Capítulo II

- Senhorita Featherington, como vou passar muito tempo longe, é essencial que eu me case com alguém cuja as afeições não estejam dedicadas a outra pessoa. O que quer que a senhorita esteja procurando, eu espero que encontre. Boa noite!

Lord Debling se virou e saiu do baile deixando Penelope ali parada. Por que ela não falou que não sentia mais nada por Colin? Por que não lhe disse o mesmo que havia falado ao outro homem, que o único erro era ter pedido a ele ajuda para encontrar um marido?

- Por que ele está indo embora? O que você fez? - sua mãe veio em sua direção com o familiar olhar de desapontamento em seu rosto, era tão difícil agradá-la e ela havia chegado tão perto.

- É isso que tem a dizer? Não se estou bem? Só tenho valor para você se estiver com um anel de noivado no dedo?

Era demais, tudo isso era demais. Não era pra ter sido assim essa noite, ela havia se visto em frente ao espelho quando estava pronta, depois de ter trocado o vestido duas vezes até achar que estava bonita o suficiente para receber o pedido de noivado. Lord Debling estava bonito e elegante, sorrindo para ela com aquele brilho em seus olhos azuis e quando escreveu o nome em seu cartão de baile a mão esquerda segurou a sua para melhor apoio, um ato totalmente desnecessário mas tão próximo que deixou uma inquietação em seu estômago.

Ela e Lord Debling dançaram e o sentimento dentro de si pulsava toda vez que ele ajustava a mão em suas costas, o calor do corpo dele ultrapassando o tecido do vestido como se estivesse a queimando. Ela se lembrou do beijo com Colin, do formigamento em seus lábios e imaginou como seria beijar Lord Debling, se apenas o toque durante a dança a estava fazendo hiperventilar como seria a sensação ao ter seus lábios juntos aos dele?

Ela então o perguntou se haveria alguma chance do amor florescer entre eles e ele lhe respondeu que não sabia ao certo, que suas pesquisas já ocupavam grande parte de seu coração. Grande parte, não o coração inteiro, ela pensou. Mas, de qualquer forma, ela já havia gostado por doze anos de Colin sem retorno algum, que mal haveria em estar apaixonada por seu marido? Trocar um amor incorrespondido por outro, era essa a resposta?

Não, Lord Debling era gentil, bondoso, engraçado e em mais de uma ocasião já havia mostrado até mesmo admiração por ela, havia sim um retorno da parte dele e se o problema era que ele não saberia como amá-la então ela poderia ensiná-lo, ela poderia amá-lo primeiro e esperaria até que ele a amasse de volta. E caso isso não acontecesse eles ainda seriam amigos, companheiros. Ela teria seus filhos, cuidaria de sua propriedade e esperaria ele retornar após suas viagens enquanto cuidava de seus próprios interesses. Eles ainda teriam um casamento prático e feliz, como ele havia dito na biblioteca dos Stowells.

- A senhorita está especialmente bonita esta noite, senhorita Featherington. - ela pode sentir que ele ia propor e estava decidida a aceitar a proposta. Então Colin Bridgerton apareceu e tudo foi por água abaixo.

Era isso que acontecia em sua vida: ela tinha algo bom, algo seguro e que lhe trazia alegria, algo só dela, até não ter mais. Colin havia dito que era melhor assim quando ela pontuou que a interrupção poderia estragar as coisas entre ela e Debling, como poderia ser melhor? Ele havia lhe oferecido tudo o que poderia almejar, ele havia sido o único em três anos a assinar seu cartão de baile, lhe entregar limonada após uma dança e conversar com ela realmente ouvindo o que ela tinha a dizer. Ele foi o único que a viu, realmente a enxergou e ela havia deixado ele ir.

Depois que subiu na carruagem as lágrimas escaparam, ela era uma idiota. Penelope Featherington esteve a um passo de se tornar Lady Debling e estragou tudo, era isso que as pessoas estavam comentando, ela sabia, e ao chegar em casa era isso que deveria escrever no folheto de Lady Whistledown, não porque queria que fosse assim, mas porque era a verdade.

A carruagem parou e houve uma batida na porta e por um instante ela pensou que pudesse ser o Lord Debling, que ele abriria a porta e diria que não importava o que havia falado para ela, que a amava e estava disposto a lutar por seu amor. Sua mãe estava certa, ela havia lido livros de romance demais e estava começando a confundir as coisas.

Então a porta se abriu e Colin Bridgerton estava parado ali, ofegante após perseguir sua carruagem a pé. A Penelope de doze anos atrás poderia desmaiar com essa visão, talvez a Penelope do início da temporada também. Mas essa só conseguiu sentir uma pitada de decepção, os olhos que a fitavam eram azuis mas não eram do tom que ela esperava.

- Colin, o que está fazendo?

- Por favor, me deixe entrar, preciso falar com você. - era essa a frase da noite e mesmo assim tanto havia sido dito mas nada resolvido. Ela estava farta, cansada disso de ser sempre a que escuta pacientemente, a que acolhe e valida os sentimentos dos outros assim como fazia com Eloise, mas e quanto a ela, quem iria escutá-la?

Lord Debling a escutava, uma voz em sua cabeça respondeu.

- Pen, você me ouviu? - Colin ainda estava na porta e ele devia ter lhe perguntado algo enquanto estava divagando.

- O quê?

- Eu perguntei se ele propôs, Lord Debling lhe pediu em casamento?

- Não... ele não pediu. - Era isso, ele não havia proposto, então por que estava doendo tanto dizer isso em voz alta?

- Ótimo! Posso entrar? Eu quero lhe dizer algo, sei que pode parecer repentino e…

Ótimo? ÓTIMO? Como isso poderia ser ótimo? Ele era um cavalheiro que havia a cortejado corretamente, pediu a sua mãe a chance de desposá-la e ele até tinha sido simpático com suas irmãs, suas irmãs difíceis de trocar uma só frase sem comentários maldosos ou ignorantes. E ela nem sequer o tinha agradecido por isso.

Era isso, ela devia agradecê-lo por isso e se desculpar por ter feito uma cena envolvendo seu nome, não importava que ele não fosse mais casar com ela, ele foi o único cavalheiro elegível além dos Bridgertons em três anos que a tratou com simpatia e cuidado.

- Não. Não pode entrar Colin.

- Mas… eu queria lhe dizer que deveríamos ficar juntos, que eu percebi…

- Não, não! Você vive fazendo isso comigo, falando em códigos, me enchendo de esperança e fazendo-me confundir amizade com algo mais. Não posso viver disso, Colin, doze anos não foram o suficiente para você?

- Mas o que eu quero dizer, Pen, é que agora…

- Agora? Eu vi você se interessar por Marina sem sequer conhecê-la e pedi-la em casamento, ouvi você rir e dizer a todos que nunca sonharia em me cortejar. Você viajou e fez Deus sabe o que em suas "noites boas" como disse aos outros cavalheiros, vi você sorrir e piscar para todas as garotas desde que voltou de viagem e sabe o que percebi? Que cada vez que você fazia isso, uma parte minha gostava menos de você, menos eu reconhecia o garoto pelo qual me apaixonei. - Colin parecia que tinha levado um soco no estômago, mas ela sentia que deveria terminar o que havia começado. Ela se aproximou dele e colocou a mão em seu rosto.

- Não me entenda mal, Colin, eu ainda gosto de você. Eu só não te amo mais. - uma lágrima desceu pelo rosto do homem à sua frente e ela a limpou.

- Pen…

- Colin! - Ao longe ela viu Benedict correndo até onde eles estavam e sorriu para Colin Bridgerton.

- Vá para casa, Colin.

- Mas eu te amo…

- Não, não me ama. Você só não estava acostumado a ter que dividir a atenção e por isso ficou confuso. Doze anos é muito tempo, Colin, mesmo para mim. - ela lhe ofereceu um sorriso triste.

- Irmão… - Benedict chegou até eles e parou com as mãos nos joelhos e ofegante - Anthony vai, possivelmente, te matar! Ah, senhorita Featherington, que prazer em vê-la.

Penelope riu, Benedict tinha um jeito encantador e ela sempre pôde ver porque ele era o favorito de Eloise.

- Boa noite, senhor Bridgerton. Talvez pudesse acompanhar seu irmão até em casa? Ele teve uma noite bem agitada e preciso ir.

- Mas, Pen… - Colin parecia um filhote olhando para ela.

- Ah, claro! Vamos, Colin. - o Bridgerton mais velho segurou o irmão pelos ombros e deu um aceno firme para ela, ele cuidaria disso daqui para frente. Ela sorriu em agradecimento.

- Tenham uma boa noite, senhores!

- Podemos ir, senhorita Featherington? - o cocheiro lhe perguntou.

- Sim, podemos continuar. - Ela fechou a porta da carruagem e suspirou, era isso, ela havia superado Colin Bridgerton.

"...é essencial que eu me case com alguém cuja as afeições não estejam dedicadas a outra pessoa."

Mas se suas afeições não estavam dedicadas à Colin Bridgerton…

- Cocheiro! Vamos fazer uma parada na propriedade de Lord Debling.

- Sim, senhorita.

Era isso, estava feito. Ela ia até Lord Debling e seria corajosa, não importava qual fosse o final depois disso, ela só tinha que tirar esse sentimento de seu peito. A viagem foi silenciosa e sua perna foi inquieta durante todo o percurso. Quando pararam ela não esperou o cocheiro abrir a porta, apenas pulou de dentro da carruagem, ah se sua mãe a visse agora.

O portão estava fechado e ela o empurrou, passando por ele e esquecendo-se de o fechar no processo. Sua mãe não estava brincando quando falou da propriedade de Lord Debling, era uma casa imensa e o caminho até a porta da frente era comprido. Seus pés começaram a doer dentro do sapato de baile, eles não foram feitos para andar desse jeito e, impaciente, ela retirou os dois e os segurou em suas mãos enquanto corria até a entrada da casa.

Chegando até as portas de carvalho um sentimento de incerteza ameaçou tomá-la, mas ela já havia chegado tão longe para desistir agora. Ela ia bater na porta quando a mesma se abriu e um senhor olhou espantado para ela.

- O que a senhorita faz aqui uma hora dessas?

- Eu, eu… sou Penelope Featherington. - céus, seu cabelo deveria estar todo desarrumado, ela estava segurando os próprios sapatos, o que ele deveria pensar? - Preciso falar com o Lord Debling.

- É tarde, Lord Debling já se retirou para seus aposentos. - o homem parecia ter um olhar de pena em seu rosto e abriu um pouco mais a porta para que o calor de dentro a aquecesse um pouco perto do frio da noite. Quando ele fez isso, Penelope viu uma oportunidade e passou por debaixo do braço do mordomo, entrando na casa.

- Não pode entrar a essa hora, a senhorita não deveria estar aqui. - o senhor veio atrás dela e ela aumentou o ritmo de seus passos enquanto se desculpava com ele:

- Só vai durar alguns minutos, eu juro… - ao olhar para frente ela viu Alfred Debling de pé ao final da escada vestido exatamente como estava no baile e ele a encarava com surpresa.

- Boa noite, Lord Debling!