Capítulo 2

"I wish I could save you from the pain you've been through

And all I can tell you is the best thing to do

You gotta listen, listen to your heart1"

Listen, One Ok Rock feat. Avril Lavigne

— E aí? Almoço em uma hora? — perguntou o sócio de Ikki dois dias depois, após encerrarem uma reunião com um novo cliente.

— Hoje não vai dar, Hyoga — Ikki respondeu guardando alguns papéis em sua mochila. — Já tenho um compromisso.

— Compromisso? — Hyoga questionou confuso. — De negócios ou pessoal? Você não comentou nada.

Por serem melhores amigos e sócios, passavam a maior parte do dia juntos e conversavam sobre tudo, portanto, Hyoga estranhou que Ikki não tivesse comentado nada sobre esse compromisso antes.

— Na verdade, não sei — disse Ikki em um tom pensativo, fazendo seu amigo rir.

— Como assim "não sabe"? — perguntou incrédulo. — Você é o cara mais certinho e organizado que eu conheço. É impossível que tenha um compromisso e não saiba do que se trata.

— Bom, a princípio é uma reunião para falar sobre aquela obra do orfanato...

— Então são negócios — constatou Hyoga.

— Sim. Mas também é pessoal de certa forma — explicou Ikki. — Vou almoçar com a coordenadora do local e depois vamos fazer um tour pela construção. Vou falar sobre a arquitetura do lugar para ela.

— Por que isso me parece incrivelmente chato? — seu sócio perguntou com ironia.

— Porque você ama prédios modernos — retrucou Ikki como se isso fosse um ataque direto contra ele.

— Assim como a maioria das pessoas.

— Pode ser, mas Mino se mostrou bastante interessada em saber mais sobre o prédio do orfanato e eu vou apresentá-lo a ela de uma maneira que ela nunca viu —Ikki afirmou com orgulho e seu amigo deu um sorriso malicioso.

— Isso soa quase obsceno.

— Você é um porco, Hyoga. — Ambos caíram na gargalhada.

— Mas agora, falando sério, isso soa quase como um encontro; ou o que uma pessoa como você consideraria um encontro.

— Bem, não é um encontro. Pelo menos não no sentido que você está implicando à situação. — Ikki terminou de guardar suas coisas e fechou a mochila. — Agora, me dê licença, ou vou chegar atrasado.

— Claro. Fique à vontade. — Seu amigo se afastou para lhe dar passagem. — Seria horrível se atrasar logo no primeiro encontro.

— Hyoga...

— Ok. Ok. — Ele ergueu as mãos como se estivesse se rendendo. — Só estou dizendo que talvez um encontro fosse te fazer bem. Desde que você e Esmeralda terminaram, você virou quase um monge.

— Eu não virei um monge, só tenho me dedicado muito ao trabalho.

— É, hoje em dia as pessoas podem usar essa desculpa quando se tornam reclusas.

— Eu não sou um recluso. Pelo amor de Deus, Hyoga! — retrucou Ikki parando ao lado da porta e se voltando para seu amigo novamente.

— E, ainda assim, não confirmou presença no aniversário da sua afilhada. Ela ainda vai completar cinco anos e já acha que o tio Ikki não gosta dela.

— Você sabe que não confirmei porque nunca sabemos se pode surgir algum cliente repentinamente. — Hyoga riu da justificativa de seu amigo.

— Você fala como se a nossa empresa estivesse à beira da ruína, Ikki, e não é esse o caso — ele respondeu tentando fazê-lo enxergar a verdade. Ikki usava o trabalho como desculpa toda vez que tentavam convencê-lo a viver um pouco. — O trabalho não é tudo; e, se perdermos um cliente, outro surgirá.

Ikki olhou seu relógio. Precisava sair logo e aquela conversa de seu sócio começava a deixá-lo impaciente.

— Ok. Eu vou à festa. Satisfeito? — indagou resignado.

— Muito! — comemorou Hyoga diante de sua pequena conquista. — A Shiori vai ficar superfeliz com essa notícia.

E Ikki sabia que isso era verdade. Shiori adorava brincar com ele; e cada visita sua era uma nova aventura.

— Certo. Agora eu preciso mesmo ir — explicou ao se voltar para a porta novamente.

— Tudo bem. Nos falamos mais tarde — Hyoga concordou vendo seu amigo abrir a porta. — Ah! Se quiser convidar a Mino pra festa, fique à vontade.

Ikki tornou a olhar para ele com uma expressão confusa, por que ele chamaria Mino para a festa de sua afilhada? Não fazia o menor sentido.

— Sei que não a conhecemos muito bem ainda — prosseguiu Hyoga com um dar de ombros —, mas já deu pra perceber que ela te faz bem. Não podemos ignorar isso.

Se estivessem em um lugar diferente do seu local de trabalho, Ikki teria xingado seu amigo, porém, diante das circunstâncias atuais, apenas estreitou os olhos em irritação e ofereceu o dedo do meio a ele antes de sair e fechar a porta com um baque. As risadas de seu sócio em resposta a isso o acompanharam até o elevador.


1 "Eu gostaria de poder te salvar da dor pela qual você passou

E tudo o que posso dizer é a melhor coisa a fazer

Você precisa escutar, escutar seu coração.". Tradução livre.