Tóquio, Japão, 1980

— Parece que chegaram mais dois. Olha lá, Hideki, mas vê se disfarça direito. Da outra vez você inventou de ir mais perto e deu tudo errado!

— Tá, tá…

Hideki e Hikari estavam entre as árvores do jardim da mansão, direcionados para a fachada da entrada, mas escondidos e distantes da movimentação. Ele olhou o que parecia ser Tatsumi abrindo a porta para o senhor Kido, um outro homem e dois meninos, que ele não conseguia ver direito pela distância.

— Primeiro, aquela menina estrangeira vindo do nada. Agora esse monte de criança chegando nessa casa. O que esse velho está aprontando?

— Xiiiu! Fala baixo! Vai que tem alguém passando por aqui… Mas, não foi você que ficou feliz de não precisar mais ficar indo lá com a menina Saori?

— Sim… não é isso, a Mii é legal. Quer dizer, do que dá pra saber dela, porque precisa ficar 24 horas com aquela menina. Mas é esquisito, não é?

— Bom… é…

— E agora esse monte de criança. Tem uma conversa rondando aí que depois vai começar a vir um instrutor pra esses meninos.

— Oxe, ele quer fazer o time olímpico do Japão aqui?!

— Eu sei lá. Eu acho é que ele quer que a neta dele faça com essas meninas o que os amigos deles tentam fazer com as nossas mães quando tem festa aqui. Esse velho é um maldito!

— Cala a boca, Hideki. Ela mal pode ficar com eles. E parece que está com raiva de todos.

— Por isso! Vai trazer quinhentos até ela gostar de um.

— É mais fácil ele prometer ela de noiva pra algum amigo, igual à Fujiwara.

— Você já viu esse velho fazer algo que ela não quer? Ela odeia todos esses também. Vai ver acabaram os pretendentes ricos, agora sobrou esses aí.

— Você sabe que não é bem assim.

— Você está falando demais com aquela loirinha britânica, eu já te disse que a visão dela sobre a Saori é idealizada! Elas ficam o dia todo juntas e ela fica com minhoca na cabeça!

— E a sua é deturpada, fica cinco minutos com ela e já inventa coisa que não existe!

Hideki olhou a movimentação na entrada, percebendo que o Kido, os meninos e o Tatsumi haviam entrado, e o motorista devia ter ido guardar o carro.

— Acho que o Keisuke já foi e tá limpo ali. Será que dá pra gente ir e tentar ver quem são esses aí?

— Eu não vou com você de novo! Da outra vez precisei da Yoshiko e da minha mãe pra despistar o Tatsumi e limpar a sua bagunça. Se quiser ir, vá sozinho, e não me meta nessa história!

— Tá bom, tá bom… Eu vou sozinho então. Eles devem ter ido pro escritório… e a essa hora as outras duas estão em outro canto tendo aula de nem quero saber o que.


Hideki encostou na porta do escritório do Kido e viu que estavam falando algo lá dentro, mas não conseguia identificar o que. Como sabia que corria o risco de alguém abrir a porta, resolveu se esconder em um dos quartos próximos e esperar até ouvir outra movimentação, e aí tentar contato com os meninos.

Os garotos ficavam em um espaço um pouco mais isolado, e foram colocados seguranças ali. Da mansão, poucos funcionários podiam ir lá, e nem eles e nem a própria Saori estavam autorizados a ficar ali. Mas a fofoca que corria é que isso ia mudar, assim que o Kido trouxesse todas as crianças que queria, e iniciasse uma tal "fase 2". Ele tinha dado um jeito de falar com um ou outro garoto, mas só de modo pontual.

Sua esperança é que houvesse alguma brecha para falar com esses dois, porque provavelmente o Kido iria descer com o outro homem para se despedir dele, e Tatsumi acompanharia os dois, então os garotos ficariam sozinhos na mansão por um momento.


Dito e feito. Assim que os três saíram, Hideki entrou no escritório.

— Quem é você? — um dos garotos perguntou de forma incisiva, parecendo estar pronto para se defender de algo.

— Xiiiiu. Minha mãe trabalha aqui. Eu não tenho muito tempo. Não falem pra ninguém de mim. O que vocês vieram fazer aqui?

— Nós somos parte de um programa da Fundação Graad, eu e meu irmão Shun — o garoto, mais marrento, apontou para um garoto delicado, que Hideki tinha imaginado que era a primeira menina do grupo.

— Que programa?

— É um programa de estudos para garotos órfãos. Tivemos que fazer uns testes aí, e passamos.

— Vocês vão estudar aqui?

— Eles disseram que vamos ficar aqui temporariamente para uma preparação.

— E depois?

— Não sei bem. Vamos estudar em algum outro lugar.

— Os outros meninos aqui não parecem estar em preparação.

— E parecem estar no quê?

— Numa prisão de segurança máxima.

— Você tá tirando com a minha cara, é?!

— Ikki, calma! — o outro garoto falou pela primeira vez.

— Eles reforçaram as cercas, colocaram seguranças, os meninos ficam longe da visão de todo mundo… escuta, essa gente aqui é esquisita! Esse homem é doido!

— Moleque, escuta aqui! Meu irmão e eu não temos nada, e essa é nossa única chance na vida! Não vai ser você e nem ninguém que vai impedir isso, entendeu?!

— Ikki, para com isso! — o menino, claramente mais novo, tentava controlar o irmão.

— Escuta aqui você! Eu estou só tentando avisar! Depois quando o Tokumaru estiver te dando um soco na cara por qualquer besteira sem valor que você tenha feito, não diga que eu não falei! E ele vai bater em você e no seu irmão!

— Ninguém vai bater no meu irmão, entendeu?!

Ikki perdeu a paciência e foi pra cima de Hideki, que revidou e se soltou.

— Você tá maluco?! Olha… eu tenho que dar o fora antes que me peguem, senão eu quebrava a tua cara, garoto! Guarda bem o que eu te falei, porque você vai precisar!

— VOLTA AQUI!

Hideki foi embora correndo, torcendo pra que a situação que se seguisse não envolvesse falarem seu nome para Tatsumi, que provavelmente voltaria sozinho para levar os garotos para a "ala dos estudantes".


— Moleque, o que você disse pra eles?

— Eu já disse que não falei nada de mais! Eu só fiquei curioso…

Tatsumi deu uma bofetada nele.

— Eu não disse que não é para vocês ficarem tentando falar com esses garotos? São as ordens da casa.

Hideki se calou, mas ficou o encarando.

— Não faça essa cara! — ele deu outro tapa na cara do menino — Você tem é sorte que mesmo se eu falar disso para o senhor Kido, ele não vai fazer nada porque vive passando pano pra vocês por causa da senhorita Saori.

— Até parece, nem ele e nem ela gostam da gente.

— Quem me dera fosse assim! Por mim todas as empregadas com filhos poderia ir pro olho da rua, vocês só causam problemas! Se não aconteceu, é porque não me deixam!

— Ei! Não fala da minha mãe, seu cretino!

Tatsumi se preparou para dar outro tapa, mas se conteve.

— Se eu bater de novo, vai ficar muito marcado. Você nunca mais faça isso, se não via ver só o que acontece — o mordomo foi embora.

— Pfffff, ele fala que não pode fazer nada e depois diz que vai ter uma grande consequência! Doido! Igual os chefes! … Ai, mas o tapa dele dói!


— Você foi pego, não foi?

— Fui.

— Eu avisei, Hideki. Não pode ficar se expondo.

— Mas eu descobri que eles vêm aqui por um programa da Fundação.

— Que programa?

— Sei lá. Alguma coisa que inventaram e cheira mal. Vão virar é garotos de programa, vai ver é isso.

— Hideki, para de falar besteira!

— Mas, enfim, o que eu quero dizer é que-

— Hideki.

Hideki e Hikari se viraram em direção à voz, e se surpreenderam.

— Senhorita Saori? — ela estava, claro, acompanhada por Mii.

— O que você fez pro Tatsumi ficar bravo?

— Eu? Nada, é que…

— Você falou com algum dos meninos, não foi?

Saori questionava ele de forma quase tão incisiva quanto Ikki antes, e alguma coisa impelir o garoto de mentir para ela.

— … Foi.

Ela olhou para os lados, como se estivesse se certificando de que não havia mais ninguém ali, e se aproximou dele.

— E o que você sabe?

— Não muita coisa.

— Mas alguma coisa?

— Só que eles estão vindo por meio de algum programa da Fundação.

— Hum. E o que mais?

— Bom, estão falando que depois que chegar um número, vai começar uma tal fase dois.

— Quem está falando?

— São boatos que dizem na mansão.

— As empregadas?

Ele se retraiu quando se deu conta do que está falando e para quem.

— Ei, eu não quero expor ninguém…

— Não vai acontecer nada, eu não vou falar pra ninguém.

— Mesmo?

— Eu juro.

Ele ainda não parecia muito convencido, mas já tinha aberto a boca.

— Sim, elas estão dizendo. Não sei de onde tiraram.

— Elas devem ter contato com os seguranças, sem contar as empregadas que podem entrar ali.

— É… mas não são elas que estão falando.

— Claro que não são.

— Mas, ei, por favor, não fala nada.

— Eu não vou falar! Eu não entendo… parece que ninguém pode me falar nada…

— Sim, não podem. Isso veio de cima.

Saori suspirou.

— Eu imaginei… Obrigada… — a garota parecia decepcionada — O Tatsumi está bravo com você agora, mas não acho que vai fazer nada. E eu posso ajudar, caso dê algum problema. Não só hoje.

— Obrigado.

Saori se virou para Mii:

— Mii, a aula de piano é daqui uns 30 minutos, mas você não precisa ficar lá se não quiser.

— Eu vou, senhorita! Eu gosto de vê-la tocar.

As duas saíram juntas. Depois que sumiram, Hikari se virou para Hideki:

— Tá vendo? Ela não é tão ruim.

— Às vezes.