O sol escaldante no alto do céu azul de Konoha brilhava intensamente.

Sorrisos e gritos de felicidade acompanhados de olhares aliviados ou vazios, enchiam o grupo de soldados shinobis que retornavam para casa depois de muito tempo longe.

No caminho de volta para Konoha, Sakura olhou para a felicidade de todos os soldados ao seu redor. Não havia nenhuma criança além dela. Os rostos e o nome de vinte colegas que foram para a guerra juntos com ela, ainda repercutiam por sua mente e memória.

A pequena criança de olhos esmeraldas não entendia a alegria dos soldados à sua volta, afinal, a guerra deu uma pausa, não teve fim ainda. O que significava que eles seriam mandados outra vez para a linha de frente em um futuro possivelmente muito próximo.

Parece cruel voltar para uma aldeia cheia de pessoas que não parecem saber o que houve fora dos muros de Konoha. O sentimento que Sakura tem ao observar a alegria dos soldados e a alegria dos cidadãos é algo próximo a uma diversão macabra.

Afinal, a alegria dos soldados é passageira, porque são esses mesmos soldados que não conseguem dormir à noite com pesadelos de morte, sofrimento e desesperação. Em comparação com aqueles que ficaram dentro dos muros da Vila, que não possuem essas preocupações. Quanto tempo será que vai levar para os sorrisos em seus rostos sumirem quando perceberem que vão ter que voltar para o campo de batalha quando a guerra retornar?

Sakura não sabe e não tem ideia de como eles vão se sentir. Porque ela mesma, a única criança de uma turma de trinta crianças massacradas no início da guerra, não sente tanta alegria ao pisar e atravessar os muros de Konoha.

Não faz diferença estar na guerra ou em Konoha, ambos os lugares são um campo de lutas e sobrevivência a cada minuto.

Ela evitou propositadamente procurar uma cabeleira negra de olhos escuros, que estava a uma distância segura da dela e que Sakura fez o favor de aumentar ao pegar um atalho e sumir na multidão de pessoas. Ainda sentindo um olhar afiado em sua direção por um tempo depois que escapou. Ela não queria aturar sua forma egocêntrica ou lembrar da pessoa que também tinha as mesmas características escuras e não estava entre os soldados que retornaram.

A guerra deu uma pausa por conta do estrago que cada Aldeia Shinobi sofreu. O que resultou em um acordo forçado de uma trégua temporária, ou seja, era uma certeza que sua volta para o campo de batalha era garantida assim que a primeira Aldeia Shinobi se recuperasse e atacasse primeiro aquela mais desprotegida.

Só os fortes vencem uma guerra e shinobis não jogam limpo ou com honra.

Agora que não tinha soldados inimigos para matar diariamente ou torturar pessoas por informações, Sakura tentou imaginar como seria sua vida até a guerra retornar e ela ser mandada outra vez para a linha de frente.

O que ela iria fazer agora?

Sakura não sabia. A pequena criança não tinha família ou amigos. Sua mente fez o favor de esquecer os rostos de dois adultos de olhos negros e cabelos escuros. Será que ela deveria tentar fazer laços com outros shinobis?

Em seu primeiro dia de volta, ela recebeu uma bonificação e um apartamento para lutar na guerra. Era sua primeira casa, mas ela não sentiu nada ao entrar no recinto frio e cinza. Distribuíram até mesmo roupas novas e outros materiais essenciais para cada soldado shinobi que voltou da guerra. Porém, mesmo sendo seu primeiro dia de retorno, ela não foi comer como muitos outros companheiros fizeram ao chegar, mas sim, a primeira coisa que fez quando chegou em sua nova casa, foi tomar um banho.

Nas ruas ou na guerra, ela nunca tomou muito banho, só quando chovia. Ela esfregou seu cabelo sujo de sangue, lama e sujeira. Sakura nunca o lavou mesmo e não dava tanta importância para sua aparência.

Sua pele era preta de tanta sujeira e sangue seco.

Nenhuma gota de sangue que sujava seu corpo a pertencia.

Passando a mão pelos fios longos, sua concentração focou em esfregar com mais força. Seu cabelo tinha crescido na guerra, chegando no final de suas costas. No início, Sakura o cortava bem curto, mas a mulher Uchiha disse que deveria manter o cabelo longo, ela não explicou o porquê, mas disse que Sakura tinha habilidade e era forte para isso. A explicação vaga não ajudou a entender nada, mas a pequena criança de olhos esmeraldas seguiu as palavras da mulher bonita que gostava de escovar seus cabelos com uma delicadeza tão irreal, que parecia que ela estava acariciando flores.

Quando disse isso em voz alta uma vez, a mulher Uchiha só fez rir e beijar sua testa, dizendo em seguida que Sakura era uma flor preciosa para ela. O homem Uchiha só fez rir com a confusão em seu rosto ao tentar assimilar o que ela tinha de semelhante com uma flor que é tão fraca e morre rapidamente.

Sakura até perguntou se eles achavam que ela era tão fraca que morreria no menor soco, explicando o que entendeu pela assimilação que a mulher bonita fez a ela. Sakura não sabe o que disse de engraçado, mas os dois riram alto de seu comentário. Ela lembra que ficou emburrada por duas semanas.

Seus pensamentos a levaram a esquecer que já fazia um tempo que estava esfregando os fios em sua cabeça. A cor verdadeira de seu cabelo começou a aparecer e o rosa como a cor das cerejeiras a fez olhar com um sentimento de nostalgia e perda que a criança de olhos esmeraldas não conseguia entender tal complexidade.

Depois do banho, Sakura foi para o espelho e pegou uma tesoura. Olhos esmeraldas a observaram de volta e ela começou a agir sem nenhuma emoção no rosto. Sakura começou a cortar seu cabelo, os fios caindo em carcaças no chão sujo de um apartamento vazio e cinza. Sem nenhuma hesitação, cortou até os ombros em forma reta, como duas franjas grandes nas laterais.

A mulher Uchiha estava morta.

Seu corpo moribundo virou cinzas e só restou o sangue no chão cheio de cadáveres no campo de batalha que provou sua existência neste mundo até que foi queimada até que não restava um corpo para lamentar.

Se livrando totalmente do cabelo que escondia seus olhos. Esmeraldas a olharam de volta friamente.

Ela pegou uma camisa regata preta simples e colocou calças escuras com vários bolsos para suas armas, sua fiel katana ao lado. Botas militares completam seu vestimento.

Sakura estava preparada para se reportar à Torre e continuar com sua vida.

Lamentar uma dor passada é desejar continuar sofrendo ela no presente. O passado é passado.

A memória de uma bela mulher com cabelos longos escuros como a noite e olhos cor de carvão, que possuía o sorriso mais bonito do mundo, foi guardado a sete chaves na mente de uma criança que tem memória perfeita e que nunca vai esquecer o passado, mesmo que ele já tinha sido vivido, fez parte e continuará a fazer parte de sua vida. Tornando-se uma memória preciosa e amada.

Ao passar por alguns shinobis que reconheceu dos vários acampamentos que foram enviados durante a guerra ao longo dos anos, Sakura notou o olhar surpreso deles, assim como os murmúrios que seguiram em seu caminho.

Sakura tinha bons ouvidos e aprendeu a moldar seu chakra para ganhar uma melhor audição. Foi uma habilidade que aprendeu para poder matar pessoas mais rapidamente sabendo a localização delas pelo som que revelavam ao se moverem ou falarem.

- É ela?!

- Sim, pensei que era mais velha, mas é só uma criança. Que assustador.

- Disseram que ela esteve na linha de frente na guerra por anos.

- Dizem que foi responsável pelo massacre de cem shinobis sozinha!

- Ela realmente é humana? Como pode aparentar ser tão indiferente com o sangue que tem nas mãos?

As falas eram conversas de shinobis que foram para a guerra e aqueles que não foram.

Sakura parou de ouvir depois que percebeu que eram assuntos insignificantes. Nada fora do normal, era a mesma coisa de sempre e chegando a ser tedioso prestar atenção a informações irrelevantes.

Com passos calmos e indiferentes aos murmúrios que seguiam seu corpo, Sakura chegou ao seu destino e observou rapidamente a grande Torre que representava o poder de Konoha.

Ela lembra de ter tentado entrar nela quando morava nas ruas e estava no inverno. Uma criança morrendo de fome e frio que tentava buscar algum abrigo quente, mas que foi expulsa e chamada de rata de merda.

Ela se dirigiu a bancada onde iria reportar seu retorno como foi orientada pelo superior que comandou seu último esquadrão na guerra e pegar uma missão qualquer, mas foi impedida pelo shinobi sentado atrás do balcão.

- Sakura Haruno, certo? O Hokage está esperando sua chegada, vou notificar sua presença.

O shinobi, um homem de óculos de garrafa grandes e cabelo amarrado de forma restrita, a encaminhou por um corredor em direção ao seu novo destino.

Sakura não entendeu o porquê o próprio Terceiro Hokage a queria, ela era uma simples shinobi, igual a todos os soldados que retornaram da guerra. Alguém sem nome ou status alto para estar na presença do líder de Konoha.

Porém, ela foi encaminhada para a sala do Terceiro Hokage e não poderia dizer não a solicitação.

Ao chegar perto de uma sala fechada com grandes portas de madeira, era possível ouvir vozes altas em uma discussão acalorada de uma mulher e um homem lá dentro. Mesmo com esse cenário intrigante, o funcionário abriu as portas e fechou logo em seguida assim que entrou no recinto.

A sensação que teve se assemelhava a entrar na cova de uma leão sem armas para o matar.

Presenciar a pessoa com coragem o suficiente para gritar com o Hokage, fez Sakura querer a observar com mais cautela.

Ela uma jovem de cabelos loiros e seios avantajados, usava o uniforme jounin e tinha olhos de mel que brilhavam em dourados com a intensidade que mirava o Terceiro Hokage com uma frieza impenetrável.

Sakura tentou analisar a situação baseando na postura agressiva da loira e do comportamento calmo do Terceiro Hokage, que estava sentado atrás de sua mesa fumando um cachimbo grande.

- Eu já disse, pode enviar essa sua ideia para o inferno ou no próprio c*! Eu não vou continuar nesse maldito lugar!

- Minha decisão não mudou, você seguirá minhas ordens - O Hokage a respondeu calmamente e seus olhos castanhos seguiram na direção da nova adição a reunião em andamento - A garota já está aqui.

O Hokage apontou para Sakura que estava ainda na porta como se a própria loira já não tivesse notado a nova presença.

A jovem criança de cabelos rosados e olhos esmeraldas não sabia o que fazer ou porque foi chamada.

- É essa pirralha?! Esse rato de merda?! - A loira que não deveria ter mais de uns 17 ou 19 anos de idade, a olhou com raiva em seus olhos de mel dourados - Ela vai morrer em menos de um mês em minhas mãos.

- Haruno-chan tem dez anos, Tsunade - O Terceiro Hokage insinuou com um sorriso vazio em seu rosto enrugado - Ela esteve na guerra desde os quatro anos.

Sakura ficou calada mesmo que sentisse seus pés presos ao chão desse escritório.

- Você mandou um rato bebê para segurar uma kunai? - O olhar da loira era uma mistura de repulsa e nojo dirigido ao homem que possuía o maior poder dentro de Konoha.

- Você sabe muito bem que se ela não fosse especial, não teria sobrevivido a todos esses anos na linha da frente em uma guerra, onde muitos mais experientes morreram ao pisarem no campo de batalha.

- Não me importo se a merda dessa pirralha morra ou viva! Não me importo se ela tem habilidade ou é especial!

- Você não tem opinião nesse assunto, Tsunade - O Terceiro Hokage a olhou seriamente com um olhar frio que não abalou um centímetro da impenetrável coragem e força de vontade da loira Senju - Você mesmo disse que era bom ter um ninja médico em cada equipe ninja. Como planeja que os outros shinobis vejam um médico como útil em missões e batalhas, se eles só têm uma pessoa como exemplo? E essa mesma pessoa é a minha própria aluna e a herdeira do Clã Senju?

O silêncio que seguiu a essa fala foi quebrado abruptamente pela mesma pessoa que ele insultou indiretamente com propósito.

A mulher loira que tinha olhos brilhando perigosamente em dourado derretido, bateu a mão com uma força monstruosa na mesa, rachando e criando fissuras que repercutiram pelo pequeno escritório e percorreu pelas paredes.

Uma raiva que iria engolir tudo em seu caminho era refletida nas perigosas e mortais piscinas douradas.

- O que eu disse, seu velho maldito, foi que teríamos mais shinobis vivos no campo de batalha, se priorizasse ensinar o básico do Iron Ninjutsu para todos os shinobis sem distinção! - A herdeira Senju deu um passo mais próximo a mesa, o som do chão quebrando sendo bem audível - Não falei nada sobre ter uma maldita aprendiz! Não falei nada sobre treinar só uma pessoa por equipe! Não distorça as minhas malditas palavras para seus próprios planos e ideais idiotas!

O Hokage permaneceu indiferente à ira da herdeira Senju e decidiu encerrar a reunião que já durava mais do que o suficiente.

- Essa conversa está encerrada, Tsunade - O Hokage foi inflexível ao olhar dourado escaldante - A partir de hoje, ela será sua aprendiz e você não tem voz ou poder nesse assunto - Virando-se para a outra presença na pequena sala, o Hokage olhou para os olhos esmeraldas frios da pequena criança e a chamou - Sakura-chan.

- Haruno, Terceiro Hokage - Sakura falou friamente e com olhos esmeraldas vazios, escondendo a ira que a dominou por dentro.

Um sentimento opressivo começou a corroer pelo seu corpo, como uma pequena teia de aranha que crescia e se ramificava.

Sakura tinha feito de tudo para fugir desse destino e agora duas pessoas que nunca a conheceram antes, estavam falando sobre uma decisão que ela não fez parte ou deu opinião.

Estava na cara qual era a intenção de aprendizagem que o velho enrugado sentado atrás daquela mesa queria.

Contudo, o que ela poderia fazer? Ele é o Hokage e mesmo com esse sorriso paternalista e benevolente estampado no rosto, seu olhar era calculista, frio e cruel.

As duas pessoas que seriam forçadas a entrar no jogo de alguém egoísta e que só pensava em seus ideais, olharam uma para outra.

Era como se o tempo tivesse parado e algo começasse a ser formado com ferro e aço impenetrável, algo que estava forçando suas vidas a serem entrelaçadas pelo destino.

Não precisavam falar em voz alta ou dizer algo, as duas já pressentiram no amargo de seus corações e em seus próprios ossos, que serão o karma da vida uma da outra.

- Será uma honra ser sua aprendiz e aprender Iron ninjutsu, Senju-san - Sua voz era desprovida de qualquer emoção e não existia nenhum respeito em seu olhar.

A herdeira Senju a encarou com um dourado escaldante que destruiria todos os seus inimigos que tivessem a ousadia de entrar em seu caminho.

- Vai ser um prazer quebrar você ao ponto que querer estar morta, Haruno.

O Hokage bateu em Palmas e sorriu feliz para as duas pessoas que olhavam uma para outra como se quisessem cometer um assassinato.

- Agora… vamos trabalhar para o futuro de Konoha - O Terceiro Hokage proclamou com um sorriso paternalista - Estarei sempre presente caso precise de algo, jovem Sakura-chan.

O Hokage não iria se submeter a uma simples criança, mesmo que em seu olhar esmeralda brilhante se assemelhar a de um shinobi que derramou muito sangue de inimigos nas mãos.

Esse ato e decisão do chefe do Clã Sarutobi, seria um dos maiores erros e arrependimentos de Sarutobi Hiruzen, que não percebeu estava de frente da única prodígio que nunca iria obedecer suas ordens ou lhe seria leal.

Uma shinobi que faria o mundo temer seu nome.