Alfred Debling era homem prático, com um título e muitas posses. Era um amante da natureza, gostava de se considerar justo e procurava ponderar sobre suas ações antes de simplesmente realizá-las. E, hoje ao final da noite, seria um homem comprometido.

Antes de sair para o baile ele se certificou que a caixa com o anel de noivado estivesse bem guardada em seu casaco, havia também um papel no qual ele havia feito algumas anotações para a noite, como: certifique-se de chegar mais cedo para vê-la chegar com a família, cumprimente sua mãe, seja simpático com as irmãs e seus maridos, lembre-se de pedir-lhe uma dança antes, elogie sua aparência e faça o pedido.

Ele tinha o costume de planejar suas viagens com muito cuidado, não era esperado diferente de uma atitude tão importante quanto o pedido de noivado e por um instante ele acreditou que tudo ocorreria em perfeita harmonia. Quando ela chegou parecia uma pintura com os cabelos ruivos cuidadosamente arrumados, o vestido claro realçando sua pele de porcelana e ele se sentiu nervoso como um garoto ao pensar no pedido.

O loiro fez exatamente como havia anotado e tudo estava ocorrendo conforme o esperado, isso até o interromper sua dança com a senhorita Featherington. Ele pensou em negar a interrupção, mas o homem parecia transtornado ao chegar até eles e ao se retirar da pista a senhorita Cowper apareceu com um sorriso presunçoso e comentário mordaz sobre ruína social e ele decidiu apenas concordar em terminar essa dança com ela.

Debling mal ouvia o que a loira a sua frente estava falando, seus olhos seguindo a figura de sua futura noiva enquanto ela e o senhor Bridgerton pareciam discutir, o que será que havia acontecido para deixá-los com os ânimos tão alterados? Ele não devia ter permitido a interrupção, a música parecia não acabar e ele só queria ir até lá e tirá-la dos braços do outro homem, fazer o pedido de uma vez por todas e garantir que Penelope Featherington fosse a próxima Lady Debling. Isso era ciúme? Ele estava realmente desenvolvendo sentimentos pela mulher?

Então algo que a senhorita Cowper disse capturou sua atenção e como num passe de mágica as peças se encaixaram em sua cabeça: Penelope Featherington e Colin Bridgerton estavam apaixonados um pelo outro.

A música acabou e ele só queria sair o mais rápido possível daquele lugar, voltar para sua propriedade e esquecer da noite de hoje. Um arranjo prático e feliz, que estupidez! Para completar o quadro só faltava ele ter sonhado com amor, que bobagem! Ele podia ouvir a voz de sua mãe em sua cabeça o repreendendo como sempre fez em sua infância. Estava no topo das escadas quando a figura da senhorita Featherington apareceu ofegante atrás dele.

-Lord Debling, espere! Sinto muito pela interrupção, o baile está acabando mas espero que possamos voltar à nossa conversa… - ela estava corada e parecia tentar recuperar o fôlego.

-Senhorita, por quê se senta de frente para aquela janela todos os dias? Passou a semana inteira procurando por alguém, acreditei que a senhorita e o senhor Bridgerton haviam se desentendido, mas agora vejo que o motivo era completamente outro.

-Eu não entendo do que o senhor está falando. - sua testa estava franzida enquanto falava.

-Estou falando do senhor Bridgerton e dos sentimentos entre vocês dois. - a reação da ruiva foi soltar uma risada, como se o que ele havia falado fosse a coisa mais absurda que ela já tivesse escutado.

-Eu garanto ao senhor que Colin Bridgerton nunca teria sentimentos por mim, somos apenas amigos! - ele gostaria de parar por aí, fingir que não havia nada de errado e fazer o pedido, sua mão chegou até onde estava o anel em seu casaco, mas ele precisava se certificar que não estava cometendo um erro. Ela havia perguntado sobre a chance de um relacionamento com amor essa noite e ele não lhe deu garantias sobre isso, talvez com o outro homem ela pudesse ter um casamento com sentimentos verdadeiros e mesmo que lhe doesse, fez a pergunta:

-Mas gostaria que fossem mais?

-Isso… isso nem é uma possibilidade!

-Eu não perguntei se é uma possibilidade, perguntei se gostaria que fossem mais?

O olhar da mulher a sua frente não encontrou seus olhos, ela parecia em consternação dentro de si e uma parte egoísta de Debling torceu para que ela lhe dissesse que não, mesmo depois de ter presenciado de perto uma amostra desses sentimentos pelo outro homem. Ele decidiu que não poderia vê-la confirmar seu carinho por Bridgerton.

-Senhorita Featherington, como vou passar muito tempo longe, é essencial que eu me case com alguém cuja as afeições não estejam dedicadas a outra pessoa. O que quer que a senhorita esteja procurando, eu espero que encontre. - ela o fitava com atenção, ainda atônita e uma parte dele quis beijá-la naquele momento, ter algo para lembrar-se dela mesmo após desistir de desposá-la. - Boa noite!

Ele se virou antes que ela pudesse dizer algo e caminhou em direção aos cocheiros. Que droga de noite!

A viagem até sua propriedade parecia durar além do comum e ele fechava os olhos ao se lembrar da última dança que trocaram, da sensação do tecido de seu vestido sob seus dedos. E se ele tivesse dito não ao Bridgerton? Se ele tivesse feito o pedido antes, talvez ela teria aceitado? E para quê, aprisioná-la em uma casa grande e vazia enquanto ele ia atrás de uma viagem que duraria três anos? Não, ele fez o correto, se ela estava apaixonada por outro e tivesse uma chance de felicidade com ele, não lhe cabia ser egoísta e privá-la de toda a alegria que pudesse lhe aguardar.

Ao chegar na propriedade havia um silêncio ensurdecedor, os empregados já estavam dormindo e Edward, o mordomo, veio até ele:

-Precisa de ajuda, senhor?

-Não, pode ir descansar, quero ficar sozinho. Obrigado. - o homem assentiu e retirou-se.

Alfred sentou-se no último degrau da escada e tirou o anel do casaco. Era um anel muito bonito que pertenceu a sua avó, tinha uma pedra de esmeralda no meio, da mesma cor do vestido da senhorita Featherington no baile no qual a conheceu e parecia ser a escolha perfeita quando viu as joias de sua família.

Ele pensou agora sobre voltar para o meio das mães e debutantes ansiosas, compartilhando conversas frias e educadas sem um pingo de emoção ou os comentários francos seguidos pela risada de uma certa ruiva.

Talvez ele devesse propor à Cressida Cowper, um arrepio percorreu sua espinha. Ele não costumava criar preconceitos contra as pessoas que ainda não conhecia, mas havia algo na forma como a senhorita Cowper fazia os comentários maldosos sobre as pessoas ao seu redor, a lembrança dela rasgando o vestido de outra debutante apenas por diversão e, é claro, como ela já havia o lembrado: ela preferia ser caçadora, o que faria dele sua eterna presa.

Ele girou o anel e deu um sorriso triste, teria que guardá-lo agora, não poderia oferecê-lo para mais ninguém depois de tê-lo escolhido especificamente para a senhorita Featherington. Houveram noites em que ele se pegava repetindo o nome dela no silêncio de seu escritório: Penelope. Penelope. Penelope Featherington. Penelope Debling. Penelope Bridgerton.

Decidiu que era melhor encerrar essa noite de uma vez por todas, talvez tomar um gole de uísque e dormir. Talvez tomar a garrafa inteira. Guardou o anel na caixa novamente e enxugou os olhos que continham um resquício de sentimento ao lembrar-se do desastre da noite.

Enquanto levantava-se ouviu um barulho do lado de fora e parecia que algumas vozes também, a porta da frente foi aberta e Edward parecia exaltado:

-Não pode entrar a essa hora, a senhorita não deveria estar aqui.

-Só vai durar alguns minutos, eu juro… - e então parada à sua frente com os cabelos desarrumados e os sapatos nas mãos estava Penelope Featherington.