Reino Unido, 1980
— Alicia, você terminou de arrumar as coisas? — uma senhora que deveria ter uns 40 anos se dirigia a uma garota que saía de um quarto de uma grande residência.
— Sim, senhora. Os quartos estão prontos.
— Deixe-me ver — a mulher entrou no quarto fazendo uma inspeção minuciosa em cada canto do quarto — Hmmm, a cama está boa, mas tem um pouco de poeira em alguns móveis, principalmente nos cantos…
— Ah… eu vou limpar melhor.
— Vou olhar o outro quarto. Mas acho que você vai ter que dar uma segunda mão ali também.
— Sim, senhora Blake.
— Não é porque te deixaram morar aqui que você pode fazer qualquer coisa.
— Eu sei.
— As pessoas que vão ficar hospedadas aqui por alguns dias são muito importantes. Tudo tem que estar impecável.
— Eu sei. São os donos da casa. Mesmo os Stewart só moram aqui graças a eles.
— Isso. Por isso ninguém pode fazer feio. E, você, principalmente, devia agradecer, porque você poder morar aqui depois da morte dos seus pais não foi fácil. Por mais que os Gardner trabalhem aqui há décadas, você teve muita sorte de aceitarem acolher uma pessoa de fora.
— Sim, senhora.
— E talvez seja bom evitar contato com as visitas.
— Por quê?
— Seu japonês não é bom, e eles não sabem da história. Melhor evitar problemas.
— Sim, senhora.
— Ainda mais que seu amiguinho não estará aqui nesses dias.
— Eu sei.
Estava já escuro e, seguindo as recomendações da senhora Blake, ela evitou entrar na casa principal depois da chegada das "visitas".
— Hm, a essa hora eles devem estar jantando. Acho que ninguém deve sair da casa hoje, então não deve ter problema ficar um pouco no jardim.
Alicia foi para a área externa, e viu um vulto mais a frente.
— Ué, tem alguém aqui? Será que é um dos meninos do beco?
Alicia olhou mais um pouco e teve certeza que era uma pessoa andando no escuro.
— Eu tenho que avisar, se alguém ver que entraram aqui, vai ser problema com os japoneses aqui.
Ela correu um pouco em direção ao vulto.
— Ei! Você aí!
A outra pessoa parou, olhando para trás, e saiu em fuga, mas Alicia conseguiu ser mais rápida. Alcançou a pessoa, pegando-a pelo braço. Foi ali que ela percebeu que era uma garota, mais ou menos da idade dela.
— Você tem que sair daqui rápido!
— Hã? Quem é você? — a outra menina parecia surpresa.
— Eu trabalho aqui… você não parece com o pessoal do beco.
— Quem é o pessoal do beco?
— Você tem um sotaque diferente… por acaso é dos Estados Unidos? Como veio parar aqui?
A outra menina abriu um sorriso largo, e Alicia se deu conta de como ela era bonita.
— Sim, eu sou dos Estados Unidos. Eu… estou viajando por aqui.
— E nos Estados Unidos as pessoas ficam invadindo a casa dos outros?
— Ah! … É que… eu passei por aqui mais cedo e… achei bonito… e pensei que ninguém ia ver e…
Alicia parecia não estar tão convencida com a menina que atropelava a própria fala tentando se explicar.
— Tá, mas você tem que ir embora. Rápido.
— Por quê?
— Porque tem visitas importantes aqui. Então toda a segurança vai ficar mais pesada. Não sei nem como você entrou, mas se te pegarem, já era.
— Ah… tá… mas, me diz, quem são as pessoas do beco que você falou?
— Não muito longe daqui começam alguns bairros mais pobres da cidade. Como aqui tem uma horta e árvores que dão fruta aqui, de vez em quando uns meninos conseguem pular os muros pra pegar um pouco.
— E ninguém vê?
— Claro que veem! Principalmente os jardineiros, mas todo mundo finge que não vê. Não vamos negar comida pra eles.
A menina do "sotaque diferente" sorriu de novo.
— Você já viu também?
— Já! Principalmente quando ajudo os pais do meu amigo a cuidarem do jardim. Enfim, mas como tem gente importante aqui agora, vai ser mais complicado.
— Entendi.
— Mas o jardim é realmente bonito, acho que te entendo. Se você ainda estiver aqui em uma semana, posso te mostrar. A gente dá um jeito.
— Tá bom. Qual é o seu nome?
— Alicia. E o seu?
— Errr…
— SENHORITA SAORI!
De repente, Alicia viu a senhora Blake e um homem grande e careca se aproximando.
— Senhorita Saori, o que veio fazer aqui à noite?
— Aii, Tatsumi, eu só queria tomar um ar! Olha como o céu tá bonito!
— Seu avô já pediu para você avisar e não sumir assim.
— Eu sei…
Alicia estava se esforçando para entender o que eles conversavam, já que falavam agora em japonês.
— Alicia, por acaso foi você que trouxe ela aqui sem avisar ninguém?
— Errr… eu…
— Ah, não, senhora Blake! É que… eu me perdi… por sorte ela me encontrou e já ia me levar de volta pra casa. Não é, Alicia? — a tal senhorita Saori parecia conseguir trocar fácil entre os idiomas.
— Hã? … É…
— Está vendo, senhorita? Por isso não deve ficar saindo à noite assim, mesmo que seja para o jardim! — já o homem careca, apesar preferir de falar em japonês, parecia ter pelo menos fluência o suficiente para entender o inglês.
— Tá bom, Tatsumi…
— Venha, senhorita, vamos voltar.
— Sim…
Os três se afastaram um pouco dali, deixando Alicia sozinha, até que Saori parou e se virou.
— Ei, Alicia, você não vem também?
— Hã? Eu?
— É! Não quer jantar com a gente?
— Senhorita Saori, não é de bom-tom chamar filhos de empregados para jantar com vocês.
— Ué, mas lá no Japão o Takeshi, o Hideki e a Hikari comem às vezes! E também vão na minha festa de aniversário. O que tem? Se o vovô deixar, não tem problema.
Alicia seguia na mesma posição, tentando entender toda a cena que estava presenciando.
— Tem certeza que não tem problema… senhorita Kido? — Alicia podia jurar que o rosto de Saori mudou por um instante quando ela disse as duas últimas palavras, mas logo a menina sorriu de novo.
— Não tem não! Tenho certeza que o vovô vai deixar.
— Saori, eu já disse que você não pode sumir assim nesse tipo de ocasião.
— Eu sei, vovô. Desculpe.
— Tudo bem. Mas não faça mais.
— Não vou. Vovô… será que ela pode jantar com a gente? — Saori então aponto para Alicia.
— Quem é ela?
— Ah, senhor Kido, essa é a Alicia — um homem de cabelos grisalhos começou a falar em inglês — Ela é filha de amigos próximos dos jardineiros. Os pais dela faleceram recentemente, e eles pediram para cuidar dela, e nós acabamos deixando porque não havia mais parentes próximos. Ela tem ajudado em tarefas domésticas.
— Hm, entendi. Garota, você sabe falar japonês? — ele perguntou em inglês.
— Não muito, senhor Kido.
— Mas não tem problema, vovô… a gente fala em inglês! — Saori respondeu prontamente — A Alicia me ajudou lá fora, e eu queria agradecer!
— Hmm… bem, se a Saori quer tanto assim, por mim tudo bem.
— Eba! Obrigada, vovô!
— Alicia.
Depois do jantar, a garota estava rumando ao espaço dos funcionários quando foi abordada por Mitsumasa.
— Sim, senhor Kido?
— Você dormiria com a Saori essa noite?
— Eu? Tem certeza?
— Sim. É raro ela parecer gostar tanto de alguém.
— Ah… bem… se não tiver problema por ela, por mim tudo bem.
— Certo. Não tenho dúvidas que ela vai gostar. Pode ir pegar suas coisas.
— Sim, senhor — Alicia fez uma leve reverência e foi pegar suas coisas — Espero que eu não faça nada de errado hoje, senão a senhora Blake e os Stewart vão me matar.
Se gostou dá um joinha, deixe seus comentários, se inscreva no canal e ative o sininho.
