Capítulo 32 - Baile

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Eu não sabia como reagir diante de tudo que aconteceu nesses últimos dias. As palavras de Karin ficaram martelando em minha mente, me deixando atordoada e sem sono à noite. Chorei muito naquele dia, sozinha em meu quarto, apenas disfarçava quando mamãe aparecia. Não queria que ela soubesse, isso não. E Sasuke... eu não sabia o que fazer, ele não havia comentado o fato de ter sido aceito na universidade de Oxford.

Eu esperei os outros dias seguintes, aflita, ele abrir o jogo comigo, mas ele agia como se o nosso plano inicial ainda estivesse de pé. Nenhum indício da tal briga com os pais ou o fato de ele ter duas opções válidas para a universidade foi mencionado. De alguma forma eu me senti traída, como se ele não confiasse em mim, aquilo doía muito.

E como doía, deixando a angustia ficar sufocante.

Karin sabia mais da vida dele do que eu. Ele parecia confiar mais nela em certos assuntos delicados do que a mim, a sua namorada. E aquilo doía tanto saber essas coisas, mas também doía saber que de uma certa forma a Karin estava certa.

Também não comentei sobre a minha conversinha com Karin, e ela pelo jeito não havia dito mais nada e os dias se passaram. Karin se mantinha na dela, faltava alguns dias da semana e aparecia com uma cara péssima. Por um certo momento e sabendo agora a barra que ela passava com sua doença, eu senti pena dela. Hinata estava sempre com ela, ficando ausente em nossa roda de amigos nos intervalos. E não pude deixar de me sentir péssima por saber que a minha presença estava barrando Karin a se juntar aos outros e como consequência levando Hinata.

E com isso os dias continuavam passando, arrastando até o meu último final de semana como colegial. A surpresa foi nítida quando o correio entregou uma carta endereçada a mim na manhã de sábado. E novamente foi mamãe que recebeu. Eu estava na cozinha lavando a louça suja do almoço quando ela apareceu com o envelope branco na mão.

- Acabou de chegar uma carta para você – ela disse enquanto olhava o remetente. – É da universidade de Nagoya.

Sequei as minhas mãos no pano de prato e peguei o envelope de suas mãos.

- Universidade de Nagoya? - Franzi as sobrancelhas, lembrando que havia prestado vestibular para aquela universidade na mesma semana que prestei prova para a de Tokyo.

Eu nunca coloquei expectativa naquela universidade, pois além da prova ter sido muito difícil, Nagoya ficava na ilha de Honshu, muito longe de Tokyo. Eu teria que me mudar. E mudança não estava nos meus planos.

- Você não vai abrir? – Mamãe perguntou quando percebeu que eu simplesmente olhava o envelope em minhas mãos.

Suspirei, cansada, sem vontade alguma de abrir, pois já sabia qual seria o resultado. Se não havia conseguido uma boa pontuação na de Tokyo, eu iria conseguir na de Nagoya?

Provavelmente não.

- Não vale a pena, já que é meio óbvio o resultado – e joguei o envelope em cima da mesa, pronta para voltar os afazeres domésticos e arquitetar um plano de vida depois que terminasse o colegial.

- Como pode saber o resultado se ainda não abriu? – Mamãe questionou levemente chateada, o cenho franzido. Pegou o envelope e agarrou minha mão e o colocou nela. – Abra pelo menos para ver se passou.

Prendi a vontade de revirar os olhos e bufei contragosto, abrindo o envelope, fazendo a sua vontade. Puxei a folha e desdobrei lentamente para logo minha visão focar naquelas letras impressas e o selo da universidade. E foi questão de segundos que senti meu coração acelerar quando lia com mais atenção o conteúdo da carta. Eu havia sido aceita na universidade e com uma boa pontuação, oitenta e cinco por cento numa bolsa universitária.

Meu Deus!

- O que está dizendo? – Minha mãe quis saber, chegando mais perto para poder espionar.

Ergui meus olhos para ela, surpresa e atordoada ao mesmo tempo.

- Eu... eu fui aceita.

Mamãe ficou surpresa, o rosto começando a iluminar e seus olhos focaram na carta lendo rapidamente antes de voltar a me olhar, sorrindo agora.

- Oitenta e cinco por cento.

Assenti com a cabeça, sem reação.

Mamãe sorriu mais, claramente emocionada.

- Isso é maravilhoso, minha filha - e me abraçou. – Meus parabéns. Estou tão orgulhosa de você. Vai poder realizar o seu sonho de ser uma médica.

Não retribui o abraço, ainda estava anestesiada com a notícia. Minha mãe se separou de mim e franziu o cenho quando notou nenhuma reação por minha parte.

- Que cara é essa? Você não está feliz?

- Eu não sei – murmurei, desviando meus olhos para a folha, engolido a seco.

A ficha caindo aos poucos e me fazendo perceber o quanto o destino podia ser cruel. Tudo conspirava para que eu ficasse longe de Sasuke. Por quê? Por que eu não podia ter o que queria? Por que tudo tinha que sair diferente dos meus planos?

Por quê?

Não havia percebido que chorava até quando mamãe ficou em alerta, preocupada com a minha reação. Tudo parecia errado. Não era para ser assim...

- Sakura, por que está assim, minha filha?

Ela puxou a cadeira e me fez sentar, puxando a outra e sentando-se também, ficando de frente para mim. Suas mãos segurando as minha, esperando pacientemente quando eu terminasse de chorar tudo que eu tinha para chorar, jogando para fora toda a angustia, frustração e tristeza, uma realidade que eu não queria. Os problemas que eu jogava para debaixo do tapete estava batendo a minha porta. Eu não podia fugir deles para sempre, eu teria que enfrentá-los um dia. E esse dia havia chegado. O pior dia da minha vida. Odiava ter que admitir que Karin estava certa...

- Por que essa nota não foi com a outra universidade? Era o meu sonho.

- Meu amor – a mão tocou meu rosto, fazendo-me fitar seus olhos verdes iguais aos meus que trasbordavam aquela ternura. – As coisas nem sempre sai como a gente quer.

- Mas eu estudei tanto...

- Eu sei, e você é inteligente - e sorriu para mim, de um jeito doce. - Olha, você passou na universidade de Nagoya com uma boa pontuação. Eu posso arcar com essa despesa com as economias que tenho guardadas.

- Mãe, a senhora não entende? Nagoya fica longe de Tokyo. Vou ter que me mudar para longe da senhora, para longe do Sasuke... para longe de tudo...

Por mais que eu tentasse eu não conseguia controlar aquelas lágrimas que teimavam em cair, era doloroso, angustiante. Eu queria ficar feliz, mas não conseguia. Eu sentia medo de enfrentar algo desconhecido, algo fora da minha zona de conforto. Não tinha ideia do que me esperava num lugar diferente, eu não conhecia ninguém, eu estaria sozinha.

Sozinha novamente.

- Filha – mamãe chamou minha atenção, passava seus dedos em volta dos meus olhos, secando as minhas lágrimas. - Às vezes as coisas acontecem como um desafio, testando a nossa força para saber até aonde nós podemos ir. É um meio para nós crescermos e adquirir sabedoria. – E passou sua mão em meu rosto, afagando. - O mundo é grande, Sakura, tão grande e aberto para ser explorado. Você simplesmente só terá que bater suas asas e voar, ganhar ele, seguir o seu sonho para aonde ele estiver. E por mais difícil que seja se mudar para um lugar diferente, você tem de ser forte e lutar pelo o que você quer. Você chegou a um estágio em sua vida que tem que fazer escolhas, e um namorado não é a melhor opção se quer vencer numa profissão.

- Mas...

- Shiii! – Ela tocou meu lábio com seu dedo indicador. – Eu sei o quanto você gosta daquele menino, também gosto dele, é um ótimo rapaz. Mas você acha mesmo que os pais dele vão mesmo aceitar pagar uma fortuna em mensalidade para a namorada do filho deles? Pense bem, minha filha, antes de tomar uma decisão que vá se arrepender futuramente. Por que vocês estão bem agora, mas, e o amanhã? Você não pode previr o que virá amanhã. A pior coisa nessa vida, Sakura, é você receber ajuda e bem lá na frente você ter a ajuda oferecida jogado na cara. Não estou falando que o Sasuke vá falar algo, mas, e a família dele? O que eles devem achar disso tudo?

Funguei o nariz e abaixei meu olhar, prestando mais atenção das palavras de minha mãe do que a alguns dias atrás quando brigamos.

- Essa universidade fica mais longe sim, e você completamente vai ter que se mudar para algum alojamento, mas essa eu posso pagar. – Segurava minhas mãos, chamando minha atenção, seu rosto era sério, mas com um olhar confortável. - O senhor Sarutobi comentou sobre viagens a leilão que haverá em breve e terei que ir junto, e com isso meu salário vai aumentar um pouco. Vou poder mandar algum dinheiro para você se sustentar. E com o seu dinheiro guardado vai dar para você ficar por lá sem se preocupar por um tempo. Vai dar tudo certo, minha filha.

- Ah, mãe – e abracei, sentindo as lágrimas virem novamente, descendo por meu rosto. – Eu só não queria me separar do Sasuke.

- Eu sei querida. É difícil, mas é o certo a se fazer. Não vou apoiar para que mantenha um relacionamento a distância, pois isso seria um maior erro. Vocês vão estudar muito, tem que se concentrar, e um namoro assim pode atrapalhar o seu desempenho e o dele. – Ela se separou para me fitar os olhos. - Você precisa ficar cem por cento focada em seu sonho para sorrir futuramente com o seu diploma e me encher ainda mais de orgulho. – E segurou meu rosto com suas duas mãos e fitou meus olhos. – Você é a minha única filha, Sakura. É a minha razão de viver e vou sempre querer o melhor para você.

Era difícil aceitar a coisa certa a se fazer, não queria ter que passar por isso, mas eu não tinha escolhas. E essa conversa com mamãe havia me aberto os olhos por muitas coisas que estavam erradas, e com isso eu pude tomar a minha decisão.

Com isso a semana seguinte se passou – a última semana -, e diferente da anterior, passou voando e com ela os resultados das provas constatando que eu havia sido aprovada no ensino médio e o baile dos formandos batia a minha porta.

E agora eu me via de frente para o espelho fitando meu perfil naquele vestido longo de seda vermelho escuro, meus cabelos presos num penteado para trás com a franja longa jogada de lado. Mamãe havia me ajudado com a maquiagem, nada muito chamativo a não ser o batom vermelho que ela fez questão que eu usasse para que combinasse com o visual. E pela segunda vez, eu me sentia diferente, não era eu mesma que me via em frente ao espelho. Era uma outra Sakura que quase ninguém conhecia e muito menos eu. Uma Sakura que podia tudo, destemida, apesar do meu olhar vago, a tristeza me engolindo por inteira. Pois eu escolhi aquele dia que seria honesta com Sasuke, deixar tudo em pratos limpos. O último dia que entraremos juntos naquela escola.

- Você está linda, minha filha.

Mamãe me olhava pelo espelho, atrás de mim. Era nítido a emoção em seu rosto por que era a primeira vez que ela me via arrumada daquele jeito. O meu primeiro e único baile escolar.

- Não estou parecendo um palhaço de circo não, né? – Perguntei e uma pequena careta se fez presente em meu rosto, acho que nunca iria me acostumar com a maquiagem, me sentia estranha.

- Está uma princesa – e sorriu. Virei-me para ela, observando seu rosto. – Seu pai iria ficar emocionado por vê-la assim, uma linda mulher.

Podia sentir os cantos de minha boca ergue-se para cima e a saudade batia com a falta que sentia de papai. Como ele fazia falta naquele momento, podia imaginar ele decretando a hora de voltar para casa e mamãe o repreender por ficar pegando no meu pé. Ele iria implicar com Sasuke, mas todos saberiam que era só encenação, pois no fundo ele seria grato por Sasuke cuidar de mim. Eu iria revirar os olhos e dizer para o meu namorado para não ligar por que era só ciúmes de pai. Seria uma cena gostosa e que só ficaria em minha imaginação.

A campainha tocou e meu coração acelerou em várias batidas. Sabia que era Sasuke e um friozinho circulou meu estômago e meu peito ficou apertado ao mesmo tempo.

Eu e mamãe nós olhamos e eu sabia exatamente o que seu olhar queria dizer. Ela foi contra eu ter enrolado até agora de não ter contado toda a verdade para Sasuke. Só que eu queria ficar mais tempo com ele, não queria acabar tudo... eu queria adiar até os últimos segundos.

A dor que sentia antecipadamente era sufocante.

Suspirei fundo, controlando minhas emoções e o embaçar nos meus olhos. Não podia chorar, eu tinha que ser forte.

Saí do quarto e logo estava atravessando a sala até a porta e a abri de uma vez encontrando meu namorado parado do outo lado. Senti meu coração acelerar observando seu perfil, o smoking preto, a camisa branca por baixo do blazer com os dois primeiros botões abertos. Os cabelos estavam mais curtos atrás e pouco maiores na frente, um novo visual.

Lindo.

- Oi – minha voz saiu tímida, um pequeno sorriso no rosto.

O seu olhar de obsidiana me fitava surpreso a boca levemente aberta.

- Você está linda.

Eu podia sentir o meu rosto ficando quente e meu coração acelerar mais.

- Você também... está maravilhoso.

E os cantos de sua boca ergueu-se para cima, segurou a minha mão esquerda e amarrou um corsage de flores vermelhas no meu pulso, levando o dorso de minha mão até sua boca e beijou, sem tirar seus olhos nenhuma vez dos meus.

Sentia minha boca tremer, tocada com seu gesto e imaginando todo o meu plano que eu tinha para aquela noite. Balancei minha cabeça para os lados, espantando aqueles pensamentos antes que eu entrasse em parafusos.

Ele franziu a testa em alerta.

- O que foi?

- Nada – abri logo um sorriso amarelo. – Fiquei apenas emocionada. – Toquei a mecha que caía na lateral do seu rosto, para disfarçar. - Cortou o cabelo?

- Sim – sorriu de lado, daquele jeito que o deixava charmoso. - Percebi que estava ficando cabeludo que nem o meu irmão.

Soltei uma risadinha com a forma engraçada que disse e ele pareceu mais relaxado por me ver rindo. Essa última semana ele pareceu desconfiado de que algo estava acontecendo, mas fiz de tudo para disfarçar como fazia naquele momento.

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Era nítido em meu rosto o quanto estava deslumbrada com a decoração da quadra esportiva transformada num grande e amplo salão para o baile. Tudo estava tão bonito e organizado, a música tocava alta e animada e os formandos estavam agitados naquela pista de dança. Não pude evitar sentir aquele friozinho no estômago e segurei com força a mão de Sasuke num pedido silencioso, pedindo apoio. Sua mão apertou de volta me fazendo erguer meus olhos e fitá-lo, ele piscou para mim e adentramos o salão.

Sentia muitos olhares em mim, me deixando tensa e fazendo meu rosto ficar quente. Não era acostumada com os holofotes todos em mim, fazia um pânico surgir e me fazer querer correr para longe e me esconder um local aonde ninguém pudesse me encontrar. Era aterrorizante.

Fechei meus olhos por alguns segundos e inspirei fundo antes de suspirar, tentando controlar aquela maldita ansiedade. Eu tinha que me controlar, não podia viver para sempre refém dela.

Eu tinha que mudar.

- Tudo bem? – Sasuke me perguntou, a voz próxima ao meu ouvido devido ao som alto.

Sorri forçado e assenti com a cabeça, positivamente.

- Sim.

- Acho que vi o Naruto.

Sasuke me puxou no meio daquela massa de alunos excitados, eu apenas me deixei ser guiada por ele e não demorou para que eu visse os nossos amigos sentados numa daquelas mesas redonda de vários lugares em volta.

Ino foi a primeira a me ver e seu sorriso era tão grande que pensei que iria soltar de seu rosto. Ela estava linda naquele vestido lilás tomara que caia, os cabelos soltos em ondas. Hinata também estava linda naquele seu vestido azul marinho de alcinhas finas e os cabelos presos num coque bem feito. E os meninos estavam ótimos em seus smokings, e diferente de Sasuke, todos eles estavam com suas gravatas borboletas.

Ino ficou de pé e veio até mim e me abraçou.

- Amiga, você está linda.

- Você também, Ino – fui sincera, retribuindo o seu abraço.

- Cadê o Neji? – Sasuke perguntou, puxando a cadeira para eu sentar.

- Ainda não chegou – respondeu Naruto levando um salgadinho a boca.

Hinata segurou minha mão por cima da mesa, sorrindo, e retribui seu sorriso em cumprimento.

Posso dizer que meus amigos estavam animados e os planos para o futuro depois do colegial era o assunto principal. Tentava acompanhar a conversa, mas meus pensamentos vagavam em devaneios, desconectada a tudo e todos. Voltei ao mundo real com a mão de Sasuke tocando meu braço, me fazendo focar minha atenção para seu rosto preocupado.

- Quer dançar?

Pisquei algumas vezes, tentando processar as suas palavras.

- Dançar? Ahn... eu... eu não sei dançar.

E o canto de sua boca ergueu-se para cima num meio sorriso de lado.

- Eu também não – se levantou da cadeira e segurou minha mão, me ajudando a ficar de pé. – Vamos.

- O quê? – Meus olhos abriram mais. – Sasuke, isso não é uma boa ideia.

- O que é um baile sem uma dança? Confia em mim.

- Mas... – e fitei a mesa aonde estava sentada, percebendo que estava vazia.

Lá na pista todos os nossos amigos estavam dançando cada um com seus pares.

Sasuke não perdeu tempo e me puxou para lá também. Num piscar de olhos eu estava balançando de um lado para o outro com meus braços em volta de seu pescoço, sentindo suas mãos em volta da minha cintura dançando desajeitadamente uma música lenta, especialmente para casais. Era óbvio que meu rosto estava quente e fechei meus olhos, descansando minha cabeça em seu peito e deixei sentir a música levando o meu corpo num balançar lento.

Eu queria desesperadamente que aquele momento durasse para sempre, que o tempo parasse. Que dor eu sentia no meu coração, o desespero que começava a me tirar o fôlego e querer gritar para os quatro ventos que não queria que nada daquilo estivesse acontecendo.

Eu queria piedade.

Minhas mãos soltaram o pescoço de Sasuke e desceram por seu peito, contornando suas laterais até que eu estivesse o abraçando com força. Aquele gesto não passou despercebido por ele, o colocando logo em alerta.

- Sakura.

Afundei meu rosto em seu peito e meu corpo tremeu com as lágrimas que não conseguia mais segurar e o apertei mais contra mim, como se eu pudesse fazê-lo ficar para sempre comigo.

Sasuke parou de dançar e apoiou suas mãos em meus ombros, tentando me afastar, mas apenas o apertei mais forte e meu corpo tremeu mais.

Não queria deixá-lo ir.

Não iria suportar ficar sem ele.

Eu iria morrer.

- Sakura, o que foi? Por que está chorando?

Sua voz era claramente preocupada e me abraçou forte, me aninhado em seus braços, me protegendo contra o destino, meu pior inimigo.

- Ei, o que está acontecendo? – Ele tentou novamente, a voz mansa, próximo ao meu ouvido. – Conte para mim... por favor.

Inspirei e suspirei algumas vezes, tomando coragem para levantar meu rosto. Sabia que estava fazendo um papelão, mas não me importei. Pela primeira vez em toda a minha vida eu não me importava com o que as pessoas iriam pensar sobre mim. Não quando o meu mundo estava desmoronando bem a minha frente.

Fuguei a coriza e afrouxei o aperto ao seu redor, levantando meu rosto para fitar o seu preocupado. Sasuke ergueu sua mão e secou algumas lágrimas que escapavam no meu rosto vermelho, completamente horrível. Àquela música alta estava me deixando com dor de cabeça.

- Minha linda, por que está assim? Não é de hoje que eu percebo que está estranha.

Era claro que ele havia percebido. Sasuke sempre era atento as minhas mudanças de humor repentina. Ainda mais quando eu era péssima em disfarçar os meus sentimentos.

- Nós... t-temos que co-conversar.

Sasuke ficou alguns segundos me observando, atentamente, antes de assentir com a cabeça, o rosto sério agora.

- Vamos lá para fora.

Ele me puxou para fora do salão e logo mais estávamos saindo do colégio, caminhando no espaço aberto e gramado da frente, o mesmo local que a gente se falou pela primeira vez quando veio entregar a minha pulseira.

A noite estava bonita, a lua cheia iluminava o espaço pouco iluminado.

Sentamos em um daqueles bancos de madeira que ficavam espalhados, um de frente para outro. Meu coração batia tão forte naquele momento que eu pensei que iria sair por minha boca, e um nó sufocante se formava em minha garganta.

- O que você está me escondendo? – Seu cenho franziu de repente. - Alguém mexeu com você?

- Não! – Olhei para as minhas mãos, especialmente para o corsage preso no meu pulso. Coragem, Sakura. Seja forte. – Eu... eu... – engoli a seco - eu sei que você foi aceito na universidade de Oxford

Silêncio.

Não tive coragem de erguer meus olhos para poder ver a sua expressão surpresa com a minha declaração. A minha covardia não permitia.

- Como... como você ficou sabendo?

- Isso não importa. – Ergui meu olhar com a pouca coragem que tive, observando o que já imaginava. - Você deveria ter me dito.

- Não vou para Oxford – disse de uma vez. - Vou cursar medicina aqui em Tokyo com você, não disse?

Balancei minha cabeça para os lados e mordi o lábio.

- A questão não é essa, e sim por você não ter me contado. Assim como nunca me contou que era o seu sonho se graduar na Oxford.

- Não contei a você antes para não a deixar aflita – respondeu, parecia pouco nervoso. – E eu já havia tomado a minha decisão. Aquilo não era importante.

Franzi o cenho, indignada. Como ele podia jogar seus sonhos assim pela janela?

- Como não é importante, Sasuke? Você passou esse tempo todo se preparando para ser aceito naquela universidade, o seu sonho, para depois jogar ele fora?

- Eu não...

Não deixei ele continuar e soltei a bomba:

- Eu não vou para a universidade de Tokyo.

- O quê? – Seu tom era descrente. - Como não?

- É a minha decisão final.

Sasuke me olhava incrédulo, parecia não acreditar no que eu dizia. Mas em uns instantes sua expressão havia mudado para uma desconfiada, o cenho franzido.

- Karin – disse no ar. - Foi ela, não foi?

- Ela simplesmente estava preocupada com você – não neguei que foi ela quem havia me dito. Se estava sendo sincera, iria ser sincera até o fim.

- Ela não tem o direito de se intrometer na minha vida! – Ele gritou, ficando de pé, irritado de um jeito que eu nunca vi. – Quem ela pensa o que é?

- Eu não quero ser o pivô de uma briga entre você e seus pais. – Disse, me pondo de pé também, ganhando seu olhar furioso.

- Ahn? Do que está falando?

- Eu sei que você brigou com seus pais, e tenho certeza de que sou o pivô dessa briga.

Sasuke sorriu sarcasticamente, passando a mão no rosto, tentado se acalmar.

- Você não sabe de nada.

- Sei sim – disse firme, e sequei a última réstia de lágrima. Eu tinha que ser forte. – Qual é o pai ou mãe que não quer ver o melhor para o seu filho? Eles só querem o melhor para você.

- O melhor para mim e a minha própria escolha, não escolhas de terceiros – seu tom era entredentes, os olhos faiscando.

Engoli a seco.

- Eu fui aceita na universidade de Nagoya.

- Quê?

- Oitenta e cinco por cento de bolsa. Eu e minha mãe fizemos as contas e dar para a gente pagar com o dinheiro que temos guardado e com o meu que aguardei esse tempo que trabalhei na loja da dona Chyio.

- Você não pode fazer isso – sua voz era quase um sussurro arrastado, era visível o quanto estava arrasado. - Nós temos um plano...

- Um plano com noventa e nove por cento de chances de dar errado! Sasuke, não tem condições de você pagar a minha faculdade. É muito dinheiro...

Sasuke deu dois passos para perto de mim, as mãos em meus ombros, me fitando desesperado.

- Eu tenho dinheiro, Sakura. Posso pagar e não vai me fazer falta.

- A questão não é essa Sasuke. Se eu aceitar o seu dinheiro, eu estaria ferindo o orgulho da minha mãe. E essa é a última coisa que eu quero na minha vida. Entenda, eu sou a única filha dela, e mamãe trabalhou tanto para juntar dinheiro para quando esse momento chegar. Não quero que ela se sinta diminuída por ter dado duro e não conseguir o seu objetivo final. Eu não quero ser essa filha ingrata.

Eu podia ver os olhos de Sasuke ficando vermelhos, o desolamento me deixava com o coração apertado. Estava me sentindo o pior dos seres humanos. Eu estava o magoando profundamente.

Ele me soltou bruscamente e sentou-se no banco com os cotovelos apoiados nas pernas e sua cabeça para baixo apoiado nas mãos.

O silêncio se fez novamente presente entre a gente. Eu podia sentir aquelas malditas lágrimas escaparem enquanto o fitava, seu corpo subindo e descendo numa respiração rápida.

- Sasuke – disse, sentando-me ao seu lado - eu te amo. Te amo tanto, mais tanto que chega a me sufocar. Eu te amo mais do que a mim mesma. Entende agora? – Engoli novamente a seco. - Você entrou na minha vida como um furacão e mudou tudo ao meu redor. Eu nunca fui boa com mudanças, mas as que você trouxe para minha vida foram as melhores. Você me passa segurança, me faz querer ser alguém melhor, alguém diferente...

Ele ergueu seu rosto para mim, vermelho e manchado com algumas lágrimas. Estava chorando.

- Eu gosto de você do jeito que é. – E segurou meu rosto com suas duas mãos, me fazendo automaticamente segurar seus braços. - Não quero que mude por minha causa.

- Mas eu preciso. Você não ver? Estou vivendo a base da sua sombra, eu estou vivendo por você. Isso é tão ruim – chorei. – Não quero ser essa pessoa fraca que você ver agora e que as pessoas têm pena. Não quero me sentir pequena e insignificante diante das outras pessoas. Eu preciso me conhecer.

- Eu te ajudo, minha linda. Eu juro que sempre vou estar ao seu lado.

E me beijou em seguida, um beijo desesperado e cheio de incertezas e dúvidas. Apenas me deixei levar por seus lábios macios, sentindo a dor consumindo-me por dentro, apagando a chama de vida que existia dentro de mim, me deixando oca. Sasuke era a minha luz e eu sabia que no momento que estava abrindo a mão dessa minha luz, o mundo cinzento iria voltar, como era antes.

- Você não entende. – Me afastei, mordendo o lábio, sentindo o gosto de seu beijo. - Você não sabe o bem que me fez quando entrou na minha vida. Esse bem está se transformando em algo que eu não consigo mais controlar e isso está me sufocando.

- Sakura...

- Eu não quero que você se prenda a mim – continuei, a voz embargada pelo choro. - Você precisa seguir o seu sonho e eu vou seguir o meu aonde quer que seja.

Seu cenho franziu em compreensão, a dor em seus olhos estava matando algo dentro de mim.

- Você... está terminado comigo?

- É melhor assim.

- Sakura, você não pode tomar uma decisão de cabeça quente.

- Eu pensei muito Sasuke – balancei minha cabeça para os lados. - Esses últimos dias, tudo o que fiz foi pensar.

- Eu não vou para Oxford – seu tom era raivoso, afastando-se de mim e virando sua cabeça para a frente.

- Você tem que ir...

- Não vou – me interrompeu, voltando a me fitar. - Não tem sentindo eu ficar num lugar aonde você não está.

- Não têm sentido você largar os seus sonhos por causa de mim.

- Você vale apena...

E dessa vez quem o interrompeu fui eu, a voz sobressaindo a sua alterada:

- Não vale a pena se um dia você cair na real e perceber o que você jogou fora por causa de uma simples garota!

- Uma garota que é a minha namorada, caralho! – Ele gritou, ficando novamente de pé, estava tão irritado que se fosse numa outra época eu tinha saído correndo. - Sakura, você é a minha garota! A minha mulher! O meu plano para o futuro! Eu quero me casar com você, quero ter filhos com você, quero ficar velhinho com você. Por que é tão difícil de entender que eu só quero você, porra? Eu te amo!

Naquele momento eu queria pular em seus braços e pedir perdão por tudo que estava fazendo. Queria dizer o quando estava sendo uma vaca por fazê-lo sofrer daquele jeito, nos pondo naquela situação. Mas eu não podia fazer nada disso, por mais que meu coração sangrasse e berrasse para não deixar aquele garoto ir. Não era certo comigo e não era certo com ele se prender num relacionamento intenso que poderia ser desgastado com o tempo e cada um ir para um canto, deixando para trás uma trilha de arrependimentos.

Por mais difícil que possa ser, eu era a única ali que estava pensando com clareza e tinha que ser eu a pôr um ponto final, por que Sasuke daquele jeito determinado, ele era capaz de ir ao inferno por mim naquele momento. E por isso eu disse a coisa mais terrível que eu poderia ter dito a ele, sangrando por dentro, morrendo de dor:

- Eu não te quero mais.

E eu vi quando ele estava desmoronando, algumas lágrimas escapando por seu rosto.

- Sakura...

- Se você não quer seguir o seu caminho, eu vou seguir o meu. E não quero ninguém atrás de mim.

- Você... – ele se interrompeu, tomando fôlego. – Você... não pode... fazer isso com... a gente.

Funguei a coriza, sequei meus olhos e ergui a minha cabeça, vestindo uma máscara de frieza antes de declarar o meu cheque-mate:

- Não existe mais a gente, Sasuke. – Engoli a seco. – Acabou.

Não esperei que ele continuasse seus lamentos e argumentos, eu dei as costas para ele e segurei a bainha do meu vestido longo e corri em direção a saída.

Corri sentindo minhas lágrimas e deixando o meu coração para trás.