O silêncio era ensurdecedor, as ruas estavam vazias essa hora do dia. Não havia sequer uma alma viva andando pelas calçadas escuras. A única luz do local, sendo a da grande bola branca no céu, onde podia ver a luz dela refletidas nas vitrines de vidro pelo brilho da lua.

Uma pequena criança esfregou as mãos para trazer algum calor ao seu corpo que congelava de frio.

Ela olhou com atenção cada detalhe que a rodeava. Sempre era bom saber tudo ao seu redor, não saber é perigoso. Com habilidade e prática, ela foi para algumas mesas próximas pertencentes a restaurantes, procurando por algum resto de comida jogado no chão ou em cima das mesas.

Nada.

Não existia nenhuma grama de arroz sujo no chão.

Sua barriga reclamava de fome.

Faz dois dias que ela não colocou nenhuma comida na boca.

Ela não tinha muito tempo, foi para um beco um pouco distante, que ficava ao lado de um restaurante de um Clã que parecia só ter comida e vislumbrou a lata de lixo cheia.

Ela tinha inveja daquela família, eles sempre tinham comida.

Um ânimo ascendeu em seu peito.

Com olhares cautelosos para os lados e ouvidos apurados, a pequena criança abriu a tampa e caçou algum resto de comida.

Ela encontrou.

Existia metade de uma maçã, bolinhos de arroz mofados e peixe assado ainda bom. Fora isso, não tinha mais nada. Ela agarrou a comida com as mãos ansiosas. Sua barriga continuava a reclamar e mostrava isso dando mais pontadas de dor.

Ela estava com sorte.

O som de um miado a fez ficar em alerta.

Um pequeno gato preto estava perto da lata de lixo, ele deve estar procurando comida para amenizar sua dor na barriga também.

Ela olhou para o gato que a observava impassível, ele tinha dois olhos de cores diferentes, um azul e outro dourado.

A criança estava com fome.

Ela pegou as comidas e colocou em sua pequena mochila surrada nas costas. Olhou para o gato e abriu as mãos. Ela esperou com paciência.

Ela não iria o machucar.

O gato pareceu confiar e a deixou pegar ele. O gatinho tinha pelos negros fofos e macios.

Seus ouvidos captaram o som de passos pequenos e alguns cochichos.

Seu tempo acabou.

Com prática e aproveitando seu corpo pequeno, a criança deslizou pelo beco escuro, escondendo sua presença das cinco crianças, parecidas com ela, procurando comida no lixo.

Apareceu um pequeno rato que as assustou por um momento, mas diferente da garota que ajudou o gatinho, as crianças pisaram no rato e o mataram sem piedade. Eles teriam feito o mesmo com o gato em seus braços.

Ela manteve sua respiração baixa e sua presença escondida nas sombras.

Ela já aprendeu a lição. Não tinha como ganhar daquelas cinco crianças.

Ela teria ficado lá até eles irem embora, mas outro miado de gato se fez presente, deixando as crianças em alerta.

Eles acharam outro filhote de gato abaixo de uma caixa. Parecia fraco e quase morto. O olhar escuro dentro daqueles olhos infantis, deixava bem claro o que as crianças iriam fazer com o pequeno animal.

A pequena criança escondida, olhou para o gato em suas mãos que observava a cena com dois olhos diferentes. Ela deixou sua bolsa no chão e o abaixou, ele pareceu confuso com suas ações repentinas.

Antes que eles pisassem no pequeno animal indefeso, o som de uma lata caindo os impediu.

Eles a viram e seus sorrisos macabros já diziam exatamente o que iriam fazer.

Eles avançaram e encurralaram a outra criança, eles a reconheciam pelas ruas.

Os socos vieram sem piedade, assim como os pontapés que atingiram repetidamente a criança que agarrou o pequeno gato no chão, que sabia que eles iriam matar assim que terminassem com ela. Isso só fez deixar eles mais animados e os impulsionar mais para tentar fazer ela soltar o animal.

Porém, suas mãos estavam firmes e ela não saiu de sua bola enrolada. Depois de um tempo eles ficaram cansados e foram embora.

Eles riram dela. Acharam sua bolsa com comida.

A pequena criança tentou se levantar. Seu corpo doía. Mas era suportável. Não era a primeira vez.

Suas mãos abriram e o gatinho estava seguro. Ele tinha pelo branco e olhos negros.

Ela o levou até o outro. Deixou eles em um canto e foi procurar o peixe que escondeu em outro lugar antes mostrar sua presença para as outras crianças. Foi a única comida que restou.

Ela o separa em dois pedaços e coloca em para cada gato, eles continuaram a olhar com curiosidade.

A pequena criança acenou em despedida. O dono desse restaurante gostava de gatos, ele iria dar mais comida para os filhotes quando abrisse daqui a algumas horas.

Ela sorriu para eles.

Sua boca estava cortada e sangrando.

Seus passos eram leves enquanto seguia seu caminho. As ruas começaram a ficar movimentadas com o início da manhã. Em um Distrito mais longe e onde muitos adultos iriam à noite, a pequena criança procurou uma das belas mulheres que ficavam nas portas dos estabelecimentos.

Elas eram gentis.

Uma que a pequena reconheceu como a mais simpática, estava entrando quando a viu, seu olhar percorreu seu corpo sujo e maltratado, ela pareceu indiferente a sua aparência.

Que bom, afinal, não era diferente de muitas outras crianças que circulavam na Vila.

Logo, ela foi chamada e um balde foi colocado em suas mãos com uma bucha e produtos de limpeza.

Começou a trabalhar até suas mãos arderem e sagraram pelos produtos químicos usados e doerem de tanto esfregar para tirar todas as marchas no estabelecimento.

Sua barriga doía.

Ela ignorou com habilidade, já era uma rotina normal.

Quando finalizou, foi para o beco atrás do estabelecimento. A mesma mulher jogou um pão no chão e alguns biscoitos secos.

Suas mãos machucadas agarraram tudo e ela acenou em agradecimento. Era metade de um pão mofado e os biscoitos estavam quebrados.

Ela ficou feliz e sua barriga também, ganhar comida era melhor do que dinheiro.

Dinheiro só era um mental que não tinha utilidade em sua pessoa, ninguém a aceitaria entrar em seus estabelecimentos para comprar algo. Então, ganhar comida era muito melhor.

Comida a mantém viva.

Sua barriga ainda doía, pedindo mais para amenizar seu sofrimento, porém, a pequena criança não poderia ser gananciosa.

Seus passos pararam quando sentiu que estava sendo seguida. Ela virou o corpo e se preparou para correr, ela estava ficando boa em fugir. Ela era rápida.

Dois gatinhos olharam para ela de volta.

Eram os mesmos de ontem.

Eles estavam vivos.

Eles continuaram a seguir a pequena garota. Já era o final da tarde quando ela passou por um prédio grande, tinha crianças espalhadas perto dele.

Elas não eram iguais a ela.

A pequena criança olhou para suas roupas. As dela eram de uma cor escura de sujeira e fediam, não se comparavam às limpas e bem arrumadas delas.

Seu cabelo era um ninho de passarinhos sujo de uma cor marrom oleosa e quebrada. Não era sua verdadeira cor, a sujeira era grande o suficiente para não deixar aparecer os fios claros. Os das crianças no prédio eram cuidados e limpos.

Eles pareciam felizes.

Alguns saíram segurando as mãos de adultos, outros conversavam animados uns com os outros.

Um sentimento além do objetivo da sobrevivência, começou a crescer dentro de seu peito.

Desejo.

Ela queria isso. Queria ter alguém para conversar, queria uma pessoa para sorrir para ela. Queria que a olhassem como alguém especial.

Os gatinhos começaram a miar em seus pés.

A pequena criança queria demais. Não era bom ser ganancioso. Mas, era bom pensar na sobrevivência.

Isso, a sobrevivência era importante.


Havia uma fila de pais e algumas crianças sozinhas em frente a academia Shinobi. Era mais um ano com a guerra próxima e Konoha estava alistando mais crianças para serem bucha de canhão em batalhas por território.

Esse era o pensamento real de Takimoto. Ele continuou pedindo nomes e já designando para que salas as crianças iriam. O peso em sua consciência não o deixava dormir a noite, sabendo que aqueles que se alistam agora, eram órfãos ou seus pais o estavam mandando para morte, unicamente, para ter o que comer na mesa, por conta da benefício em dinheiro que recebiam por cada criança alistada.

Uma criança mais pequena do que as outras, entrou em seu campo de visão.

Ela era uma mendiga. Dava para ver de longe. Um garotinho com roupas rasgadas e todo sujo de terra e que fedia pior do que rato de esgoto. Seu cabelo era um marrom sujo feio e oleoso, estava curto e bagunçado, cobrindo totalmente os olhos. Estava conseguindo afastar as outras.

Mas, tudo bem, essa pequena criança era a última da fila.

- Nome? - Takimoto perguntou de forma monótona, já esperando decorar o nome que vai aparecer em seu pesadelo hoje.

Saiu como um sussurro levado pelo vento.

- Haruno… Sakura Haruno.

Era uma criança. Uma garota que não tinha mais do que quatro anos.

Mais um nome na lista.