Capítulo 31 - Angustia
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Posso dizer que minha mãe não gostou de nenhum pouco de saber que Sasuke iria me emprestar o dinheiro para pagar metade da minha mensalidade de medicina. Nós discutimos, isso era óbvio, e cada palavra dita por ela só fazia me sentir mal, como se eu tivesse feito a maior burrada da minha vida.
Mamãe destacou pontos e falhas naquele plano louco que para mim - quando estava com Sasuke - era perfeito. E por difícil que possa ser, eu tinha que admitir que mamãe estava com a razão. Mas a questão era que eu queria seguir com o plano de Sasuke, ignorar tudo e pensar positivo de que tudo iria dar certo. Mas lá dentro, do fundo do meu ser, eu sabia que nada daquilo estava correndo para dar certo.
E com isso eu guardei tudo para mim. Não comentei esse assunto com Sasuke quando nos encontramos para ir à escola e nem nos próximos dias que se passaram. Ele estava tão feliz por irmos à universidade juntos que não tive coragem de dizer o contrário. Eu estava angustiada com tudo isso, e estava me matando aos poucos. Era como se uma pedra estivesse se pousado nas minhas costas novamente, o peso da responsabilidade.
Eu odiava aquilo.
E me odiei por não ter dado tudo de mim.
Um nó se formava em minha garganta em saber que possivelmente eu teria que seguir meu plano original.
E ali, sentada em nossa mesa redonda junto com meus amigos eu resolvi deixar esse assunto de lado e focar apenas no presente. Havia deixado para sofrer amanhã, iria adiar esse assunto o máximo que eu pudesse fazer. E com isso voltei a prestar a atenção no assunto que rolava entre eles.
- Daqui a umas semanas vamos nos formar no ensino médio, dá para acreditar? – Questionou Ino, chamando a atenção de todos.
- Não vejo a hora de me ver livre desse lugar – resmungou Neji dando um gole na sua Coca Cola.
Naruto riu debochadamente.
- Sair do colégio e ingressar na universidade, maravilha.
Neji suspirou e murmurou:
- Mais estudos.
- Pelo menos temos o baile dos formandos – disse Hinata, ela havia optado por passar o intervalo com a gente, e agradeci por Karin não ter vindo junto.
Ino deu palminhas, visivelmente animada.
- Sempre sonhei com o dia desse baile dos formandos. Não acredito que chegou a nossa vez.
- E você quer ser o meu par para o baile? – Perguntou Sai.
Ino se virou para o namorado e o abraçou pelo pescoço.
- Mas é claro, meu amor – e o beijou na boca.
Desvie meus olhos para lado e fitei meu namorado. Ele estava alheio a nossa conversa, perdido em seu universo de pensamentos.
- Sasuke. – O chamei, mas ele continuava vendo algo invisível na mesa.
Franzi levemente meu cenho e toquei seu braço.
- Sasuke.
Ele pareceu despertar e me olhou assustado.
- Ahn? O que você disse?
- Você está com a cabeça longe. – Observou seu rosto, e por mais que ele tentasse disfarçar, eu vi um brilho de preocupação em seu olhar. - Está com algum problema?
Ele sorriu cansado e beijou minha têmpora.
- Só alguns probleminhas, não se preocupe.
- Quer compartilhar?
- Não, minha linda. Não é nada importante.
- Aí Romeu. Quem você irá levar para o baile dos formandos? – Neji perguntou ironicamente para Sasuke.
Meu namorado abriu um meio sorriso e passou o braço por meus ombros.
- Isso é meio óbvio, não? – Me fitou de lado e piscou para mim.
Baile?
Eu nunca havia ido a um baile antes. Sempre deixava passar essas festas por que não sentia necessidade de me enturmar. E além do mais, o que eu faria num baile escolar se eu nem ao menos tinha amigos e muito menos um namorado? Mas dessa vez era diferente. A animação dos meus amigos era contagiante, e pela primeira vez, eu queria ir ao baile com Sasuke.
- Mas geralmente o cara pergunta para a mina – disse Naruto com um sorriso no rosto enquanto comia uma rosquinha de cebola.
Sasuke revirou os olhos e virou seu corpo para mim. Agarrou minha mão e fitou o fundo dos meus olhos, um pequeno sorriso no canto de sua boca.
- Sakura Haruno, você aceita ir ao baile comigo?
Um friozinho circulou meu estômago e senti os cantos de minha boca curvarem para cima, num sorriso bobo e apaixonado.
- Aceito.
Sasuke me roubou um beijo, arrancando assobios e algazarras dos nossos amigos. Sentia minhas bochechas queimando, mas cedi aquele capricho do meu namorado.
No meio entre um intervalo de troca de uma aula e outra eu saí da sala para ir ao banheiro. Me apressei para não demorar tanto e agora voltava pelos corredores vazios, sabendo que todos os professores estavam nas salas. Aumentei mais os passos e hesitei quando vi Karin em frente aos armários, fechando a sua porta.
Continuei seguindo em frente, apenas iria ignorá-la, assim como ela me ignorava. Mas parece que o meu plano não iria ser concluído, já que a voz da dita cuja soou pelo corredor vazio, chamando-me:
- Sakura.
Meu coração acelerou uma batida e parei de costas para ela, e esperei.
O que aquela garota queria?
- Eu quero falar com você.
Franzi o cenho, e ainda de costas respondi, a voz baixa:
- Não tenho nada para falar com você.
- Mas eu tenho – ela insistiu, a voz soando firme. – Tem coisas que você precisa saber.
Fechei meus olhos bem apertado e suspirei profundamente, tomando coragem. Me virei e olhei para aquela garota, a boca levemente franzida. Não me esforçava em não demostrar o quanto ela me incomodava. Queria que ela percebesse o quanto era um incômodo para mim.
- O que você quer?
- Aqui no corredor não é um lugar adequado para o que tenho a dizer.
Ergui as sobrancelhas.
- Se você não percebeu temos aulas agora.
Karin revirou os olhos, e eu pude notar que seu rosto estava pálido e um pouco mais magro do que semanas atrás.
- Fala sério! Estamos nos últimos dias de aula, a matéria principal já foi passada. Não tem nada de interessante que você vai perder, só o mesmo blá, blá, blá de sempre.
- Se você não leva os estudos a sério, o problema é seu.
Não iria facilitar para aquela garota, só a presença dela me dava náuseas.
Karin ergueu as sobrancelhas e deu um passo para trás.
- Não precisa vir com quatro pedras não mão. Estou em paz, ok? Eu não estaria enchendo o seu saco se não fosse importante o que tenho a dizer. Vamos.
E segui andando por aonde vim, e logo virou seu rosto para trás e parou de andar quando percebeu que não saí do lugar.
Ela bufou, revirando os olhos.
- Estou falando sério! É importante.
Suspirei profundamente e movi meu corpo em sua direção, imaginando o que diabos aquela garota queria comigo.
Segui Karin até as escadas por aonde descemos e chegamos ao pátio, atravessando todo ele em direção ao campo gramado por detrás da escola, bem escondido e reservado aos olhos de qualquer pessoa da direção ou inspetor. E foi inevitável não sentir receios por me encontrar sozinha com ela, sabendo do meu último histórico quando segui uma pessoa e no final havia sido desagradável. Karin não ousaria debochar de mim que nem aquelas pessoas fizeram a meses atrás, ousaria?
Reprimi aquele sentimento ruim, tentando controlar o tremor que começava por minhas mãos, a respiração acelerada.
Karin parou de repente, me fazendo parar também e depois se virou para mim. Cruzei os braços, para disfarçar os tremores de minhas mãos e fingi que era forte o suficiente para enfrentá-la.
- P-Pronto, estou aqui. – Pausei, controlando a minha voz que havia vacilado. - Já pode dizer o que tem de tão importante para falar para mim.
- Bom, você deve saber que eu e Sasuke somos melhores amigos, não é? – Não neguei, mas também não confirmei. Apenas fiquei observando e esperando o que diabos aquela garota queria com aquela conversa fiada. – Nós nos conhecemos a muito tempo. Ele foi meu vizinho, você sabia?
Ela sorriu, e eu franzi o cenho.
- Lembro da primeira vez que eu o vi, era um garoto magrelo de óculos e aparelho nos dentes. – E fitou o céu acima da minha cabeça. - Não era nenhum pouco popular no colégio, ficava sempre sozinho por que ninguém queria ficar perto dele. – E seus olhos focaram em mim. - Você sabe, foi educado em casa e aquela era a primeira vez que frequentava a escola. Ele não tinha noção da hierarquia do campo estudantil. Você me entende, não é? Tudo é rotulado – e gesticulou com as mãos. - Populares, CDFs, Idiotas, Nerds... essas coisas...
- Não estou entendendo aonde você quer chegar.
Qual era daquela garota?
- Eu vou chegar lá – sorriu de um jeito amigável, mas eu sabia que de amigável não tinha nada. - Então, assim como o Sasuke eu também não tinha amigos, e estava passando por um problema de saúde... – ela pareceu hesitar por um segundo, engoliu a seco antes de continuar: – A leucemia havia me feito perder todos os meus cabelos, e mesmo com os protestos de minha mãe eu insistia em ir ao colégio só para não ter que ficar dentro da minha casa lamentando o quanto o tratamento me deixava debilitada. Foi um momento difícil, sabe?
Aquilo havia me pego de surpresa, era nítido a minha cara espantada quando ela relatava que havia tido leucemia. Era uma doença miserável que acabava com a vida da pessoa lentamente. Karin continuou, ignorando o quanto havia me deixado chocada:
- Mas foi aí que Sasuke entrou na minha vida e logo ficamos amigos. Ele me ajudou muito no meu pior momento e estava comigo quando eu finalmente me curei, e em troca eu o ajudava a se adaptar no colégio. Bom, resumindo, ele se tornou o meu melhor amigo. Era só eu e ele. Depois veio o Juugo e no ano seguinte o Suigetsu. Éramos um grupo da pesada – e riu sem humor, os olhos nublados, perdidos em lembranças. – Sabemos tudo um do outro e eu vi o quanto ele sofria com a ausência do tio Fugaku e da tia Mikoto. Eles são pessoas legais, mas dão muita importância a carreira e por muitas vezes Sasuke ficava sozinho. Esse tipo de ausência abre um buraco no coração das pessoas, sabia? Eu falo isso por experiência, por que meu pai mal me procura e isso dói, por que eu sei que sou apenas alguém que ele tem despesas todo mês em pensão.
Aquilo tudo estava sendo um tapa muito bem dado em minha cara. Eu me sentia mal por imaginar toda vez que eu pedi que ela desaparecesse da vida de Sasuke. O que direito eu tinha para pedir aquilo? Ela era a melhor amiga dele. Ela o conhecia a mais tempo do que eu. Eles tiveram uma história juntos e compartilharam momentos delicados na vida um do outro. E eu? Eu apenas queria destruir uma amizade que durava anos. Eu era a egoísta naquela história.
- Eu... eu sinto muito – murmurei, me sentindo uma miserável.
Karin franziu o cenho e crispou a boca.
- Não quero que você sinta pena de mim só por que estou dizendo essas coisas – seu tom havia soado rude. - Odeio quando as pessoas sintam pena de mim, por que isso não resolve nada. A pena não vai fazer que meu pai seja presente ou que vá curar o meu câncer.
Curar o câncer?
Ela não havia dito que estava curada?
- Mas continuando, eu vi toda a angustia do Sasuke e seus sonhos surgirem conforme nós crescemos. E conforme me viu passando quase toda a minha adolescência doente, ele tomou a decisão em se tornar médico e se formar numa das melhores universidades, a Oxford. Eu vi o quanto ele se dedicou aos estudos. Ele pesquisou tudo sobre a universidade e a forma de vida na Inglaterra para quando chegasse o dia está preparado. E agora ele está jogando todo esse sonho no lixo por sua causa.
- O quê? – Dei um passo para trás, incrédula com a sua acusação contra mim. - O Sasuke... ele...
- Ele foi aceito na universidade de Oxford com as melhores pontuações. – Karin me interrompeu, jogando a bomba bem no meio da minha cara, me deixando desestabilizada. - E pela sua cara agora a minhas suspeitas estavam certas. Você não está sabendo de nada.
Parecia que todo o mundo havia se fechado contra mim, me esmagando com uma verdade que eu não queria aceitar. Sasuke havia sido aceito na universidade de Oxford? Por que ele não havia me dito nada? E a lembrança no intervalo me veio à mente. Ele estava distante, como se cogitasse a decisão que havia tomado para comigo.
Não.
- Ele não me disse – murmurei, fitando um ponto qualquer no chão, o coração acelerado em várias batidas.
Escutei Karin suspirando, antes de sua voz se fazer presente:
- Já tem umas semanas que a carta chegou, e ele insiste em ir para a universidade de Tóquio só por que a namorada também vai. – Voltei minha atenção para ela, sentindo-me horrível. - Os pais dele estão na cidade, e quando soube que ele estava desistindo de ir para uma universidade de prestigio para se graduar numa local, eles ficaram arrasados. Itachi me ligou ontem, disse que o clima estava péssimo e que Sasuke ameaçou de sair de casa.
Meus olhos arregalaram com aquela informação.
- O quê? Sair de casa?
Karin assentiu com a cabeça.
- Fui correndo para lá e evitar que ele fizesse uma besteira – e sorriu amarga -, foi difícil convencê-lo a ficar. Ele disse que estava certo em sua decisão de ficar em Tóquio e se formar junto com você.
Levei a mão no peito e agarrei a minha blusa, sentindo meus olhos embaçarem. Eu era o pivô da briga, a mamãe estava certa desde o começo. Tudo agora estava fazendo sentido. Os pais de Sasuke deveria ter achado um absurdo de emprestar dinheiro para uma desconhecida que em troca estava empatando seu filho de seguir sua vida acadêmica em um local prestigiado. Era de se esperar que aquele plano de Sasuke não fosse dar certo. Aquilo era uma loucura. Agora entendia os probleminhas dele. Sasuke havia brigado com seus pais e não queria que eu soubesse. Mas a verdade uma hora sempre bate na porta, não é?
- Sakura – Karin me chamou, fazendo-me fitá-la, as lágrimas embaçavam a minha visão. - Eu sei que não somos amigas... para falar a verdade, eu não vou com a sua cara. Não gosto do jeito que você se vitimiza, deixando todos preocupados. Deixando o Sasuke preocupado. Eu sei que você tem depressão e isso é uma merda. Mas o que é uma depressão para a droga de um câncer que você pensou estar curada a alguns anos voltar de surpresa?
Prendi a respiração, observando com mais atenção o seu perfil. Sua expressão era cansada e havia olheiras em volta de seus olhos, sua pele era pálida e realmente ela estava mais magra. Uma lembrança de Sasuke dizendo que ela estava com problemas veio a minha mente e me senti péssima por saber que a última coisa que senti era pena. Ela estava doente esse tempo todo, e eu apenas alimentando magoas enquanto meu ciúme tomava conta de mim. Karin precisava de apoio, de conforto, e eu queria que todos se afastassem dela.
Como eu era uma péssima pessoa.
A pior.
- Você...
- Como disse eu não quero a sua pena – ela me interrompeu novamente. - Isso não vai trazer a minha cura. E muito menos eu tenho pena de você, por que isso não vai fazer você ficar curada da sua depressão. A pena só faz a gente se sentir bem pior, por que quem sabe o que a gente passa com nossas doenças é só a gente mesma. – E bateu no próprio peito. - E é nós mesmas que temos que procurar a nossa cura. E a sua cura, Sakura, está num psiquiatra e não no Sasuke. Prendê-lo a você não vai fazer você ficar melhor, só vai sufocá-lo e te sufocar. Por que vai chegar um dia que nem você mesma vai se suportar.
As suas palavras eram duras, e doía ouvi-las. E mesmo que tivesse sentido pena por seus problemas a alguns segundos atrás, agora eu sentia ódio por ela está dizendo aquilo tudo para mim. Eu odiava Karin por que ela havia sido a primeira pessoa a dizer o que eu não queria ouvir. Eu a odiava por que ela me fez sair do meu céu direto ao inferno em questão de minutos. Eu me sentia o pior ser humano de toda face da terra. As suas palavras me atingiam como facadas dilacerando-me inteira, destruindo-me.
Eu poderia ter dado meia volta e ignorá-la. Karin não significava nada para mim, mas eu continuei ali, parada, observando-a despejar toda aquela verdade na minha cara, por que no fundo eu sabia que ela estava certa.
A primeira lágrima rolou por meu rosto, em seguida da segunda e a terceira.
Karin continuou:
- Como melhor amiga do Sasuke, eu peço a você que deixa-o ir seguir seu sonho. Não o prenda a você só para se sentir segura, deixa ele ir. Você é a única que ele vai escutar. Só você, tem o poder de libertá-lo. Então eu peço, se você realmente o ama de verdade mesmo, liberte-o para que ele siga o seu caminho.
As lágrimas caíam por meus olhos, agora sem controle, a boca tremia e tudo pareceu desmoronar. Estava desmoronando bem na frente daquela garota, e não queria que ela enxergasse que realmente havia me destruído.
Apenas restou dar as costas e sair correndo, e corri para bem longe, cega para aonde eu iria. A confusão e a angustia crescendo dentro de mim como uma erva daninha.
