutil — Jaime explicou tentando se controlar. — Fiz questão de gravar cada palavra pra nunca mais esquecer o tipo de pai que eu tenho.

"Espero que esse acidente lhe sirva de lição.

Você deve aprender a focar em assuntos que realmente importam.

Felizmente você não precisa de duas mãos para isso.

De qualquer forma, envio esta prótese para que não cause asco às outras pessoas ao sair de casa e não envergonhe nossa família."

Tywin Lannister

— Essa foi a pérola de sabedoria que meu pai me enviou quando eu já estava no fundo do poço — comentou sentindo-se enojado. — Acho que dá pra imaginar o quanto isso me ajudou naquele momento.

— Jaime... Isso é horrível — Brienne murmurou chocada.

— Ele nem sequer se dignou a me visitar ou perguntar se eu estava bem — Jaime prosseguiu irritado. — Como sempre, tudo o que importava era o que as outras pessoas pensariam. Eu não significava nada; e ainda não significo.

Brienne o abraçou, tentando consolá-lo.

— Ele está errado, Jaime — a jovem falou passando a mão pelos cabelos dele suavemente. — Você sabe disso. Não pode deixar que as atitudes de seu pai o afetem desse jeito. Desculpe dizer isso, mas ele claramente é um homem doentio. Estou preocupada com o que esse fim de semana pode causar a você. Talvez seja melhor irmos embora.

— Eu não posso — Jaime replicou respirando fundo e se acalmando aos poucos. — Não posso deixar que ele saiba o quanto me afetou. Se eu for embora agora, será o mesmo que assumir que ele está certo.

— Mas olhe como você ficou, Jaime. Vale mesmo a pena ficar aqui desse jeito? — a jovem indagou preocupada.

Tinha medo de que aquela visita pudesse causar uma recaída em Jaime.

— Vai passar. Eu prometo — ele falou se afastando um pouco para encará-la. — Essa casa tem lembranças demais e acho que isso acabou mexendo comigo, mas garanto que tudo vai dar certo.

Brienne ainda o fitava com preocupação, porém acabou assentindo.

— Vou passar uma água no rosto e já volto — Jaime disse se levantando e seguindo em direção ao banheiro da suíte.

Quando voltou parecia bem mais controlado.

— Tudo bem? — Brienne perguntou mesmo assim, e ele lhe lançou um sorriso agradecido antes de puxá-la pela mão.

— Sim. É melhor descermos — Jaime falou mudando de assunto. — A mesa já deve estar servida a essa altura.

— Certo — a jovem concordou ainda se sentindo um pouco incerta.

— Se continuar com essa cara de enterro, serei obrigado a pular o almoço e encontrar algum meio de te fazer sorrir — Jaime resmungou estreitando os olhos na direção dela. — Talvez isso envolva uma tórrida tarde de amor.

Mesmo tentando evitar, Brienne acabou caindo na gargalhada.

— Acho que você está passando muito tempo na companhia do seu irmão — ela brincou, se levantando da cama. — Você é ridículo.

— Eu sei — ele concordou dando um beijo nela. — Felizmente você gosta de mim assim mesmo.

— Você é mesmo muito sortudo — Brienne comentou sem deixar de rir.

O assunto da conversa que tiveram ainda pairava em sua mente, mas, se Jaime acreditava que poderia passar por aquele fim de semana na casa de seu pai, tudo o que lhe restava fazer era permanecer ao lado dele e lhe dar apoio, por mais que estivesse preocupada.


1 "Em primeiro lugar, vou dizer todas as palavras que estão na minha cabeça

Estou irritado e cansado da maneira como as coisas têm sido.

Em segundo lugar, não me diga o que acha que eu poderia ser

Eu estou controlando a vela, sou o mestre do meu oceano". Tradução Livre.