Havia corpos por todo lugar. Jogados como lixo se decompondo no chão podre e fedido. Não tinha vida em qualquer lugar que olhasse. Não existia mais som, apenas o eco da própria morte.
Ela podia sentir seu corpo banhado com sujeira, suor e sangue. Rios de sangue que a cobriam por inteira. Igual a chuva carmesim que caia do céu.
Rostos familiares podiam ser vistos à sua volta, todos com expressão em branco e assombrados. Não existia mais vida dentro deles.
O céu estava vermelho escuro, igual a cor do líquido que cobria sua pele e roupas.
Em sua cabeça, gritos e gritos podiam ser ouvidos. Era a memória das vozes das pessoas que ela viu morrer em suas mãos.
A escuridão começou a dominar a paisagem, a engolir tudo com imensa fome. Ela também seria engolida ou seria deixada sozinha? Não fazia diferença, o sentimento de vazio só crescia. Ela não sabia, só sentia que estava caindo e que essa escuridão pertencia a ela mesma.
Sakura abriu os olhos esmeraldas para o teto branco de seu quarto. Ela olhou a hora no relógio de sua mesinha. Faltavam poucos minutos para sua corrida matinal. Nada melhor do que acordar com pesadelos como esse que ela teve. Nada fora do normal. Sakura estava até começando a gostar deles, eles eram o melhor despertador que ela já teve.
Descer a escada depois de tomar banho após sua corrida, foi como uma benção para seu corpo e espírito. Ela podia ouvir as vozes de seus pais brigando na cozinha e a voz de sua irmã mais nova se despedindo na porta, assim como o som dela se fechando. Nada fora da normalidade que era sua nova vida.
Não, sua segunda vida.
Sakura não sabe como ou porquê dela ter renascido em um mundo diferente do seu original. A única coisa que ela sabia de certeza, era que ter uma vida mais normal possível, afastava memórias de uma vida passada que era coberta de sangue e morte. Memórias de rostos que ela nunca esqueceria, como também nunca encontraria outra vez.
Seus passos eram calmos enquanto ela descia a escada para tomar café e caminhar para Namimori Middle. Não tinha pressa, ela sabia a hora exata para entrar sem estar atrasada ou muito cedo para chamar atenção indesejada do comitê. Nada que fizesse alguém olhar para ela mais do que sua aparência exótica no meio de preto e castanho.
Uma vida normal e calma, esse era seu objetivo nessa reencarnação. Mesmo que seus instintos shinobis tentassem dominar seu corpo quando acontecia em algumas situações, Sakura segurava com força qualquer parte de sua personalidade ou habilidade que não seria vista como normal perante essa sociedade.
Sua missão teve grande êxito até agora. Ela não se destacou em nada. Sakura era mediana nos esportes e no acadêmico, mesmo que ela saiba que é muito melhor e capaz, ela tem um objetivo a comprir, e ser a mais inteligente ou a garota perfeita em tudo, estragaria o personagem que ela criou para si.
Sasagawa Sakura não é nada de especial, ela é uma aluna mediana e com poucos amigos, amigos que não sabem nada que ela não queira que tenham conhecimento. Não faz parte de nenhum grupo. Segue as regras da escola, assim não chama a atenção do DC. Ela é uma sombra, é alguém invisível na escola.
A vida perfeita e sem falhas.
Seu caminho para escola já estava quase perto. Sakura pensa que sua irmã, Kyoko, já tenha chegado ou esteja perto. Afinal, elas tomam o mesmo caminho para a escola, apenas não vão juntas. Sua irmã gosta de ir cedo, diferente de Sakura.
O motivo também pode ser porque Kyoko gosta de interagir com outras pessoas e, principalmente, Kurokawa Hana.
Sakura passou por um garoto moreno sentado no chão da rua, ele estava conversando com um bebê de terno preto. Bem, não era da conta dela de qualquer forma, mas seus instintos dizem que o bebê é perigoso. Sakura não duvida. Isso quer dizer que o bebê não é normal, o que significa que ele é um problema. Sakura vai lembrar de evitar cruzar seu caminho ou entrar no meio dele, ela não deseja que a normalidade de sua vida, seja destruída por algo que grita "problema" em letras maiúsculas e vermelhas como sangue.
- Ela é bonita, pensei que você gostava da garota Kyoko - Reborn questionou o garoto à sua frente. Ele estava quase atirando em Tsuna com uma bala especial, mas uma garota com cabelo rosa comprido, uma criança que não sentiu nenhuma presença ou som de seus passos, caminhou a uma grande distância deles. Reborn só a notou quando percebeu que Dame-Tsuna olhou em outra direção, como se seus olhos estivessem enfeitiçados, um traço de laranja que logo sumiu depois que o distraiu.
- O QUE ? Não! Não! Não! - Tsuna agitou as mãos para enfatizar seu ponto - Eu só estava olhando!
- Quem é ela, Dame-Tsuna ?- Reborn perguntou com uma arma em direção ao rosto do garoto. Ele ficou curioso para saber também. Ela não estava na lista de pessoas que seu aluno interagia, ou seja, seus colegas de turma ou valentões.
- Ela é uma sempai da escola - Tsuna respondeu, ele sabia que Reborn não hesitaria em atirar nele se não obedecesse às suas demandas.
- Se você não gosta ou tem qualquer relacionamento com ela, por que estava olhando tão atentamente para a garota ? - Reborn só estava curioso pelo efeito que essa garota desconhecida teve em seu aluno, que sua hiper intuição ter surgido só na presença dela.
- Não sei… apenas, não sei! - Tsuna respondeu em pânico, ele realmente não sabia porque sua atenção sempre se voltava para a garota de cabelos rosados. Algo invisível o chamava para ela, não era de hoje, foi desde que Tsuna era criança e via um mecha de cabelo rosa pelo parque ou caminhando sozinha. Mas, seus pensamentos foram interrompidos por um demônio vestido de terno.
- Se você não gostar dela, que tal confessar seus sentimentos para a garota que tem uma paixão ?
- O que ? Espera -
Era para ter sido um dia normal antes da aula começar, mas foi destruído pelo moreno que Sakura se deparou em seu caminho para a escola. O garoto de cabelos castanhos indisciplinados, confessou seus sentimentos para sua irmã, a garota mais popular da escola e que é considerada uma idol juvenil, apenas de cueca de desenhos na frente de toda a escola. Além de possuir uma chama em sua testa. Não parecia falsa, Sakura estava curiosa para tocar e fazer experimentos com essa chama, mas antes que o desejo crescesse, ela o amassou e trancou em um lugar escuro em sua mente. Junto com muitas outras partes que faziam dela uma shinobi e aprendiz da quinta Hokage.
Sakura não iria se intrometer na vida de sua irmã. Elas eram próximas, mas Sakura gostava de ter seu próprio espaço, o qual Kyoko não respeitava muito ultimamente. Sakura não vai interferir em nada que sua irmã escolha fazer no futuro, mesmo que o caminho seja perigoso, Sakura não vai se intrometer. A vida é de Kyoko, Sakura não vai fazer as escolhas por ela.
Se sua irmã precisar dela, Sakura não vai hesitar em ajudar, mas caso o contrário, ela vai apenas observar de longe o que estava acontecendo em Namimori e nos novos amigos de Kyoko.
Essa tinha sido a decisão de Sakura a alguns meses. Essa decisão se manteve firme quando um aluno da Itália se transferiu para a turma da sua irmã. Se manteve firme quando a estrela do clube de beisebol tentou se suicidar pulando do telhado.
Sakura prometeu a Kyoko uma vez, ela sempre estaria ao lado dela quando precisar ou querer apenas um abraço. Contudo, algo que ela tinha certeza. Tudo aconteceu com Sawada Tsunayoshi no centro do furacão que tomou conta da cidade e aquele bebê de terno junto, provocando o caos.
Sakura manteve apenas seus olhos no grupo, sua irmã estava mais feliz com essas pessoas que cheiravam a futuros problemas, do que com os restos dos amigos que ela tinha antes deles, fora Kurokawa Hana.
Porém, sua determinação de ficar o mais longe possível do grupo que sua irmã andava recentemente, foi abalada quando se viu na enfermaria da escola algumas semanas depois da tentativa de suicidio do cara de beisebol. Sua irmã parece que tinha caído da escada e torceu o tornozelo, casos como esse eram deixados para a amiga dela, Kurokawa Hana, que insistia em estar a todo momento com Kyoko. Contudo, a morena faltou à escola hoje e a direção mandou chamá-la. Afinal, poucas pessoas sabiam de seu parentesco com a nova idol da escola.
Não é que Sakura seja indiferente ou distante de Kyoko, ela só não suporta certas atitudes da mesma. Principalmente, quando sabe que a outra garota gosta de ser o centro das atenções e manipula as pessoas ao redor, escondido em um manto de garota perfeita e alheia.
Sakura se arrependeu de vim na enfermaria, quando antes de sua mão tocar na maçaneta da porta, ela abriu e o denominado, Demônio de Namimori, surgiu em toda sua glória fria.
Hibari Kyoya parou quando percebeu uma aluna à sua frente, ele não tinha sentido sua presença. Uma herbívora. Seus olhos afiados não perderam o tom único de cabelo e olhos esmeraldas indiferentes que o olhavam sem o medo habitual dos outros herbívoros.
Ele saiu, mas iria pedir a Kusakabe, informações sobre a herbívora de olhos verdes.
Sakura observou o monitor sair sem dizer nada, era melhor manter um perfil baixo e discreto pelos próximos meses. Quando seus belos olhos esmeraldas se depararam com os residentes da sala, que estavam a olhando com surpresa e curiosidade, Sakura sentiu seu sonho de uma vida tranquila e pacífica, sair fugindo pela porta mais rápido do que o pai de Naruto.
A enfermaria estava um silêncio abismal, sofrendo apenas com a ligação de Kyoko com Hana. Kurokawa Hana ficou sabendo do acontecido e ligou para Kyoko para saber se ela estava bem, vamos dizer que a conversa já dura uns bons minutos com Kyoko rindo das reclamações da amiga.
Tsuna se mexeu de forma desconfortável na cadeira de plástico da enfermaria, Reborn o obrigou a ficar aqui até a situação ser resolvida, porque um chefe da máfia nunca abandona seus subordinados. Não é que Tsuna queira deixar Kyoko-chan sozinha, mas a nova presença na sala o deixava inquieto. Não ajudava que Gokudera-kun a fitasse sem parar no canto da sala desde que ela entrou. Até mesmo Yamamoto ficou calado e não tirou o olhar dela.
A sala parecia sufocante nesse momento.
O futuro chefe da máfia olhou para a irmã de Kyoko.
A irmã a qual ninguém sabia que existia. Foi uma surpresa para todos quando Kyoko-chan disse que a irmã dela viria para a levar para casa. Tsuna não se lembra muito do que aconteceu, só sabe que sua paixão caiu nas escadas, quando eles estavam descendo. Por isso todos estavam aqui. Até mesmo Hibari-san veio aqui para expulsar Shamal-san, ou melhor, mordê-lo até a morte por perturbar a paz em Namimori.
Mesmo com todos esses pensamentos, os olhos de Tsuna acabam sempre voltando para a irmã mais velha de Kyoko-chan. A garota de cabelos rosas que ele sempre via de relance desde a infância. Ela agora tinha um nome, Sasagawa Sakura, uma senpai, um ano à frente deles.
Ela era muito bonita, com cabelos florais longos, feições delicadas, corpo curvilíneo que dava para ver pelo o uniforme que consistia na blusa branca de mangas compridas e gravata vermelha, junto com o blazer apertado e abotoado na frente, saia azul escura curta, acompanhada por meias pretas que iam até a metade da coxa.
Tsuna desvio o olhar quando os olhos esmeraldas o fitaram. Outro traço marcante, olhos verdes como jóias que brilhavam. Sua atenção voltou a Kyoko-chan quando sentiu Reborn, que estava sentado em sua cabeça bebendo café, o chutar brutalmente.
Tutor sádico! Contudo, Tsuna percebeu que Kyoko-chan já estava terminando de falar com Hana.
- Não precisa ficar preocupada, Hana - Kyoko rio dos resmungos de sua melhor amiga - Minha irmã já está aqui, ela vai me levar para casa, te vejo amanhã, ok ? - Quando ouviu a confirmação de sua amiga, Kyoko virou em direção ao seu público, procurando sua irmã, ela estava sentada longe de todos, lendo um livro tranquilamente - Pronto! Obrigada por ficarem comigo até agora, pessoal!
- Não é nenhum problema, Kyoko-chan - Tsuna respondeu, envergonhado por estar falando com sua paixão.
- Hahaha… ma… sem problemas, Kyoko - Yamamoto respondeu com uma risada que aliviou o clima da sala - Gokudera também não se importa.
- Tks. Fale por você, maluco do beisebol - Gokudera reclamou com o atleta - Só estou aqui pelo Décimo!
- Gokudera-kun! Desculpa, Kyoko-chan - Tsuna se desculpou por seu amigo.
Reborn observou com olhos atentos a confusão que se seguiu, seus olhos afiados não perdendo a virada de página da garota que lia, tranquilamente, no canto da sala. O assassino lembra dela muito bem, a garota que seu aluno teve uma reação no primeiro dia, Reborn tinha esquecido dela até o momento, mas parece que a garota vai estar presente na vida de Tsuna no futuro.
Reborn abaixou seu chapéu para esconder seus olhos afiados, ele era o Arcobaleno do Sol e o melhor assassino do mundo, não teria como perder a falta de presença da garota ao redor da irmã nos últimos meses.
Mas, precisamente, o afastamento dela em qualquer lugar ou evento em que seu aluno esteja presente. Um sorriso predatório surgiu no rosto do assassino, mas Reborn o escondeu por baixo de um sorriso fofo de bebê.
Parecia que Namimori era cheia de crianças interessantes, não era atoa que fosse uma cidade de retiro do submundo.
A garota, Sasagawa Sakura, estava fugindo de qualquer interação com seu aluno ou qualquer pessoa perto dele. Porém, Reborn não vai deixar isso acontecer, ele tem um palpite sobre algo e não quer perder uma futura peça no grande jogo.
Seu aluno só possui até agora, dois guardiães de certeza, Gokudera e Yamamoto.
Embora, também haja uma possível nuvem que Reborn estaria nutrindo para o futuro, que por acaso, pode ser o possível sobrinho do Arcobaleno da Tempestade, Fon. Faltam três guardiões para completar o set. Com um pulo para o chão, Reborn caminhou facilmente em direção ao seu alvo. Só existia uma maneira de saber que chama adormecida a garota tinha, seria pelo toque corporal, uma façanha apenas para os mais habilidosos.
Quando chegou bem perto, ele pulou no colo da Sasagawa mais velha, o assassino esperou surpresa ou um susto, mas o que recebeu foi um sorriso em sua direção e o movimento de duas mãos o segurando com delicadeza.
Sua análise parou quando aqueles olhos esmeraldas agora também o analisavam. Por inacreditável que pareça, Reborn não consegue ler essa garota. Seu rosto mostra sorrisos, mas seus olhos não mostram nada que não seja um brilho forte o suficiente para esconder qualquer segredo por trás deles.
Ela se levantou, não deixando de o segurar com delicadeza e o deixou nos braços de seu aluno.
- Acho que esse bebê seja seu, Sawada-san - Ela disse com um sorriso para o garoto surpreso e virou seu corpo para a menina na cama - Bem, agora que você já terminou a ligação e agradeceu a seus amigos por ficarem, já está na hora de irmos, Kyoko.
Todos observaram as duas irmãs saírem juntas do quarto, uma ajudando a outra a andar com o pé machucado. Não demorou para uma briga unilateral começar entre os guardiães da Décima Geração logo depois, Reborn empurrou seu aluno para resolver o problema, um chefe da máfia deve saber disciplinar seus subordinados.
Contudo, a mente do Arcobaleno do Sol, estava em outro lugar. Precisamente, nas chamas já acordadas da garota Sasagawa mais velha. No tempo que ele a tocou, pode sentir as chamas bem acordadas, embora deu para determinar a chama do Sol bem forte e poderosa para uma criança sem treinamento, ele sentiu outra escondida. Porém, estava tão contida e camuflada pelas fortes chamas do sol, que o assassino não soube determinar qual era, mas tinha certa familiaridade que ele não consegue lembrar.
Reborn vai deixar essa questão para depois, o importante é que ele achou um possível futuro Guardião do Sol ou esposa para Tsuna.
