Vislumbrando as ondas se quebrarem na proa do navio, Phineas só pensava em Rosette. No sorriso com que ela se permitiu dar ao se despedir dele, em sua confiança na promessa do jornalista de que começariam uma nova vida depois que retornasse, longe de todos que pudessem prejudica-los. Não precisariam mais se encontrar às escondidas. E seriam novamente felizes.

-Sonhando acordado, meu amigo? – o loiro se aproximou, colocando o a mão no ombro de Black.

-Um pouco – ele respondeu, sorrindo.

-Não queria te fazer acordar para a realidade, mas estamos quase chegando. – Goodfellow disse, um pouco mais sério.

Phineas anuiu, com o semblante bastante carregado. O país que eles iriam entrar não era a França livre e alegre que visitara em sua juventude, mas um país ocupado pelos nazistas, dominado pelo medo e pela desconfiança. E, ainda assim, que se mantinha resistente nas sombras. Se o artefato não fosse tão necessário a Dumbledore e tão perigoso se caísse em mãos erradas, Black não arriscaria. Tampouco levaria um bom amigo como Goddriac consigo.

Exatamente por isso não foram direto para a França, mas sim para a Portugal, onde pegariam uma chave de portal que os levaria até a Paris ocupada. Embora fosse oficialmente neutro na guerra, os lusitanos ainda mantinham relações cordiais com o Reino Unido, o que era relativamente contraditório, levando em conta que seu governante, Salazar, possuía tendências fascistas mas era simpático aos Aliados.

Não demorou muito para que o contato providenciado por Dumbledore os encontrasse no cais e discretamente acenasse para os dois. Era um antigo aluno de Hogwarts, que Goodfellow reconheceu prontamente como um ex-colega da casa dos Texugos.

Os homens caminharam discretamente em direção ao outro e, em um falso empurrão, Goddriac pegou o galeão de ouro que serviria como chave.

-Sinto muito – o ex-lufano, murmurou, em um português carregado, se afastando.

Assim que o outro homem já estava longe, Phineas e Goddriac seguiram a passos rápidos para um beco próximo.

O loiro abriu a mão, mostrando a moeda dourada para Black, que sorriu, aliviado. O jornalista postou a mão do ombro do amigo, que contou até três. Os dois fecharam os olhos involuntariamente e quando os abriram estavam em um apartamento pequeno, entulhado de livros e pergaminhos. Um homem de meia idade, com entradas visíveis entre os cabelos grisalhos os cumprimentou, enquanto ajeitava os óculos que lhe escorregavam pelo nariz.

-Goddriac, Black. É um prazer finalmente conhecê-los.

- Professor Henri Lefoux – Phineas estendeu a mão – o prazer é todo meu.

O homem retribuiu o aperto de mão.

-Então – Phineas continuou – o senhor realmente conseguiu localizar o Aureos Oroburus Sibilae?

O acadêmico assentiu.

-Está em uma das Catacumbas de Paris, na parte bruxa e mais profunda. Eu os levarei lá, mas peço um favor em troca...

Goodfellow fechou o cenho, ligeiramente alterado.

-Esse não foi o combinado, professor Lefoux.

O homem arqueou os ombros, em um suspiro tão profundo que quase se encurvou dentro de si mesmo. Era como se o peso do mundo o estivesse oprimindo naquele momento, tal qual fazia com Atlas na mitologia. As coisas haviam piorado bastante nos últimos dois dias, e, aqueles ingleses talvez fossem a única forma de salvar mais algumas vidas.

-Eu tinha um amigo...Rudolph Evansberg... Talvez seja melhor eu lhes mostrar...

Com um aceno de varinha, Lefoux abriu uma passagem secreta atrás de uma estante de livros. Em um lugar que mal cabia uma pessoa, estavam uma mulher e três crianças. A expressão deles era de pura desolação.

-Esta é Liesel Evansberg. E seus filhos, Yossef, Hans e Hannah.

-Bonsoir... – a mulher murmurou, baixinho, segurando a filha de dois anos, que dormia em seu colo – Esses são os ingleses que podem nos ajudar, Henri?

Antes que o francês respondesse, Phineas se adiantou, sem não antes trocar um olhar cúmplice com Goodfellow.

-Sim, somos nós. – Black respondeu.


Enquanto arrumava as coisas dentro da mochila para entrarem nos túneis que cortavam os subterrâneos da capital francesa como um labirinto quase indecifrável, Phineas pensava na mulher judia e seus filhos, escondidos na casa de Lefoux. Os três bruxos haviam conjurado juntos um feitiço de proteção forte suficiente para mantê-los a salvo enquanto estivessem fora.

Liesel dormia abraçada com as crianças, na cama do professor, que havia sido aumentada com um engorgio pelo homem. Pelo que ela e o acadêmico haviam contado aos ingleses, naquela tarde, Rudolph havia sido assassinado, enquanto despachava a esposa de sangue trouxa e os filhos para casa do amigo via Pó de Flu.

Henri, assustado com a chegada súbita, acolheu os fugitivos, ao mesmo tempo em que conseguiu informações com alguns amigos de confiança. Estavam capturando os judeus residentes na cidade, tanto da zona ocupada quanto da livre, e os encarcerando no Vélodrome d'Hiver, um antigo estádio parisiense. Sem água, sem comida, sem condições sanitárias básicas.

-Um fidelius não seria mais seguro? – Black escutou Goodfellow perguntar – Um de nós pode ser o Fiel do Segredo.

-Certamente – o professor concordou – mas, se fosse tão simples assim, todas as casas bruxas da cidade já estariam enfeitiçadas. A única chance é vocês levarem eles, escondidos com feitiço desilusório, até os limites da cidade. Eu tenho um contato que ficou de conseguir uma chave de portal de volta para Portugal. Chaves de portais estão cada vez mais raras de se encontrar no mercado negro...

Goodfellow olhou para Phineas, que simplesmente assentiu, compreendendo as preocupações do amigo. Os riscos eram altos, mas também não poderiam simplesmente ignorar uma mulher e crianças em perigo. O filho mais velho tinha a mesma idade de Marge e Bete.

-Estamos prontos - o jornalista disse, enquanto colocava a mochila nas costas.

Os homens saíram da casa, para a escuridão da noite. Os feitiços que haviam colocado provisoriamente na residência não permitiam que eles aparatassem de dentro dali. Eles se entreolharam, e, depois de um aceno de cabeça, três sons de "cracs" quebraram o silêncio da noite.

No instante seguinte, eles estavam na entrada principal das conhecidas "Les Carrières de Paris" – As Pedreiras de Paris. Embora a parte mais famosa fosse o ossuário, chamados comumente de Catacumbas, aqueles túneis eram bem mais antigos, escavados desde a época dos romanos. Fornecendo material para a construção de lugares importantes, como a Catedral de Notre Dame e o Louvre.

Eram como veias subterrâneas cortando a cidade, algumas partes se tornando o lar de milhões de ossos, depois que o cemitério de Saints-Innocents se tornou uma fétida cova coletiva a céu aberto, inundando Paris com seu fedor em 1780. Nos anos seguintes, os corpos foram transportados para o subsolo.

Contudo, não apenas os ossos encontraram um novo lar. Vários bruxos aproveitaram a movimentação para esconder coisas importantes e perigosas. Um delas era o Aureos Oroborus Sibilae, um livro antigo, que foi roubado de Hogwarts no século XV. Pelo menos era isso que indicava a pesquisa de Lefoux. Ele havia passado grande parte da vida acadêmica estudando o artefato, e os últimos cinco anos desmontando as proteções mágicas dos túneis que abrigavam o Aureos

Goodfellow olhou para a entrada das Catatumbas, lendo: Arrète! Cest ici l'empire de la mort – Pare! Este é o Império da Morte. Um arrepio percorreu sua espinha e ele pensou consigo que naqueles tempos sombrios, especialmente na cidade ocupada, aquela era uma verdade palpável, não apenas debaixo de Paris. Embora estivessem sob o disfarce de feitiços desilusórios, Goddriac desejou ter uma capa de invisibilidade naquele momento.

Lefoux acenou a cabeça, fazendo com que os dois homens o seguissem. O caminho que precisavam pegar era longe da entrada principal. Ele já havia desfeito quase todas as defesas do livro, mas precisava de uma coisa que só Black poderia fornecer. O sangue de um descendente de uma das "Sagradas Vinte e Oito Famílias". Embora o termo tivesse sido cunhado nos anos 30, basicamente significava que precisava de alguém de uma linhagem bastante antiga, descendente apenas de bruxos puro-sangue. Embora os Goddriacs fossem uma família tradicional, existiam alguns mestiços em sua árvore genealógica.

Os túneis eram tranquilos, escuros e úmidos, carregados de melancolia. Ou talvez esse sentimento viesse dos homens, que caminhavam em silêncio, até que Goodfellow, percebendo o quão longe estavam da superfície e afastados do perigo, decidiu falar.

-O que você acha que tem no livro? – ele perguntou.

Lefoux ponderou antes de responder, entre teorias e incertezas, ele chegou na conclusão que compartilhou com Dumbledore.

-Uma chave. – ele afirmou. – O Aureos é um compendio de famílias puro sangue inglesas, seu nome e o de Black devem estar nela. Existem seitas que creem que ele revela uma profecia. Pessoas perigosas aliadas a Grindelwald. Mas eu acredito que seja uma chave para algo maior que os Quatro Grandes esconderam para proteger Hogwarts.

-Ou ser usado como uma arma – Phineas completou, lembrando-se das palavras de Dumbledore – Capaz de destruir cidades inteiras.

-Um dragão, talvez? – o loiro perguntou, curioso.

Sem que percebesse, Black começou a rir diante de tamanho absurdo.

-Que imaginação, Good – ele gracejou.

Goddriac riu também mas falava a sério.

-Nunca pensou que o lema da escola pode ser sobre isso? Draco dormiens nunquam titillandus.

-Nunca cutuque um dragão adormecido – Phineas traduziu quase automaticamente – Os Quatro Grandes eram poderosos, mas adormecer um dragão e colocá-lo dentro do castelo! Isso seria além do imaginável.

-Eu acho plausível – Goodfellow insistiu – Quando eu estudava em Hogwarts, descobri uma passagem secreta com essa mesma inscrição que dava para um pequeno salão. Havia uma barreira, cerrada por pesadas cortinas, que sempre me impediu de ver o que se escondia atrás. Por que não um dragão?

-O que acha, Lefoux? – Black perguntou.

O professor ajeitou os óculos, dizendo.

-Não duvidaria. E creio que em breve, vamos descobrir. Chegamos.

Os homens pararam, observando buraco escavado na parede, onde o Aureos repousava. Embora não fosse perceptível a olho nu, os três conseguiam sentir a barreira de energia que circundava o local.

Phineas abriu a mochila, tirando de lá uma adaga de chifre de árpeu. Sangue era algo poderoso. Ele lembrou-se de Aribeth ao pensar nisso, na Antiga Magia que ela manipulava, tão diferente daquela que ele aprendera desde menino. Era isso que estava para acontecer ali, com ele.

Com um golpe rápido, fez um talho na própria mão. O sangue imediatamente gotejou, farto. Sem se importar com a dor ou com o líquido que escorria por seu braço, começando a empapuçar-lhe o terno escuro, Phineas se aproximou da barreira de energia, estendendo a mão ferida em sua direção. Os olhos de um azul profundo tornaram-se momentaneamente translúcidos. Observando seu sangue correr como um rio vermelho, formando o desenho de runas antigas, Black sentiu as pernas fraquejarem, e as mãos de Goddriac o segurarem pelos ombros.

-Tudo bem ai, amigo? – o loiro perguntou.

Black apenas assentiu, percebendo que não estava tão bem quanto desejava transparecer. Contudo, a barreira havia sido quebrada e Lefoux já havia pegado o livro e guardado na mochila que antes estava com Phineas.

O jornalista fez o resto do caminho apoiado em Goddriac.

-Vai conseguir aparatar sozinho? – o loiro perguntou, preocupado.

-Acho melhor não – Phineas, respondeu, com sinceridade.

O professor observava a interação dos ingleses em silêncio. Apesar da tensão, Lefoux sentia-se quase satisfeito. O trabalho de uma vida rendera frutos e poderia ser a diferença no embate contra Grindelwald. Em poucos minutos estariam de volta a seu apartamento, e, em breve, a família de seu falecido e querido amigo estaria segura, longe de Paris.