Disclaymer: Essa fic se passa no cenário de Pathfinder. Todos seus personagens e locais citados são de propriedade da Paizo Publishing e seus criadores. Escrita sem fins lucrativos.

Cenário: Pathfinder 2a Edição

Série: Kingmaker

Personagens: Feylinn Shant'Allas, Cagliostro Flamel, Garona Thund'Arr, Caelan Shant'Allas, Lyria Shant'Allas e O Inscrito.

Sinópse: A história de origem da elfa Bruxa e Alquimista Feylinn Shant'Allas, a Filósofa. Uma garota pobre que servia como a escrava do Mago Cagliostro Flamel e para se libertar, fez um pacto com uma entidade mística, conhecida apenas como "O Inscrito".

A FILÓSOFA

Numa torre de Edasseril o estudioso do arcano Cagliostro Flamel se debruçou sobre o cristal em cima do pequeno pilar de pedra. Em seu estúdio, papiros, tomos e pergaminhos se espalharam pelas mesas e pelo chão quando o velho mago enraivecido gritou: "Por que não me revela seus segredos?"

O cristal coberto de runas permanecia inerte. O que o mago esperava? Que a pedra o respondesse? Indagou o jovem elfo vestido em trapos sujos que movia sua vassoura de um lado para o outro empurrando poeira em direção a uma pá.

"Seu conhecimento será meu! Seu poder será meu! Preciso dele para desvendar os segredos da magia rúnica. Só assim mostrarei que sou o maior arcanista deste mundo!"

O mago ergueu suas mãos, fazendo energias arcanas fluírem até a pedra e o elfo viu o poder do mago sendo barrado por uma força invisível. O mago urrou de frustração novamente e caminha até uma das prateleiras pegando um tomo e folheando.

"Deve haver algum ritual, algum feitiço que me permita extrair seu conhecimento daí…"

Após se frustrar mais, ele arremessou o livro na parede e saiu do estúdio enfurecido, empurrando o elfo no chão.

"Saia do meu caminho, nº 13!"

O velho mago se retirou para seu quarto frustrado e batendo a porta. Provavelmente ia adormecer depois de mais um dia frustrado falando com uma pedra estúpida, pensou nº 13. O jovem elfo se levantou, pegou sua vassoura e voltou a varrer o chão, quando percebeu uma luz emanando da pedra com a qual seu mestre passava tanto tempo conversando.

Em uma das faces do dodecágono, um fio de luz se transforma num olho e o jovem assustado cai no chão com um grito exasperado. Ele ouviu o barulho e os resmungos de seu mestre vindos do quarto e os passos cada vez mais próximos. Seu olhar alternou entre a pedra e a porta. A pedra não mais emanava qualquer brilho ou exibia qualquer olho estranho. Teria sido uma alucinação?

"Maldito nº 13! Não vê que preciso dormir? Ousa pertubar meu sono? Seu servo inútil!"

Chutou o jovem repetidas vezes, fazendo-o se cobrir com os braços.

"Perdão, mestre. Não sei o que deu em mim."

"Limpe calado e vá roer seu pão velho antes de dormir. E não me atrapalhe!"

"Sim, mestre. Perdão, mestre."

Cansado de castigar o garoto, Cagliostro se virou e voltou para seu quarto no andar de cima da torre. Ao notar o mestre se ausentar, nº 13 voltou seu olhar novamente para o objeto e viu o objeto olhando de volta para ele.

Runas de fogo fátuo pairavam no ar a frente do objeto dizendo: "Não tenha medo, garota."

Nº 13 se encolheu.

"Como sabe meu segredo?" Sussurrou nº 13 antes de se dar conta de algo estranho: "Espere, como eu posso entender o que diz? Meu mestre nunca me ensinou a ler!"

"Eu estou falando através de sua mente. Por isso você pode entender as palavras que vê."

"Eu sou nº 13. Qual é o seu nome?"

"Eu já tive muitos nomes… Pedra Filosofal… Hajar Al-Falãsifa… Quinto Elemento… O Elixir… Deus… Todos corretos e todos errados…"

As letras dançavam no ar, se iluminando como fogo e se apagando logo em seguida e a jovem observava fascinada como conseguia ler tudo, mesmo sendo analfabeta.

"Então, meu mestre não é louco. Você é realmente mágica."

"Ele é louco. Acometido pela obsessão por poder. Mas indigno dele." Disse a pedra. "Mas você… Você pode ser exatamente o que eu preciso…"

"Eu? Mas sou apenas uma serva, uma escrava… Como posso ser útil a alguém como você? Eu sequer sei ler ou escrever… Não sou uma maga…"

"Eu posso instruir você… Eu posso te dar poder…"

"Que tipo de poder?"

"O maior de todos: Conhecimento. Conhecimento Arcano." As palavras da pedra pausam e voltam a emanar no ar. "Posso te dar a liberdade."

"Eu não precisaria mais varrer o chão? Ou limpar a torre? Ou ser chutada…?"

"Você estaria livre para ser o que quiser." Quando as palavras apareceram no ar, os olhos de nº 13 brilharam.

"O que devo fazer, mestre…?"

"Me libertar da minha prisão." respondeu a pedra. "Me liberte da minha prisão e eu a libertarei da sua."

A elfa ponderou por alguns segundos antes de responder: "Eu aceito."

"Ótimo." Veio a resposta imediata.

"Mas, mestre… por que eu? Por que não o senhor Cagliostro? Ele é um mago."

"Já disse que ele é indigno. Sua mente está adoecida. E ele não passa de um tolo vanglorioso e sem talento inepto para sequer perceber que você é uma garota e não um garoto."

"Eu… Eu não tenho qualquer talento. Deve haver alguém melhor do que eu para te ajudar."

"Você não quer tomar meu poder. Por isso, eu decidi confiar em você para me libertar antes que aquele bufão me destrua."

"Ele poderia fazer isso? Ele teria poder para destruí-lo?"

"Se ele tentar arrancar o poder de mim, sim. Eu seria destruído… Quanto a ele, não sei qual seria seu destino. Mas eu não vou permitir que ele me possua!"

Nº 13 deu um passo vacilante para trás, notando uma pequena hostilidade na intensidade com que as palavras de seu novo mestre se inflamaram no ar. Mas logo se recompôs.

"Não tema. Eu disse que não tem nada a temer de mim."

"O que devo fazer, mestre?"

"Seu primeiro passo, será aprender a ler e a escrever. Qual é o seu nome, filha dos elfos?"

A garota hesitou por um momento antes de responder: "O único nome que tive, desde que me lembro é nº 13."

"Este nome não serve. Você precisará de outro nome. Mas isso pode esperar. Primeiro, você precisa aprender. Vamos começar com suas aulas."

Os dias seguintes se passaram com nº 13 trabalhando para o mago normalmente durante o dia e estudando sob a tutela de seu misterioso mestre à noite. Ela rapidamente aprendeu a ler e a escrever começou a devorar os tomos do mago. Desde livros de histórias até livros sobre magia. No entanto, ela seguia incapaz de lançar um simples feitiço e sempre ouvia de seu mestre que seu momento chegaria.

Após os treinos, nº 13 levava comida para a misteriosa ocupante da cela nº 9 da masmorra. Nº 9 nunca saiu de sua cela. Tudo que nº 13 sabia dela era que ela era perigosa, segundo as palavras de Cagliostro e que ninguém deveria se aproximar dela. Nº 13 já estava cansada de ver aquela garota ser mantida presa sem comida e pretendia fazer algo a respeito. Foi até a cozinha de madrugada, preparou uma refeição frugal que o mestre e os outros servos não perceberiam a falta e se dirigiu até as masmorras.

Quando nº 13 colocava a bandeja na frente da porta e batia, uma mão verde saía pelo buraco e puxava a bandeja para dentro. Nº 13 nunca tentou conversar com a ocupante da cela. Até aquela noite.

"Err… Olá. Você está aí?"

Pergunta tola. Mas ela ouviu o barulho da colher sobre a bandeja silenciar antes de responder.

"O que você quer?" Respondeu a voz de dentro da cela.

"Qual é o seu nome?"

A pergunta saiu tão baixa e levou tantos segundos para ser respondida que nº 13 se perguntou se havia sido ouvida.

"Garona." a voz ríspida respondeu. "Garona Thundarr. E o seu?"

"Nº 13."

Ouviu uma risada alta de dentro da cela.

"Isso não é um nome, garota tola."

"É como meu mestre me chama."

"Isso não é um nome. É uma marca. Você deveria ter seu próprio nome e parar de chamar aquele velho broxa de mestre…"

A bandeja vazia de comida e a taça de água escorregam pela pequena abertura da cela.

"Espero que a refeição tenha sido boa."

"Qualquer coisa é melhor do que o pão velho que o velho broxa me serve." Garona respondeu de forma ríspida. "Mas estava deliciosa. Obrigada."

Aquele comentário fez nº 13 sorrir. Ela recolheu a bandeja e partiu fazendo a si mesma uma promessa. Se fosse livre, libertaria Garona. Não permitiria ninguém ser uma prisioneira naquele lugar mais.

Cagliostro passava mais tempo revirando tomos e encantamentos, tentando decifrar a Pedra Filosofal, mas sem sucesso. Sua frustração crescia cada vez mais, tentava de todas as maneiras descobrir uma forma de acessar os poderes da pedra, mas sem sucesso. Nº 13 chegava a achar engraçado. Mas não podia transparecer que o considerava ridículo ou ele descontaria sua raiva nela.

Dias e semanas se passaram quando nº 13 percebeu que o humor de Cagliostro melhorava cada vez mais. Ele preparava seu estúdio com um círculo mágico no chão. E todas as noites, o Inscrito instruía nº 13 a fazer modificações sutis, quase imperceptíveis nos símbolos. Adições mínimas aos ingredientes e reagentes, apenas esperando pelo grande dia.

O dia em que Cagliostro realizaria seu ritual.

"Finalmente. Eu me tornarei um deus das ciências arcanas. Absorveria o conhecimento da pedra filosofal e serei o mago mais poderoso deste reino. Preparem-se, meus servos, vou precisar de sua ajuda neste ritual. Posicionem-se nos círculos marcados ao meu redor e não se movam."

O mago começou a entoar os cânticos e rituais, fazendo a luz ambiente diminuir, as velas se apagarem e um redemoinho de energias arcanas cercarem o círculo mágico no chão. Cagliostro tinha a pedra filosofal nas mãos, erguendo-a sobre a cabeça e gritava os encantamentos cada vez mais rápido.

Os servos estavam todos paralisados, com exceção de nº 13. As energias atravessaram os corpos de Cagliostro e dos outros três servos, derrubando-os no chão e estilhaçando a pedra.

"Não! Meus cálculos não poderiam…" Ele olhou para o círculo com mais atenção. "Meu ritual! Quem adulterou meu ritual?"

A sombra da compreensão percorreu sua face ao olhar para nº 13.

"Você? Como é possível? O que você fez?"

Cagliostro largou a Pedra Filosofal no chão e avançou sobre a elfa para atacá-la, mas sentiu uma dor fulminante no peito e caiu imóvel no chão. Nº 13 gritou quando viu o turbilhão de energia se dirigir em sua direção e o mundo apagou.

Ela acordou sem saber quanto tempo havia se passado e todos no estúdio estavam mortos. No centro do círculo havia um livro e ela sentia a mesma presença vinda dele, que sentiu da Pedra no primeiro dia em que se comunicaram. Rastejando, ela se aproximou do livro e suas páginas estavam todas em branco. Mas as palavras surgiam aos poucos, como se algo ou alguém as escrevesse com tinta preta e logo desapareciam. Era uma linguagem desconhecida pelo homem, no entanto, nº 13 podia compreendê-la.

"Como pode ver, eu cumpri minha promessa. E você cumpriu a sua."

"Mestre… O que houve comigo?" Nº 13 correu para frente do espelho para se admirar. Vestes luxuosas surgiam ao redor do corpo da elfa, substituindo os trapos que ela sempre usou para se abrigar do frio. Até mesmo a sujeira desaparecia de sua pele à medida em que olhava para si diante do espelho.

"Eu adulterei o ritual e te concedi uma parte do meu poder. O ritual teria matado a todos vocês menos ao mago que teria obtido meu conhecimento para si. Eu o impedi."

"E agora, mestre?" a elfa olha para as próprias mãos sentindo as chamas dançarem por um breve momento antes de sumir.

"Este é apenas o primeiro passo de sua jornada. Você será minha aluna e eu te concederei ainda mais poder. Em troca, basta seguir minhas instruções. Como pode ver, eu já mostrei os benefícios de me servir."

Quando terminou de falar, inúmeras fórmulas e instruções mágicas apareciam sobre as páginas para logo desaparecer.

"Sim. Eu obedeço, mestre." A Elfa segurava o livro nas mãos absorta por aquela maravilha.

"Muito bem. Agora, eu lhe darei um novo nome. Mais digno do que 'nº 13'. A partir de hoje, seu nome será… Feylinn Shant'Allas."

"Feylinn Shant'Allas… Herança dos Fey, a Filósofa…"

"Assumirei essa forma neste mundo. Através dela, me comunicarei com você. Quando quiser falar comigo, basta escrever no livro ou projetar seus pensamentos."

A elfa ergue o livro nos braços e o abraça, olhando ao redor. A torre do mago agora pertencia a ela. E seu tesouro servia ao seu designio. E ao de seu novo mestre. A elfa pegou o cajado de Cagliostro, admirando-o.

"Sou livre…"

Alguns anos mais tarde, como mestre da Torre, Fylinn mudou bastante a vida no lugar. Ela conheceu Garona, sua companheira meio-orc e adotou duas crianças meio-elfas que viviam nas ruas da cidade. Garona era outra serva de Cagliostro que fora abandonada devido a sua herança. Após a morte de Cagliostro, as duas se tornaram muito próximas e se apaixonaram.

A vida na torre tornou-se rotineira e pacífica, até um fatídico dia em que Garona começou a reclamar que as pessoas da cidade passavam a olhar para elas com desconfiança. Rumores sobre o desaparecimento de Cagliostro e sobre a elfa da torre amaldiçoada começavam a se espalhar.

"Você não devia dar tantos ouvidos às fofocas das pessoas, meu amor." comentou Feylinn folheando um tomo.

"Sei muito bem como terminam as fofocas do populacho." Resmungou a mulher de pele esmeralda retirando o tomo da mão de sua esposa. "Subestime a desconfiança dessa gente e logo turbas com ancinhos e tochas vão se aglomerar às nossas portas."

"Não seja dramática. Nada aconteceu até hoje. Até onde sabem, compramos a torre de Cagliostro e ele se mudou. Nada mais. Nem desconfiam de que eu era o jovem elfo maltrapilho que varria o chão do mago."

Enquanto as crianças estudavam tomos de magia, Garona entregou-lhe uma carta selada com o brasão de Aldori.

"O que a carta diz, mãe?" Indagou Caelan.

"Algum problema, mãe? Você parece transtornada."

"Não é nada, crianças. Terminem suas lições e vão se lavar para o jantar."

As crianças obedeceram e saíram do estúdio de Feylinn. Garona, no entanto, permaneceu observando sua esposa preocupada.

"Más noticias, meu amor?"

"Ainda não sei. É uma proposta vaga, mas parece vir de alguém poderosa. Não sei o que pensar disso, sinceramente…" a Bruxa entregou a carta à meio-orc. Ela leu o conteúdo, sem entender nada e deu de ombros. "Quem é essa?"

"Eu preciso ponderar a respeito. Consultar…"

"Seu livro? Ele contém mesmo todas as respostas?"

"Até o momento, sim." Respondeu a elfa abrindo o livro sobre a mesa e começando a escrever. Garona não compreendia a linguagem que era traçada nas páginas limpas e logo desapareciam como mágica. E sempre sentia calafrios ao ver as palavras respondendo da mesma forma. Palavras incompreensíveis surgindo no papel e desaparecendo em questão de segundos.

Ao contrário de Caelan e Lyria, Garona nunca se interessou por magia, tendo um certo receio do assunto, tratando-o como um tabu. Tinha receio daquele livro, tomando-o por um artefato mágico que a elfa consultava de vez em quando. Não fazia ideia de que o livro era mais do que isso. Mas também não questionava sua esposa. Apenas confiava que ela sabia o que estava fazendo, afinal, conhecia o brilhantismo e a inteligência da elfa.

"O que diz esse teu livro?"

"Que eu deveria ir ao encontro dessa mulher."

"Não estou gostando disso. Não gosto da minha mulher indo encontrar outra numa Terra distante."

Feylinn sorriu acariciando o rosto da esposa.

"Ciúmes e insegurança não combinam com você, Garona."

"Não estou com ciúmes. E nem insegura. Só não confio nessa mulher, seja ela quem for."

"Como se eu fosse deixar você aqui com as crianças sozinhos. Eu voltaria para descobrir que não temos mais uma casa."

"O que está insinuando com isso, Feylinn?"

"Faça as malas, minha amada esposa. Vamos viajar."

Feylinn se virou em direção ao quarto.

"Simples assim? Vamos deixar tudo para trás seguindo as orientações desse livro estranho?"

"Sim."

Garona coçou a cabeça resmungando: "o que não faço por amor, maldição…"

Continua…