Capítulo 23 - Importância
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Sakura
Eu me via sozinha sentada na sombra de uma árvore no meio daquela tarde enquanto conversava com a minha tia Tsunade. Havia sido difícil conseguir essa tal proeza quando se está numa casa cheia de adolescentes longe dos olhos de qualquer adulto. Confesso que estava gostando de me ver livre assim e ao mesmo tempo cansada mentalmente com a quantidade de informações que vinham por todos os lados. Ficar uns minutinhos sozinha com os próprios pensamentos era uma coisa rara. E era apor isso que estava aproveitando esse pequeno e raro momento para conversar com minha tia e tranquilizá-la de que estava tudo bem comigo, já que nem ontem e antes de ontem eu consegui conversar com ela.
- Desculpe não ter ligado antes, o sinal aqui não é muito bom. – E não era uma mentira. Observei Sai se aproximando com seu celular em mãos e sentou-se ao meu lado. – A viagem ocorreu tudo bem e tudo deu certo.
- Assim você me deixa aliviada – e escutei ela suspirar. – Imaginei um monte de coisas com a sua falta de notícias. Não faça mais isso, por favor.
- Me desculpe. Não vai mais acontecer.
- Está desculpada – e percebi que ela sorria do outro lado da linha. – Está gostando daí?
Sorri, observando um vídeo de comida que o Sai me mostrava. Assenti com a cabeça para ele, e silabei com os lábios: Eu quero.
- Estou amando, aqui é muito lindo e quente também.
- E aquele Uchiha? Está se comportando? Tenha cuidado com aquele moleque, ele não é flor que se cheire.
Soltei uma pequena risada nasal com a forma que ela falava de Sasuke. Minha tia deixava claro que não ia com a cara dele. Bom, as vezes eu a entendo por pensar assim, já que ela não o conhece direito. E eu sabia que ela só queria me proteger e sou grata por isso.
- Fique tranquila, o Sasuke está se comportando muito bem.
Sai levantou seu olhar e me fitou, balançou a cabeça para os lados.
Franzi o cenho e dei uma cotovelada em suas costelas.
- E aliás, eu sei me cuidar muito bem.
Sai me olhou indignado soltando um: Ai sua grossa, sem emitir som.
Apenas o ignorei, escutando minha tia que começou a falar:
- Fico pouco mais aliviada por isso... A campainha está tocando agora, vou ter que desligar. Se cuide e não faça besteiras que vá se arrepender amanhã.
- Ok. Até mais.
- Até.
- Aposto que sua tia deve ter passado uma lista de cem coisas para evirar Sasuke Uchiha. – Sai comentou assim que encerrei a ligação.
Ergui meus olhos para ele.
- Ela só se preocupa comigo, nada demais.
- Sei – resmungou voltando sua atenção ao celular. – Por falar no boy, está sabendo que o seu homem vitaminado vai estar aniversariando daqui a uns dias?
- Sasuke vai fazer aniversário? – Em seguida franzi o cenho. – E ele não é meu homem.
Sai desviou seus olhos do celular e me fitou maliciosamente.
- O pessoal está querendo fazer uma festinha para ele. Dezoito anos não se completa todo dia, ainda mais longe dos olhos dos pais.
- Acho que vai ser legal – resmunguei, abrindo o aplicativo do facebook.
- Não acredito! – Sai quase que gritou, sobressaltando ao meu lado, os olhos no celular. – Ai que bicha imunda! Traíra! Cobra!
- O que foi? – Perguntei, já estava assustada com a forma que ele estava, incrédulo, como se alguma catástrofe estivesse acontecendo.
- Olha isso aqui! – E virou o celular com a foto de Tenten e Neji deitados na grama perto de uma cachoeira. - Desgraçada. Ela está se esfregando no meu bofe enquanto estou aqui.
Desviei meus olhos para ele que olhava a tela do celular com a expressão furiosa.
- Sai, o Neji e a Tenten são um casal. Todo mundo sabe disso. Aceita que dói menos.
- Mas acontece que eu gosto do Neji... de verdade – murmurou a última palavra.
E foi inevitável não sentir um pouco de pela dele e seu amor platônico por Neji. Por mais que achássemos graça da forma como ele brigava com Tenten pelo coração do irmão de Hinata, ele parecia sofrer de verdade.
- Não fique assim não – e toquei seu ombro, fazendo-o me fitar. – Vai aparecer um cara legal que goste de você de verdade. Só terá que ter um pouco mais de paciência.
Ele balançou a cabeça para nos lados, negando.
- Não vai. Eu sou difícil e não vou ficar com qualquer ralé que tem por aí.
E aquela expressão triste havia dado lugar para uma sebosa, levando embora aquele momento melancólico e triste para longe.
Sofrer de verdade?
Retiro o que disse.
– O meu bofe tem que ser vitaminado e com pedigree, minha filha. Gosto daqueles com cara de mal que adora judiar. Ai! Olha! – E apontou para o seu braço vermelho de sol com os pelos dourados. – Fiquei toda arrepiada só de imaginar um bofe me jogando na parede e me chamando de lagartixa.
Soltei uma gargalhada. Não tinha como ficar séria quando se tinha Sai como amigo. Ele era gay demais.
- Fica rindo não, tá, racha, pois você com essa carinha aí de boazinha tem mó jeito de que adora um sadomasoquismo.
Engasguei na mesma hora com a saliva e comecei a tossir. Sado o quê? Olhei incrédula para aquela criatura ao meu lado.
- Você é doido?
- Doido não, querida, apenas digo a verdade. Sou completamente feito de verdade verdadeira. – E sorriu maliciosamente para mim. – Você tem cara que adora um dominador, tipo 50 Tons de Cinza. Ui, fiquei até com calor só de pensar nas cenas do Christian pegando a tralhada da Anastácia. Quem tinha que está naquela cena do quarto vermelho era euzinha.
Senti meu rosto se contorcer em uma careta.
- Eca.
- O mundo é injusto – se lamuriou, encostando no tronco da árvore. – Se eu fosse Deus, bania todas as mulheres dessa face da terra. Deixaria apenas os homens gostosos.
- Ei!
- Estou falando sério. Eu bania T.U.D.O!
Revirei os olhos, balançando minha cabeça para os lados.
- Agora você está viajando.
- Hm... – E seus olhos desviaram para o celular quando apitou. Seu rosto logo se contorceu numa expressão de nojo. – Ai que ridícula. Olha!?
Ele virou a tela para eu poder ver a foto de uma garota de cabelos castanho – bem bonita -, estava sentada no sofá enquanto levava um sushi a boca.
- Quem é?
- Matsuri, a ex do Gaara.
- Ah.
- Olha o que essa mandada colocou: Enquanto os pobres passam fome, eu como shushi. – Ele me fitou, incrédulo. – Shushi? Sério mesmo? A infeliz mora no Japão e não sabe escrever sushi direito? – E voltou a fitar o celular. – Ai, eu não aguento essas carniças. Volta para o pré desgraça! Eu sou obrigado a comentar, né? – E começou a digitar. – Humm... Que Delícia! Agora me deu uma fominha. Pronto.
Eu apenas olhava indignada com o Sai.
- Como você é falso.
- Querida, falsidade é tratado com falsidade. Pensa que eu não sei que ela é falsa comigo?
Eu acabei rindo, balançando minha cabeça para os lados, e logo senti ele me cutucar com o cotovelo e apontar com a cabeça para Sasuke vindo em nossa direção enquanto girava as chaves do carro no dedo.
- Vai sair, bofe?
Sasuke o ignorou e focou sua atenção em mim.
- Fui intimado a ir ao supermercado comprar algumas coisas, você quer vir junto para me ajudar?
Sai sorriu malicioso e piscou para mim, nenhum pouco discreto.
- Humm...
- Ok – respondi, ignorando Sai. – Aproveito e compro umas coisinhas que acabei esquecendo.
- Tipo o quê? – Ele quis saber.
Curioso.
Revirei os olhos e me equilibrei no ombro de Sai e logo já estava de pé.
- Gillettes, por exemplo? – Meu tom soou completamente irônico. Era chato o fato de eu ter que sempre ficar me explicando para ele. Tudo ele queria saber. Aff.
E como resposta um sorriso travesso se abriu em seu rosto, seus olhos brilhando em malícia.
- Até que fim você vai raspar essas pernas. Elas ficam ralando nas minhas a noite toda, é incomodante.
E os olhos de Sai arregalaram, fechei a cara para Sasuke. Qual era daquele garoto? E desde quando eu tinha pernas cabeludas?
- Minha nossa senhora das viadagens, vocês transaram? – A voz de Sai era incrédula enquanto seus olhos nos fitavam tão grandes quanto dois pratos de sobremesa.
Agora quem havia arregalado os olhos era eu, meu tom mais alto que o normal:
- O quê? Não! – E me virei para Sasuke dando um tapa em seu braço. – E você para de ficar falando merda.
- Gente, é com umas dessas que os rumores começam, tá? – Murmurou Sai, desviando os olhos entre mim e Sasuke.
Franzi minhas sobrancelhas e me expliquei:
- Não aconteceu nada. Esse idiota que fica falando essas besteiras por aí.
Crispei os lábios e olhei para Sasuke com certa raiva.
- Certo – disse Sai, agora com um sorrisinho irônico. – Meus ouvidos não escutaram nada. Nem estou aqui para falar a verdade.
Dei outro tapa em Sasuke enquanto nós nos afastávamos em direção a casa.
- Ai! – Ele disse massageando o local que bati. – Seu tapa dói, sabia?
- É para doer mesmo – e saí na sua frente, o deixando para trás.
- Ei, não fique brava – senti seus passos aumentarem. – Aquilo só foi uma brincadeira.
- Tá todo mundo achando que estamos transando. E você só está piorando tudo falando essas coisas. E se nós estivéssemos na escola? O que todos iram pensar?
- E o que importa o que os outros pensam?
Parei de andar e virei meu corpo para ele, o cenho franzido.
- Mas eu me importo, Sasuke. Eu me importo!
Dei as costas para ele voltei a andar, agora com passos duros, subindo os degraus da varanda.
- Você não vai mais comigo? – Ele perguntou vindo atrás de mim.
- Apenas vou pegar a minha carteira – respondi sem o fitar, atravessando a varanda e entregando dentro da casa.
Passei pela cozinha com passos rápidos chegando na sala e encontrando todos no sofá jogando conversa fora enquanto a TV estava ligada. Passei direto e subi as escadas rapidamente e logo já estava dentro do quarto. Peguei uma bolsa colocando a carteira dentro e troquei aquela regada por uma blusa mais comportada. Amarrei meus cabelos num rabo de cavalo e saí do quarto, e desta vez não consegui passar abatida por todos.
- Vai aonde, Sakura? – Ino quis saber, se ajeitando no sofá para poder me ver melhor.
- Vou ao mercado com o Sasuke – respondi abrindo a porta da frente e saindo em seguida, não deixando brechas para mais perguntas.
Sasuke estava me esperando de braços cruzados em frente ao carro do Naruto. Eu fazia o possível para não notar o quanto era bonito, o quanto ele me deixava diferente. Mas ultimamente estava difícil ignorar tudo isso. Eu me sentia andando sob brasas.
Suspirei profundamente enquanto me aproximava, evitando olhar seu perfil e mantendo a cara fechada.
- Ainda está zangada comigo?
- Tô.
Ele abriu a porta do carro para mim, e aquilo me irritou mais. Eu não iria facilitar só por que ele estava sendo gentil. Sentei no banco do carona e ele fechou a porta para logo mais ocupar o banco ao meu lado e ligar o carro.
- Não precisa ficar puta comigo – e deu uma risadinha. - Não estamos na escola e o pessoal sabe que não temos nada.
Virei meu rosto para ele, furiosa.
- Você acha graça disso? Você quer que a escola toda pense que eu sou uma de suas quenga?
Sasuke ficou sério e franziu a testa.
- Você não é uma das minhas quenga.
- Você faz com que todos pensem que sim.
- Ninguém acha isso. – E virou o rosto para me fitar rapidamente antes de voltar a atenção para frente. – E se acharem, é melhor torcerem para eu não saber.
Silêncio.
Virei meu rosto para janela e fitei a paisagem, sentindo as engrenagens do meu cérebro trabalharem a todo o vapor. E não demorou para que tudo fizesse sentido diante do dilema que estava passando.
Meus olhos arregalaram.
- Ah, meu Deus! – Murmurei agora me dando conta. – As pessoas devem achar que estamos juntos e você continua pegando geral. Eu devo parecer patética! Todo mundo deve achar que eu sou a chifruda. – E fitei Sasuke, que me fitou ao mesmo tempo, incrédulo. – Acho que devemos nos afastar por um tempo.
- O quê?
