Olá Pergaminhos e Nazarins, com outro capítulo da minha fanfic Aquele que Voltou.
Remédios faz uma grande descoberta.
Com vocês
Aquele que Voltou
Capítulo 72: A Volta dos Mortos
Remédios Custódio caminhava sozinha na neve. Semanas se passaram desde que pegou aquele mapa, e agora ela se encontravano alto de uma montanha castigada pela nevasca.
O vento gelado e cortante açoitava o rosto da paladina, ainda assim ela nem piscava, seus passos eram firmes mesmo com a neve até a cintura, ela nem não diminuía o ritmo, mostrando que a única coisa maior que sua força, era sua obsessão.
Ao partir, o exército foi deixado aos pés da montanha. Para seus planos, eles ainda deveriam se manter incógnitos, então estavam seguindo suas instruções e os planos traçados pelo Rosa.
No meio da tempestade, Remédios se lembrou quando Gustav chegou ao acampamento.
...
Semanas atrás
— Levem-no para dentro - disse o Velho Roxo.
Gustav foi levado amarrado e espancado para dentro da barraca.
— Olá, Gustav Montagnes, Capitão dos Paladinos.
— Randalse... - rosnou o homem.
— Vejo que finalmente decidiu se juntar a nós.
— Vocês estão loucos, isso é traição - disse ele para os homens que o seguravam.
Enrique Bellse, o Azul, espadachim habilidoso, e Isandro Sanchez, o Rosa, estrategista militar, estavam ao lado do Velho Roxo, um homem de grande poder, não físico, mas com contatos no sul que o tornavam alguém de imensa influência.
Gustav poderia rivalizar com o Azul em questão de força física, mas não se fosse pego de surpresa com um ataque traiçoeiro pelas costas.
— Traição? Não, isso é sobrevivência. Não podemos ficar expostos aos desmandos de Caspond - disse o Velho Roxo.
— O Rei Santo está tentando salvar o que restou do reino.
— Afogando o sul em demandas, sugando tudo que temos para manter um norte agonizante, o que acontece agora é consequência de seus atos. - disse o Conde Randalse.
— As colheitas morrem por uma praga, e então é culpa do Rei Santo? Uma tempestade afunda os navios pesqueiros, e é culpa do Rei Santo? O inverno chega mais cedo, e é culpa do Rei Santo?
— Não - disse uma voz feminina vinda da outra sala.
Gustav engoliu em seco.
— É culpa do Rei Bruxo! - falou Remédios surgindo por entre as cortinas.
— *Não é possível, você está morta!* - Gustav murmurou atônito.
— As notícias de minha morte aparentemente foram um pouco exageradas.
— N-não, eu vi o corpo, estava destruído, você não podia ser ressuscitada.
— Você parece estar tentando se convencer. Vocês me deixaram trancada naquela casa, a cercaram com guardas acreditando que eu ficaria lá.
— Você estava...
— Louca? Quase, mas não tanto quanto pensavam.
— NÉIA! NÉIA BARAJA DESTRUIU SEU CORPO! - gritou Gustav em agonia e descrença.
— Não tenho ideia de quem roubou aquele corpo, mas não era eu, como pode ver.
— Como?
— Sabe, vocês deveriam ter olhado melhor o meu porão. Minha casa era uma das mais antigas de Horbuns. Ter mais do que uma opção de fuga era o padrão antigamente. Meus novos amigos do sul me encontraram e trouxeram uma substituta, muito parecida afinal. Bastou ir embora selando o túnel.
— Vocês assassinaram alguém, para ocultar sua fuga!
— Assassinar?! Ela foi voluntária! Ela sorriu para mim o tempo inteiro ao colocar a corda em seu pescoço e se jogar. E quando a lamparina de óleo que estava em suas mãos caiu aos seus pés, eu a vi queimar. Era o mínimo que podia fazer pelo seu sacrifício.
— Isso é loucura.
— Loucura são vocês seguindo as ordens do capacho do Rei Bruxo. Cada ordem que ele emite tem o dedo do morto-vivo.
— O Rei Feiticeiro ajudou a salvar o reino.
— Salvou mesmo? Ele podia ter destruído o demônio muito antes. Em vez disso, se fez de santo, deixou definharmos, envenenou as pessoas do nosso reino e colocou um rei fantoche no trono. Tudo o que ele quer é nos enfraquecer para sermos conquistados.
— Isso é delírio.
— DELÍRIO! Você acha que foi coincidência um demônio aparecer em nossas terras e o morto-vivo vir como um salvador? Coincidência, o bruxo se fingir de morto e cair no meio dos homens-bestas, agora ele tem um exército à nossa porta, coincidência salvar uma traidora e agora ter uma religião falsa em seu nome. Acho que não.
O Conde Randalse desviou o olhar enquanto Remédios vociferava suas teorias mirabolantes. Ninguém além dela acreditava nessas coisas, mas não seria bom contrariá-la.
— Remédios, pare com isso, volte à razão. Podemos salvar o reino, juntos. Venha comigo, você sabe, e... eu te amei.
— Sim, e eu amei você. Mas eu também amava minha obrigação, amava o reino, amava mais ainda a Rainha Santa, amava mais minha irmã. E quando elas morreram e tiraram tudo de mim, não sobrou amor algum. - disse ela, abaixando-se na frente do Capitão dos Paladinos.
— Remé*...! - Gustav engasgou subitamente, e ao olhar para baixo, viu a faca cravada em seu peito.
— Você será útil mesmo após sua morte, Gustav. Você! Capitão Phineas, preserve o corpo, mandem a mensagem como combinamos, levem os outros prisioneiros. Quando chegar a hora, coloquem este recado no corpo, e agora saiam daqui - disse Remédios, retirando-se após entregar um pergaminho.
...
Agora
Saindo dessas lembranças, Remédios viu uma caverna surgiu bem à sua frente.
— 'Ali, irmã! Está vendo? Aquele é o local que procuramos.'
Quando partiu do acampamento, os teocratas quiseram acompanhá-la, mas ela recusou. Se alguma arma fosse encontrada, seria dela.
Remédios estava há semanas andando pelas montanhas, seguindo parcas orientações em um mapa decrépito em uma língua arcaica da época dos Treze Heróis. Se não fosse pelas orientações do espírito de sua irmã morta, nunca teria chegado ali. Sem essa ajuda, ela teria se perdido por meses naquelas montanhas.
Ao adentrar na caverna, Remédios acendeu uma tocha. Nada de incomum chamava sua atenção até que entrou mais profundamente. De repente, uma luz se acendeu. Era uma luz mágica, fraca e bruxuleante, mas ajudou a ver as paredes que agora não eram mais as de uma caverna; eram alisadas e com figuras esculpidas, mal se podia discernir o que eram. O tempo e as intempéries da montanha gelada destruíram a maioria dos entalhes. Apenas algumas cenas eram possíveis de discernir: demônios marchando, sacrifícios, criaturas ajoelhadas, alguém em um pedestal.
— Por que esconderiam uma das Espadas da Luz aqui?
— 'Será que é realmente uma delas? Pode ser apenas uma armadilha.'
— Talvez não seja nenhuma dessas coisas. Pode ser um túmulo, o túmulo perdido do Cavaleiro Negro. Ele era parte demônio.
Conforme ela andava, algumas luzes se acendiam, mas outras não. Parte do corredor estava soterrado por um desmoronamento, e foi preciso se arrastar por um espaço pequeno. Em seguida, o túnel continuava por centenas de metros até chegar a um salão.
O local era grande o suficiente para a luz da tocha não alcançar as paredes. Após percorrer algumas dezenas de metros, uma luz no teto se acendeu.
Sobre a luz fraca, havia um altar, e sobre ele parecia estar cravada na pedra uma espada. A princípio, Remédios achou que a lâmina fosse negra, mas conforme se aproximou e a luz de sua própria tocha chegou nela, pôde perceber que na verdade a espada era vermelha, da cor de sangue. Apenas o cabo era visível fora da pedra, e em sua empunhadura havia incrustações.
— O que diabos é isso?
— 'Uma das espadas do Cavaleiro Negro?!'
Remédios se aproximou, e então pôde ver algo logo atrás do altar. Ela levantou sua tocha, e então uma nova luz se acendeu, iluminando duas figuras. Uma delas era uma estátua enorme, parcialmente destruída, mas Remédios pôde reconhecer a figura, ela mal podia acreditar no que via.
Mas o que chamou sua atenção foi outra figura, era um esqueleto que estava usando os restos de um manto antigo. Parte de seu corpo era visível, mostrando ossos quase humanos. A criatura tinha um grande buraco em seu peito, que não deveria ter sido feito pelo tempo.
Suas mãos estavam estendidas, segurando débilmente o cabo da espada. E em seu rosto estava uma máscara azul conhecida.
— Jaldabaoth...- ela sussurrou - este é um templo de JALDABAOTH!
— 'Se acalme, querida. Ele não está aqui.'
— Tenho que sair - disse ela, dando passos em direção à saída.
— 'Irmã! Espere! A espada! Não podemos deixá-la aqui, pode ser a arma que você precisa!'
Remédios parou, e então voltou. Deu alguns passos vacilantes em direção à arma. Era possível sentir algo pulsando da lâmina, como se uma energia a qualquer momento fosse saltar e tomar sua vida. Por isso, ao se aproximar, hesitou em tocá-la.
— É uma espada maldita.
— 'É uma espada poderosa. Pegue-airmã!'
— Eu não quero.
— 'Pegue-a.'
— Não.
— 'Pegue!'
— CALE A BOCA! - gritou Remédios, arrancando de sua cintura o jarro que continha a cabeça de sua irmã morta e o batendo sobre o altar.
— 'Irmã?'
— PARE DE ME CHAMAR ASSIM!
— 'Mas...?!'
— EU MANDEI PARAR! Minha irmã era um prodígio, um gênio na magia e uma maga poderosa. Mas, se não houvesse o brasão de nossa família em sua porta, ela não seria capaz de achar seu próprio quarto no palácio. Ela não tinha a mínima noção de direção. VOCÊ NÃO É KELARD CUSTÓDIO! QUEM É VOCÊ?
Houve silêncio por alguns segundos.
— 'He...hehehehehehehe! Você sabe quem eu sou.' - riu uma voz feminina.
— Não!
— 'Sim.'
— Não pode ser, você está morto!
— 'Estou? Vamos, você sabe quem eu sou, diga, diga meu nome, DIGA!'
— Jaldabaoth...
— 'HAHAHAHAHAHAHAHA!'
...
Nota do autor
Olá, finalmente dei uma explicação de como Remédios Custódio fingiu a própria morte.
Com o estado mental fragilizado, seu o uso como bode espiatório e a pressa de se livrarem dela, acredito que erraram muito.
Espero que sua fuga tenha sido plausível para vocês leitores, a pior coisa para um escritor é criar uma solução boba, então eu queimei os neurônios com isso.
